A. M. Pires Cabral – A Um Galo

7 02 2010

Um poema de A. M. Pires Cabral, recentemente galardoado com o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava (2009). Pode encontar-se uma excelente entrevista de Carlos Vaz Marques ao escritor, publicada nas páginas da revista LER.

A UM GALO


Aquele que injuriava a madrugada

com ácida, assídua voz.

O que tinha esporões por baioneta,

o do ciúme em brasa.


O galo. Um osso dele

ainda no quintal.

CABRAL, A. M. Pires, “O Livro dos Lugares e Outros Poemas”, Lisboa: Assírio & Alvim, Lisboa, 2006

Mosaico da série "Árvore do Paraíso" © Brooklyn Museum

Cenas da “Árvore do Paraíso”. Colecção de mosaicos judeus romanos, datados do século III, recuperados da antiga sinagoga de Naro, Tunísia.

(clique para ampliar)





Os Poetas da Meia Noite

5 02 2010

De repente, com o início do ano, as iniciativas em torno da poesia e dos novos autores parecem multiplicar-se em Lisboa. Depois da Poesia em Vinyl ter surgido a 14 de Janeiro, ao que parece para continuar e bem, a criteriosa e imaginativa qualidade de programador de Filipe Crowford vai levar ao Teatro Casa da Comédia,  no  dia 20 de Março (entrando pela noite fora, trespassando assim o Dia Mundial da Poesia essa desnecessidade), o evento intitulado «Os Poetas da Meia Noite». Dos seis poetas convidados, cinco são muito da estima deste blogue, faltando inexplicavelmente saber por que raio nunca aqui se enroscou o Vasco Gato (salvo seja). Assunto a tratar em breve. Olhando para o programa, a coisa parece prometer muito. Ide, portanto.

O programa das festas:

TEATRO CASA DA COMÉDIA  Poetas da Meia-noite
Comemorações do Dia Mundial da Poesia (21 de Março).
” Há poetas que choram…
Há poetas que riem…Há poetas que cantam…
… mas, acima de tudo, há poetas que respiram a alma pela flor da pele, como suor, sangue ou lágrimas.
Descubra os Poetas da Meia-noite, dia 20 de Março, pelas 22h, no Teatro Casa da Comédia.
Venha desarmado… “

Participação de: Ana Salomé, Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Hugo Milhanas Machado, Miguel Manso e Vasco Gato.Participação especial de: Manuel Cintra e Filipe Crawford.

Músicos: Lder, Nanu Figueiredo (mola dudle), Gutanaki, Gonçalo Miragaia e mais um convidado surpresa.

"venha desarmado"

TEATRO CASA DA COMÉDIA
Rua São Francisco de Borja, 22 – 1200-843 Lisboa
Tel.: 21 395 94 17/8 Fax: 21 395 94 19 Produção: 969826535
info@filipecrawford.com
teatro.casadacomedia@gmail.com
www.filipecrawford.com





12.766

4 02 2010

Este blogue recebe uma média de 200 visitas diárias. No seu dia mais intenso, uma avassaladora jornada, 411 visitas. Números que muito me alegram, dada a intensa popularidade de temas como a poesia, a literatura e as subtis bizarrias do mundo. Ou alegrariam, se importância lhes desse. Ontem, o Google decidiu homenagear o grande ilustrador norte-americano Norman Rockwell, talvez o melhor retratista da América desde a década de trinta até à década de sessenta do século passado. Acontece que uma imagem de uma ilustração do artista publicada neste blogue surgia em primeiro lugar no motor de busca, vá lá saber-se porquê (surgia: hoje já não surge).

Após 12.766 visitas num só dia, e mensagens de todos os cantos do mundo, muitos deles bastante exóticos (obrigado Taiwan, Barbados, Lituânia, Singapura, muito obrigado Togo, muito obrigado cibernauta australiano que queres aprender português), percebi melhor que a questão de “quantos” nos visitam só interessará para fins comerciais. De resto, é muito mais engraçado tentar saber “quem” nos visita. É por isso que agradeço, aliviado, o regresso à normalidade.

"Eu multiplico"

“Triple Self-Portrait” Oil on canvas “Saturday Evening Post”, capa de 13 de Fevereiro de 1960 © Norman Rockwell (d.r.)

[Clique para ampliar]





Daniel Maia-Pinto Rodrigues – A Casa da Meia Distância

2 02 2010

Bons acontecimentos colorem os dias. A Mariposa Azual volta a publicar poesia, neste caso de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, já com um longo percurso de escrita, animação e divulgação. Confiando inteiramente no critério de Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, aqui se deixa o texto de apresentação, a belíssima capa (autoria de Luís Batista) e um poema, em pré-publicação, escolhido pela própria editora. É longo, singularmente longo no meio dos poemas que compõem o livro, este poema n.º 54. Ler, por vezes, pede-nos tempo. Depois devolve.

A Casa da Meia Distância será lançado no Porto, dia 10 de Fevereiro, às 21h30m (Bar Labirintho)

Declaração de interesses: publica-se este poema, antecedendo o lançamento do livro, não por amizade para com a editora. Mas por ter gostado dele, poema.

*

“Como se chama o lugar onde ficaram os nossos sonhos, Quando tivemos que sair?
O novo livro de Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues -A CASA DA MEIA DISTÂNCIA, depois da consagração dos dispersos na Antologia DIÓSPIRO (Quasi Edições, 2007), é um regresso, um retorno ao poder das pequenas coisas.
Quietas. Simples. Suspensas. Que ficaram nesse limbo – A meia distância.
A distância que por certas vezes sentimos que se coloca entre nós e a nossa vida; entre as palavras e as coisas; entre o céu e a terra; entre o antes e o depois.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto, em 1960, cidade onde vive desde sempre. Autor de uma considerável obra que inclui poesia, romance e novela, é uma figura da cena literária do Porto, por ter sido um dos animadores, dizedores, divulgadores de poesia no Pinguim Bar, nos idos anos de 80 e 90.
Entramos na casa.
Regulamos a nossa própria altura pela altura desta casa. A porta é baixa. Obriga a dobrar um pouco o pescoço e a flectir os joelhos para podermos entrar nas suas salas de paredes claras e um pé-direito confortável para humanos.
Registamos o aviso / epígrafe da velha fábula de la Fontaine. A infância-raposa, continua à procura de uvas maduras nos livros.
Mais uns passos e passamos pela Definitiva História de Julian, o Pastor.
Entramos, pé ante pé; a porta ficou entreaberta desde os anos 80, quando um grupo de mulheres e um homem aqui passaram umas férias de Verão.
Percorremos, devagar, os seus 64 cantos / 64 poemas / 64 pausas. Espaços da casa / espaços do livro / takes do tempo.
Uma voz suave e doce guia as nossas descobertas. Revelações, inconfidências, provocações, relatos. Brincadeiras. Levezas.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o biógrafo deste tempo e deste lugar. Regista o seu pulsar. Guarda os factos, a imaginação, o desejo, a luz desses dias, a frescura dessas noites.
O livro / casa desfilou diante de nós. É hora de partir. Chegou a melancolia, essa outra doença do tempo. Anuncia-se o momento em que é preciso SAIR DA CASA UTÓPICA PARA IR MORRER À REALIDADE.
Mas antes da despedida, ainda vamos a tempo de aceitar o convite e voltar ao VERÃO 77 – POP DAYS em ESPOSENDE.”

- Helena Vieira

Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o autor das seguintes obras publicadas:
Vento, Edição de autor, Porto, 1983
Conhecedor de Ventos, Ed. Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1987
A Próxima Cor
, Ed. Pinguim Poesia Bar, Porto, 1983, ( Prémio Nacional Foz Côa/86 -Menção Honrosa Novos Valores da Cultura, 1988)
O Valete do Sétimo Naipe, Ed. Felício Cabral Publicações, 1994, com prefácio de Mário Cláudio
O Céu a Seu Dono, Co-autoria com João Gesta, Ed. Edicións Positivas, Santiago de Compostela, 1997
A Sorte Favorece os Rapazes, Ed. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001
O Afastamento Está Ali Sentado, Ed. Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2002
O Diabo Tranquilo – Co-autoria com Isabel Rio Novo; pósfacio de Pedro Eiras, Ed. Campo das letras, Porto, 2004
Malva 62, Pósfacio de Manuel António Pina, Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2005
O Corredor Interior (romance), Ed. Clube Literário do Porto, Porto, 2006
Dióspiro –Poesia Reunida 1977-2007 (antologia com selecção e organização de Luis Miguel Queirós e José Carlos Tinoco), Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2007
Os seus poemas integram várias e importantes Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea, incluindo a monumental “Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, que lhe dedica mais de 20 páginas, apresentado-o como um poeta central dos anos 60 do sec. XX.

Capa de Luís Barata © Mariposa Azual (clique para ampliar)

54

Acho que estou a precisar de ir descansar. Vou para o meu quarto,
que sei perfeitamente onde fica.

Lembro-me de outrora ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de pequenas gavetas,
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um solitário feixe de luz incide no armário,
parece vir enfeitado de lampadazinhas coloridas,
conhecidas também por colours of the rainbow.
Naquela gaveta poderá estar um perfil de telhados – silhueta trespassada
pelo grande sol frio do fim da tarde.

Lembro-me de outrora ter falado de bosques…
Naquela gaveta poderá estar o espelho longevo
com seu insubstituível reflexo de divisões infantis.

Quatro ou cinco gavetas terão uma praia
que se estende com a luz matinal
a varar as distâncias.

Outras terão as abas dos guarda-sóis
com o som que fazem quando lhes dá o vento.

Tenho um armário com as imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.

A perenidade ao sol
de Françoise a beber o mazagrin
também deve estar em alguma gaveta.

Não faço ideia da gaveta em que estará a tarde
que decorre com esplanadas ao fundo
e onde tudo quanto se move
é descontracção e alegria.

Fátima oferece-me água da Serra da Penha
numa gaveta que exista e que seja secreta.

Em que gaveta estará o menino a lamentar-se aos pais
por o caranguejo que apanhara
já não estar no balde que trazia?

Françoise bebe agora um cocktail, talvez de ginger ale.
Mas não sei em que gaveta. Se bem me recordo, contemplava um soleil couchant,
kitsch, ele também, por sua vez, mas lindo até ao fim do mundo.

…………………………………………………..
distantes margens delineando a noite,
pontilhadas por pequenas iluminações esparsas
que parecem só existir assim, vistas de longe.

Dentro desta gaveta estou eu com dezassete anos, no pinhal ao sol,
com duas latinhas de lulas e a minha ideia de poesia.

Aquela gaveta, que parece mais privada,
seria a que as mulheres daquele tempo escolheriam
para retocar nos lábios o bâton cereja.
E nesta, mais notória,
estarão os cães a ladrar e a caravana a passar.

Tenho ideia de que será nesta gaveta – bem, ou talvez nesta –
que se poderá encontrar Françoise
a soltar o seu cabelo castanho de francesa.
Mas, por exemplo, não faço a mínima ideia
onde possa estar a brisa suave que ameniza a temperatura de Agosto,
nem a gaveta que guarda o relógio que nunca pára
e que agora, muito naturalmente, assinalará as banalíssimas onze da manhã.

É provável que no armário já não exista nenhuma gaveta
com o entusiasmo do mar sobre os penedos. É provável que já não haja
nenhuma gaveta vaga para a senhora de apelido Araújo
e para as palavras límpidas que de olhos nos olhos dissemos,
enquanto – na voragem exterior a nós – lhe dedicava um livro
e lhe entregava nesse olhar os meus últimos feixes
de vitalidade, os meus mais raiados votos de que fosse feliz.
Não mais a verei, amável senhora,
inteligente e bonita senhora sensível. Não mais a verei,
e vim para esta casa com essa amargura.
Porque penso que a poderão interessar, procure as palavras
de Isabel Rio Novo sobre a Dimensão Fantástica.
Presumo que as encontrará com facilidade nos recentes dispositivos tecnológicos.
E procure também a própria Isabel Rio Novo; encontrá-la-á
ao seguir pela escada que dá para o lado do mar.

Senhora de apelido Araújo, esta foi a forma que tive de comunicar
consigo. De lhe dizer que acredito em si. De lhe dizer
que acredito na Nova Mulher, com a Qual (movimentos democráticos
de cariz feminista) me estanciei no lindíssimo período da minha mocidade. Essa [Mulher
é ainda hoje a minha Mulher favorita. E agora, desta vez, sugiro-lhe
que procure Ana Luísa Amaral, encontrá-la-á com facilidade onde estiver a [acontecer
a boa educação.
Mostre a sua existência, caríssima senhora Araújo, mostre o seu valor,
mostre que não é uma metáfora deste texto. E exista tal qual é,
ouça, tal qual é, não pusilânime, não petulante feita à pressa, não solerte
miserabilista, não carneirinha da manada, e sabendo
– como bem o sabe – que o azedume não é sinónimo de raciocínio,
antes sim, como facilmente se compreende
(só os próprios azedos não o compreendem por nada saberem raciocinar),
sinónimo das próprias frustrações.
esta foi, bela senhora de apelido Araújo, a forma que tive de comunicar
consigo, a forma que encontrei para lhe poder dedicar as duas próximas estrofes.

Crianças de aldeias, crianças a quem na infância acenei
do vidro traseiro do automóvel rápido
e que ficaram pelos caminhos a brincar ao verão,
sem que para isso precisassem de conhecer praias.
O que foi feito de vós?
O que fizestes aos vossos sorrisos puros?
Como eu gostava que a minha vida vos tivesse oferecido uma gaveta!
Choro agora de tantas saudades por tão breves instantes.

Raparigas contentes em suas roupas claras,
em suas roupas claras sobre os seios que cresciam,
amei-vos sem nunca mais vos ver,
amei-vos por nunca mais vos ter visto,
amei-vos intensamente, como a qualquer coisa que se desprende
e se perde da nossa lembrança de saber o quê.
Em mim ficastes a pertencer às distâncias cheias de luz,
diluídas agora, e ainda mais, pelas minhas lágrimas.
Neste momento, tardio, em que é de mim que me despeço,
entregar-vos-ia, no melhor gesto da vida, o meu armário todo.

A baleia encalhada deve estar nesta gaveta maior,
e nestas ao lado estarão as pessoas transportando água do oceano
para lhe verter no dorso.
Se de facto é nesta gaveta maior que está a baleia,
é por aqui que está o marinheiro da luz pálida e molhada,
a comunicar que mais nada se podia fazer;
a baleia tinha morrido.

Lembro-me de um dia ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de gavetas
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um armário com imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.







Parlamentarismo

31 01 2010

Membros do Kuomitang, partido no poder em Taiwan, tentam impedir um deputado da oposição de subir ao pódio parlamentar e usar da palavra. As partes oponentes lutavam sobre uma Emenda a um Acto governamental local, com um dos elementos envolvidos na discussão a queixar-se de ter sido mordido.

O parlamentarismo na ilha tem, nos últimos anos, sido tão entusiástico como a sua capacidade exportadora. E calor humano não lhes falta.

(imaginemos, por um segundo, o Dr. Aguiar Branco às cavalitas, para botar discurso; e o Dr. Portas a queixar-se de uma trincadela; e o Dr. Louçã de uma canelada. Por menos o Dr. Cavaco dissolvia. Ai isso dissolvia)

[fotografia do incontornável The First Post, datada de 19/1. Clique para ampliar]

© The First Post (d.r.)





Declaração de amor

28 01 2010

Se não for forjada (e não me parece) esta cartinha seria divertida de ternura, não desse ela que pensar. Ou de como o sentido dos bens materiais, do “que conta”, arrasa com a graça dos arroubos amorosos infanto-juvenis. ‘Tás tramado, Jorge Daniel.

[Clique na imagem para ampliar]

«Os meus pais têm um Mercedes e uma casa de férias na Vieira.»





Novos Poetas (51) – Maria Sousa

26 01 2010

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)





Filipa Leal – A Inexistência de Eva

24 01 2010

Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.

Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.

(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)

[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)

ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.

*

À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*

Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.

*

Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite.

*

Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

(…)

LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009







Jacques Martin (1921 – 2010) – in memoriam

22 01 2010

Morreu Jacques Martin, autor da série de banda desenhada Alix. Foi o melhor professor de História Clássica que tive.

[Em baixo, uma prancha de L'Enfant Grec (1979), aqui na edição em língua castelhana. Clique para ampliar]

Alix, "L'Enfant Grec" © Casterman





Novos Poetas (50) – Luís Filipe Parrado

22 01 2010

Ainda extracção do quarto número da revista criatura.

O FOTÓGRAFO CEGO


Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.


Fosse eu e espalharia a luz.


PARRADO, Luís Filipe, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)





Rui Manuel Amaral – dois textos

20 01 2010

Com um percurso de escrita iniciado na poesia, Rui Manuel Amaral (Porto, 1973), tem vindo a desenvolver a sua escrita na peculiar forma do pequenos contos (ou micro-contos, ou micro-narrativas, as catalogações de nomes precisam, mesmo que imprecisos). O trabalho de Rui Manuel Amaral pode ser acompanhado no blogue dias felizes, ou no seu primeiro livro, Caravana (Angelus Novus, 2007), de que existem ainda exemplares disponíveis. Do seu novo livro, ainda sem título, programado para sair em Outubro, aqui se pré-publicam dois textos que nele serão incluídos, por graciosa cedência e anuência do autor. Textos num registo formalmente muito seguro, entre o absurdo, a ironia e uma narratividade que desconstrói os lugares comuns, os comuns lugares.

DIOPTRIAS

Havia um homem – chamemos-lhe Anke – que era muito míope. Tão míope que quando abria os braços deixava de ver as mãos. E dos pés tinha apenas uma nebulosa memória. Deixara de os ver há muito tempo. Ora, os pés tinham-se transformado em dois monstruosos peixes e o homem ignorava inteiramente esse facto. Quando caminhava, os peixes agitavam as barbatanas – plof, plof, plof –, balançando-se para a direita e para a esquerda, palmilhando a custo os caminhos. Era um espectáculo difícil de descrever.

Sem a consciência dos extravagantes “pés”, Anke era um homem feliz. Levava uma existência pacata e tão confortável quanto lhe permitiam as suas nutridas dioptrias. Um belo dia, porém, a miopia desapareceu num fulminante piscar de olhos (o que são as coisas). E o nosso homem, cheio de esperança, preparou-se para redescobrir as amplas formas do mundo.

Nisto, surgiram os infernais peixes, do fundo das sombras, em todo o seu esplendoroso horror. Anke não deu um passo, não fez um gesto, não mexeu um músculo sequer. O espanto tolhera-lhe a voz e os movimentos. Oh! visão terrível! Ali estavam eles onde sempre estiveram, a agitar nervosamente as barbatanas – plof, plof, plof. Era impossível imaginar algo que ofendesse mais o bom gosto e a decência.

Sentiu-se então invadido por um desalento muito, muito profundo. A sua tristeza e palidez metiam dó. Chegou a julgar mais de uma vez que morreria de desgosto. Mas não morreu.

*

O HOMEM QUE TINHA DOIS CORAÇÕES

Era uma vez um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.

Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de muito grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.

Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.

* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.





Olga Roriz – Electra

19 01 2010

Estreia, no dia 28 de Janeiro, no Teatro Camões (Lisboa) a primeira produção de 2010 da Companhia Olga Roriz. “Electra” tem a particularidade de ser coreografada e interpretada a solo por Olga Roriz. Todas as informações podem ser obtidas no site da Companhia. Divulga-se o acontecimento (que também irá, creio, ao Porto, Teatro Nacional de São João); e o texto que a coreógrafa e bailarina escreveu a propósito do espectáculo; e duas das fotografias dos ensaios. Coloca-se, no fim, um muito belo texto de Olga Roriz, datado de 2004, onde esta aborda a palavra, a necessidade e a pertinência da “textualidade”, a partir do conceito de espectáculo.

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

A minha Electra

As cenas são descoladas e aparentemente sem relação ou objectivo comum, no entanto, vão desvendando uma espécie de personagem misterioso.

É como se houvesse uma inquietação latente naquela mulher, onde cada momento e cada lugar por onde passa tanto são acrescentados como anulados pelos que se seguem.

Cada cena, cada passagem tem uma força estranha, uma vivência e uma certeza que se instala desde o primeiro gesto.

As acções banais entre as cenas carregam a carga do que acabou de fazer, tornando essas acções, também elas, em cenas.

É uma mulher que não pensa nem sente. Ela tortura-se, obriga-se, anula-se…

Castiga-se a passar o tempo congeminando uma nova forma de agir, de estar, de se lamentar, de se preparar, de lutar,… de jamais se esquecer.

Não há resignação, não há desistência, apenas por vezes uma espécie de falso e tranquilo abandono.

Ela mostra sem pudor a sua força e a sua fraqueza, a sua nobreza e a sua humilhação.

Ela é uma mulher assustadoramente presente na sua ausência.

Os seus olhares para o exterior de si são os únicos indicativos da sua espera onde o tempo não existe.

Ela nunca se expõe, apenas se dispõe.”

Olga Roriz, 24 de Novembro de 2009

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

O Texto como uma Necessidade

“O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.”

“O caracter fundamental tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade.”

Cito Guy Debord em “A sociedade do espectáculo”, porque a sua leitura fez-me questionar a importância e a necessidade do espectáculo na sociedade, versus a sua natureza supérflua e desnecessária.

Partindo eu do princípio que há uma necessidade para além da do espectáculo, na pessoa do espectador/consumidor, parece-me evidente e intrínseca à própria noção de arte a necessidade inerente ao criador e aos intérpretes.

Permitam-me ir um pouco mais longe, ouso chamar a esta necessidade interna a primordial, a válida, o objectivo e a finalidade, a única razão plausível da existência do espectáculo.
Dizer o que se quer para que fique dito para sempre ou não dizer o que se quer para que não fique dito para sempre.
É indiferente e nada é indiferente.
Do nada faz-se tudo, mas nunca nada tanto faz.
Qualquer palavra após um breve suspiro, ais e mais ais, um inesperado silêncio absoluto interrompido por um longo discurso amoroso culminando num rodopiar vertiginoso até ao desmaio, representado com toda a lógica ou mesmo de um modo aparentemente absurdo, só é válido se nascer de uma necessidade seja ela de que ordem for, mesmo que vinda do inconsciente, do instinto…
O texto nasce ao mesmo tempo que a necessidade dele!

Olga Roriz, Março de 2004. Artigo para os “Cadernos do Rivoli” (fragmento de um conjunto, sob o título: ” O C O R P O Q U E F A L A D O C O R P O Q U E F A L A D O”)  – leitura na íntegra aqui.





Concurso Faça Lá Um Poema

18 01 2010

«Por ocasião da comemoração do Dia Mundial da Poesia 2010, que se realiza no CCB no dia 21 de Março, o Plano Nacional de Leitura e o Centro Cultural de Belém, numa iniciativa conjunta, lançam um desafio às escolas, convidando-as a participarem num Concurso de Poesia. Procurando incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, o concurso Faça lá um poema destina-se a quatro níveis de ensino, desde o 1º Ciclo ao Ensino Secundário, e nele poderão participar quaisquer alunos de escolas públicas ou privadas. A entrega de prémios terá lugar no CCB a 21 de Março de 2010 e será integrada no programa do Dia Mundial da Poesia.» [sic] – (sublinhado meu, em bold)

Deliremos:

“Olhe, Gonçalo, faça lá um poema e ainda vai aparecer nas revistas e nos jornais e se calhar até na tevisão. Vá lá, não custa nada, escreva uns versos, sei lá, pode ser sobre o amor, você já deve saber o que é o amor… ou sobre os pobrezinhos, também é um tema giro; ou sobre o ambiente, pe’cebe, com o ambiente é capaz de ganhar, porque está muito na moda. Vá lá, faça um poema e ainda vai ver que vence, o Gonçalo é um vencedor, sabia?… Se quiser eu corrijo os erros de português, ‘tá bem? Sim, pode comer um éclair, mas não se esqueça… faça lá um poema”.

O Plano Nacional de Leitura tem vários méritos, estabelecendo e caucionando pontes entre autores, leitores, escolas, editoras, muitas vezes  acertando com critério. O Centro Cultural de Belém muitos outros méritos terá. Mas há pérolas de retórica que são, sei lá… um acontece a todos.

"Surprise", ilustração de Norman Rockwell

(clique para ampliar)





A escritora e o orgasmo

15 01 2010

[Singelo preito à escritora, bióloga e modelo Clara Pinto Correia, por ocasião da inauguração da exposição Sexpressions.]

«Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.»

LOPES, Adília, “Irmã Barata, Irmã Batata”, Braga: Angelus Novus, 2000. p. 13-14.

"A character made of polygons that I created a while ago. I tried to bring life to her by creating facial expressions." - Alex (3dsMax/2005) - © Tom, le RayonV

“I tried to bring life to her by creating facial expressions.”





Novos Poetas (49) – Ana Salomé

14 01 2010

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009





Poesia em Vinyl com valter hugo mãe

12 01 2010

Uma das coisas boas do Facebook: nada (ou pouca coisa) acaba por nos escapar, via convites, notícias, eventos). Sinaliza-me a Catarina Nunes de Almeida que, já na próxima quinta-feira, dia 14, das 21h30m às 23h45m, terá lugar a primeira sessão da Poesia em Vinyl, tendo o valter hugo mãe como convidado. Reza assim o convite:

“O primeiro Poesia em Vinyl realiza-se no dia 14 de Janeiro. O nosso convidado principal é valter hugo mãe que nos falará da sua poesia. Para ler os poemas do valter, teremos conosco o Fernando Alves. E para finalizar a noite em beleza, o JP Simões na Música.

O Poesia em Vinyl é um evento organizado por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão, todos os meses, no Restaurante Vinyl ( Travessa da Galé, 36, Alcântara, Lisboa – junto da antiga FIL), com o apoio da Rádio Radar.  A entrada é livre.”

Poesia em Vinyl com valter hugo mãe

[uma nota: não podendo estar presente, por ter sido "convidado" para a sessão poética de dar papa, colinho, biberão e caminha a uma musa, fico com um sentimento de perda: valter hugo mãe dito por Fernando Alves deve ser, no mínimo, muito curioso. E um desabafo: não podiam ter arranjado um cartaz melhorzito, rapazes?]




Eric Rohmer (1920 – 2010) – anjos e hormonas

12 01 2010

Em 1980, ano em que cursei funestamente o primeiro ano de direito em Coimbra, duas coisas salvaram-me: uma entrega total à leitura, que excluía apenas as sebentas, e o ter vivido ‘principescamente’ instalado num quarto com singular vista para nascente, acompanhando as colinas e a chegada do rio à cidade, na antiga sede do C.A.D.C. (à época Instituto Justiça e Paz), na cidade velha alta; era o Instituto liberal e calorosamente dirigido pelo P. Idalino Simões, que saudades. Numa das suas (dele) ideias peregrinas, cultivar os rapazes, o P. Idalino lembrou-se de organizar, na biblioteca, sessões de cinema à noite. Ficámos pelo Eric Rohmer, creio. E chegou. Não, não percebiamos nada da importância da “Nouvelle Vague“, nem tinhamos noção da importância das “Seis Fábulas Morais“. Mas vimos tudo o que pudemos. E discutíamos, por obra e graça do espírito santo discutíamos os filmes até à exaustão, valha-me deus. Discussão turvada, no meu caso, por um sentimento agudo e ambivalente: a dialéctica possível entre a a vertente metafísica e o subtil erotismo da coisa. Subtil? Pela palavra, pelos diálogos, muito em mim se acendeu, e não apenas na ordem do espírito. Uma terceiro factor salvou-me o ano, lá pela primavera. Digamos que vivi sob o signo de Rohmer: não foi pouca coisa, traduzida que foi em transcendentes passagens ao acto. Palavra de honra, aos 18 anos até os anjos nos sublevam as hormonas.






Al Berto – notas para o diário

9 01 2010

“Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório («Horto de Incêndio»). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. “Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.”Al Berto

notas para o diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


AL BERTO, “Horto de Incêndio”, Lisboa: Assírio & Alvim, 3.ª Ed., Dezembro 2000. p. 38-39

fotografia de Paulo Nozolino (pormenor da imagem de capa de "Horto de Incêndio")





Horto de Incêndio (Entrevista a Al Berto)

7 01 2010

Em Março de 1997, o editor Manuel Hermínio Monteiro entrevista o poeta Al Berto, a propósito da edição daquele que viria a ser o seu último livro de poemas originais publicado, Horto de Incêndio. O poeta faleceria em Julho desse ano.

Horto de Incêndio
(Entrevista a Al Berto)

Manuel Hermínio Monteiro

Esta curta entrevista, com um evidente carácter de urgência, foi feita como complemento do seu último livro Horto de Incêndio. Não esperava tanta brevidade nas respostas. Hoje, parece-me, faz todo o sentido. Como julgo natural que a grande maioria dos leitores de Al Berto sejam jovens que viam nele a intensidade chispante de um cantor rock deambulando pelas noites de Lisboa com uma disponibilidade de dialogo e de corpo inexcedíveis. Por isso se nos torna difícil ver uma Lisboa tardia sem a sua presença, o seu sorriso e as suas histórias envolventes. Sem os seus textos para os catálogos de artistas amigos. As inúmeras leituras públicas sempre repletas de gente jovem, que acorria para ouvir o homem a quem «crescera uma pérola no coração». Mas quem melhor o conhecia era o mar e os barcos que «faziam escala à sua porta».
Outubro de 1997

1 – Há bastante tempo que não publicavas e no entanto este livro, até pelo título, tem um carácter de urgência. Porquê?

Telegrama 1: Todos os meus livros tiveram sempre um carácter de urgência. Porque ao terminar um livro nunca tive a certeza que um outro se seguisse. Cada um deles está intrinsecamente ligado a um momento da minha vida. A vida e os livros acontecem… Stop.

2 – Há os poemas «inferno», «sida», «febre», «fantasma», «senhor da asma». É um livro triste, trágico quase apocalíptico?

Telegrama 2: Não podia ser de outra maneira. Veja-se os tempos que correm, tempos de manipulação e de enxertia, tempos de metamorfose maligna e hipocrisia. Já não há cidadãos, mas contribuintes – o que quer dizer que o corpo foi substituído por uma série de algarismos. Stop.

3 – A segunda parte, «Morte de Rimbaud» foi dito em voz alta no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Ao escreveres existe alguma vontade de que as tuas palavras sejam para ser ditas em voz alta?

Telegrama 3: Sempre defendi a oralidade. É uma tradição da poesia portuguesa. Não publico poemas sem os lerem voz alta muitas vezes. «Morte de Rimbaud» foi escrito propositadamente para o espectáculo Filhos de Rimbaud e para ser dito em voz alta. Tentei ser claro. Stop.

4 – Coloquiais e íntimos, poemas como pequenos segredos ou conversas afectivas. Esta tua poesia parece nascer da necessidade de uma confidência. A poesia é feita para todos?

Telegrama 4: Se calhar é porque toda a minha escrita é um dialogo comigo mesmo… Uma viagem em direcção ao silêncio. Não sei… Não. A poesia não é feita para ninguém em especial, mas uma vez publicada é para quem a lê. Talvez este livro seja um livro para ler também em voz alta. Stop.

5 – O que é que a tua vida deve à poesia?

Telegrama 5: A poesia tem-me levado ao despojamento daquilo que é lixo e me atrapalha a vida. Cada vez mais me parece que a poesia é a única linguagem capaz de atingir o rosto de um deus e feri-lo moralmente, nem que fosse por um milésimo de segundo. Stop.


In Hablar/Falar de Poesia, n.º 1, 1997

Al Berto





Só por hoje

5 01 2010

Só deus nosso senhor, a Louise L. Hay, a Isabelle Fillozat, a senhora que escreveu o “Comer, orar, amar”, o Paulo Coelho ou a Margarida Rebelo Pinto sabem a estima que tenho pelos livros e pelos textos de “auto-ajuda”. São excelentes alternativas de entretenimento; não aquecem nem arrefecem, podendo embora fazer estragos no espírito dos crédulos. Mas não deixam de ser fantásticos meios de auto-ajuda para quem os escreveu.

E, contudo, veio parar-me às mãos uma pequena cartolina impressa em formato A6. Um texto breve, lapidado pelo tempo e pela experiência dos Alcoólicos Anónimos (A.A.), desde há décadas uma discreta comunidade de resgate de vidas, de mudança de paradigma e de comportamentos, um lugar de liberdade para aprender a lidar com uma doença de sentimentos e emoções. Através da partilha. O texto chama-se “Só por hoje”. Na simplicidade dura, na suavidade firme das palavras, poderia servir para reflexão de toda a gente. Toda a gente mesmo. Não como doutrina, credo, oração. Mas como uma perspectiva das possibilidades do humano, na sua ínfima, gigantesca condição.

Pronto, podem chamar-me corny.

Ilustração de Danuta Wojciechowska para "O menino eterno", José Jorge Letria, Porto, Âmbar, 2002. (d.r.)

Só por hoje

Só por hoje, vou procurar viver unicamente o dia presente, sem tentar resolver de uma vez só todos os problemas da minha vida. Durante doze horas posso fazer qualquer coisa que me assustaria se eu pensasse que tinha de a fazer por uma vida inteira.

Só por hoje vou estar feliz. A maior parte das pessoas é tão feliz quanto se dispõe a sê-lo.

Só por hoje vou tentar ajustar-me à realidade e não tentar adaptar tudo aos meus desejos. Vou aceitar a minha «sorte» como ela vier e vou moldar-me a ela.

Só por hoje, vou tentar fortalecer o meu espírito. Estudarei e vou aprender alguma coisa útil. Não vou manter o meu espírito ocioso. Vou ler alguma coisa que exija esforço, pensamento e concentração.

Só por hoje, vou exercitar a minha alma de três maneiras: vou fazer um favor a alguém sem que se note e, se alguém se aperceber disso, esse facto não conta. Vou fazer pelo menos duas coisas que não me apetece – só por exercício. Não vou mostrar a ninguém os meus sentimentos de dor. Poderei estar magoado mas não revelarei a minha dor.

Só por hoje, vou ser agradável. Vou apresentar-me aos outros da melhor maneira possível: vou vestir-me bem, falar baixo, agir delicadamente, não farei críticas, não vou ter nada de negativo que dizer aos outros, não vou tentar melhorar  nem controlar ninguém, excepto a mim próprio.

Só por hoje vou ter um programa. Pode ser que eu o não siga a rigor, mas vou tentar. Vou evitar duas pragas: a pressa e a indecisão.

Só por hoje, vou ter meia hora tranquila só para mim, e descansar. Durante esta meia hora, num determinado momento, vou procurar ter uma melhor perspectiva da minha vida.

Só por hoje, não vou ter medo. Muito em especial não vou ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.

(sublinhado meu)