As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Novembro, 2011

Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

José Gil — Portugal, Hoje – O Medo de Existir (excerto)

“Entre as penas humanas, a mais dolorosa é a de prever muitas coisas e não poder fazer nada.” — Heródoto (1)

«É a Vida!» — José Rodrigues dos Santos (2)

Como convém televiver

«É a vida.» Esta frase com que o apresentador da RTP termina amiúde o Jornal da Noite dá o tema do ambiente mental em que vivemos. «Dar o tom» significa muito mais que «sugerir» ou «indicar» uma direcção de leitura. Na realidade, constitui por si só toda uma «visão do mundo» e, mais importante, toda uma visão de nós mesmos, da nossa vida enquanto (tele)espectadores do mundo.

Depois de assistirmos às notícias sobre raptos, assassinatos, acidentes de viação, mortos palestinianos e israelitas, descobertas de centenas de vítimas taliban asfixiadas em contentores no Afeganistão, surge uma notícia que, como uma luz divina, redime todo o mal espalhado pela Terra: nasceu um bebé panda no Zoo de Pequim! O apresentador sorri largamente, pisca mesmo um olho cúmplice aos telespectadores. Depois das imagens de futebol, remata enfim, com um tom sábio: «É a vida!»

É a vida, pois. Que mais quereis? É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei a vossa com paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece e, no entanto, estou eu aqui para vo-lo mostrar inteiro, o mundo, ide, ide às vossas preocupações que a vida continua.

Com este tom destinado a sossegar os espíritos, o apresentador envia-nos várias mensagens bem precisas: 1. A vida é uma mistura de bem e de mal, o homem está entre a besta e o anjo, e isso constitui a essência do mundo, que foi, é, e será sempre feito dessa mesma massa; 2. A frase impõe uma norma: eis o que se pode, e portanto, deve pensar do que acabámos de ver em todo o planeta. Norma metafísico-moral, ou melhor, norma ligeiramente eivada de metafísica que assim recolhe e reúne num só, todo o tipo de reflexões pensamentos que as imagens televisivas suscitariam. É, pois, uma norma para o pensamento: diz-nos como e o que pensar do mundo: e segundo a maneira de pensar, pensamo-nos também a nós face ao mundo, mas como se estivéssemos dentro dele, como sua parte integrante. Cria-se aqui uma pequena transcendência, imperceptível mas indelével, que constitui o efeito profundo do imperativo metafísico-moral: o telespectador é colocado dentro do mundo mas ao mesmo tempo acima dele, como se o vivesse não o vivendo. «É a vida», a nossa, a de todos, aquela que vivemos — e, no entanto, a vida é um espectáculo de imagens a que vós acabais de assistir. De fora, porque ele está fora de nós.

Estamos fora da vida, dentro dela: «é a vida!…» É esta mistura confusa de transcendência-imanência da nossa vida à Vida que provoca um nevoeiro no espírito.

Um terceiro aspecto parece não menos importante: 3. A norma neutraliza quaisquer veleidades de um discurso que se desvie deste bom senso que ela irrecusavelmente revela. A norma impõe limites imperceptíveis (porque internos) ao pensamento e, certamente também, à acção. Tudo o que vimos, a barbárie, o excesso, a crueldade mais insuportável são compensados, reequilibrados pelo sorriso, e o golpe do panda: é o que nos diz o metadiscurso final (a frase) do apresentador. Ou seja, aquilo, o crime e o sangue, não é a vida ainda; só começa a pertencer à sua esfera com o surgimento do bebé panda.

Inocula-se assim, no seio das imagens, uma outra dose de nevoeiro: o que vistes não é o que vistes, mas o que só agora estais a ver, que é o que vistes menos o que julgastes ver porque o bebé panda vo-lo retirou.

(…)

Gil, José,  Portugal, Hoje O Medo de Existir, (5.ª edição), Lisboa: Relógio D’Água Editores, Março 2005, pp. 7 – 9

«watching», droem © droem, via Deviantart (D. R.)

(1) — citação escolhida pelo autor do blogue, num gesto de diletantismo puro; visto que gosta muito deste excerto mas não preza particularmente filósofos franceses contemporâneos, não resistiu a uma pequena bicada.

(2) — José Gil não se presta a baixezas, mas é de José Rodrigues dos Santos a autoria da frase que constitui o leitmotiv do início do livro, feliz coincidência que aproxima manifestamente este post da grande literatura.

«Hard Times» rather than «Great Expectations»

Parece que banca europeia está descapitalizada, logo a economia fica sem crédito, logo descapitalizada. E não pode ser! Então a economia terá de recapitalizar a banca, descapitalizando-se. Uma quadratura do círculo? Não, há uma saída maravilhosa: milhões empobrecerão para salvar os seus salvadores. Esquerdismo radical? Leio a memória de Dickens e escolho: «Hard Times» rather than «Great Expectations».

«Hard Times», BBC Learning Zone (2011)