As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Outubro, 2010

“Morreste-me”

 

 

Socialmente a morte tem vindo a ser, no Ocidente, progressivamente escondida como acontecimento maior na experiência humana, ocorrência perante a qual se estruturam e organizam os comportamentos, os laços, a construção identitária, emocional, social; o confronto (encontro) espiritual que habitará em cada um. Por iniciativa da Pastoral da Cultura da diocese do Porto publicou-se e começou a ser distribuída hoje uma brochura com o título em epígrafe, que pretende, segundo Joaquim Azevedo, director do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, “ser um instrumento útil para cada pessoa promover a desocultação da morte e do seu sentido, nas suas vidas quotidianas”. Uma boa apresentação desta publicação pode ser encontrada aqui, mas realça-se o conteúdo, com cinco textos da autoria de António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico e três poemas, de Daniel Faria, Fernando Echevarría e José Tolentino Mendonça. Deste último, aqui se deixa, por já estar acessível online, o poema «Ilha dos Mortos».

 

Ilha dos Mortos

Enquanto iluminas a entrada do rio
o cobre emudece dinastias sem número
por degraus desiguais os mineiros,
os artesãos, as lavadeiras
lutam pela perfeição, lutam por Deus
em galerias remotas
as armas de caça vencidas
por ramos e arados

nenhuma morte é tão longa quanto a vida
diria quem pela primeira vez
visse debaixo de árvores sombrias
o sítio do mar, a porta das constelações
cem espantos possíveis
e no espanto uma esperança

o loureiro assinala a todos sua ciência negligenciada
címbalos, manuscritos e coroas
atiradas para o chão como vestimenta da batalha
insígnias do nosso posto de estrela em estrela

dão-nos sem nós pedirmos
ouvimos até sem querer
acima das arestas sombrias
a noite clara e os bosques

 

José Tolentino de Mendonça, in «Morreste-me», publicação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura do Porto, 2010

 

«The Isle of the Dead» (“Basel” version) 1880, Arnold Boecklin

(clique para ampliar)

 

Lígia Reyes – Campanhã

 

 

Ainda sem obra publicada, com uma produção poética algo irregular na sua continuidade e formalização, Lígia Reyes (1990) é capaz de surpreendente maturidade poética, presente em poemas como este.

 

Campanhã

Doeu-me Campanhã nos ossos todos;
A minha sopa a arrefecer, só me apeteceu
Apanhar o combóio de volta a casa,
Mas quando cheguei só me lembrei
Que não comi tudo até ao fim.
Recordei um poema que escrevi

E até esse ficou incompleto.

Só gostava de te encontrar
Porque me dizias que poderia ser a melhor,
Poderia ser tanto,
Até a madrugada me ficou entalada na garganta:
O sol nasceu e os teus olhos eram esverdeados como os meus.

Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.


«Converse for the train», Hamovi3 © Hamovi3 (D.R.)

Lígia Reyes, via o blogue Parafilias, com autorização da autora.

Nuno Brito – Ode que ferve

 

 

Ode que ferve

………………………………………………………………………………….

Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea
à noite com muitos pirilampos acesos:
fervem e cruzam-se todas as linhas –
uma pirâmide de olhares cruzados em fogo,
muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,
linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade
e caio rotundo para o chão –
sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o
Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro (Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a
Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –
O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos túneis, contigo em cada esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pulsos – a injectar o sol líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo – Sinto o calor de todos os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca, quando te abraço faço um pacto com a Vida
A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futuristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados
estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos operários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos a tua boca os teus dentes os teus pulsos os teus medos as tuas inseguranças as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos deste Verão – continuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro
Vejo por trás de ti
Por trás de nós
Por dentro de nós,
a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve
a noite láctea que te atravessa o peito de Calor
Ode que ferve e liga pelo skype,
nado por ti adentro

Nuno Brito, via o blogue Descoiso, com autorização do autor.


Ana Paula Inácio – amanhã vou comprar umas calças vermelhas

 

Tendo iniciado o seu percurso poético em 2000, a obra da autora encontra-se em dois livros de poemas e um de contos (além de representada em algumas antologias e com trabalhos publicados na revista «Telhados de Vidro» n.º 9, n.º 11). Obra breve, espera-se que não terminada.

amanhã vou comprar umas calças vermelhas

porque não tenho rigorosamente nada a perder:

contei, um a um, todos os degraus

sei quantas voltas dei à chave,

sublinhei as frases importantes,

aparei os cedros,

fechei em código toda a escrita.


Amanhã comprarei calças vermelhas

fixarei o calendário agrícola

afiarei as facas

ensaiarei um número

abrirei o livro na mesma página

descobrirei alguma pista.

Inácio, Ana Paula, Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto: Ilhas, 2000

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Ligações Relacionadas:

Instituto Camões

Insónia (blogue de Henrique Manuel Bento Fialho)


Irene Lisboa – Chuvoso maio!

Chuvoso maio!


Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade …
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

 

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa…
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa…
e sempre assim!

 

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água…

 

LISBOA, Irene, org. pref. de Paula Morão – Poesia I, Um dia e outro dia…outono havias de vir. 1ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1991. (Obras de Irene Lisboa, 1), p. 191- 192

 

 

«Tears and Rain», kyokosphotos © kyokosphotos, via Deviantart (D.R.)

António Lobo Antunes – As crónicas na “Visão”

 

As crónicas de António Lobo Antunes são seguramente as mais belas publicadas na imprensa em Portugal. E não o são apenas pelo seu carácter “literário”; bastaria, claro, o ofício e a mão do autor para colocar estes textos num plano singular, sem paralelo naquele que se convencionou designar como o género «crónica». Mas, ao partir de pequeníssimas cenas quotidianas, pessoas vulgaríssimas, gestos sem consequência aparente, acontecimentos desprovidos de interesse visível,  António Lobo Antunes constrói ‘frescos’ de uma realidade que nos passa todos os dias perante os olhos, vista nestes textos com fulgurante lucidez, num olhar apenas na aparência desemocionalizado e irónico – e aí está a marca distintiva do dispositivo textual – mas ensopada de ternura, algo perto da proximidade cúmplice com o outro que se torna, de alguma forma, um outro ‘eu’. O estilo (um estilo Lobo Antunes aplicado à crónica) atinge aqui uma dimensão funcional implacável: porque é ele que, na casualidade breve da frase, na informalidade desenvoltíssima e colorida de cada diálogo, na deslocação do objecto, na evocação da memória ainda que por episódios, reminiscências, quase traços, na repetição utilizada como modo de revelação, elabora fortíssimos quadros de uma pessoa, de um rua, de uma cidade. Do mundo todo, ou de tudo isto junto.

Aqui se deixa (com a devida vénia e à laia de publicidade) a crónica que, em 7 de Outubro, António Lobo Antunes publicou na revista “Visão”. Uma iluminadora leitura das «gengivas desmobiladas» de todos nós.

 

O Cabo Ferrador

Duzentos euros por mês não dão para muita coisa: uma sopinha e uma maçã ao almoço, uma sopinha e uma maçã ao jantar. Nos intervalos pede-me cigarros

– Não há por aí um cigarrinho a mais, doutor?

ou senta-se nas esplanadas até o mandarem embora, tratando-o por tu

– Põe-te a andar

e ele lá segue para o café próximo a arrastar um sapato sem atacadores. Não aceita esmolas, não aceita dinheiro, só pede cigarros aos amigos

– Só peço cigarros aos amigos

de acordo com o seu código aristocrático de miséria. Quando quis oferecer-lhe uma camisola recusou ultrajado

– Sou algum infeliz, eu?

e levou uma semana a perdoar a minha incompreensão da sua dignidade Você pode ser doutor e escrever livros mas não percebe nada da vida e tem razão, não percebo nada da vida. O seu maior orgulho é ter feito a tropa em Chaves

– Em Chaves, senhor

e eu, que nunca fui a Chaves, esmagado de respeito por Chaves pela maneira como ele fala

– Quem não conhece Chaves conhece pouco do mundo

e tem razão outra vez, conheço pouco do mundo. Pergunto-lhe

– Como é Chaves, senhor Ismael?

e em vez de resposta olha-me, durante uma eternidade, com pena sincera, até erguer ao alto, por fim, a mão de unhas duvidosas, unidas em cacho para dar ênfase à maravilha da cidade. A mão acaba por descer a fim de aceitar um cigarro

(um cigarrinho)

e o senhor Ismael a estender-se para a labaredazita do isqueiro

– Tem montanhas perto

e o

– Tem montanhas perto

deixado cair como uma moeda fora da circulação, pequena condescendência a um ignorante que não merece que se gaste tempo em explicações. Depois de tossir o fumo acrescenta

– E outras coisas

submerso em inesquecíveis lembranças militares, paisagísticas, amorosas

– Gajas boas não faltam

gajas boas a inundarem, só para ele, as ruas de Chaves, sorrindo-lhe, piscando-lhe o olho, chamando-o num sussurro prometedor

– Ismael

e o senhor Ismael, é claro, a dar conta do recado

– Sempre dei conta do recado, doutor fossem dez, vinte ou cinquenta

– Pelos ossos da minha irmã que está na cova que aviei seis numa tarde

sem tirar o bivaque de magala

– Mostre-me uma mulher que não goste de fardas

as mulheres e o senhor Ismael gostavam de fardas, puxou de uma espécie de carteira que, com o tempo, adquiriu a forma da sua nádega, na carteira o retrato seboso de um soldado

– Soldado vírgula, amigo, cabo ferrador

o retrato de um cabo ferrador, cheio de infância na cara mas inigualável a aviar, em que levei tempo a descobrir a criatura de agora, já sem infância nenhuma na cara, pregas, cicatrizes, a pele a lembrar-me o mapa de Portugal da minha escola, com uma cagadela de mosca no Alentejo e uma segunda mesmo ao lado de Faro, nas feições do senhor Ismael também os pontos negros das cidades, rugas iguais ao Guadiana e ao Douro, a ponta de Sagres do queixo, o estuário do Tejo da boca e, a propósito de boca

– Não se arranja um bagacinho que tenho a língua seca

mostrando-ma a sair das gengivas desmobiladas, guardando-a de novo

– Sequíssima

pronta à lubrificação do bagaço, metido na goela de uma só vez, à homem

– Quem não mete o bagaço de uma só golada não é homem nem é nada

seguido de soluços e lágrimas afastadas com desprezo pela manga

– A gente envelhece

e no meio das lágrimas do bagaço uma lágrima diferente, que ele percebeu que eu notei dado que

– Isto passa

de súbito quase menino, quase aflito, quase a abraçar-me, o retrato do magala por uma pena, cheio de infância na cara. Disse

– Doutor

repetiu

– Doutor e ficámos os dois que tempos em silêncio porque na realidade o

– Doutor

um discurso compridíssimo, com todas as suas desgraças dentro. Passado um grande bocado acrescentou

– Tenho dormido num degrau, sabia?

levantou-se da cadeira e foi-se embora, aposto que sem pensar em Chaves, nos montes, nas gajas, todo inteiro no interior de uma incomodidade com picos que o atormentavam, o filho morto em criança, a mulher ida com um caixeiro viajante, os duzentos euros, a sopinha. Mas havia de acabar por animar-se

– Isto já passa amigo

porque não há azares que um cabo ferrador como deve ser não aguente, em sentido para o toque a silêncio, que nos mexe a todos por dentro e é o mais bonito que existe.

 

António Lobo Antunes, revista Visão, 07 de Outubro de 2010

 

«Razão Forte», Stuart de Carvalhais (ficheiro online encontrado no blogue "Dias que Voam")

A. M. Pires Cabral – O Triunfo dos Insectos

 

 

 

O TRIUNFO DOS INSECTOS

Nem todos os insectos atingirão Novembro.
Em Dezembro se verá ainda alguma asa
tentando seu tardio, resignado
golpe de breve alcance, e acaso na cortina
sobreviverá algum retardatário
menos exposto ao clima. E Janeiro
mal guardará memória da vida pequenina,
tenaz e resistente ao calendário,
por fêmeas diligentes algures depositada.

Terei eu, entretanto, resistido ao frio,
talvez escarnecido a morte intercalar
de tanto corpo humilde
dado ao rio.

Mas quando Maio enfim rufar o seu tambor,
soprar o seu clarim,
as asas engelhadas se desenrugarão,
o céu será pequeno, as flores escassas.
E os insectos vis triunfarão
dos gelos e de mim,
minhas desgraças.

Que são sessenta anos
mais do que um ano só?
Que é uma semana
mais que um dia?

Só que nenhum insecto se agonia
das crises do inverno – enquanto eu
manejo estas palavras de esconjuro,
estes laboriosos dialectos,
e a face não escondo, que não posso,
do rosto violento
do grande inverno duro
que está por vir por via dos insectos.

Cabral, A. M. Pires, O Livro dos Lugares e Outros Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006

«Housefly», Josgoh © Josgoh. via Deviantart (D.R.)

Inês Lourenço – Há coisas que nunca

 

 

Há coisas que nunca
tivemos em crianças e perdem
o valor para sempre. Aquele sempre
dos primeiros dez anos, onde o tempo,
as pessoas, as coisas
parecem enormes e indestrutíveis.

Disfarçar-se de relâmpago
ou de outras coisas impossíveis, comer
todos os chocolates, ter uma bicicleta igual
à do estúpido do vizinho, fazer
as coisas que os adultos escondem
atrás da porta dos quartos, retribuir
a bofetada aos nossos
legítimos superiores, querer
morder com justa causa
tanta gente no mundo e
só poder no escuro
morder uma almofada.

Lourenço, Inês Coisas que Nunca, Lisboa: & etc. 2010.

 

«I'm Still a Child», Ben Heine © Ben Heine, via Deviantart (D.R.)

 

Ligações Relacionadas:

sobre Inês Lourenço (com alguns poemas anteriores ao livro Coisas que nunca)

outra ligação de interesse

uma leitura crítica do livro por H. G. Cancela

 

Nota: recomendo muito a compra do livro, pelo seu mérito, pela editora, pela autora; aconselho o que ainda não fiz; tendo lido diversos poemas dispersos online e gostando particularmente deste, trouxe-o do muito belo There’s Only 1 Alice. E comprarei, sim.

Herberto Helder – O Poema/I

 

Ainda as escolhas de Maria Alzira Seixo (em os poemas da minha vida). O poema de Herberto Helder e o breve comentário aposto ao mesmo.

 

O POEMA/I


Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silêncio

— a hora teatral da posse.


E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único, invade as casas deitadas nas noites

e as luzes e as trevas em volta da mesa

e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

— em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.


— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

 

 

Head of J. M. II © Frank Auerbach (D.R.)

 

(nota de leitura de Maria Alzira Seixo)

[Com Herberto aprendemos sempre que o poema é, em termos de linguagem, construção e objecto, e damos conta do seu incomensurável poder. Só a ele ficarão incólumes os analfabetos, e é da responsabilidade de todos que eles deixem de existir, por este meio também.] – Maria Alzira Seixo.

Ligações Relacionadas:

sobre Herberto Helder

sobre Herberto Helder (em língua inglesa)

sobre o poema

Daniel Faria – Ando um pouco acima do chão

 

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003

«Above it all», shueshine © shueshine, via Deviantart (D.R.)

 

Ligações Relacionadas:

Daniel Faria

Beatriz Hierro Lopes – Jardim de São Lázaro

(texto inédito)

O que fazemos aqui, todas as horas paradas, tu olhando a superfície da água, eu a estátua de quando os meus pés, no colo de minha mãe, não me chegavam para tocar o chão de mármore, o que fazemos aqui? E talvez nunca tenhamos feito nada, talvez não façamos nada, já viste como o mármore escureceu com os anos? De tantos pés a ser pisada, mármore cinza como os dedos que trocam de jornais, dá-me metade, peço-te, os meus dedos caminhando lentos sobre as dobras das páginas sujando-se de letras e, não percebo, que nunca percebi bem as letras e a visão do branco que se abre no fim delas, no centro delas, elas negras manchando o branco e o branco sem se esquecer que é branco espreitando por entre as grades. Cinza como os meus dedos, que guarda as memórias deste mármore. Que o sujo com os meus passos de quando ainda era menos do que o colo de minha mãe, tu à minha frente, que ando devagar, eu pedindo-te ensinando-te a curvatura imperfeita que os meus passos criam ao tocarem o chão, dizendo-te, – anda lento, e o lento, um pouco como o vento que sopra lamentos sobre o lago que vês. No centro da água, emergindo de um só trago, os braços o rosto, a nadadora de branco, petrificada desde o colo de minha mãe, e o que vês (sem saberes) são todos os anos que juntei para que pudesse estar aqui, neste banco vermelho de jardim, pedindo-te metade de um jornal que não é meu.

Do coreto em que nunca entrei, por não ser daquele coreto as brincadeiras de infância, só as escadas, eu sentada nas escadas, imaginando depois do colo de minha mãe, que a porta que dava acesso à cave debaixo do coreto se abria e que dela saíam as raízes de todas as árvores, porque as raízes das árvores têm nome e têm corpo, e era com elas que falava quando ainda era só eu e não existia mais ninguém para lá do fim dos meus pés. Dava-lhes voz e cores, que o sangue de cada árvore é diferente, e existiam as verdes as azuis as amarelas, com sabores de gelado e de fim-de-tarde de Agosto de quando o meu pai não trabalhava e me ensinava a andar de bicicleta. Mais tarde, eu tropeçando, a bicicleta que era branca como mármore sujando-se de terra porque as raízes das árvores, expondo as mãos ao sol como fios de cabelos agarrando-me os tornozelos, não gostaram que eu me esquecesse das escadas do coreto. Que agora, vendo bem, me parecem demasiado pequenas para as minhas pernas para os meus pés e a guarda que o fecha, pintada de verde, que por eu ter pernas longas e pés grandes poderia saltar e brincar no coreto, mas as brincadeiras as árvores estão mudas, que na minha cabeça já não existem árvores nem colo de mãe ou bicicleta cor de mármore. Só esta ideia estranha de que a minha estátua, busto de homem, se parece com uma lápide funerária. Não há aqui mortos, embora os haja debaixo do jardim, nesta terra que antes de ser terra de jardim foi cemitério de cidade. Talvez nas raízes das árvores cabelos mortos de mulheres feias, não mães que as mães só colo e cabelo castanho quase dourado e, quem sabe, talvez fossem elas fazendo-me tropeçar de bicicleta, os joelhos raspando na terra, manchando-a de vermelho que sou vermelho como os bancos deste jardim, onde nem o meu pai nem a minha mãe liam jornais, e não havia dedos cinzentos nem meninas de horas caladas presas ao lamento das águas.

Talvez só estejamos aqui para eu te mostrar de que cor é a cor do branco das páginas que se fecham na minha mão.

 

Beatriz Hierro Lopes, Outubro de 2010

 

 

«Out in the garden», Ailera Stone © Ailera Stone, via Deviantart (D.R.)

 

Rui Pires Cabral – A Nossa Vez



A NOSSA VEZ


É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez.

Cabral, Rui Pires, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

«Not Quite There», Bogdan Stefanescu © Bogdan Stefanescu, via Deviantart (D.R.)

António Ramos Rosa – Mediadora do Vento


Mediadora do Vento


Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.

Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.

Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.

Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.

Rosa, António Ramos, As Mediadoras, Lisboa: Ulmeiro, 1985

«she dreamt of flying», christine day lorico © christine day lorico, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)