As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Abril, 2010

Homenagem a Will Eisner – (1917 – 2005) – II


“A mim ninguém me dá ordens, a não ser os meus accionistas… e a minha mulher”
– Nuno Vasconcelos, presidente da Ongoing e administrador da Portugal Telecom, na incontornável comissão parlamentar de inquérito. Sim, estive de novo a ver a coisa meia-hora, um tipo só é parvo quando não aprende com os erros. É o caso.

"Eu cá sou accionista"

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Homenagem a Will Eisner – (1917 – 2005)

Depois de ter passado hoje uma hora (palavra de honra) a ver/ouvir as audiências da comissão parlamentar de inquérito ao negócio PT/TVI.

"A River of Crime" - Will Eisner, 1947 (d.r.)

[clique para ampliar]

Hugo Milhanas Machado – Entre o Malandro e o Trágico – três poemas

"eu sou uma bela capa"

Em 2009, Hugo Milhanas Machado publicou “Entre o Malandro e o Trágico”, depois de “Poema em Forma de Nuvem” (2005); Masquerade” (2006); “Clave do Mundo” (2007); “À cama com Portugal” (tríptico policopiado: 2009). O livro de que aqui se fala, tarde e a más horas, é certo, engloba um conjunto de poemas (25) que são ‘recuperados’ da produção destinada a “Clave do Mundo”. Não são sobras, porém. Formam um conjunto formal e tematicamente coeso e de contagiante alegria. Versos cadenciados, rápidos e de uma destreza fonética de pendor quase lúdico, na muito lúdica sintaxe deste autor. Que, da mesma forma aparentemente ligeira como elabora os seus poemas, ligeiras temáticas parece abordar: as peripécias da infância; os lugares do crescimento, por vezes cristalizados em curtos poemas de intensa expressividade; um jogo construtivo de quem, de novo aparentemente, se não leva a sério, ou pelo menos ao trabalho poético. As aparências enganam. E falando de Hugo Milhanas Machado, o engano é rotundo. A ligeireza é, na verdade, uma intensa e vibrante leveza. O que torna tudo muito diferente. Não percebo, de resto, por que razão há-de ser matéria poética mais universal e relevante, digamos, um vómito solitário nas escuras ruas de Lisboa após um cigarro, após um copo, após um desencontro amoroso… ou a Volta a França em Bicicleta. Mas esta aparente falta de pathos poético levou gente a achar que a coisa oscilava entre o hipócrita e o parvo. Talvez tenha sido a leveza (provavelmente insustentável) da poesia de Hugo Milhanas Machado que orientou a não inclusão do seu trabalho no incontornável e meritório “RESUMO – a poesia portuguesa em 2009”. Escolhas.

Etimologicamente, parvo vem do étimo latino «pequeno». Ora pequena não é a plena alegria destes poemas, nem a sua sageza. As aparências podem iludir, claro. Mas, como dizia alguém nalgum lado, os poetas não são sempre infelizes.

[Ainda haverá alguns livros em venda na livraria Trama. A confirmar].

(nota introdutória)

Muito embora o que me pese nos textos seja encostar neles mesmos, dar mera notícia que a série de vinte e cinco poemas que se segue reporta-se aos meses finais do ano de 2007, partilhando papeis com os últimos que convocados para Clave do Mundo. Poemas estes, devo dizê-lo, entretanto pouco revistos e devedores de uma estranheza em que é complicado atalhar, ainda que apetecesse: poemas impetuosos, se lhes dou ar derrubam-se, e não sei dizer mais nada. Óbvias, claro, certas toadas peninsulares e muito concretamente galegas. Enfim, que a valha a nota, que este livro não é capricho nem sequer urgência.

Hugo Milhanas Machado, Salamanca, Abril de 2009

Meia-Lua

A criação da gente
foi bonita
tão bonita e tão potente
como uma rua cheia da gente

abria como flor

a baliza a porta da garagem
a bola sempre rente e o golo
sempre no pé da gente

moedas pelo Santo António
tarde que era da gente
a gente morava em frente

ia de frente

direitos no amor
e pastilhas no senhor Jaime
rima bonito mas é contente


***

Aportares

Uma colher dobrada
restinho de um vinho
noite de meigas
trovoada
que te vieram
a caminho

e do sono
lá ficou
num cantinho

aportado numa esquina
duas árvores
sete pedras
milhões de corpos

conhecidos
e a tua idade

***




A Juvenil Graça

Descalço vai
para o monte
asseguro que
rochoso
sem futuro

todavia
vai em pele
pé pequeno
poderoso

vai descalço
é para o monte
é sexta e hora
de ponta

vede o poeta
vai para o monte
vai descalço
tem patos e tem pintos
nos tornozelos

todavia traz pão
alimento humedecido
um saco que pende
da mão

algazarra de asas
e pão
o pé descalço
o monte
a passarada

o ritmo destroçado

hora de ponta
e onde ir
onde irão?

MACHADO, Hugo Milhanas, “Entre o Malandro e o Trágico”, Lisboa: Sombra do Amor edições, 2009.

Hoje

Celebra-se um dia fulgurante, improvisado e certeiro. A liberdade como movimento perpétuo.

Evo Morales e os frangos, ou o mundo miúdo – (finos recortes 1)

“Não como frango de aviário desde que entrei numa casa de banho pública em La Paz”

No “Diário Económico online” de ontem, as desconchavadas declarações de Evo Morales, presidente da Bolívia, (a serem correctas as fontes e a notícia) recordam uma verdade universal: a ideologia (de cartilha em terceira mão), por vezes cega. Arrevesadamente, distraidamente, ou pateticamente, conforme se queira, o jornal sub-intitulou a secção assim: Miundo [sic]. Está certo: o mundo na mão dos miúdos.

[inaugura-se a série “finos recortes”, prometendo evitar, na medida do possível, a imprensa desportiva. Não será difícil.]

Margarida Vale de Gato – Mulher ao Mar

Mulher ao Mar” é o título do aguardado primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato*, mais conhecida pelo seu reputado trabalho de tradutora, mas com alguns trabalhos poéticos no mínimo impressionantes, “espalhados” online (dois deles publicados no primeiro número da Sulscrito, Verão de 2007) surge finalmente, com a chancela da Mariposa Azual. O lançamento será no Domingo, dia 25 de Abril, com apresentação de Hélia Correia (ora toma), e leitura de poemas. Começará às 21h, no Espaço Sou, Rua Maria 73, em Lisboa; e continuará com um apropriado “Baile da Revolução”.

Por amabilidade de Helena Viera, editora da Mariposa Azual, junto se dão a conhecer dois poemas do livro, trabalhos de notável depuração e destreza formal; uma poética cortante, incisiva como um estilete (os estiletes brilham).

Declaração de Intenções


Para aqueles que insistem diluir

isto que escrevo aquilo que eu vivo

é mesmo assim, embora aluda aqui

a requintes que com rigor esquivo.


À língua deito lume, o que invoco

te chama e chama além de ti, mas versos

são uma disciplina que macera

o corpo e exaspera quanto toco.


Fazer poesia é árido cilício,

mesmo que ateie o sangue, apenas pus

se extrai, nem nunca pela escrita


um sólido balança, ou se levita.

Então sobre o poema, o artifício,

a borra baça, a mim a extrema luz.


***


Psyché a Eros


tanto tempo casta

tanto tempo apenas

admirada, nunca

amada, agora

presenças transparentes

me atendem

de dia impaciente

conto as horas

que impedem tua chegada


virás como sempre

trajando o manto

do homem invisível

de noite vens velar

o pranto previsível

promessas leves

que a dor é breve

preliminar do amor

que me atravessa


no reverso da língua

que lambe a mão

e sorve o leite

surde o azeite

que queima o dorso

do corpo ocre


o atirador

rechaça a corda

do arco terso

a flecha

corta.


*Margarida Vale de Gato nasceu em Vendas Novas em 1973. É tradutora de inglês e francês para português, tendo vertido textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Kirsty Gunn, Herman Melville, Henry James, Sharon Olds, Tim Burton, George Sand, René Char, Henri Michaux e Nathalie Sarraute. Está a terminar uma dissertação de doutoramento sobre Edgar Allan Poe em Portugal, sendo investigadora do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. Publicou poemas e contos em revistas e antologias portuguesas e internacionais de repercussões homeopáticas. [Nota biográfica obtida aqui]

David Byrne & Brian Eno: Strange Overtones


I wake up every morning
I hear your feet on the stairs
You’re in the next apartment
I hear you singing over there

This groove is out of fashion
These beats are 20 years old
I saw you lend a hand to
The ones out standing in the cold

Strange Overtones in the music you are playing
I’ll harmonize
It is strong and you are tough
But a heart is not enough

Put on your socks and mittens
It’s getting colder tonight
A snowball in my kitchen
I watched it melt before my eyes

Your song still needs a chorus
I know you’ll figure it out
The rising of the verses
A change of key will let you out

Strange overtones though they’re slightly out of fashion
I’ll harmonize
I see the music in your face
That your words cannot explain

Strange Overtones in the music you are playing
We’re not alone
It is strong and you are tough
But a heart is not enough

Do álbum “Everything that happens will happen today”

Mark Twain – no centenário da morte, notícia não exagerada

“As Aventuras de Huckleberry Finn”, novela no eixo da formação do gosto de ler ao longo de gerações; de uma literatura, a americana; de um imaginário que perdura. E talvez o livro que eu levaria para uma ilha deserta. Aqui se deixa um trecho, o sabor de uma escrita onde se inscreviam múltiplas linguagens; o fac-simile da primeira edição (1884); ilustrações da mesma. E uma deliciosa nota de abertura/advertência aos leitores. Escrito por Mark Twain, que morreu faz hoje um século. Depois de a notícia da sua morte ter sido bastante exagerada. [Fonte textual e das ilustrações : Project Gutenberg™].

“I set down again, a-shaking all over, and got out my pipe for a smoke; for the house was all as still as death now, and so the widow wouldn’t know. Well, after a long time I heard the clock away off in the town go boom—boom—boom—twelve licks; and all still again—stiller than ever. Pretty soon I heard a twig snap down in the dark amongst the trees—something was a stirring.  I set still and listened.  Directly I could just barely hear a “me-yow! me-yow!” down there.  That was good!  Says I, “me-yow! me-yow!” as soft as I could, and then I put out the light and scrambled out of the window on to the shed.  Then I slipped down to the ground and crawled in among the trees, and, sure enough, there was Tom Sawyer waiting for me. (…)”

“Adventures of Huckleberry Finn”, primeiro capítulo (excerto).

Tiago Patrício – “A literatura e a leitura da luz”

Ainda da cràse número um. Última escolha para deixar aqui. O primeiro texto da revista, de Tiago Patrício [Funchal em 1979]. Uma pequena narrativa de melancólica ironia, escrita em andante, se é permitida a comparação, a marcação do tempo.

© José Monteiro, Olhares, fotografia online

A literatura e a leitura da luz

O Homem Desempregado gostava muito de ler e tinha um cuidado extremo com o tipo de luz que seleccionava para a leitura, preocupava-se tanto com este assunto que muitas vezes se esquecia do que estava a ler e murmurava satisfeito:

– Como é boa esta luz para acompanhar uma leitura.

Passava manhãs inteiras ou semanas à volta da mesma página que tanto podia ser de filosofia política como de uma lista da toponímia da sua cidade e nem dava conta da perda de validade de certos livros requisitados nas bibliotecas, o que deixava os funcionários muito aborrecidos.

Raramente lia à noite, só em último caso, em especial livros de instruções para alguma tarefa imprescindível ou algum telegrama que lhe chegava depois do crepúsculo.

Na casa onde morava tinha uma luz franca que iluminava os textos e as suas ideias mais complexas, mas a partir de uma certa hora o sol deixava de bater na sala virada para Sudoeste e tinha de sair de casa à procura do poente como de alimentos para a dispensa. Dobrava a esquina e entrava num largo que se abria num miradouro sobre o rio, com alguns bancos de jardim que lhe agradavam sobremaneira. Assim, nos dias amenos, o Homem Desempregado descia as escadas do prédio e saía para a rua com um livro forrado a papel de jornal debaixo do braço. Passava por baixo de duas árvores e procurava um lugar com espaço para si e para o seu livro, entre os grupos de pessoas já instaladas.

Sentava-se cheio de boa disposição, pedia licença e agradecia a amabilidade a todos aqueles que faziam companhia ao entardecer. Aconchegava o olhar até ao outro lado do rio, para ficar com uma boa visão periférica e fazia inspirações semibreves de contentamento. Porém, após ultrapassar as três ou quatro páginas do seu livro da tarde, começava a ficar incomodado com o excesso de ruído que não lhe permitia ler sem estar sempre a perder-se com os estímulos, especialmente com os daqueles que tinham chegado pouco tempo depois dele e já eram considerados intrusos. Nessas alturas o Homem Desempregado lembrava-se de que a intolerância aumentava com a permanência e o apego aos lugares. Após longas e espaçadas inspirações conseguia voltar à leitura da luz, sem contudo deixar de sentir uma certa benevolência por aqueles que conversavam no largo do miradouro sobre a sua leitura.

Eyjafjallajökull

"sou um belo vulcão preguiçoso e traquinas"

Image courtesy Flickr user © orvaratli via CC (clique para ampliar)

Apresenta-se (aqui em relativo descanso) o vulcão islandês que provocou a pior restrição aérea de que há memória na Europa; que deixou centenas de milhar de passageiros em terra, incluindo Cavaco Silva em Praga e Angela Merkel  em Lisboa (sorte a dele, chatice a dela) e Fernando Pinto a fazer contas aos mais que improváveis bónus de 2010. Aqui se mostra o vulcão que tem este mimoso nome (com direito a link para se perceber a pronúncia da coisa e tudo); o mais engraçado é que o Eyjafjallajökull é conhecido, na Islândia como o “vulcão preguiçoso”. Nada de extraordinário: à velocidade com que as coisas se passam naquela ilha (a bancarrota, por exemplo), por que razão não há-de o Eyjafjallajökull acordar de repente?

revista INÚTIL 2

O lançamento é hoje, às 21h, no espaço da antiga Buchholz. A revista INÚTIL é um projecto de Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha.

Novos Poetas (54) – Catarina Nunes da Almeida

Ainda da cràse número um, o último e o que mais gosto dos três poemas que Catarina Nunes de Almeida publica na edição, de que já se anuncia o «lançamento» em Lisboa no dia 12 de Maio na Livraria Trama, pelas 19 horas.

3.

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.

By this River – Brian Eno

O blogue encontra-se, evidentemente, em modo de sobrevivência.

Apenas a vontade de aqui ir deixando vislumbres de beleza o mantém activo.

(por enquanto)


Here we are

Stuck by this river,


You and I


Underneath a sky that’s ever falling down, down, down


Ever falling down.

Through the day


As if on an ocean


Waiting here,


Always failing to remember why we came, came, came:


I wonder why we came.

You talk to me


as if from a distance


And I reply


With impressions chosen from another time, time, time,


From another time.

Canto Dos Torna-Viagem

Do muito que não vi em 2009 (e foi quase tudo), este espectáculo foi aquele que mais pena tive de perder. Um excepcional grupo de autores/intérpretes da música popular urbana portuguesa da segunda parte do século XX estava em palco. Nomes de importância por estabelecer em definitivo, mas que será indiscutivelmente muito, muito grande. Felizmente estão todos vivos.

Três Cantos. José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho. Aqui numa recriação de “Canto dos Torna-Viagem”, do álbum “Resistir é Vencer”, letra e músicas de José Mário Branco. Admirável interpretação polifónica, de tradição oral. Belíssima letra, mesmo se descontextualizada da época em que foi escrita.

Canto Dos Torna-Viagem

Melodia 1

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar

Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão

Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão

Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão

Melodia 2

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetera e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Melodia 3

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou

Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for