As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Setembro, 2011

Daniel Jonas — Trabalho e trabalho

Trabalho e trabalho

para dar à luz um pai

na minha solidão de depauperado

arado que nada sulca

porque como um comboio a que faltaram carris

prévios ao meu arado são seus sulcos.

 

Sou um filho circular. Como um signo

zodiacal sou um filho circular, requer o que faço

aquilo em que me movo

que é aquilo em que me movo

o que faço e como fazê-lo

se não tenho já em que me mova? O que faço

é o que me fez.

 

Sou comboio e arado e um rodado

sem discos. Sem paralelo em círculos

rotunda tristeza propago

de vertiginosa incubação de vórtices

que ajudo a solidificar: outra vez a sólida

solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

 

insta à compaixão. E são pesados os bois

circulares que o meu arado

entontece, em vão o rodado

sem discos. Quanto pesarão

bois entontecidos? Como ser pai

quando se é filho?

 

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

 

«Perfect Intersection», bulent © bulent, via Deviantart (D.R.)

 

Página sobre Daniel Jonas no site da D.-G.L.B.

Helder Moura Pereira — Quando estamos assim

Quando estamos assim

deitados e nus, sem

a minha cara saber

se é a tua cara à frente

dela, parece-me bem

que o mundo é uma coisa

às escuras, sem importância

nenhuma. Dou a volta,

rodopio como um artista

de circo, estou dentro

de uma rotina, quando

lavo os dentes e visto

o pijama de flanela às riscas

sinto-me um miúdo pequeno

que desconhece o que é

morrer. Chamaste-me

sentimental, sentimental

é a tua tia.

 

Pereira, Helder Moura, Um Raio de Sol, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

 

«9.04», Antagonist © Antagonist, via Deviantart (D.R.)

 

Helder Moura Pereira no site da D.-G. L. B.

Miguel-Manso — STATUS REPORT

 

sou comarca onde parou de chover

e quem não se lembra da sanguechuva

que foi em tempos este coração

 

já não tenho a vida toda (faço trinta

o mês que vem) e a verdade é que nem

na morte se pôde alguma vez confiar

 

muito mal contado isto da morte

 

Miguel-Manso, Santo Subito, Lisboa: Os Carimbos de Gent, Março de 2010 (edição de autor)

 

«life and death», via Deviantart (D.R.)

 artigo na Visão Online sobre o autor.

Ana Luísa Amaral — Ritmos

 

 

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em teia apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

 

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

 

As irmãs recuperadas ainda em anos 20

o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfose em

refogados rítmicos

 

(Debaixo do fogão

só o silêncio frio)

 

Amaral, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Lisboa: Quetzal  Editores, 1999

«I can feel you all around me», Adour © Adour, via Deviantart (D.R.)

Fiama Hasse Pais Brandão — O Nada. Sobretudo na Fase de Exaltação

Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.

Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo

fixo sobre as árvores abençoadas sem
folhas. Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio. Um fino
silêncio exterior

sinal do nada circundante. Graveto
junto de graveto cruzados para além do fim
da perspectiva. Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos. O nada
sempre coeso. Uma respiração intangível
e sem sombras.

Hasse Pais Brandão, Fiama, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

 

«Pollock Trees», Neptunia © Neptunia, via Deviantart (D.R.)

 

  página sobre Fiama Hasse Pais Brandão

Nuno Brito — A insustentável leveza de quê?

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela FLUP. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma. Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo, no ano seguinte, o primeiro Prémio na categoria de conto.  Em 2009 publicou a obra Delírio Húngaro e em 2011 Créme de la Creme.

Autor já referenciado e transcrito neste blogue, Nuno Brito apresenta-nos neste último livro um conjunto de textos de surpreendente, riquíssima carga imagética, neles se produzindo inesperados significados que aproximam a obra de uma contiguidade surrealizante, nunca deixando contudo de se reconhecer uma voz absolutamente singular no panorama dos autores contemporâneos.

capa do livro "Créme de la Creme"

A insustentável leveza de quê?

Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais consciente do que uma

teoria científica (provavelmente, é-o menos) o poema não contém atrito

por definir o mundo ou desvendar a metafísica. O atrito do poema tem

a ver com o corpo, a distância e a lentidão”

Pedro Eiras  – A Lenta Volúpia de Cair

 

Deixar cair uma maçã com toda a força,

Não estamos aqui pela gravidade, mas porque

Amamos o chão – a terra

Se possível, metemo-la toda na boca,

perdi um bloco de notas que me compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e verde, sem ter asas, nem querer voar: A insustentável leveza de quê? O atrito do ar enquanto desces e perdes toda a poesia, a inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será ciência – falo da razão está nos teus olhos, dentes e boca.

Brito, Nuno, Créme de la Creme, Porto: Planeta Vivo, 2011

Gordon McBryde © Gordon McBryde, via Deviantart (D.R.)

Maria Sousa — «se para um corpo a insónia»

Maria de Sousa, editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte, apresenta-se, na referida revista, de forma peculiar: «Maria Sousa é uma lebre que é uma Alice e gosta de passar as tardes no café Santa Cruz a ler e a escrever.  Gosta de revistas e já participou em algumas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010) mas ainda chora quando ouve a Lhasa e o Tom Waits. Não gosta de dar aulas e quando for grande quer ser livreira.»

Resta dizer que é uma das novas autoras de poesia de que mais gosto; e que o blogue da Maria Sousa é maravilhoso sendo, diversamente, uma notável obra de amor (e elevada fasquia qualitativa) a revista que edita, da qual já saíram 3 números. Do terceiro se retirou este poema.

 

 

se para um corpo a insónia
é uma palavra de olhos abertos

quando os dias ficam mais curtos
preparo o quarto para o rigor do inverno

não se trata de um vazio mas
de um lugar preparado para
todas as palavras que ficaram nas rugas

 

Maria Sousa in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«falling red», Paty Sanchez © Paty Sanchez, via Deviantart (D.R.)

   blogue da revista «a sul de nenhum norte»

   blogue da autora, «there’s only 1 alice»

  blogue das «Edições Língua Morta»

Manuel António Pina — A ferida

 

A ferida

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

 

«What time is it?» — Shutterbug © Shutterbug, via Deviantart (D.R.)

   Página da D.-G. L. B. que assinala a atribuição do Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina, com hiperlink para página sobre o autor.

António Maria Lisboa — Rêve Oublié

 

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

 

António Maria Lisboa, Poesia de António Maria Lisboa, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980 (originalmente publicado em Ossóptico, 1952)

 

Desenho de António Maria Lisboa dedicado ao Mário Henrique (Leiria), Paris, 1949

 

   Página do Instituto Camões dedicada  a António Maria Lisboa

  «Do amor em vidro: António Maria Lisboa». — Estudo sobre o artista da autoria de Virgínia Boechat.

José Tolentino Mendonça — Versões do Mundo

 

Se tiveres de escolher um reino

escolhe o relento

a noite tem a brancura do alabastro

ou mais extraordinário ainda

 

Ao que vem depois de ti

cede o instante

sem pronunciar

seu nome

 

Mendonça, José Tolentino, O Viajante sem Sono, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

 

«at night», Loïc © Loïc, via Deviantart (D.R.)

Mário Cesariny — Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny, Pena Capital, Lisboa: Assírio e Alvim, 2004 (3.ª edição)

 

«Linha d`Água» (s/d), Mário Cesariny —óleo sobre madeira, colecção MAC

(clique para ampliar)

  Página sobre Mário Cesariny D.-G. L. B.)

  Página sobre Mário Cesariny enquanto artista plástico, artigo de Bernardo Pinto de Almeida, Agulha, Revista de Cultura.

Simone Tree — não me olhes de perto a pele curva

Foi colocado online, na madrugada de ontem, o terceiro número da revista de artes e letras «a sul de nenhum norte», magnífico objecto criado por Maria Sousa e Nuno Abrantes, gratuito e disponível para quem o queira descarregar. Desta terceira edição da “sul” falarei aqui, em breve. Para já, deixa-se um poema de uma autora de surpreendente segurança formal, pretexto para divulgar esta que talvez seja a melhor revista literária online que se produz, actualmente, entre nós [No terceiro número encontram-se os seguintes autores: Adolfo Luxúria Canibal, Beatriz Hierro Lopes, Catarina Nunes de Almeida, Enrique Vila-Matas, Jenna Cardinale, Joana Corker, José Emílio-Nelson, Leslie McGrath, Long Lim, Machado de Assis, Maggie Taylor, Maria Sousa, Maurice Mbikayi, Miguel Moreira, Miguel Pires Cabral, Nuno Abrantes, Ondjaki, Paulo Rodrigues Ferreira, Rosa Alice Branco. Simone Tree, Tatiana Faia, Teresa Andruetto].


não me olhes de perto a pele curva
do nariz que desce, perfeito, as sardas
e encontra o vício‐razão do toque
na dureza das costelas,
curva dos caracóis.

o mistério dos corpos
‐ tantos anos depois –
é que, mesmo paralelos
encaixam.

Simone Tree, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

clothless bodies and timeless, Utku Atalay © Utku Atalay, via Deviantart

  página da revista na rede social Facebook, onde se pode descarregar os três primeiros números da revista «a sul de nenhum norte»