As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Julho, 2009

Signs

(tks Nuno Seabra Lopes!)

Uma ‘curta’ de 12 minutos inesquecíveis.

Sem telemóveis, telefones, faxes, mails, sms. Comunicação em estado de empolgamento.

(Clique no link em baixo para ver)↓

Signs, by Nick Russell

Signs © Nick Russell

Signs © Patrick Hughes

Queixa das almas jovens censuradas




Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Poema de Natália Correia

Música de José Mário Branco (versão ao vivo da canção, originária do álbum Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 1971


Poesia Portuguesa (38) – Ana Luísa Amaral


METAMORFOSES

Faça-se luz

neste mundo profano

que é o meu gabinete

de trabalho:

uma despensa.


As outras dividiam-se

por sótãos,

eu movo-me em despensa

com presunto e arroz,

livros e detergentes.


Que a luz penetre

no meu sótão

mental

do espaço curto


E as folhas de papel

que embalo docemente

transformem o presunto

em carruagem!

AMARAL, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Fora do Texto, Coimbra, 1990, reed. Lisboa, Quetzal, 1999

[poema ‘pilhado’ no blogue Poesia & Lda., de João Luís Barreto Guimarães e Jorge Sousa Braga, com análise textual da autoria de Barreto Guimarães. Como aqui não é hábito ‘pilhar’, pede-se indulgência e agradece-se muito]

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online

Peter Callesen – paper works

Para ver o trabalho (e conhecer o percurso artístico) de Peter Callesen (1967 – ) aqui.

«Holding onto myself 3» © Peter Callesen

«Holding on to Myself» © Peter Callesen, 2006

A Phala de volta

phala

Inda agora passam oitenta e pouco minutos deste dia e este dia já o ganhei. «A Phala», essa informal e humilde invenção de Manuel Hermínio Monteiro, folha de amor à poesia e à literatura toda, que nos alentou durante anos, volta agora (após um número encadernado, único, aqui já referido) em formato digital. Antigamente distribuía-se de amigo em amigo, ia-se buscar à livraria do Terminal (valha-me deus!). Agora, está ao alcance de um clique. Bem-vinda, regressada «Phala». Uma vez sem exemplo, dela se copia um bocadinho. Para alvoroço da gente e matança de saudades de um futuro a muitas vozes.

Os Poemas de Melville

In Documenta Poetica on 6 06UTC Julho 06UTC 2009 at 12:09

Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.
Eugénio de Andrade
A selecção de poemas de Herman Melville foi elaborada a partir de três livros seus: Battle-Pieces and Aspects of the War, de 1866, John Marr and Other Sailors, de 1888, e Timoleon, Etc., de 1891. Excluí desta selecção Clarel — A Poem and a Pilgrimage in the Holy Land, de 1876, devido à extensão dos poemas que compõem as diferentes secções. Idêntica opção foi seguida relativamente à escolha dos poemas dos livros aqui antologiados, cuja extensão, em particular a dos monólogos dramáticos, tornaria inviável uma perspectiva prismática da sua poesia. A opção pelos poemas mais curtos é, aliás, corroborada pelos estudiosos de Melville que neles reconhecem os instantes mais relevantes da sua obra. Entre estes poemas tentei seleccionar aqueles que melhor transmitem a sua sensibilidade estética e as suas recorrências tópicas. A edição escolhida em língua inglesa foi The Poems of Herman Melville (The Kent State University Press, 2000), organizada por Douglas Robillard.
Um derradeiro aspecto: tradução ou versão? O próprio Douglas Robillard admite quão difícil era, para o contemporâneo de Melville, ler os seus poemas. Os jogos prosódicos, as interferências do Middle-English (meetly em «A exumação do Hermes», por exemplo), ou do anglo-saxónico (em «O Prenúncio», por exemplo, weird, é adaptado do anglo-saxão wyrd, estranho), a sistemática convocação de vocábulos náuticos, de jargão científico (em «O icebergue», por exemplo, needle-ice é um fenómeno de congelamento), coexistindo e/ou dialogando com referências a divertimentos ou jogos (ainda em «O icebergue» a referência a jack-straw), as rimas, os jogos intertextuais, de difícil compreensão para quem não esteja familiarizido com o conjunto da sua obra narrativa e poética, os ecos biográficos, perceptíveis apenas ao conhecedor das suas circunstâncias biográficas, as enigmáticas elisões (veja-se o título de «Lamento de C______»), faziam dele, no século XIX, um poeta difícil. Não menos o será hoje. Talvez por tudo isto não sei se aquilo que apresento são traduções ou versões dos seus poemas; talvez sejam apenas versões, versões feitas por quem há trinta anos tem vindo a sentir um intenso fascínio pela obra deste escritor maior. Um fascínio e um apelo que Eugénio de Andrade tão bem sintetizou.
Algures na década de 1930, um ensaísta americano considerou que era tempo de descobrir a obra poética de Herman Melville. Este é o meu modesto contributo nesse sentido para os leitores de língua portuguesa.
melville
Penso na pequena praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.»
Eugénio de Andrade
[nota: o artigo continua, com uma introdução à edição dos Poemas de Melville, da autoria de Mário Avelar, e uma escorreita cronologia. Mas esta é apenas uma das phalas desta primeira edição, não numerada, de 6 de Junho].



Vão okupar o meu coreto!

Sim, o coreto do Jardim da Estrela, o meu coreto de puto! Aquele onde tocavam as gloriosas Bandas da GNR e da Carris, para minha muito proveitosa instrução musical. Uma falta de respeito tão insultuosa… que espero ver gente pendurada nas árvores. É que, isto sim, isto é uma okupação. Óptima ocupação para Sábado, dia 11, em Lisboa.

'Só falta a banda da Carris'

'Só falta a banda da Carris'

(clique para ampliar)

Programa da Okupação:

16h – 16h30 : Kumpania Algazarra (começam no Coreto, tocam pelo Jardim e voltam e, se quiserem, podem fechar a okupação)
16h30 – 17h : Puzzle
17h – 17h30 : Stack em Blues
17h30 – 18h : Lula Pena
18h – 18h30 : Leituras : João Pacheco, Miguel Manso, E. M. Melo e Castro e Cyombra
(sugestão: acompanhamento musical pelo Fernando Dinis e Reymundo)
18h30 – 19h : Babilónia Reduzida
19h – 19h30 : Jorge Ferraz
19h30 – 20h : Fernando Dinis (piano) e Reymundo (acordeão)
20h – 20h30 : Tramas
20h30 – 21h : Pedro e Diana
21h – 21h30 : Leituras : Luís Testa, Alice Valente Alves, Miguel Cardoso e Rui Antunes
(a sugestão continua válida, assim como para todos os outros músicos participantes)
21h30 – 22h : Paulo Condessa e Afonso Azevedo
22h – 22h30 : Apetite Mor
22h30 – 23h : Guto Pires
23h – 23h30 : Ventilan
23h30 – 24h : Samuel Úria e Amigos

Erik Satie – Memória de um Amnésico

Não se fará aqui nota biográfica de Erik Satie (1866 – 1925), cujas ligações enciclopédicas (wikipedia) em língua inglesa e francesa são suficientes para se poder ter uma ideia geral da iconoclastia, vanguardismo e concomitante ostracismo a que foi votado o compositor em tumultuosa vida, esmagado pela sombra de Ravel e de Debussy. Estimadíssima haveria de ser, com o tempo, a sua música. Dá-se conta, isso sim, da obra escrita que deixou, a partir de «fragmentos» publicados na revista S.I.M. (Societé Internationale de Musique), com o delicioso título «Memória de um Amnésico», felizmente publicada em língua portuguesa (e provavelmente esgotada). Fica, então, um fragmento de um «fragmento», escrito em 1918. Impagável.

VIII

ELOGIO DOS CRÍTICOS

Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.

O ano passado fiz várias conferências sobre «A Inteligência e da Musicalidade nos Animais».

Hoje vou falar-vos «Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos». O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.

Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso. Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.

Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais, embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.

Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos se assim podemos chamar-lhes.

De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… Os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.

Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes…

*

SATIE, Erik, Memória de um Amnésico , Selecção, tradução, cronologia e notas de Alberto Nunes Sampaio, ‘colecção memória do abismo’, Hiena, Lisboa, 1992.