As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2010

Parlamentarismo

Membros do Kuomitang, partido no poder em Taiwan, tentam impedir um deputado da oposição de subir ao pódio parlamentar e usar da palavra. As partes oponentes lutavam sobre uma Emenda a um Acto governamental local, com um dos elementos envolvidos na discussão a queixar-se de ter sido mordido.

O parlamentarismo na ilha tem, nos últimos anos, sido tão entusiástico como a sua capacidade exportadora. E calor humano não lhes falta.

(imaginemos, por um segundo, o Dr. Aguiar Branco às cavalitas, para botar discurso; e o Dr. Portas a queixar-se de uma trincadela; e o Dr. Louçã de uma canelada. Por menos o Dr. Cavaco dissolvia. Ai isso dissolvia)

[fotografia do incontornável The First Post, datada de 19/1. Clique para ampliar]

© The First Post (d.r.)

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Declaração de amor

Se não for forjada (e não me parece) esta cartinha seria divertida de ternura, não desse ela que pensar. Ou de como o sentido dos bens materiais, do “que conta”, arrasa com a graça dos arroubos amorosos infanto-juvenis. ‘Tás tramado, Jorge Daniel.

[Clique na imagem para ampliar]

«Os meus pais têm um Mercedes e uma casa de férias na Vieira.»

Novos Poetas (51) – Maria Sousa

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)

Filipa Leal – A Inexistência de Eva

Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.

Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.

(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)

[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)

ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.

*

À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*

Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.

*

Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite.

*

Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

(…)

LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009



Jacques Martin (1921 – 2010) – in memoriam

Morreu Jacques Martin, autor da série de banda desenhada Alix. Foi o melhor professor de História Clássica que tive.

[Em baixo, uma prancha de L’Enfant Grec (1979), aqui na edição em língua castelhana. Clique para ampliar]

Alix, "L'Enfant Grec" © Casterman

Novos Poetas (50) – Luís Filipe Parrado

Ainda extracção do quarto número da revista criatura.

O FOTÓGRAFO CEGO


Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.


Fosse eu e espalharia a luz.


PARRADO, Luís Filipe, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

Rui Manuel Amaral – dois textos

Com um percurso de escrita iniciado na poesia, Rui Manuel Amaral (Porto, 1973), tem vindo a desenvolver a sua escrita na peculiar forma do pequenos contos (ou micro-contos, ou micro-narrativas, as catalogações de nomes precisam, mesmo que imprecisos). O trabalho de Rui Manuel Amaral pode ser acompanhado no blogue dias felizes, ou no seu primeiro livro, Caravana (Angelus Novus, 2007), de que existem ainda exemplares disponíveis. Do seu novo livro, ainda sem título, programado para sair em Outubro, aqui se pré-publicam dois textos que nele serão incluídos, por graciosa cedência e anuência do autor. Textos num registo formalmente muito seguro, entre o absurdo, a ironia e uma narratividade que desconstrói os lugares comuns, os comuns lugares.

DIOPTRIAS

Havia um homem – chamemos-lhe Anke – que era muito míope. Tão míope que quando abria os braços deixava de ver as mãos. E dos pés tinha apenas uma nebulosa memória. Deixara de os ver há muito tempo. Ora, os pés tinham-se transformado em dois monstruosos peixes e o homem ignorava inteiramente esse facto. Quando caminhava, os peixes agitavam as barbatanas – plof, plof, plof –, balançando-se para a direita e para a esquerda, palmilhando a custo os caminhos. Era um espectáculo difícil de descrever.

Sem a consciência dos extravagantes “pés”, Anke era um homem feliz. Levava uma existência pacata e tão confortável quanto lhe permitiam as suas nutridas dioptrias. Um belo dia, porém, a miopia desapareceu num fulminante piscar de olhos (o que são as coisas). E o nosso homem, cheio de esperança, preparou-se para redescobrir as amplas formas do mundo.

Nisto, surgiram os infernais peixes, do fundo das sombras, em todo o seu esplendoroso horror. Anke não deu um passo, não fez um gesto, não mexeu um músculo sequer. O espanto tolhera-lhe a voz e os movimentos. Oh! visão terrível! Ali estavam eles onde sempre estiveram, a agitar nervosamente as barbatanas – plof, plof, plof. Era impossível imaginar algo que ofendesse mais o bom gosto e a decência.

Sentiu-se então invadido por um desalento muito, muito profundo. A sua tristeza e palidez metiam dó. Chegou a julgar mais de uma vez que morreria de desgosto. Mas não morreu.

*

O HOMEM QUE TINHA DOIS CORAÇÕES

Era uma vez um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.

Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de muito grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.

Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.

* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.

Olga Roriz – Electra

Estreia, no dia 28 de Janeiro, no Teatro Camões (Lisboa) a primeira produção de 2010 da Companhia Olga Roriz. “Electra” tem a particularidade de ser coreografada e interpretada a solo por Olga Roriz. Todas as informações podem ser obtidas no site da Companhia. Divulga-se o acontecimento (que também irá, creio, ao Porto, Teatro Nacional de São João); e o texto que a coreógrafa e bailarina escreveu a propósito do espectáculo; e duas das fotografias dos ensaios. Coloca-se, no fim, um muito belo texto de Olga Roriz, datado de 2004, onde esta aborda a palavra, a necessidade e a pertinência da “textualidade”, a partir do conceito de espectáculo.

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

A minha Electra

As cenas são descoladas e aparentemente sem relação ou objectivo comum, no entanto, vão desvendando uma espécie de personagem misterioso.

É como se houvesse uma inquietação latente naquela mulher, onde cada momento e cada lugar por onde passa tanto são acrescentados como anulados pelos que se seguem.

Cada cena, cada passagem tem uma força estranha, uma vivência e uma certeza que se instala desde o primeiro gesto.

As acções banais entre as cenas carregam a carga do que acabou de fazer, tornando essas acções, também elas, em cenas.

É uma mulher que não pensa nem sente. Ela tortura-se, obriga-se, anula-se…

Castiga-se a passar o tempo congeminando uma nova forma de agir, de estar, de se lamentar, de se preparar, de lutar,… de jamais se esquecer.

Não há resignação, não há desistência, apenas por vezes uma espécie de falso e tranquilo abandono.

Ela mostra sem pudor a sua força e a sua fraqueza, a sua nobreza e a sua humilhação.

Ela é uma mulher assustadoramente presente na sua ausência.

Os seus olhares para o exterior de si são os únicos indicativos da sua espera onde o tempo não existe.

Ela nunca se expõe, apenas se dispõe.”

Olga Roriz, 24 de Novembro de 2009

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

O Texto como uma Necessidade

“O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.”

“O caracter fundamental tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade.”

Cito Guy Debord em “A sociedade do espectáculo”, porque a sua leitura fez-me questionar a importância e a necessidade do espectáculo na sociedade, versus a sua natureza supérflua e desnecessária.

Partindo eu do princípio que há uma necessidade para além da do espectáculo, na pessoa do espectador/consumidor, parece-me evidente e intrínseca à própria noção de arte a necessidade inerente ao criador e aos intérpretes.

Permitam-me ir um pouco mais longe, ouso chamar a esta necessidade interna a primordial, a válida, o objectivo e a finalidade, a única razão plausível da existência do espectáculo.
Dizer o que se quer para que fique dito para sempre ou não dizer o que se quer para que não fique dito para sempre.
É indiferente e nada é indiferente.
Do nada faz-se tudo, mas nunca nada tanto faz.
Qualquer palavra após um breve suspiro, ais e mais ais, um inesperado silêncio absoluto interrompido por um longo discurso amoroso culminando num rodopiar vertiginoso até ao desmaio, representado com toda a lógica ou mesmo de um modo aparentemente absurdo, só é válido se nascer de uma necessidade seja ela de que ordem for, mesmo que vinda do inconsciente, do instinto…
O texto nasce ao mesmo tempo que a necessidade dele!

Olga Roriz, Março de 2004. Artigo para os “Cadernos do Rivoli” (fragmento de um conjunto, sob o título: ” O C O R P O Q U E F A L A D O C O R P O Q U E F A L A D O”)  – leitura na íntegra aqui.

Concurso Faça Lá Um Poema

«Por ocasião da comemoração do Dia Mundial da Poesia 2010, que se realiza no CCB no dia 21 de Março, o Plano Nacional de Leitura e o Centro Cultural de Belém, numa iniciativa conjunta, lançam um desafio às escolas, convidando-as a participarem num Concurso de Poesia. Procurando incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, o concurso Faça lá um poema destina-se a quatro níveis de ensino, desde o 1º Ciclo ao Ensino Secundário, e nele poderão participar quaisquer alunos de escolas públicas ou privadas. A entrega de prémios terá lugar no CCB a 21 de Março de 2010 e será integrada no programa do Dia Mundial da Poesia.» [sic] – (sublinhado meu, em bold)

Deliremos:

“Olhe, Gonçalo, faça lá um poema e ainda vai aparecer nas revistas e nos jornais e se calhar até na tevisão. Vá lá, não custa nada, escreva uns versos, sei lá, pode ser sobre o amor, você já deve saber o que é o amor… ou sobre os pobrezinhos, também é um tema giro; ou sobre o ambiente, pe’cebe, com o ambiente é capaz de ganhar, porque está muito na moda. Vá lá, faça um poema e ainda vai ver que vence, o Gonçalo é um vencedor, sabia?… Se quiser eu corrijo os erros de português, ‘tá bem? Sim, pode comer um éclair, mas não se esqueça… faça lá um poema”.

O Plano Nacional de Leitura tem vários méritos, estabelecendo e caucionando pontes entre autores, leitores, escolas, editoras, muitas vezes  acertando com critério. O Centro Cultural de Belém muitos outros méritos terá. Mas há pérolas de retórica que são, sei lá… um acontece a todos.

"Surprise", ilustração de Norman Rockwell

(clique para ampliar)

A escritora e o orgasmo

[Singelo preito à escritora, bióloga e modelo Clara Pinto Correia, por ocasião da inauguração da exposição Sexpressions.]

«Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.»

LOPES, Adília, “Irmã Barata, Irmã Batata”, Braga: Angelus Novus, 2000. p. 13-14.

"A character made of polygons that I created a while ago. I tried to bring life to her by creating facial expressions." - Alex (3dsMax/2005) - © Tom, le RayonV

“I tried to bring life to her by creating facial expressions.”

Novos Poetas (49) – Ana Salomé

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4”, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

Poesia em Vinyl com valter hugo mãe

Uma das coisas boas do Facebook: nada (ou pouca coisa) acaba por nos escapar, via convites, notícias, eventos). Sinaliza-me a Catarina Nunes de Almeida que, já na próxima quinta-feira, dia 14, das 21h30m às 23h45m, terá lugar a primeira sessão da Poesia em Vinyl, tendo o valter hugo mãe como convidado. Reza assim o convite:

“O primeiro Poesia em Vinyl realiza-se no dia 14 de Janeiro. O nosso convidado principal é valter hugo mãe que nos falará da sua poesia. Para ler os poemas do valter, teremos conosco o Fernando Alves. E para finalizar a noite em beleza, o JP Simões na Música.

O Poesia em Vinyl é um evento organizado por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão, todos os meses, no Restaurante Vinyl ( Travessa da Galé, 36, Alcântara, Lisboa – junto da antiga FIL), com o apoio da Rádio Radar.  A entrada é livre.”

Poesia em Vinyl com valter hugo mãe

[uma nota: não podendo estar presente, por ter sido “convidado” para a sessão poética de dar papa, colinho, biberão e caminha a uma musa, fico com um sentimento de perda: valter hugo mãe dito por Fernando Alves deve ser, no mínimo, muito curioso. E um desabafo: não podiam ter arranjado um cartaz melhorzito, rapazes?]

Eric Rohmer (1920 – 2010) – anjos e hormonas

Em 1980, ano em que cursei funestamente o primeiro ano de direito em Coimbra, duas coisas salvaram-me: uma entrega total à leitura, que excluía apenas as sebentas, e o ter vivido ‘principescamente’ instalado num quarto com singular vista para nascente, acompanhando as colinas e a chegada do rio à cidade, na antiga sede do C.A.D.C. (à época Instituto Justiça e Paz), na cidade velha alta; era o Instituto liberal e calorosamente dirigido pelo P. Idalino Simões, que saudades. Numa das suas (dele) ideias peregrinas, cultivar os rapazes, o P. Idalino lembrou-se de organizar, na biblioteca, sessões de cinema à noite. Ficámos pelo Eric Rohmer, creio. E chegou. Não, não percebiamos nada da importância da “Nouvelle Vague“, nem tinhamos noção da importância das “Seis Fábulas Morais“. Mas vimos tudo o que pudemos. E discutíamos, por obra e graça do espírito santo discutíamos os filmes até à exaustão, valha-me deus. Discussão turvada, no meu caso, por um sentimento agudo e ambivalente: a dialéctica possível entre a a vertente metafísica e o subtil erotismo da coisa. Subtil? Pela palavra, pelos diálogos, muito em mim se acendeu, e não apenas na ordem do espírito. Uma terceiro factor salvou-me o ano, lá pela primavera. Digamos que vivi sob o signo de Rohmer: não foi pouca coisa, traduzida que foi em transcendentes passagens ao acto. Palavra de honra, aos 18 anos até os anjos nos sublevam as hormonas.


Al Berto – notas para o diário

“Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório («Horto de Incêndio»). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. “Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.”Al Berto

notas para o diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


AL BERTO, “Horto de Incêndio”, Lisboa: Assírio & Alvim, 3.ª Ed., Dezembro 2000. p. 38-39

fotografia de Paulo Nozolino (pormenor da imagem de capa de "Horto de Incêndio")

Horto de Incêndio (Entrevista a Al Berto)

Em Março de 1997, o editor Manuel Hermínio Monteiro entrevista o poeta Al Berto, a propósito da edição daquele que viria a ser o seu último livro de poemas originais publicado, Horto de Incêndio. O poeta faleceria em Julho desse ano.

Horto de Incêndio
(Entrevista a Al Berto)

Manuel Hermínio Monteiro

Esta curta entrevista, com um evidente carácter de urgência, foi feita como complemento do seu último livro Horto de Incêndio. Não esperava tanta brevidade nas respostas. Hoje, parece-me, faz todo o sentido. Como julgo natural que a grande maioria dos leitores de Al Berto sejam jovens que viam nele a intensidade chispante de um cantor rock deambulando pelas noites de Lisboa com uma disponibilidade de dialogo e de corpo inexcedíveis. Por isso se nos torna difícil ver uma Lisboa tardia sem a sua presença, o seu sorriso e as suas histórias envolventes. Sem os seus textos para os catálogos de artistas amigos. As inúmeras leituras públicas sempre repletas de gente jovem, que acorria para ouvir o homem a quem «crescera uma pérola no coração». Mas quem melhor o conhecia era o mar e os barcos que «faziam escala à sua porta».
Outubro de 1997

1 – Há bastante tempo que não publicavas e no entanto este livro, até pelo título, tem um carácter de urgência. Porquê?

Telegrama 1: Todos os meus livros tiveram sempre um carácter de urgência. Porque ao terminar um livro nunca tive a certeza que um outro se seguisse. Cada um deles está intrinsecamente ligado a um momento da minha vida. A vida e os livros acontecem… Stop.

2 – Há os poemas «inferno», «sida», «febre», «fantasma», «senhor da asma». É um livro triste, trágico quase apocalíptico?

Telegrama 2: Não podia ser de outra maneira. Veja-se os tempos que correm, tempos de manipulação e de enxertia, tempos de metamorfose maligna e hipocrisia. Já não há cidadãos, mas contribuintes – o que quer dizer que o corpo foi substituído por uma série de algarismos. Stop.

3 – A segunda parte, «Morte de Rimbaud» foi dito em voz alta no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Ao escreveres existe alguma vontade de que as tuas palavras sejam para ser ditas em voz alta?

Telegrama 3: Sempre defendi a oralidade. É uma tradição da poesia portuguesa. Não publico poemas sem os lerem voz alta muitas vezes. «Morte de Rimbaud» foi escrito propositadamente para o espectáculo Filhos de Rimbaud e para ser dito em voz alta. Tentei ser claro. Stop.

4 – Coloquiais e íntimos, poemas como pequenos segredos ou conversas afectivas. Esta tua poesia parece nascer da necessidade de uma confidência. A poesia é feita para todos?

Telegrama 4: Se calhar é porque toda a minha escrita é um dialogo comigo mesmo… Uma viagem em direcção ao silêncio. Não sei… Não. A poesia não é feita para ninguém em especial, mas uma vez publicada é para quem a lê. Talvez este livro seja um livro para ler também em voz alta. Stop.

5 – O que é que a tua vida deve à poesia?

Telegrama 5: A poesia tem-me levado ao despojamento daquilo que é lixo e me atrapalha a vida. Cada vez mais me parece que a poesia é a única linguagem capaz de atingir o rosto de um deus e feri-lo moralmente, nem que fosse por um milésimo de segundo. Stop.


In Hablar/Falar de Poesia, n.º 1, 1997

Al Berto

Só por hoje

Só deus nosso senhor, a Louise L. Hay, a Isabelle Fillozat, a senhora que escreveu o “Comer, orar, amar”, o Paulo Coelho ou a Margarida Rebelo Pinto sabem a estima que tenho pelos livros e pelos textos de “auto-ajuda”. São excelentes alternativas de entretenimento; não aquecem nem arrefecem, podendo embora fazer estragos no espírito dos crédulos. Mas não deixam de ser fantásticos meios de auto-ajuda para quem os escreveu.

E, contudo, veio parar-me às mãos uma pequena cartolina impressa em formato A6. Um texto breve, lapidado pelo tempo e pela experiência dos Alcoólicos Anónimos (A.A.), desde há décadas uma discreta comunidade de resgate de vidas, de mudança de paradigma e de comportamentos, um lugar de liberdade para aprender a lidar com uma doença de sentimentos e emoções. Através da partilha. O texto chama-se “Só por hoje”. Na simplicidade dura, na suavidade firme das palavras, poderia servir para reflexão de toda a gente. Toda a gente mesmo. Não como doutrina, credo, oração. Mas como uma perspectiva das possibilidades do humano, na sua ínfima, gigantesca condição.

Pronto, podem chamar-me corny.

Ilustração de Danuta Wojciechowska para "O menino eterno", José Jorge Letria, Porto, Âmbar, 2002. (d.r.)

Só por hoje

Só por hoje, vou procurar viver unicamente o dia presente, sem tentar resolver de uma vez só todos os problemas da minha vida. Durante doze horas posso fazer qualquer coisa que me assustaria se eu pensasse que tinha de a fazer por uma vida inteira.

Só por hoje vou estar feliz. A maior parte das pessoas é tão feliz quanto se dispõe a sê-lo.

Só por hoje vou tentar ajustar-me à realidade e não tentar adaptar tudo aos meus desejos. Vou aceitar a minha «sorte» como ela vier e vou moldar-me a ela.

Só por hoje, vou tentar fortalecer o meu espírito. Estudarei e vou aprender alguma coisa útil. Não vou manter o meu espírito ocioso. Vou ler alguma coisa que exija esforço, pensamento e concentração.

Só por hoje, vou exercitar a minha alma de três maneiras: vou fazer um favor a alguém sem que se note e, se alguém se aperceber disso, esse facto não conta. Vou fazer pelo menos duas coisas que não me apetece – só por exercício. Não vou mostrar a ninguém os meus sentimentos de dor. Poderei estar magoado mas não revelarei a minha dor.

Só por hoje, vou ser agradável. Vou apresentar-me aos outros da melhor maneira possível: vou vestir-me bem, falar baixo, agir delicadamente, não farei críticas, não vou ter nada de negativo que dizer aos outros, não vou tentar melhorar  nem controlar ninguém, excepto a mim próprio.

Só por hoje vou ter um programa. Pode ser que eu o não siga a rigor, mas vou tentar. Vou evitar duas pragas: a pressa e a indecisão.

Só por hoje, vou ter meia hora tranquila só para mim, e descansar. Durante esta meia hora, num determinado momento, vou procurar ter uma melhor perspectiva da minha vida.

Só por hoje, não vou ter medo. Muito em especial não vou ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.

(sublinhado meu)

Beatriz Hierro Lopes – “n.º 82”

[declaração de interesses: conheço pessoalmente a autora, sendo a estima que lhe tenho factor a considerar no que escrevo]

A produção escrita de Beatriz Hierro Lopes (Porto, 1985), embora recente e particularmente oculta (apenas publicada nos três primeiros números da revista criatura), organiza-se formalmente em pequenos textos narrativos que, não sendo fragmentos, ganharão muito com uma leitura sequencial, que pode em parte ser feita no blogue Klein, onde a autora edita alguma da sua melhor escrita. Tal leitura em sequência dos textos de B.H.L. terá duas linhas de interesse: desde logo a percepção de uma evolução evidente das competências de escrita, do alargamento do leque das suas ferramentas e da concomitante evolução para uma textualidade mais fluida e segura; mas também importa o jogo comparativo, no qual se pode identificar uma capacidade imagética de grande fôlego (associada a uma imaginação vibrante, o que não é a mesma coisa) que é evidente nestas narrativas, histórias que, partindo muitas vezes do episódico, do regresso de um passado clivado, quebrado, ascendem ao território da memória nostálgica, de uma aceitação do agora como uma inevitabilidade apenas aparentemente indiferente; nesta aparência tem origem a carga dramática dos textos de B.H.L., ainda mais acentuada pela personificação dos lugares, dos objectos, dos momentos, mesmo das cores ou das luzes, elementos que se instauram como personagens geradoras de uma incessante necessidade de apaziguamento. De perpétua insatisfação, portanto. Textos de fronteira entre a prosa, a prosa poética, a dramaturgia. Bons textos, de uma escritora que tem voz própria; e que, com ela, irá alcandorar-se a plano singular nos tempos mais próximos. Se não estou enganado.

B&W © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online (d.r.)

n.º 82

Perseguia a silhueta de ruas pouco conhecidas. À procura daquela rua em particular: a rua que reflectia o rosto das palavras e o paladar adocicado das histórias que ela ouvira um dia. Há muitos anos. Presa entre a estreiteza de todas as ruas que a separavam da Rua em que nunca vivera. Seria, talvez estranho o seu desejo de retornar a uma rua que nunca fora sua. Mas ela crescera assim: alimentada pelo açúcar escondido nas palavras sibiladas ao seu ouvido, pela sua mãe.

Todas as histórias de que se lembra – e lembrava-se, também, da textura empoeirada dos tapetes sobre os quais se deitava, apoiando o rosto entre as mãos. atenta ao som das frases – que se precipitavam, atropelavam, matavam, na pressa com que atingiam o ponto culminante da narrativa. Aí chegadas, calavam-se. Consoladas, entreolhavam-se as palavras, ao deleitarem-se com o vazio silencioso que entre elas se erguia para revelar o propósito obscuro da história – começavam na Rua. Só depois se adivinhavam as paredes da Casa.

Era assim na Rua da Picaria. Uma rua que não é especialmente bonita. Uma rua embrenhada numa luminosidade que apenas é visível à noite, quando as janelas embaciadas respiram o calor que se liberta de dentro delas. Nessa rua, as casas não são casas: são pessoas. E as pessoas são casas vazias que o tempo se esqueceu de demolir. Todo o comércio da rua respeitava a solenidade da mesma. Vendiam-se móveis. Estantes de carvalho, sólidas o suficiente para suportarem o peso incalculável das bibliotecas particulares; camas de casal, camas de criança, berços de bebés, suaves como a mão que, ao embalar a vida, concede-lhe o peso do fim; mesas grandes, mesas pequenas, para albergar famílias inteiras ou pequenas confissões sussurradas entre o ouvido da empregada e a boca da senhora; secretárias de tampos largos, que sustentariam o peso dos cotovelos de quem, ocasionalmente, fosse privado do sono.

Era à noite que ela perseguia a rua. Atravessando todas as vias estreitas que a distanciavam dela. O som da sua passagem pelas ruas sem nome, era idêntico ao som aguçado de uma faca prestes a enterrar a vida. Rápida. Velozes, os seus passos matavam a longitude das ruas. Deixava os cadáveres – alguns ainda quentes – para trás, na sede assassina com que escalava uma nova rua; acreditando sempre que aquela seria a última. A última baixa nessa guerra que é retornar à Casa. Voltar ao princípio que se erguia ainda antes, do seu nascimento.

Não conhecia a casa. Nunca entrara dentro dela. Nunca sentira o frio gélido das paredes de granito do hall de entrada; nunca correra pela escadaria que conduzia os seus habitantes a cada um dos quatro andares; nunca tocara no veludo azul da sala de piano ou se perdera no salão vermelho, onde todos os sofás eram um convite ao silêncio; nunca, mas, nunca, se sentara à secretária do velho Senhor, que morrera sem aviso prévio. Nunca brincara com o sinete que ele deixara sob o tampo daquela mesa e que hoje repousa sobre o tampo da sua secretária. De pinho, demasiado frágil para suster o peso dos cotovelos dela, em noites de insónia.

Mas aquela casa, que nunca viria a conhecer, pertencia-lhe. Era sua por direito de sucessão emocional. Herdara-lhe as memórias. Fizera suas, cada uma das lágrimas, cada um dos sorrisos, cada surto de felicidade e dor, que nela se protegiam das intempéries do tempo. Não é disso que são feitas as paredes? Seriam suas, então. Despidas de recordações, as paredes nunca seria capazes de suportar o peso daquela casa. A casa que, no n.º 82. se abre ao mundo que a espreita do Largo de Montpellier – serena, da cor do sol quando se abate sobre o horizonte marítimo.

A Casa n.º 82 da Rua da Picaria tem a cor de uma mulher. Uma Mulher como jamais deveria ter existido. Uma mulher cujos cabelos não eram da cor do ouro – eram antes, negros como a penugem dos corvos ao anunciarem um mau presságio –; cujos olhos, nada deviam à translucidez desse Atlântico tão português – eram antes, de um castanho lamacento que recordava o cansaço das terras outrora férteis em países distantes –; cuja boca não era espessa como os lábios das mulheres que, em si, escondem uma promessa de vida – eram antes, firmes e tensos, como as bocas femininas cansadas de reproduzirem em palavras o vendaval que lhes assola o espírito. E, no entanto, era ela, a Dourada.

O centro secreto de toda aquela imensa rede que, à sua volta, crescia. Velha. Terrivelmente velha. Esta seria a sua última imagem: cinco crianças ao redor da sua cama; sufocadas pelo ruído da sua morte – sim, a morte é um grito de revolta contra a respiração do corpo – perplexas com a possibilidade da sua não-existência.

Muitos anos depois, era a sua vez de, do outro lado da rua, contemplar a Dourada. Alta. Altíssima. Como o são as casas que se fundem na intimidade das mulheres. Sabia que haviam destruído o miolo da casa. Que não haveria nenhum vestígio da escadaria em madeira. Que o hall de granito se convertera em matéria humana, fria, ignóbil, funcional. Sim. Tornara-se numa casa funcional. Quatro ou cinco escritórios de advogados povoavam-na. Instalaram-se ali como parasitas. Era, talvez, a modernidade que expatriava as histórias que aquelas paredes ainda guardavam.

Sentou-se na soleira da porta. Quieta, fumando um cigarro. Imaginando como seria bom tocar à campainha e ser acolhida pelas paredes daquela casa. Aceitar num único gesto a herança das dores hereditárias que lhe corrompiam o espírito: tão novo e tão velho. Que existir seja a soma de tudo o que antes de nós outros foram, era-lhe compreensível. Incompreensível era a impotência. O não poder retornar ao que, antes dela, era já o seu início.

Vivera o primeiro riso ali – Seria bom voltar a ele. Seria terrivelmente bom, retornar à gargalhada primordial – vivera ali, também, o peso da primeira morte. Uma morte que se funde no seu reflexo todas as manhãs. Enquanto penteia o seu cabelo asa de corvo; enquanto pinta os seus olhos feitos a partir de punhados de terra; ou passa os dedos pelos lábios cansados de pensar.

Tudo seria assim: restar-lhe-ia uma casa adulterada, vazia, cujas paredes mantinham ainda o clarão das palavras há muito ditas. Restar-lhe-ia a Casa onde nunca poderia entrar. Soube-o aí. Soube que há demasiadas casas no seu sangue que nunca voltariam a ver a luz do dia. Soube que ela seria sempre a memória de uma Casa vazia.

Soube. E, aceitou-o.

No fim de contas, teria sempre a Rua. E o seu lugar vigilante à soleira de uma porta.

Lopes, Beatriz Hierro (texto inédito)

Máscaras © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

Rosa Maria Martelo – A Porta de Duchamp

Editado pela Averno, infatigável oficina editorial que, pelo labor de Manuel de Freitas, tem proporcionado, com persistente rigor, alguma da melhor poesia contemporânea, acaba de sair, no final de 2009, A Porta de Duchamp, de Rosa Maria Martelo. O livro reúne pequenos textos em prosa, forma que se vai generalizando em cada vez mais autores, sem que daí venha mal ao mundo, parece que sedento de “romances” de fundo. Mas basta ler A Porta de Duchamp para notar que, pelo rigor formal desta escrita de amadurecida capacidade narrativa (por vezes com alguns traços de pendor quase ensaístico), na sua discreta revisitação aos territórios da arte, no incisivo apontamento intimista (como no belíssimo “fragmento” Sombras), nos desfazermos facilmente da noção, possivelmente estimulada pela instâncias da crítica e encorajada pelos departamentos de marketing, de que apenas prosa de largo calado alcança valor literário. Leia-se o primeiro texto do livro. Nele se condensa, no seu diálogo com a obra de Marcel Duchamp, a partir de um “episódio” ficcionado com mestria, mais prazer de leitura que muitos romances que inundam as montras pelo natal.

A PORTA DE DUCHAMP

Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rue Larrey, n.º II, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar nem aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo. Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta, como alguém disse acontecer com os livros) e que descolava da sua função de porta, como a palavra porta descola de qualquer porta se a dissermos duas vezes: uma porta-porta. A dele rodando entre dois umbrais e, por isso, incapaz de preencher um vazio sem abrir outro vazio. Duchamp tinha-a colocado ali para não esquecer que há em tudo uma parte de nada, um vão impossível de preencher sem que logo se abra outro mesmo ao lado. Mas desde então dormia mal, por causa dos gritos dessa porta, ao mesmo tempo concreta e abstracta, deslocada e infeliz como uma alegoria sem propósito. E quando não conseguia dormir, e se levantava às escuras para ir beber um copo de água, acontecia-lhe hesitar diante da sua invenção: «aberta, fechada?». Nessas alturas, se via que Duchamp ia enganar-se outra vez, a porta-porta mudava de posição e empurrava-o docemente para o lado do vazio. Além de gritar e ser didáctica, que mais pode uma porta para se fazer entender? Duchamp desaparecia então no fundo escuro da cozinha, e sempre dava consigo a pensar sem saber muito bem porquê que, talvez por estarem tão cheios de nada, os gritos da sua porta-porta lhe faziam afinal fraternamente companhia. Depois, no regresso ao quarto, hesitava novamente – «aberta, fechada?» – mas, com os braços um pouco adiante do rosto, atravessava agora o vazio a passos mais decididos.

MARTELO, Rosa Maria, “A Porta de Duchamp”, Lisboa: Averno, 2009. p. 7-8.

Marcel Duchamp, "The Bride Stripped Bare by her Bachelors, Even"