As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Março, 2010

“Vincent” – Tim Burton

O primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton ( ←que tem um fabuloso site, basta clicar sobre o nome). Conta a história de Vincent Malloy, um menino de 7 anos que quer ser como Vincent Price. A narração é do próprio Price.

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Álvaro de Campos – Ai, Margarida,

O poema musicado e cantado pelos Guta Naki, no post anterior. Sequências (não) acidentais.


Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,

Casava c’um homem cego

E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.

E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

— Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval

Sr. Álvaro de Campos em estado

de inconsciência

alcoólica.


1-10-1927

Álvaro de Campos, “Livro de Versos” –  Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

© daVid, Olhares, fotografia online

Guta Naki

"Os Poetas da Meia Noite" - fotografia de Rita Nunes

Ainda ecos da sessão / evento / sei lá como catalogar, que teve lugar na noite de 20 para 21, no Teatro Casa da Comédia. Apresentados pelo anfitreão Filipe Crowford, nesta fotografia (descaradamente roubada no Facebook, da autoria de Rita Nunes), da esquerda para a direita: Miguel-Manso, Ana Salomé, Hugo Milhanas Machado, Filipa Leal, Vasco Gato e Catarina Nunes de Almeida. Seis autores com vozes poéticas muito distintas, mas tendo em comum uma maturidade e intensidade notáveis (aqui apenas o gosto determinará preferências). Manuel Cintra encerrou (ele que afirmou preferir abrir) a festa. Entre leituras, gostei particularmente de ouvir os Guta Naki, grupo que não conhecia. Entre textos de Álvaro de Campos e Henry Miller, pelo menos uma cantora de uma expressividade vocal e cénica surpreendentes.

Miguel-Manso, o “Santo Subito”, os papéis deixados caídos

Na muito mais que agradável noite de poesia e música Os Poetas da Meia Noite, que aqui se anunciou, Miguel-Manso é o último poeta a dizer os seus textos. Di-los (muito bem de resto, num tom desprendido, quase casual) e à medida que os vai lendo deixa cair as folhas manuscritas no chão. No final, quando os autores e os músicos saem, chama-se-lhe a atenção para os papéis deixados espalhados, aparentemente esquecidos. O Miguel encolheu os ombros, como quem diz «fiquem com eles». Eu, dando largas ao meu lado saloio, peguei numa das folhas, com um poema do último livro do autor, “Santo Subito” (sendo que o subito não é gralha). Continuando o parolo episódio, pedi-lhe que me identificasse o manuscrito, expressão rebuscada para o piroso gesto de pedir um autógrafo. Sendo o Miguel um senhor  e um senhor gentil, assim o fez. E aqui se deixa, transcrito o poema como vem composto no livro… e a folha em que o mesmo poema foi escrito para ser lido em público.

Na noite de 20 para 21 fiz bem em andar aos papéis. Obrigado, Miguel-Manso.

(exegetas: aqui tendes material para aturados estudos sobre as variações da grafia do poema, as letras emendadas, a inclinação dos versos, a questão das maiúsculas e das minúsculas, coisas capaz de proporcionarem preciosos estudos no “Centro de Documentação Miguel-Manso”,  “Casa de Miguel-Manso”, “Fundação Miguel-Manso”, a ser inaugurada possivelmente em Santarém, certamente em 2079)

Manso em Março 10

EM ÉVORA, UM TERRAÇO


quando o nível das águas subir

(não se sabe ainda quantos metros)

e se apagarem certos lugares: a sombra

do limoeiro da infância


a praia onde todo o Verão cabia


e terminar submerso tudo o que foi raso e sacro

então que pelo menos permaneça intacto

aquele terraço em Évora


MIGUEL-MANSO, “Santo Subito”, Lisboa: Os Carimbos de Gent, Março de 2010 (edição de autor)

Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)

“Padrões Poéticos & Léguas de Poemas”, ou do «Ajavardamento Poético» como um lugar asseado.

Então recebe-se um “comentário” assinado por “Abóboras Mecânicas” e torce-se logo o nariz; e o comentário pede a divulgação de um evento e revolve-se a gente logo na cadeira; e o comentário remete para o blogue “Ajavardamento Poético” e fica-se à beira de apagar a coisa. Pelo sim pelo não vai-se ver. E a surpresa é grande. Porque “Abóboras Mecânicas”, num divertido jogo de deslocação das laranjas,  é o nome de guerra de um grupo de alunos, mais concretamente alunas, todas raparigas (que andais fazendo, rapazes, a assobiar o adágio de que a poesia é coisa de meninas?). Alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua. Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes, para que conste, o anonimato fica-lhes tão mal. E então visita-se o blogue, o tal Ajavardamento Poético, e pasma-se a sério. É um belíssimo sítio de partilha e vivência da poesia, com surpreendente critério e notável atenção à poesia, com forte focalização nos “novos autores”, que se percebe lidos com intensidade e divulgados com gosto. Ou, como se diz no perfil do blogue: «No âmbito da disciplina de Área de Projecto as Abóboras Mecânicas fazem surgir um espaço onde todos podem javardar. Um espaço asseado porém. Um espaço onde se sublimam as palavras e os dizeres. Um espaço de voo. Convida-se toda a Comunidade Escolar a entrar. Sirvam-se da nossa língua sirvam-se do que vos grita o íntimo sirvam-se deste blogue.». Um espaço asseado, sim. Que se atreveu, e quase se escapava a finalidade do post, a esta proeza: organizar um evento que reunirá um valoroso grupo de poetas na próxima quinta-feira, dia 25 de Março, pelas 15h, na Casa-Museu Abel Salazar em São Mamede de Infesta. Não carece de mais informação, esta notícia de carácter publicitário: até o cartaz, em baixo, pede meças a muitos trabalhos profissionais.

Mas suscita uma sugestão: quem questiona as novas tecnologias (e a perniciosa internet) como perigo potencial para a aprendisagem, vá ajavardar as ideias no blogue referido. Talvez elas, as ideias, fiquem mais límpidas. Ainda uma outra interrogação: poderá um professor de Língua Portuguesa, que se limite a cumprir a sua função by the book, estimular o gosto pela poesia que as possibilidades de uma plataforma como um blogue colectivo oferece? Talvez. Mas por que não os vemos mais, a eles professores, no lugar de dinamizadores e/ou participantes? São tão poucos os que o fazem.

(Felicitem-se, já agora, os poetas cúmplices com estes “Padrões Poéticos & Léguas de Poemas:” Amadeu Batista; Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Jorge Velhote, Nuno Dempster, Sara Canelhas, Teresa Tudela, Viale Moutinho, Vicente Ferreira da Silva).

Padrões Poéticos & Léguas de Poemas

(clique para ampliar)

Jorge de Sena – Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Não sou especialmente apreciador de poemas ideologicamente informados, ou de “mensagem”, pelo menos na poesia portuguesa contemporânea; mas este é apenas um aparente caso eventualmente catalogável nas franjas do neo-realismo. Lendo-o, percebemos como ultrapassa escolas, orientações e “credos”.  Tratando-se de Jorge de Sena, seria inevitável.

O que interessa: quando o li pela primeira vez não tinha filhos e estava muito longe de os ter. Mas de imediato a força da ideia que lhe subjaz me deixou uma certeza: um dia leria este poema aos meus filhos a ter. O tempo trata de colocar as coisas no lugar. Já com filhos grandes e pequenos, nunca tentei. Pertencem a um outro mundo.

Porém, a ideia contida nesta belíssima epístola poética ainda fere de actualidade. Muito. Demais.


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

SENA, Jorge de, “Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, Lisboa: Moraes, 1963.

Francisco de Goya, "Los fusilamientos del 3 de mayo de 1808 en la Montaña del Príncipe Pío" (1814), Museo del Prado, Madrid (D.R.)

(clique para ampliar)

Novos Poetas (52) – Vasco Gato

No peito, a manivela ferrugenta

que faz abrir a respiração

começou a emperrar

e o corpo aprendeu rapidamente:

o suor como se a roupa

fosse um antídoto.

O belo cavalo branco de cascos

impretéritos avançou

então

pelas vértebras

mas não impediu que a imagem

fosse real.

Cordas de piano

por onde trepam os assassinos

e onde por vezes

se enforcam

antes de alcançarem a janela,

o repto impune dos que dormem:

vela-me.

GATO,  Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)

“Alice e os Estilistas”, by Annie Leibovitz

Claro, nestes tempos de “Alice no País das Maravilhas” (surge et ambula, Tim Burton dixit), a Vogue lembrou-se do material que tinha na sua edição de Dezembro de 2003. Uma ideia aparentemente simples: pegar em excertos do texto, numa única modelo (Natalia Vodianova, em registo muito Lolita) e num conjunto de prestigiados estilistas (ou designers, como se preferir) de moda. Cada um deles veste Alice e surge, quase sempre, na composição. Leibovitz trata de criar o conjunto. Simples? Aparentemente, disse-se. O jogo combinatório entre a textualidade, a encenação, as criações de vestuário, a participação dos designers, o cenário e o olhar da fotógrafa criam um vasto campo de combinações semânticas, bastante estimulante. Pode ser vista, a referida matéria, nesta galeria. Na imagem, a fotografia produzida para a criação de Tom Ford.

"I wonder if I shall fall right (...)", estilista: Tom Ford © Annie Leibovitz

Manuel António Pina – As Vozes


AS VOZES


A infância vem

pé ante pé

sobe as escadas

e bate à porta

– Quem é?

– É a mãe morta

– São coisas passadas

– Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!

E se somos nós quem está lá fora

e bate à porta? E se nos fomos embora?

E se ficámos sós?

PINA, Manuel António, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

© Débora Klempous, Olhares, Fotografia Online

Ana Hatherly – Tisanas

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Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

ilustração infantil, inspirada no livro “T.J.’s Desert Surprise” de Emily A. York

Pablo Neruda – Cartas de amor

Nem sempre o epistolário amoroso de um escritor é motivo de interesse literário; quase nunca o é, de resto, a não ser para exercício de voyeurismo, e alguns exemplos chegam mesmo a beliscar penosamente a imagem de quem os escreveu. Não é o caso de Pablo Neruda (1904 – 1973), quer pela importância da temática amorosa na sua obra poética, quer pelo interesse biográfico, iconográfico e pela “petite histoire” que encerra esta colecção de cartas inéditas escritas ao longo de mais de duas décadas a Matilde Urrutia, sua viúva, seu último amor. São agora publicadas na casa Seix Barral, e divulgadas no El Cultural online, onde se pode descarregar um pdf com quinze delas (e respectiva transcrição) e ler uma interessante nota de leitura à edição, escrita pela particularmente autorizada mão de Joaquín Marco. Aqui se deixa um postal manuscrito, e respectiva transcrição, para abrir o apetite. Quem hoje recebe mails de amor haverá de ter inveja de Matilde.


original

transcrição

Luís Quintais – “O Mundo como Representação”


O MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO

“O mundo é a minha representação.”

Que tipo de imagem

eclode na mente

quando, de noite, um cão uiva,

como se a sua carne

não fosse carne da sua carne,

mas um véu espesso

que cobre a dor

e a torna mais intensa?

Uma janela abre-se de par em par,

e eu persigo os sulcos e a ira

desse cão mirífico,

desse cão que existe algures

para lá do ver.

A noite que ignorei torna-se visível,

mas não a ira, a ira absoluta do cão,

ainda que os meus olhos

ceguem numa exasperante vontade

de luz.

QUINTAIS, Luís, “Duelo”, Lisboa: Livros Cotovia, 2004.

Francisco Goya, "Perro semihundido" (detalhe) - Museu do Prado (d.r.)