As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Al Berto — [os dias sem ninguém]

 

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

         foi bela a madressilva
         subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar

 

Al Berto. O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia: Paulo Nozolino

Ruben A. — O amor é de outro reino.

 

Num tempo em que o tema amoroso é quase tão obnóxio como a gesta, ou a moral; quando abordado pela generalidade dos escribas contemporâneos assusta por nefastas múltiplas formas, é um prazer reencontrar Ruben A. e a sua forma tão peculiar de agarrar o motivo, elevá-lo a alturas valentes, não largar o osso.
[este fragmento foi copiado do site «O Citador», por preguiça de transcrição e indecisa capacidade de escolha. Escolheram por mim. E ainda bem.]

 

«O amor é de outro reino. Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias códig…o de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.»

Ruben A. Silêncio para 4, Lisboa: Moraes Editores, 1973

 

Fotografia: Rubem A. (s/d; autor desconhecido)

 

Fiama Hasse Pais Brandão — Lisboa sob névoa

 

(ao N.)

 

Na névoa, a cidade, ébria

oscila, tomba.

Informes, as casas

perdem o lugar e o dia.

Cravadas no nada,

as paredes são menires,

pedras antigas vagas

sem princípio, sem fim.

 

Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002.

 

fotografia: kramsay © kramsay (D.R.)

 

 

 

Maria Sousa — quatro poemas

 

 

só o verde fala neste tempo de silêncio 

somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores 

 

espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca 

 

*

 

a casa é uma memória onde 

devagar desenho percursos 

(mapas para inventar o tempo) 

 

para a habitar reparto as sombras 

 

e enquanto as estações se confundem 

acordo para uma insónia agitada 

onde uma casa existe 

mas não tem paredes 

 

*

 

da noite dizes que a respiração é hábito 

uma ruga a imitar a sombra nasce da cor  

que se define em ausências 

 

apago o tempo na cama por fazer 

soletro‐te a riscar manhãs da noite 

há que respirar com as janelas abertas de par em par 

(cheiram ao verde escuro das árvores)

 

*

 

Em dias de sílabas que 

talvez consigam dar sentido ao ontem 

(é aí que te arrumo) 

 

há sempre os primeiros sons quando do outro lado 

da voz as palavras estão vagas 

 

com o frio a roçar a garganta 

tudo está destinado à fala 

 

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração

 

 

Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

 

 

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)

Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010).

Herberto Helder — O Extremo Poder dos Símbolos

 

 

«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»

 

Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

 

monoceroi © by monoceroi, via Deviantart (D.R.)

Manuel de Freitas — III (Grande Hotel de Paris)

III (Grande Hotel de Paris)

para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém

dias grandes, irredutíveis a versos,

em que a indecisão da luz

nos açoita de felicidade.

 

São dias raros, futuras

imagens do nada, o suficiente

para que a palavra amor substitua

o primeiro cigarro da manhã.

 

Chegámos tarde. O quarto 203

trazia-me de novo o teu corpo.

E até a música dos sinos

vinha deitar-se connosco.

 

Manuel de Freitas. Telhados de Vidro n.º 3 [Último poema do tríptico Passeio Alegre]. Lisboa, Averno, 2004, p. 44.

 

 

Residencial Grande Hotel de Paris (Porto)

 

Manuel de Freitas no portal da D-GLB.

José Ricardo Nunes — seis poemas

Poetas há que passam discretamente ao lado do núcleo do reconhecimento imediato; as instâncias, modos e agentes de validação dos que alcançam nome maior são por vezes aleatórios… e assim deverá ser sempre. Na poesia de José Ricardo Nunes não encontraremos a formalização pretensiosa, a procura da frase de efeito, da figura de estilo, da imagem de grande aparato. Contudo, os poemas que aqui se transcrevem, deixam perceber a importância de um autor perfeitamente alinhado com os seus contemporâneos, que estabelece um inequívoco jogo íntimo entre os lugares, os acontecimentos dos lugares, e os acontecimentos íntimos pelos lugares suscitados. Uma poética feita de pequenas subtilezas, numa voz que aparenta simplicidade, mas que se deixa penetrar muito além do retrato que sobressalta. José Ricardo Nunes continua a publicar, com a regularidade e a constância de quem apenas aparenta  comprazer-se com o labor poético, fora dos circuitos de validação.

[acompanham estes poemas três fotografias de Rui Fonseca, que os sucedem na edição do número da revista Quolóquio/Letras de onde se transcreveram os poemas]

«Esmoriz», (1995), Rui Fonseca (D.R)


CASA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO

Na Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão
como empadas, bebo café,
olho pelas vidraças
em vez de ler.

E a medo escrevo
uma coisa tão diferente

20-IV-97

CABO CARVOEIRO

Quando amanheceu fomos ao Cabo Carvoeiro
ver se o que sobrara chegaria
para suster o mar. E no café da ribeira
não consegui contar as folhas do chá.
Mas terá sido mesmo assim?
Ou pus apenas as pedras de lado,
as maiores, deixando que a areia se escapasse
por entre os dedos? Tão brilhantes
olhos que se puxam
naquela noite de Óbidos,
não houve outra igual.

9-V-97

ESMOLA

Versos,
em brasa,
como tostões à porta de uma igreja
iluminando as mãos
de um pobre.

4-XI-99

«Praia da Vieira», (2000), Rui Fonseca (D.R.)

RAÍZES, OSSOS

Parei o carro à beira da estrada
e fui até junto das raízes
e dos troncos há muito apodrecidos.
O rosto do meu pai e essas oliveiras
São imagens que agora se misturam.
Quase que são a minha nova pele.
Espetadas no vazio, as raízes
aguardam por um pouco de terra
que o tempo foi tornando imaginária.
Sinto o gesto alheio no interior dos ossos
e dou-lhe todos os meus ossos.

25-III-00

REFÉNS

Repetimos os passos,
os mesmos passos do fim
para o princípio. Delapidamos
riqueza: imagem sob imagem
no espelho do quarto, as metamorfoses.
Corpos, uma voz à deriva
por entre amarras e segredos.
Somos reféns.

15-IV-00

UM NOME

O vento trouxe a cinza
para junto da porta da entrada,
um pequeno lençol suficiente
em tamanho e consistência
para que nele com o indicador
possa escrever um nome. Um nome,
não interessa qual.

18-IV-00

José Ricardo Nunes. “Casa de pão-de-ló de Alfeizerão; Cabo Carvoeiro; Esmola; Raízes, ossos; Reféns; Um nome”. In: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 249-254.

«Tocha», (1993), Rui Vieira (D.R.)

 

Em 2006, no blogue Poesia & Limitada, o sempre atento João Luís Barreto Guimarães escreve Biografia sumária de José Ricardo Nunes, já inevitavelmente desactualizada, onde se poderão encontrar ainda alguns poemas do autor:
«JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e “Novas Razões” (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha.»

José Ricardo Nunes no portal da D-GLB.

 

Luís Miguel Nava — A Fome

 

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

 

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

 

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

 

 

Luís Miguel Nava. Vulcão, Lisboa: Quetzal, 1994, p.17.

 

Francis Bacon (c.1970)

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Inês Lourenço — três poemas

No número 28 da Relâmpago, revista literária da «Fundação Luís Miguel Nava», dirigida por Fernando Pinto do Amaral, tendo Vitorino Nemésio como tema nuclear,  anuncia-se a atribuição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira, pelo seu livro Se as coisas não fossem o que são. Publicam-se, igualmente, um conjunto de poemas inéditos de alguns autores (Inês Lourenço – Sete poemas; Manuel Gusmão – A pintura corpo a corpo; Miguel Cardoso – de O Mundo e as suas tarefas; Sheryl St. Germain – Seis poemas). Do site online da revista recolhem-se três poemas de Inês Lourenço, que aqui se reproduzem, com expectável anuência da autora e sem possibilidade de contactar a Fundação Luís Miguel Nava. Espera-se indulgência.

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

 

CIFRÃO

Dizias: não se importe de perder
dinheiro com a sua revista de poesia. Pelo mesmo,
alguns empenharam jóias de família.

Naquele café com nome monetário
eras bem o poeta de Os Amantes Sem Dinheiro
mas sem anjo de pedra por irmão. Só
nas mesas vizinhas, grupos
buliçosos de estudantes de Belas-Artes, desconheciam ainda
a arte de caçar patrocínios.

Depois mudaste para o Duque, que
copiou o brasão à tua rua, para mais tarde passares
ao mar do Passeio Alegre e às palmeiras da Foz
que chegaram tarde à tua vida.
Mas acabaste por voltar às cercanias das Belas-Artes,
para descansar num Prado, pouco distante
do jardim de São Lázaro, onde segundo outro poeta,
costumavas medir o tesão das flores.

 

CAFÉ ESTRELA D’OURO

Na Rua da Fábrica, perto
de livrarias e simpáticos alfarrabistas,
redigíamos panfes pela libertação
da mulher, devidamente pastoreadas
por um pequeno partido de esquerda, onde
só nos podíamos libertar
ao lado dos homens.

Inês Lourenço. in Relâmpago, n.º 28, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2012.

“Jardim de São Lázaro – vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo.” Crédito Fotográfico: JotaCartas, via Wikimedia Commons (D.R.)

 

 

Página da Fundação Luís Miguel Nava (Relâmpago)

Logros Consentidos, blogue de Inês Lourenço

Página na Wikipedia, com a bibliografia mais actualizada da autora

Ruy Belo — Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu

 

(em modo de paixão por um livro)

 

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

 

Que o medo não te tolha a tua mão

Nenhuma ocasião vale o temor

Ergue a cabeça dignamente irmão

falo-te em nome seja de quem for

 

No princípio de tudo o coração

como o fogo alastrava em redor

Uma nuvem qualquer toldou então

céus de canção promessa e amor

 

Mas tudo é apenas o que é

levanta-te do chão põe-te de pé

lembro-te apenas o que te esqueceu

 

Não temas porque tudo recomeça

Nada se perde por mais que aconteça

uma vez que já tudo se perdeu

 

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164

 

«lost», Kristyan @ Kristyan, via Deviantart, (D.R.)

 

 

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões

Rui Pires Cabral — A Vida Paralela

 

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.

Rui Pires Cabral. Ladrador, Lisboa: Averno, 2012.

 

«Train Ride», Alex © Alex, via Deviantart (D.R.)

Carlos Queiroz — Libera Me

 

Livrai-me, Senhor,

De tudo o que for

Vazio de amor.

 

Que nunca me espere

Quem bem me não quer

(Homem ou mulher).

 

Livrai-me também

De quem me detém

E graça não tem,

 

E mais de quem não

Possui nem um grão

De imaginação.

 

 

Carlos Queiroz. Poesia de Carlos Queirós, Lisboa: Editorial Presença, 1966.

 

desenho de Almada Negreiros

 

Nota biográfica e dois poemas de Carlos Queiroz no Projecto Vercial.

Rui Lage — Birds, Beasts, and Flowers

 

This is the iron age
but let us take heart
seeing iron brake and bud
seeing rusty iron puff with clouds of blossom
D. H. Lawrence

 

 

 

O aguaceiro manso das jovens

passeia na sala tardia

(o pêssego de Lawrence amadurece

algures nas tuas mãos).

 

Ao longe nuvens de flores aparecem

raiando a costa do ferro e do gelo,

a ilha de Miranda sabe o caminho

para a casa da luz,

escrito no sangue do tigre

que nos livros

acende a temível simetria da noite:

sangue sujo de amor

na inocência

e na experiência.

 

Na sala tardia,

a polpa ferida de literatura inglesa,

o caroço preso à floração

do vestido de Ofélia,

que ouviu adagas

e medrou lilases da terra sem vida.

 

Espera a romã, os figos,

a nêspera: não esperes o enfarte,

acento agudo

na sílaba final do mais longo dos versos.

Rui Lage. Berçário, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2004.

 

Capa sobre sobre fotografia de Carlos Pinto Coelho.

A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

Duarte Belo — Castro do Pópulo. Pópulo. Alijó. Vila Real. CMP 103 (série M 888) fi480912 04-07-2003

 

1

Mas, se nestas seis décadas e meia

eu fui capaz de algum voo

 

— concedo: semelhante ao das galinhas,

isto é, rudimentar, desgracioso,

com muitíssimo dispêndio de energia

para pouca ascensão, breve e apenas

em desespero de causa;

em todo o caso uma forma de voo

pelo qual me sustentei no ar

em horas de menos peso —

 

devo agora, fechado o ciclo do voo,

como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja

que muda de ramo

ou que em fins de Dezembro

fecha para balanço.

Nem como executar

um mandato de detença.

Nem expiar a desordem

de, sendo pedestre, ter voado.

Nem um remate compulsivo

à sedição.

 

Pousar, é tudo. Regressar

ao afago das coisas da terra.

A terra cobrar por fim o que lhe devo

e eu cobrar dela o que me move

desde a primeira hora.

 

Voei, está voado.

Nada de nostalgias.

 

2

Escolho o galho

mais ajeitado à minha condição

e, como a ave a quem o voo se esgota

temporariamente, apeio-me do voo.

E também como a ave que, acabada

de pousar, bate ainda as asas

por duas ou três vezes,

assim as bato eu.

Mas enquanto a ave as bate

como para sacudir delas

os resíduos do voo,

eu faço-o por exigência de equilíbrio:

o ramo verga, já não tenho

a agilidade doutros tempos,

cairia se não batesse as asas.

Isto é: bato-as da mesma forma que

o funâmbulo tenteia a vara

e o cego a bangala.

Para me acomodar mais facilmente

no exterior do voo.

3

Nem o meu pouso é passageiro

como o da ave. Daqui em diante

assistirei ao decurso dos dias

pousado definitivamente.

Eis-me pois pousado, procurando

ajeitar o corpo à nova condição.

Os olhos erguidos para o espaço

donde me escorracei

para saber se porventura risquei

o cristal do ar com o meu voo.

Um arranhão que fosse, que depois dele

o cristal já não fosse cristal.

Não risquei.

Louvado seja Deus.

Depois de tanto voo desastrado

deixo o ar nítido inteiro

como o encontrei.

(Não admira. Sempre tive o cuidado

de sacudir os pés à entrada do voo.)

4

Não. Não é por nostalgia,

que nesta hora extrema de pousar

me lembram as hábeis imprudências do voo,

as suas impudências, a tomada da luz.

Parece-me isto antes gratidão.

Voar foi sempre o mais útil

dos meus gestos inúteis.

A haste de feno ao canto da boca.

Um donativo à carne.

O orifício por onde

se escoavam as enxurradas.

Intensamente pousado,

é isto que me lembra.

A. M. Pires Cabral, Telhados de Vidro n.º 6. Lisboa, Averno, 2006, p. 11 – 15.

Duarte Belo — Santuário de Panóias. Vale de Nogueiras. Vila Real. Vila Real. CMP 115 (série M 888) nb2054-26 13-05-1996

Créditos fotográficos: Duarte Belo.

Blogue da Averno, editora da Revista Telhados de Vidro (o número 16 acaba de ser publicado)

A. M. Pires Cabral no portal da D-GLB.

 

(no segundo poema, antepenúltimo verso, surge impresso «e o cego a bangala». Optou-se por manter tal como está publicado.)

Ângelo de Lima — EDD’ORA ADDIO… MIA SOAVE!…

fac-símile digitalizado do poema impresso (Biblioteca Nacional Digital)

 

Aos meus Amigos d’Orpheu

 

— Mia Soave… — Ave?!… — Alméa?!…

— Mariposa Azual… — Transe!…

Que d’Alado Lidar, Canse…

— Dorta em Paz… — Trespasse Idéa!…

 

— Do Occaso pela Epopéa…

Dorto… Stringe… o Corpo Enlace…

Vae A’Campa… — Ave!… — Alméa!…

 

— Não doi Por Ti Meu Peito…

— Não Choro no Orar Cicio…

— Em Profano… — Edd’Ora… Eleito!…

 

— Balsame — a Campa — o Rocio

Que Cahe sobre o Ultimo Leito!…

— Mi’Soave!… Edd’ora Addio!…

 

Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 (adoptou-se, no post, a transcrição ortográfica original do poema).


capa do livro «Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 e outros escritos»

(clique para ampliar)

Ângelo de Lima no portal da D-GLB

link para o sítio da Biblioteca Nacional Digital, que permite a descarga da «Orpheu» digitalizada

Golgona Anghel — Podia fazer um bocadinho mais de esforço

 

Podia fazer um bocadinho mais de esforço,

sei lá: deixar de ser essa clepsidra cheia de neve.

Gosto da sua pose clássica,

de peitos nus debruçados sobre um futuro académico,

livros raros e bibliotecas nacionais;

mas fazia bem em tirar de vez em quando

a gravata e o chapéu,

subscrevo e recomendo, eu.

 

Você sabe, gosto de coisas triviais, sou o seu cão banal,

colecciono cabelos

nas folhas de um herbário sentimental,

sou vítima do seu produto interno bruto, objecto

em série da maneira como segura no volante,

eu imundo e encharcado,

eu a sustentabilidade da segurança social,

analfabeto, pedreiro da Lena Construções. Lda.

 

Eu fácil eu farto eu fome

com a vida marcada na pele,

 

olha-me de frente

quando gritas e esticas a pernoca.

Quem manda aqui sou eu.

Agora abre a boca.

 

Golgona Anghel, Vim porque me pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2012.

 

 

«Svefn g englar II», Katarzyna Kędroń, via Deviantart (D.R.)

 

 

Golgona Anghel no site da editora Mariposa Azual

Luiza Neto Jorge — Venho de dentro, abriu-se a porta…

 

Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

 

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

 

Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989

 

«time», Magda Kołakowska, © Magda Kołakowska, via Deviantart (D.R.)

Luiza Neto Jorge no portal da D-GLB

Luiza Neto Jorge na página da revista Relâmpago

 

Lígia Reyes — Real Love

 

Meu amor madre‐pérola, 

Olha‐nos, a desfazermos 

Em ponto caramelo o corpo 

Em nostalgia e folhas de Outono ‐ 

Rash‐Rash ‐ Como queimávamos os pés 

Nesses passeios ínfimos 

Pelas avenidas de uma cidade  

Que chora um Rio: Descosíamos 

Os botões, alinhavados às palavras 

Da poesia e construíamos pontes. 

Vamos remar a favor do mármore, 

Não tenhas medo: Mil suicídios 

Aconteceram quando eu parti, 

E agora sobram cartas para lermos 

Até ao fim da vida. Juntos 

Venceremos o flogisto, acolheremos 

Patriamente a vitória da cinzas, 

Manjaremos tenras asas de fénix 

Até nos esgotarmos num jardim belo 

E uma chávena de chá ao fim da tarde.

 

Lígia Reyes. in, a sul de nenhum norte n.º 6.

 

 

«i once loved you by the sea», IgnotoDeo © IgnotoDeo, via Deviantart, (D.R.)