As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Junho, 2010

Catarina Nunes de Almeida – Elogio da Luz

Vou de férias com um peixinho dourado e luminoso. O blogue fica em repouso.

Hope © José Pedro Sousa

ELOGIO DA LUZ


A luz invadiu uma porção da casa.

Depois foram as ancas e as vozes abraçando-se

o reconhecimento da música do outro lado da janela.

Nesse instante de todos os silêncios

foi afinal aquela porção da casa

que invadiu a luz.

Almeida, Catarina Nunes de, Prefloração, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2006.

Anúncios

Portugal 7 – Coreia do Norte 0 – Um jogo que eu não queria

Não queria ter visto este jogo. Recordava-me bem do que escrevi aqui, do que a Helena Matos escreveu; eu não queria que a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol Masculino escalão Seniores (a.k.a. «Portugal») ganhasse. Não queria ter visto, deitei-me para dormir uma hora, ideia impossível, inferno das vuvuzelas, não dormi, nem vi; não queria tantos golos, estes golos têm consequências. Chol Hyok, Kim Myong Won, Kim Kyong II e Pak Sung Hyok sabem-no, desapareceram em pleno Campeonato do Mundo; consequências que escapam à nossa lógica de felicidades efémeras, de «futebóis». A tristeza é antiga, na Coreia do Norte, a tristeza de quem tem uma imensa fome de pão, tanto quanto tem fome de liberdade, de palavra, de identidade; a tristeza de quem a fome é um mal menor que o medo.

Quando vejo as fotografias de Cristiano Ronaldo para a campanha da Armani, penso que este menino passou fome, uma fome envergonhada, uma fome de isolamento, uma fome Autonomia Regional, (podia ser da «interioridade» ou dos aglomerados suburbanos;) mas teve uma oportunidade e agarrou-a com os dentes, admiro-o por isso.

Perante aqueles que não têm sequer a oportunidade de pensar em oportunidades, aqueles rapazes que hoje, vestidos  com a camisola da República Popular da Coreia, encaixaram sete golos, (gostarão de montanhas?) e têm medo, eu nem queria, mas a minha afeição ficou do lado deles.  7 a 0 com eles. Eu não queria.

RI Myong Guk; CHA Jong Hyok; RI Jun Il; PAK Nam Chol; RI Kwang Chon; KIM Kum Il; AN Chol Hyok; JI Yun Nam; JONG Tae Se; 0HONG Yong Jo; MUN In Guk; CHOE Kum Chol; PAK Chol Jin; PAK Nam Chol; KIM Yong Jun; NAM Song Chol; AN Yong Hak; KIM Myong Gil; RI Chol Myong; KIM Myong Won; RI Kwang Hyok; KIM Kyong Il; PAK Sung Hyok. Não se esqueçam destes nomes. Porque já estarão votados antecipadamente ao esquecimento, o primeiro degrau de uma escada que os levará a um inferno selado pelo segredo e esquecido pelos jornais. A Armani não se pode preocupar com estas coisas; os tablóides também não, e a PETA dedica-se-se aos animais. E eu não queria.


Sentado sozinho

com um copo na mão

contemplo

os montes distantes


Nem que chegasse

a amada

sentiria

prazer maior


Mesmo que não falem nem riam

gosto mais

das montanhas

YUN SÓN-DO, (1587-1671), Coreia, in, A Rosa do Mundo, Lisboa: Assírio e Alvim, 2001

José Saramago (1922 – 2010) – Espaço curvo e finito

Morreu José Saramago.

Que deus o receba na sua paz.


José Saramago na praia Quemada, entre Yaiza e Tías, Lanzarote (Canárias) - Pedro Walter © Pedro Walter, El País (d.r.)

Espaço curvo e finito


Oculta consciência de não ser,

Ou de ser num estar que me transcende,

Numa rede de presenças e ausências,

Numa fuga para o ponto de partida:

Um perto que é tão longe, um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer

A semente que de ser se surpreende,

As pedras que repetem as cadências

Da onda sempre nova e repetida

Que neste espaço curvo vem de ti.

Saramago, José, Os Poemas Possíveis, Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

Luís Quintais – Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro

Poema do novo livro de Luís Quintais, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro.

O que podemos projectar

que não seja o desenho

do nosso futuro incompleto?

Tudo é revisitação nessa caixa escura

onde células se movem e se escutam

mutuamente, como se esperassem

por um acontecimento primeiro,

uma revelação atenta do sangue

e do plasma, da música que te fez cego

e que trouxe as enumerações do sensível,

a evidência de uma cor extrema queimando

os signos e a gramática desenhada.

O que podemos projectar agora?

Quintais, Luís, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro, Lisboa: Livros Cotovia, 2010

«Thinking», The Muse of Smutty Yaoi, via Deviantart

Maria Teresa Horta – Infância


Infância


Convoco a memória do espaço da infância

para com ela entender o esquivo sofrimento

se em finitude me leva à inquieta beira

a prosseguir temendo à revelia do tempo


Não são os segredos mas o sinal sem norte

transportando consigo transbordante e breve

o desacerto que a vertigem liga ao abandono

seduzindo-me menina entregue à sua sorte


Foge o encanto e ainda mais amargo

na maçã o veneno dói e reclina

em desmesura unindo a fera e o afago


Desamado afecto na turvação que ensina

ao punhal, a empurrar a ponta do cuidado

cruel e indiferente à própria estima

Horta, Maria Teresa. Inquietude. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi. 2006.

© Alex, via Deviantart

Robert Frost – Nothing Gold Can Stay

(outras poéticas, por exercício de tradução)

Nothing Gold Can Stay


Nature’s first green is gold,

Her hardest hue to hold.

Her early leaf’s a flower;

But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf.

So Eden sank to grief,

So dawn goes down to day.

Nothing gold can stay.

*

Nada permanece em ouro.


O primeiro verde da Natureza é ouro,

A sua tonalidade a mais difícil de deter.

A sua adiantada folha uma flor;

Mas assim é uma só hora.

Depois, folha cai após folha.

Então o Éden mergulha na dor,

E a madrugada afunda-se no dia.

Nada permanece em ouro.

Frost, Robert. The Poetry of Robert Frost. © 1969. Henry Holt and Company.

(cena do filme The Outsiders, de Francis Coppola. Ponyboy Curtis (C. Thomas Howell) recita o poema a Johnny Cade (Ralph Macchio).

Miguel Cardoso – Que se diga que vi como corta a faca

Que se diga que vi como a faca corta

Primeira livro de poemas de Miguel Cardoso, Que se diga que vi como corta a faca, com a chancela da Mariposa Azual, lançamento já amanhã, na Fábrica do Braço de Prata, conforme programa que consta na imagem. Um poema que o apresenta.

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos

sem saber como, este espaço, este canto assim vago,

estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,

estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas

de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos

rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés

onde nos recompomos das derrotas, este modo

de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar

da garganta para nada e os rebuçados amarelos

e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons

das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos

raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,

e os dias sempre os dias outra vez os dias.

Cardoso, Miguel. Que se diga que vi como corta a faca. Lisboa: Mariposa Azual. 2010.

«Candies xD, jessica plankarte salas, via Deviantart

Ana Salomé – “Escuto o bater da terra,”

Escuto o bater da terra,

o terceiro conto que minhas irmãs

leram antes de vir parar aqui.

Por diferentes casas nos dispersámos,

bebendo leite, ensinaram-nos as letras,

partimos a meio vermes, rasgámos photos,

perdemos a virgindade sobre mantas de zebra,

deixámo-nos morder pelas meias-noites centopeias.

Já não nos reconhecemos,

nem nos espelhinhos das carteiras,

mas eu amo minhas irmãs

que me colocaram numa noz de sangue,

que me embalaram no céu dos seus colos

como uma nuvem branca estendida ao sol.

Preciso delas, de saber que conto vem depois,

que passos se dão sobre a terra, que quarto alua,

que vestido escolher no dia do seu regresso.

Ana Salomé,  via Candeia, publicado com autorização da autora.

"Detachment" © Sasha via Deviantart

Manuel Cintra – Tangerina

Este folheto,

edição do autor

com tiragem de 900 exemplares

e concepção gráfica de Vítor Silva Tavares,

foi composto e impresso em Dezembro de 1990

nas oficinas da Minigráfica — Cooperativa de Artes Gráficas, CRL,

Rua da Alegria, 30, nesta cidade de Lisboa

Depósito Legal N.º 42 294 / 90

Bastava o cólofon para tornar este livrinho matéria poética. Editado há vinte anos, encontrei-o em venda numa daquelas tendas sem tecto onde hoje se comerciam livros, nas estações de Metro. Tinha-o, comprei, dois euros e cinquenta cêntimos. Em vinte anos 900 exemplares que não esgotaram. Estão no Cais do Sodré, nos túneis.

O burgo quer é vuvuzelas.

(excerto)

EXPERIMENTAVA viver, quase como um exercício. Tinha seios nas mãos e a cara totalmente transformada em ovo. Palpitava-lhe nas têmporas um amor patético pelo mundo, tão ridículo e imenso que lá caberiam, pouco apertados, os outros amores. E dormia acordado, pelo prazer de esbater fronteiras.

Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. Eu já só tenho raiva.

(…)

Cintra, Manuel. Tangerina. Lisboa: Edição de Autor. 1990.

[Nota: transcreve-se apenas a primeira das 16 páginas deste «folheto» de Manuel Cintra (de quem aqui fala Henrique Fialho); não se pode transpor a belíssima mancha do texto, a partição do mesmo, a exactidão da cor da capa de Vítor da Silva Tavares (esse, o homem da &etc.), o toque dos tipos sobre o papel. Um regalo, que se pode encontrar ainda]

Maria Sousa – como se fossemos restos de histórias

como se fossemos restos de histórias

num ensaio geral de solidões


o tempo é um argumento

que nos fecha a porta

Maria Sousa, 20 de Maio de 2010, via There’s Only 1 Alice, publicado com autorização da autora.

© Renée, via Deviantart

“A Casa dos Anjos” – Luís Mário Lopes. Ou uma história (in)esperada.

a casa agora, o movimento implícito, cores e luzes

Um dia procurei casa e muitas vi e uma houve que me levou a dizer «é esta», sem pensar mais em procura. Tinha um azulejo na porta, um anjo azul. É a minha casa, tanto quanto as casas são nossas. Hoje procurei as chaves do correio e caiu-me um postal ao chão, manuscrito, apanhei-o e li: «Olá desconhecidos, pensei que gostassem de saber que a casa de “A Casa dos Anjos” é a “nossa” casa (agora vossa, em tempos minha). Obrigado por tomarem conta dela. Um abraço. Luís Mário Lopes.»

Podes estar descansado, Luís. Tomei conta da “Casa dos Anjos” sim. Aproveito-lhe a luz toda, o balanço, os espaços inesperados, o céu de Lisboa. Escrevi, escrevo aqui. E trouxe para dentro de portas um anjo verdadeiro, um dos raros que não caem. Obrigado por me teres feito saber, com o nome da peça, o que eu já «sabia».

“A Casa dos Anjos”, de Luís Mário Lopes, no Teatro Aberto

A Casa dos Anjos retrata o percurso de Ana, Eduardo e Maria dos Anjos cujas vidas ficaram para sempre ligadas e se misturaram com os factos, as datas e os nomes que marcaram a história de Portugal, do início do Estado Novo até ao final da década de 1970.

As histórias pessoais das personagens envolvem o espectador e suscitam uma reflexão sobre problemas políticos, culturais e sociais, do passado e do presente.

Trata-se de uma peça, vibrante, poética e comovente, foi distinguida com o Grande Prémio de Teatro Português SPA – Teatro Aberto 2009.


Para ver, até 11 de Julho, de 4ª a sábado pelas 21:30 e aos domingos pelas 16:00. No Teatro Aberto. Lisboa.

Encenação: Ana Nave – Cenário: Rui Francisco; Vídeos – Patrícia Sequeira; Figurinos – Rafaela Mapril; Luz – Melim Teixeira; Sonoplastia – André Lacerda; com: Custódia Gallego, Pedro Laginha, Sandra Barata Belo.

"A Casa dos Anjos"

João Aguiar – (1943 – 2010). Um escritor «light»?

Morreu ontem João Aguiar. Surgiu e fez-se notado no «romance histórico» com “A Voz dos Deuses” (1984). Na altura o género não estava popularizado, e o sucesso que o romance conheceu causou alguma surpresa no meio literário. Seria, hipoteticamente, um escritor «light»? Sobre isso afirmava, em entrevista  publicada no blogue Porta Livros, que pode ser lida aqui:

A literatura light poderá chamar leitores?
“Não sei. Tenho medo da literatura light. Por um lado pode ser o início, mas também pode ser o fim. É tudo muito complicado de definir. Eu iria mais para o que está bem escrito e mal escrito. Sherlock Holmes era literatura light! Não se pode ignorar.”

Parece-me bom que também haja escritores light (que não será sequer definição ajustada à muito diversa obra de João Aguiar), que têm leitores, que “criam” leitores. A Caras não cria; a Bola agora também já não.

João Aguiar (1943 - 1910)

De “A Voz dos Deuses” (excerto de uma extensa transcrição da obra, no Projecto Vercial)

II – A INSÍGNIA DO TOURO
I
Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Betúria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensiva – Cúrio e Apuleio teriam uns dois mil homens, nessa altura – e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.

Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além-Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Conímbriga e também os Vetões, fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros – ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Hermínios.

O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim – não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter uma resposta, Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos. (…)

Miguel Torga – Auto-retrato português

"mar português 2" © Pedro Norton, Olhares, fotografia online

(à Paula, contrariadora de preconceitos)

Auto-retrato português


Nesga humana de um grande mapa humano,

Aqui, a ocidente e ao sol, dormito;

O manto do infinito

Veste-me a pequenez;

E o mar cerúleo, aberto à minha ilharga,

Alarga

O meu nirvana azul de português.


Rei que renunciou, cansado,

Ao ceptro da aflição,

Digo não,

Digo sim,

Com igual abandono…

Tão distante de mim

Como do trono…


Vivi antes da hora o que vivi.

E, agora, vegeto,

Feliz de nada ser,

De nada desejar,

E de nada sentir,

Agradecido ao mar de nunca acordar,

E agradecido ao céu de sempre me cobrir.

Torga, Miguel, in “Colóquio/Letras” n.º 10, Novembro de 1972, Fundação Calouste Gulbenkian

"mar português 3" © Pedro Norton, Olhares, fotografia online

“Tess of the D’ Ubervilles” – Thomas Hardy

“I agree to the conditions, Angel; because you know best what my punishment ought to be; only – only – don’t make it more than I can bear!”
– Thomas Hardy, Tess of the d’Urberville

Nos 170 anos da nascimento de Thomas Hardy (2 Junho de 1840 – 11 Janeiro de 1928), pretexto para recordar um dos filmes da minha vida (damn, não se consegue fugir a citar o João Bénard da Costa). Melhor dito, pretexto para a memória da adolescência de hormonas e borbulhas, amplamente estimuladas pelo intensa desempenho de Natasha Kinski, então com 19 anos, uma linhagem cinematográfica de peso e uma carreira que tudo parecia prometer. De “Tess of the D’ Ubervilles” (1979) se fala, em Portugal estreado com um simplificado e muito apelativo título: “Tess“. Via este filme de Roman Polanski (que a justiça divina o proteja dos tribunais) cheguei ao livro, mais tarde ao autor. E se, de Thomas Hardy, aprecio bastante a poesia (obrigado, Rui Lage, por esta tradução), quando surge o nome do escritor de Dorset é do filme, não do romance, que imediatamente me lembro. Mas quem lhe ficou indiferente, a ele filme? Quem não suspendeu a respiração na cena final?

Pedro Tamen – Agora abandonado sem sentimento algum


Agora abandonado sem sentimento algum

de ter valido a pena ou de não isso,

de olhos abertos mais, assumo e amo,

encordoado como não sei que bicho,

de pé-coxinho como não sei que homem.

Olho A e B, e a ti, porém contando

com posição de mar roçando a praia alheia,

tão marginal mas útil de outra forma,

tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.

O lar sonhado não é aqui, mas onde

não sonhe mais por ele. Vivo

de pé, completo com aquilo

que outro vento não tive que me desse,

e mais ainda, com o que não tenho agora

nem pretendo rever: o dia é grande,

a morte igual, a voz silente.

Não posso pedir mais que o dom da sede.

TAMEN, Pedro, «Horácio e Coriáceo», Lisboa: Moraes editores, 1981.

(sobre o autor)

«Alone with the waves», Tayfun Eker © Tayfun Eker, via Deviantart

Se isto é um sindicalista…

Um tipo lê e pasma.

Para João Proença, Secretário Geral da UGT, a propósito de uma manifestação organizada pela central sindical que dirige, muitos mais manifestantes poderiam ter estado na rua e, se não o fizeram, foi «porque também entendem que neste momento de crise e de dificuldades há que ponderar bem as actuações concretas, se defendem bem ou não os trabalhadores». – lê-se aqui.

Um tipo não domina as subtilezas da lógica sindical de Proença e pergunta se muito mais manifestantes poderiam ter estado na rua num momento de prosperidade, crescimento económico e abundante fartura.

Mas o pensamento elaborado de João Proença vai mais longe: confrontado com a posição de constitucionalistas, entre eles  Vital Moreira e Jorge Miranda que afirmam ser o «caso de João Proença inconstitucional» aludindo ao Código do Trabalho em vigor (estabelece, no artigo 481º, que «é incompatível o exercício de cargos de direcção de associações sindicais com o exercício de quaisquer cargos de direcção em partidos políticos, instituições religiosas ou outras associações relativamente às quais exista conflito de interesses»), Proença, pertencendo à Comissão Política do P.S., desdramatiza airosamente a questão: «a Comissão Política do PS, de que faz parte, diz, «não é um órgão de direcção». «O órgão de direcção do PS é o órgão executivo, o Secretariado Nacional. A Comissão Política do PS emite opiniões». – lê-se aqui.

Um tipo faz um esforço, mas acaba por não perceber, evidentemente por culpa própria, se a Comissão Política do P.S. é uma espécie de «Forum TSF», «Opinião Pública» da SIC Notícias ou uma cervejaria de bairro em noite de bola.

Se isto é um sindicalista…(*)

Um sindicalista de mão cheia

(*) – Não costumo tratar pessoas por “isto”. Para esclarecimento, trata-se de uma citação indirecta, recurso de estilo totalmente despropositado e parvo, referente a «Se isto é um homem» de Primo Levi, um tipo que tinha umas ideias, não tão geniais e requintadas como o caso presente, é certo. Também não é hábito abordar questões ideológicas aqui, o que nem sequer é o caso, por manifesta inexistência de tema.