Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (quatro poemas e nota de leitura)

by manuel margarido

Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim
*
Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno
*
Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno
*
Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato

Há um longo poema contido neste livro, dividido em pequenas construções de três/quatro versos, funcionando como peças de dominó que, ligando-se entre si, se desdobram em formulações novas. O gato espera o homem que por ele se interroga sem cessar.

O gato desperta perguntas elementares, que se desenroscam em novas questões essenciais, primitivas, afastadas de razão ou metafísica (Para não pensar / excessivamente / passo a mão, devagar, / no seu dorso morno). Apenas o gozo de perguntar, que encontra resposta na temperatura, na macieza, no conforto, no desejo do gato; no que é primordial. Que as coisas do mundo ocorram e se convulsionem (sucedendo por Frielas ou por [Fernando] Pessoa) é, para o gato, para o homem, na tranquila incógnita que organiza o poema, indiferente.

Escrever simples não é fácil. Já que nos aborrecemos de vez com as tentativas sobre a forma haikai que abundam por aí, é dobrado o prazer de ler e interpretar (divagar sobre) os significados sugeridos pelo delicioso livro de Rui Caeiro.

Depois o prazer disto: os desenhos da Inês Caria (como este do extra-texto, que aqui se reproduz), os cadernos por abrir, o toque dos tipos, as gralhas rasuradas à mão pelo autor, o cólofon a informar: «Este livro é uma edição de autor, com arquitectura de Luís Gomes, foi composto em chumbo com caracteres Futura, por Eugénio Palma e impresso numa Minerva Heidelberg por António Trovão, em Lisboa no mês de Julho de 2013.»

CAEIRO, Rui, Um Gato no Inferno, Lisboa: Edição do Autor, Julho de 2013

Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (ilustação de Inês Caria)