As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Dezembro, 2010

Ana Hatherly – um rio de luzes

 

 

Este belo poema de Ana Hatherly é acompanhado (ou acompanha, em diálogo?) por uma ilustração que não escapou ao olhar do artista plástico Manuel San Payo. A ilustração bem podia chamar-se «um rio de luzes», como o poema. Trata-se do trabalho de um garoto sérvio, chamado Luka. Parabéns ao autor… e ao divulgador.

Um rio de luzes

 
Um rio de escondidas luzes

atravessa a invenção da voz:

avança lentamente

mas de repente

irrompe fulminante

saindo-nos da boca

No espantoso momento

do agora da fala

é uma torrente enorme

um mar que se abre

na nossa garganta

Nesse rio

as palavras sobrevoam

as abruptas margens do sentido

Hatherly, Ana, O Pavão Negro, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003

 

 

© Luka (D.R.)

(clique para ampliar)

 

 

 

Adília Lopes – Louvor do lixo

 

Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Lopes, Adília, A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002

© Paulo César, via Olhares, fotografia online, (D.R.)

 

Links Relacionados:

O poema, lido pela autora:

Site sobre Adília Lopes (poemas, entrevistas, críticas, links diversos)

O (novo) blogue da & etc

 


© Capa de Bárbara Assis Pacheco

valter hugo mãe – se o vento é a ignição

 

 

 

 

se o vento é a ignição

das árvores venha o

temporal, elas ateadas sobre

as nossas cabeças, desmembradas

da terra como voadores desajeitados, meu pai

já conheço o vão da tua fome, peço-te,

faz de mim uma colher

divina

mãe, valter hugo, Útero, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2003

«inner storm», jkemp © jkemp, via Deviantart, (D.R.)

Links Relacionados:

valter hugo mãe

Manoel de Oliveira – Amor de Perdição

 

No 102º aniversário de Manoel de Oliveira. Por este filme cheguei ao Camilo, ao cinema da palavra, a um Romantismo que só podia ser português.

Nuno Júdice – Retrato

 

 

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,

no espelho da memória, à luz

frouxa da lâmpada que nos

esconde. Puxo-te para fora

da moldura: e o teu rosto branco

abre um sorriso de água, e

cais sobre mim, como o

tronco suave da noite, para

que te abrace até de madrugada,

quando o sono te fecha os olhos

e o espelho, vazio, me obriga

a olhar-te no reflexo do poema.

Júdice, Nuno, Pedro, lembrando Inês, Lisboa: Publicações D. Quixote, colecção Frente e Verso, 2009

«Anathema», © Michel Omar, via Deviantart

 

Links Relacionados:

Nuno Júdice aqui, aqui e aqui

Helder Moura Pereira – Espera

 

 

 

Quebram na janela exposta folhas vivas

e três ou quatro ouriços de castanheiros.

O mundo desenrola-se sobre a azinhaga

que conduz a umas casas vagas, cascas

de nozes, barcos na poça de água, o silêncio

de inexistentes crianças, apenas os nossos nomes

musicais se assemelham, nuns gritos,

ao bulício que podia fazer disto uma terra

viva. Partes pedra. Amarela e riscada

de linhas prateadas, paralelas, mais perto

da rocha que do pó, pedra de delimitar

caminhos, pedra forte. Já te mostrei este poema

e a tarde foi-se, hei-de um dia esperar por ti

como quem espera pelas palavras, ou seja,

sem esperar delas absolutamente nada.

Helder Moura Pereira → via blogue O Sol Quando Nasce, 11 de Novembro de 2010.

(‘reposta-se’ o poema sem pedido prévio ao autor. A não existência de referência a protecção dos direitos do mesmo não justifica o acto. Há impulsos que, porém…)

«waiting for autumn», alexandru1988 © alexandru1988, via Deviantart

 

Links Relacionados:

Helder Moura Pereira

Blogue do autor (O Sol Quando Nasce)

Artigo de Eduardo Pitta no Público (via blogue «Da Literatura)

Fotografia


Pedro Mexia – Paráfrase

 

 

Paráfrase

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência
infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

Mexia, Pedro, Avalanche, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2001

«Time won't let me go» © Felicia Simeon, via Deviantart (D.R.)

Gonçalo M. Tavares – [a mulher tem a química dos animais…]

 

 
a mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,

e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.

Os contágios são calmos.

Se uma flor voasse perdia o cheiro;

e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.

Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.

Ficámos nós, sós, e a Filosofia.

A pedra calada, o animal grunhe,

a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,

e os cães ladram debaixo do Sol.

Todos somos resíduos imperfeitos

e os organizadores do Baile saíram logo no início,

deixando a Música, mas não os passos.

Por isso tropeçamos,

partimos a unha má e boa,

apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,

e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.

Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,

esse caixão que vem antes do tempo,

e nos fecha dos outros e do dia.

O que queremos é sossego;

nem Mistérios nem passos de dança,

apaguem a Música.

Tavares, Gonçalo M., Investigações. Novalis, Lisboa: Difel, 2002

(Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores)

«Soul Spring» © Elif Salem Karakoç, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Gonçalo M. Tavares

Blogue de Gonçalo M. Tavares


Rui Manuel Amaral – Doutor Avalanche

Foi lançado no dia 4 de Dezembro o novo livro de Rui Manuel Amaral, «Doutor Avalanche», edição da Angelus Novus. O livro tem um blogue próprio, onde se pode encontrar  exaustiva informação, bastante útil para um conhecimento adequado do título e do autor, incluindo notas críticas, onde se destaca a singularidade da escrita e do estilo de Rui Manuel Amaral no panorama da actual narrativa que se publica em Portugal. Várias são as referências a uma tradição (estribada em diversos autores), podendo ler-se: «(…) é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das histórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés». Ao ler Rui Manuel Amaral, não me é possível deixar de pensar em Mário-Henrique Leiria como memória incontornável para a leitura da escrita deste autor.

o que os peixes decidiram fazer

Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Coimbra: Angelus Novus, 2010

Capa do livro. Design de Sandra Roldão.

 

Maria Sousa – Exercícios para endurecimento de lágrimas

 

 

(reeditado, após alguns reparos pertinentes de Diogo Vaz Pinto, responsável pelas “Edições Língua Morta”)

Com lançamento em dia fadado a bons acontecimentos relativos à edição de poesia, 11 de Dezembro (pelas 18.30h, no Bar do Teatro A Barraca, em Lisboa), é com grande prazer que se anuncia aqui o lançamento de «Exercícios para endurecimento de lágrimas», nas “Edições Língua Morta”, essa outra recente boa notícia para a persistência da poesia editada. Para quem não conheça, Maria Sousa é autora de um dos mais interessantes (e belos) blogues feitos no burgo: There’s Only 1 Alice. É de grande valor e muito estimulante o trabalho poético de Maria Sousa, já publicado em revistas de poesia e conhecido por quem anda mais atento. Finalmente pode ler-se em livro (com uma tiragem de ainda por definir, mas que oscilará entre os 150 e os 200 exemplares!). Aqui se deixa um poema da escritora, originalmente publicado no blogue referido (apesar de o mesmo não constar no livro, servirá como uma espécie de amuse-bouche).

A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.

Maria Sousa (→ There’s Only 1 Alice, publicado sem autorização expressa da autora, acto de pirataria para o qual se augura pesado castigo)

«Exercícios para endurecimento de lágrimas»

Links Relacionados:

Língua Morta

Catarina Nunes de Almeida – «Bailias» (apresentação e um poema)

 

 

Poema do novo livro de Catarina Nunes de Almeida, «Bailias» (após «Prefloração», Quasi, 2006 e «A Metamorfose das Plantas do Pés», Deriva 2008) , de novo com a chancela da Deriva, que persistentemente continua a apostar nos seus autores e na poesia. Antecedido pela sinopse de contracapa, da autoria de Ana Salomé. Na imagem, o programa de apresentação do Livro em Lisboa, no Teatro da Casa da Comédia, dia 11 de Novembro às 21.30h.

«Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico.» – Ana Salomé

 


Irei eu se ele for

na cavalgada.


Irei eu a galope em meus pés

veloz por entre as avezinhas

do fundo das águas-furtadas

em águas de lábios furtadas

veloz e espessa como a torrente

de um parto.


Irei eu em todas as minhas mãos

pégasos e ventanias

o corpo preso por um frio gentil

o corpo a tilintar de sonhos.


Serei eu o que ele for

na cavalgada.


Irei eu sem música sem mesa posta

dar-lhe prato verde

onde caibamos os dois dar-lhe

este emudecimento este abatimento cardíaco

da floresta.

Almeida, Catarina Nunes de, Bailias, Porto: Deriva Editores, 2010

 

Cartaz de apresentação do livro

 

Links Relacionados:

Catarina Nunes de Almeida

No blogue da Deriva

Bailias