As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Agosto, 2010

Helder Pacheco – «Ah! Ver o Porto…»

Relembra-se Helder Pacheco, o sua ímpar conhecimento e extremo amor pela cidade do Porto (que bem se percebe na sua obra e conhece espelho no seu blogue e no texto que aqui se deixa); pretexto, igualmente, para dar a conhecer Rui Vaz, um fotógrafo com o inequívoco mérito de captar o espírito dos lugares.

Ah! Ver o Porto…

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é – sempre ou quase – reencontrar imagens de certa forma de cidade escondida, que conservamos dentro de nós. Imagens densas, impenetráveis como neblinas envolvendo as manhãs.

Imagens de crepúsculos nos outonos tingindo o casario, telhados, clarabóias, águas-furtadas, torres, lanternins e chaminés de S. Nicolau, Vitória e Miragaia. Tingindo-os e misturando a suavidade de cores indefinidas, de cores esbatidas sugerindo atmosferas que as palavras não conseguem (ou não podem) descrever: púrpuras e cobaltos desmaiados ou brevemente laranjas. Violetas-cinza penetrados por claridades que produzem brilhos leves nas vidraças das janelas. Imagens de entardeceres vistos da Ponte, do Jardim do Morro, da Serra do Pilar, pontilhados de luzes, milhares de luzes reflectidas nas águas do rio.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é – sempre ou quase – um ajuste de contas. É um acertar das nossas percepções com as imagens de certa forma de perenidade que guardamos num recanto da memória (ou talvez da fantasia), dentro de nós. Imagens das escuridões eivadas de sobressaltos e inquietudes (ou solidões) quando anoitece. Quando anoitece e aumenta aquela impressão subjectiva – será do granito e das morrinhas ou é apenas sentimento? – da cidade sombria e húmida, da cidade agreste e desabrida. Imagens de tonalidades frias dos invernos do noroeste, mesclados de azul esbranquiçado e verde, em transparências, em velaturas de suaves e quase imperceptíveis gradações.

Imagens concretas. Imagens afirmativas dos lugares onde a História assentou raízes. Nas marcas dos tempos, nas evocações das crónicas e lendas retidas no imaginário persistente nos habitantes. Imagens de ruas e travessas, escadas e recantos, vielas, becos e esquinas com referências, com espírito e razão sedimentados nos séculos.

Dantes, os rabelos vinham, às centenas, rio abaixo, até à Ribeira, carregando sangue do comércio que fez prosperar a cidade. E agora? Agora estão ali, feitos silhuetas melancólicas e nostálgicas, pousando num rio agredido de que restam, apenas, a poesia e as recordações. Recordações da azáfama dos vapores e batelões, barcaças e caícos. Nostalgias de um rio de que restam, apenas, névoas e gaivotas. E restam, no Cais de Vila Nova, barcos sobreviventes dos tempos da epopeia de descer o rio, reconstruídos com os últimos saberes que persistem nos mestres dos estaleiros de Rei Ramiro.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é permanecer fiel a um certo, subtil e indizível sentimento de viver, de pertencer a um território com carácter e tradição.

Ah! Ver o Porto…Ver o Porto é guardar imagens da luz e da atmosfera que, em algumas horas e em certos dias, envolve, define ou atenua os contornos do burgo: morros e torres, maciços verdes e muralhas, pontes e palácios, margens e cais.

Ah! Ver o Porto, eis o desafio para olhar e reter os encantos e magias que sobrevivem na cidade inesquecível que aí está, à espera da nossa descoberta, da nossa nostalgia e da nossa paixão. Porque, afinal – confirmando Saint-Exupéry ao escrever que o essencial é invisível para os olhos -, ninguém, acho eu, pode ver (e entender) o Porto senão com o coração.

«Céu Porto Nebulado», Rui Vaz © Rui Vaz (d.r)

(clique para ampliar)

Ligações relacionadas:

Helder Pacheco – Blogue

Rui Vaz – Blogue

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Vergílio Ferreira – «Carta» (um conto)

Agora que na Quetzal se procede à reedição da obra e à publicação de inéditos de Vergílio Ferreira, lê-se de novo o volume que reúne os Contos do escritor, e aqui se deixa um deles, na íntegra.

«flames», maria © maria, via photobucket (d.r.)

CARTA


Eis que te procuro agora como nunca, te espero agora como nunca. Se tu visses… A casa fica no meio das oliveiras e de um quintal de verdura. O tempo não passa por ela distraído, e demora-se sempre um pouco. Quando é pela primavera, há flores nas macieiras e pintainhos novos pelo pátio. E quando é o Verão, há as manhãs solenes, e quando é o Outono, o ouro das colheitas. Lembro essas manhãs e o brilho fresco da água pelas noites sufocantes de Julho, e o frémito da terra na hora do recomeço. Meu pai, quando parti, disse-me:

— Volta.

Minha mãe olhava-me em silêncio, dorida, e todavia serena como se detivesse o fio do meu destino, ou soubesse, da sua carne, que tudo estava certo com a vida: o nascer, o partir, o morrer.

— Volta — repetiu ainda meu pai.

Eis que volto, enfim, nesta tarde de Inverno, e o ciclo se fechou. Abro as portas da casa deserta, abro as janelas e a varanda. No quintal as ervas crescem com as sombras, as oliveiras têm a cor escura do céu. Em baixo, no chão húmido ao pé da loja, há restos de ferragem enferrujada: um sacho sem cabo, um aro de pipa, um regador. Meu pai amava a terra. Lembro-me de o ajudar a podar o pequeno corrimão de videiras, de lhe ir encher o regador para o cebolo novo. Minha mãe olhava-nos da varanda e os três sabíamos uns dos outros no silêncio dos corações. Pensei, sofri, lutei. Mas de tudo o que aconteceu é como se nada me tivesse acontecido. Alguém me incumbiu do que fiz, muito antes de eu nascer, quando outros homens, outra gente, acabavam a tarefa que eu havia de começar. Essa tarefa deixo-a aos que vierem depois. De tudo, ficou-me apenas esta voz humilde que ouço, que ouço.

— Se voltares — tu o dizias.

Aqui estou. Acendo lenha no fogão e as chamas crescem como uma memória antiga. Silêncio bom. Como outrora. Como quando nada tínhamos já a dizer, e estávamos cheios, todavia, da presença um do outro. Estendo as minhas mãos ao calor, e olho, e escuto. O lume enche-as de sangue, acende-as por dentro como brasas. Tu dizias:

— Ninguém conhece as suas mãos. Só talvez as dos outros. É bom ter as tuas aqui, com os dedos todos submissos.

Estranhas noites estas de Inverno, sem um rumor. Só os cães ladram das quintas. Discutem pela noite fora até adormecerem. Ouço um já rouco, lá nos confins da noite, agora a falar sozinho, decerto para ter a última palavra. Houve um cão outrora cá em casa. Numa manhã de chuva, achámo-lo à porta da cozinha, todo ensopado, a tiritar. Minha mãe não gostava de cães.

— Sujam tudo, roem tudo.

Enxuguei-o, dei-lhe pão, pus-lhe um nome. Minha mãe resignou-se. Os caçadores levavam-no à caça porque tinha bom faro. Um dia, não sei como, mataram-no com um tiro. Era um cão perdigueiro. Tinha um olhar humano.

A chama apaga-se, a pirâmide de carvões desmorona-se. Os cães adormecem enfim, sob o grande céu de estrelas. Não há lua. Nem vento. Só as estrelas vibram no céu negro de veludo. Se tu viesses. Eu te imagino, desde o fundo do meu cansaço, silenciosa e grave como esta hora final, como um apelo obscuro vindo do abismo do tempo. Um halo de sombra coroa o teu olhar, a tua presença é quente como o fluido da ternura. Tudo em vão, tudo em vão. Ou não bem isso, não bem isso. Alguma coisa me ficara esperando talvez, desde antes e antes, qualquer coisa que eu trazia do lado de lá da vida. Eis que a encontro e me fala e floresce no sangue e procuro reconhecê-la na tua face. Aqui ao pé do fogão há uma cadeira de braços. Minha mãe sentava-se nela, meu pai nesta em que escrevo. Pelas noites de vento, olhavam o lume, deixavam-se adormecer… Tu dizias:

— É bom terem já dito tudo e reconhecerem-se ainda.

Abro de novo a varanda para a noite, o ar gela-me a face como um espelho. Ao fundo do quintal havia uma figueira grande. Minha mãe franjeava xailes e cintas para fora. E eu atava as cintas e balouçava-me na figueira.

— Ah, tu acabas por deitar a figueira abaixo. E já rompeste duas cintas.

Numa noite brava de Inverno, a figueira caiu. E minha mãe dizia sempre, daí em diante, que fora de eu me balouçar…

Tanta coisa aconteceu e eu recordo e eu recupero não talvez na lembrança, não talvez, mas num apelo indistinto e longínquo e angustiante como o silêncio desta noite. Olho ainda o frémito das estrelas sobre a aridez fria da terra. E penso: «Qualquer coisa vai acontecer de misterioso e grande, qualquer coisa miraculosa se anuncia como a vinda de um Deus.»

— Sim, a esperança é talvez a melhor parte da vida.

Tu o dizias. Eis que porém a minha esperança tem agora a cor do cansaço e da resignação. E de tudo o que pensei e quis que brotasse da terra, de tudo o que foi novo e me comoveu, da agitação do meu sangue, do clamor com que fiquei rouco, da fúria, do choro, da alegria, de tudo o que me deu a conhecer os meus dentes, os meus ossos, as minhas pobres vísceras — a forma que se desenha e que me envolve agora tem o volume quente do seio da piedade. Se amanhã quando me erguesse e pensasse que havia ainda um dia árido a vencer, e outra noite, e outro dia, e quantos dias e quantas noites o tempo guarda para mim, eu de manhã te encontrasse preparando o fogão e o aroma da casa, e te sentasses nesta cadeira ao lado, e os dois nos esquecêssemos de falar, até um dia, até um dia, e nos deixássemos enfim adormecer…

Ferreira, Vergílio, Contos, Lisboa: Bertrand Editora, 2008.

António Feijó – Anacreôntica

Respigado da selecção de Maria Alzira Seixo no livro da colecção Os Poemas da minha Vida, editada pelo jornal Público, este soneto de António Feijó, que valerá o que nele se conseguir encontrar e gostar. Muito encontra, na breve mas incisiva nota de leitura, Maria Alzira Seixo (que pode ser lida no final do poema).

ANACREÔNTICA


Teu rosto é como

Um róseo pomo

Que eu só desejo

Morder num beijo


Último tomo

De amor que eu domo

Enquanto almejo

O grato ensejo…


O afecto que

Me enchera de

Paixão fatal


Vê com ardor

Teu belo cor-

po escultural!

Feijó, António, in Maria Alzira Seixo – Os Poemas da Minha Vida, Lisboa: Público – Comunicação Social, S.A., 2005.

«Anacréon», Eugène Guillaume, Musée d'Orsay (d.r.)

(nota de leitura de Maria Alzira Seixo)

[Uma fase decisiva para o conhecimento da poesia é a que encontra as antologias de Líricas Portuguesas, da Editora Portugália, nas suas quatro séries, organizadas por José Régio, Cabral do Nascimento, Jorge de Sena e António Ramos Rosa. Uma possibilidade de experiência única para o leitor de poesia. Os pórticos das antologias são momentos privilegiados, e a segunda série abre com este inesperado poema do autor das Bailatas. A sua metrificação rara e a quebra do verso, então pouco usual, comunicam um erotismo directo e algo irónico, estecticista e distante, que como que confunde o corpo do amante com o corpo do poema.] – Maria Alzira Seixo.

Ligações relacionadas:

António Feijó (nota biográfica e alguns poemas do autor)

Maria Alzira Seixo

Marguerite Yourcenar – Cantilena para um tocador de flauta cego


Cantilena para um tocador de flauta cego


Flauta da noite que se cerra,

Presença líquida de um pranto,

Todos os silêncios da terra

São as pétalas do teu canto.


Espalha teu pólen na alfombra

Do catre que por fim te acoite

Mel de uma boca de sombra

Como um beijo na boca da noite


E pois que as escalas que cansas

Nos dizem que o dia acabou,

Faz-nos crer que os céus dançam

Porque um cego cantou.

Tradução de Mário Cesariny

Yourcenar, Marguerite, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

«Shakuhachi Player», Alessandro © Alessandro, via Deviantart, (d.r.)*

(poema original)

Cantilène pour un joueur de flute aveugle


Flute dans la nuit solitarie

Presence liquide d’un pleur,

Tous les silences de la terre

Sont le pétales de ta fleur.


Disperse ton pollen dans l’ombre,

Ame pleurant, presque sans bruit,

Miel coulant d’une bouche sombre,

Comme un baiser fait à la nuit.


Et, puisque tes lentes cadences

Rythment le pouls des soirs d’été,

Fais-nous croire que les cieux dansent

Parce qu’un aveugle a chanté.

Ligações relacionadas:

Marguerite Yourcenar (Wikipedia)

Alguns poemas de Marguerite Yourcenar (em língua francesa, traduzidos para castelhano)

Entrevista a Marguerite Yourcenar na The Paris Review, 1988 (em língua inglesa, pdf. descarregável)

* Na fotografia: um Shakuhachi

Margaret Atwood – O Momento

Há coincidências que não se devem desprezar. Em 24 horas, mão amiga faz-me chegar o poema The Moment, de Margaret Atwood; o suplemento Ípsilon do jornal Público publica rara e estimulante entrevista de Helena Vasconcelos à poetisa e romancista; finalmente, na procura de uma citação adequada para responder a um comentário a post anterior, deparo-me com uma frase da escritora canadiana, em epígrafe, num dos meus blogues favoritos. Respeitem-se as coincidências, agradeça-se o poema traduzindo-o, acto de pouco glorioso resultado; louve-se ainda o trabalho de Helena Vasconcelos.

The Moment


The moment when, after many years

of hard work and a long voyage

you stand in the centre of your room,

house, half-acre, square mile, island, country,

knowing at last how you got there,

and say, I own this,


is the same moment when the trees unloose

their soft arms from around you,

the birds take back their language,

the cliffs fissure and collapse,

the air moves back from you like a wave

and you can’t breathe.


No, they whisper. You own nothing.

You were a visitor, time after time

climbing the hill, planting the flag, proclaiming.

We never belonged to you. 
You never found us.

It was always the other way round.


Margaret Atwood

«Between Light And Nowhere», Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (d.r.)


O Momento



O momento quando, após muitos anos

de trabalho duro e uma longa travessia

te encontras no centro do teu quarto,

casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país

sabendo por fim como lá chegaste,

e dizes, eu possuo isto,


é o mesmo momento em que as árvores desatam

os seus macios braços em teu redor,

as aves retiram a sua língua,

as falésias fissuram e colapsam,

o ar vem devolvido de ti como uma onda

e tu não consegues respirar.


Não, murmuram eles. Tu não possuis nada.

Tu foste um visitante, uma e outra vez

subindo a colina, cravando a bandeira, proclamando.

Nós nunca te pertencemos.

Tu nunca nos encontraste.

Foi sempre o contrário.


Ligações relacionadas:

Margaret Atwood

Entrevista de Helena Vasconcelos a Margaret Atwood (Ípsilon, 20 de Agosto de 2010)

Luiza Neto Jorge – A Magnólia

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.


Um diminuto berço me acolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.


A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

Jorge, Luiza Neto, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.


Claude Monet, «Nymphéas» (detalhe de tela da série com o mesmo nome) © Musée de l’Orangerie, Paris (d.r.)

(clique para ampliar em alta resolução)

English translation by Richard Zenith:

Exaltation of the minimal
and the magnificent lightning
of the master event
restore to me my form
my splendor.

A tiny crib cradles me
where the word elides
into matter – into metaphor –
as needed, lightly, wherever
it echoes and slides.

Magnolia,
the sound that swells in it
when pronounced,
is an exalted fragrance
lost in the storm,

a magnificent minimal entity
shedding on me
its leaves of lightning.


Ligações relacionadas:

Luiza Neto Jorge

Rodrigo Leão – A Magnólia

Claude Monet – Nymphéas (Water Lilies)

Musée de l’Orangerie

João dos Santos – «Morrem aos 30 e são enterrados aos 70»

(…)

Os políticos realmente são supostos ser pessoas adultas, sem infantilidades, que não brincam com as coisas. Mas eu não creio que isso se passe só com os políticos. Acontece o mesmo com muitos outros indivíduos, com pessoas que exercem funções um tanto burocráticas, ou directivas, funções que exigem um certo investimento de autoridade e de seriedade, funções que fazem com que as pessoas que se investem dessa autoridade deixem de ser crianças, ou fazem com que as pessoas que deixaram toda a sua infância para trás, que a anularam, possam ser chefes de qualquer coisa, directores, polícias, enfim, coisas diversas. Mas isso poderá acontecer até a indivíduos que não têm nenhuma função dessas, a indivíduos que pura e simplesmente se esqueceram completamente da infância, que renegaram, por assim dizer, a infância.

Não estou a ver, por exemplo, um amigo que nós conhecemos e que brinca muito com as palavras e com as ideias, não estou a ver que ele pudesse ser qualquer dessas coisas. Ele só pode ser aquilo que é, que é professor de toda a gente! É assim como um barman, que é o amigo desconhecido de toda a gente! Aquele nosso amigo é também um professor de toda a gente, porque brinca com as ideias, brinca com as suas palavras, sabe dar gargalhadas, é engraçado, acha graça às coisas, mantém, em suma, uma certa infantilidade, apesar dos seus 70 e tal anos.

E há muitas pessoas assim, enquanto que outras com trinta e tal já são pessoas muito sérias num campo qualquer, já se investiram duma carapaça que os impede de gozar as coisas de que uma criança gosta, que são a água, o vento, a chuva, a brincadeira e as partidas que fazem aos outros, as irreverências e as piadas, enfim, tudo isso, que faz o encanto da vida de certas pessoas que não querem de maneira alguma ser um desses indivíduos de quem se poderia dizer, como diz uma história, que morreu aos 30 e foi enterrar aos 70. Morrem aos 30 e são enterrados aos 70! Quer dizer, andam por aí mortos ou petrificados, são uma espécie de seres embalsamados.

(…)

Excerto de um diálogo [«A gente bate-lhe e tudo e ele nunca chora»] mantido entre o Professor e pedopsiquiatra João dos Santos, e João Sousa Monteiro na Rádio Comercial entre Outubro de 1983 e Julho de 1984, conversas transpostas para o livro «Se Não Sabe Porque é que Pergunta?» da editora Assírio e Alvim.

«summer sea children, ssuunnddeeww © ssuunnddeeww, via Deviantart (d.r.)

Reinaldo Ferreira – Se eu nunca disse que os teus dentes

Reinaldo Fereira (autor desconhecido)

Não é agora ocasião para falar de Reinaldo Ferreira, uma das personalidades mais fascinantes que atravessaram o século XX português, amplamente desconhecido hoje, bastante subestimado sempre. A ele se dedicará, quando o tempo o permitir, um post com alguma da informação que se foi juntando por via do fascínio pessoal pelo homem e pela irregularíssima, por vezes desconcertante, por vezes excepcional obra que deixou. Deixe-se, então, um poema do autor, por razões de memória instante.

 

Se eu nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.

Se eu nunca disse que os teus lábios

São corais,

É porque são lábios.

Se eu nunca disse que os teus olhos

São d’ónix, ou esmeralda, ou safira,

É porque são olhos.

Pérolas e ónix e corais são coisas,

E coisas não sublimam coisas.

Eu, se algum dia com lugares-comuns

Houvesse de louvar-te,

Decerto que buscava na poesia,

Na paisagem, na música,

Imagens transcendentes

Dos olhos e dos lábios e dos dentes.

Mas crê, sinceramente crê,

Que todas as metáforas são pouco

Para dizer o que eu vejo.

E vejo lábios, olhos, dentes.

Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Editorial Vega, 1998

«Eu nunca guardei rebanhos» (segundo aniversário, na companhia de Alberto Caeiro e Mário Viegas)

Este blogue faz dois anos. Uma irrelevância que começou muito opinativa, e se foi progressivamente esbatendo, quase se cingindo à divulgação do talento alheio, resultado do gosto. Muita poesia (particularmente de poetas menos conhecidos); algumas escolhas felizes; um par de autores “descoberto”; muitas tontices; bastante irregularidade; sujeição aos humores. Uma inutilidade que já esteve duas ou três vezes para acabar, a vidinha chama. Mas lá vai continuando, campo de pasto com mais ovelhas que pastor, que dele e delas pouco guarda.

Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),


É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,

Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer cousa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

Caeiro, Alberto, O Guardador de Rebanhos.

fac-simile de página do caderno manuscrito de «O Guardador de Rebanhos» © Biblioteca Nacional.

(clique para ampliar)

Valter Hugo Mãe – estou escondido na cor amarga do fim da tarde



estou escondido na cor amarga do

fim da tarde. sou castanho e verde no

campo onde um pássaro

caiu. sinto a terra e orgulho

por ter enlouquecido. produzo o corpo

por dentro e sou igual ao que

vejo. suspiro e levanto vento nas

folhas e frio e eco. peço às nuvens

para crescer. passe o sol por cima

dos meus olhos no momento em que o

outono segue à roda do meu tronco e, assim

que me sinta queimado, leve-me o

sol as cores e reste apenas o odor

intenso e o suave jeito dos ninhos ao

relento

mãe, valter hugo, estou escondido na cor amarga do fim da tarde, Porto: Campo das Letras, 2000.

«in my limbo» Martin Stranka © Martin Stranka, via deviantart (d.r.)

Praia

Praia


É agora. A água passa

liberta agulhas

despertas, tu


agora devagar

– pode ser –

começas.


A mão move

precisa os dedos eles

tocam como as agulhas

despertam

e é agora, de claridade

nos cegas.


A boca inicia

algo exacto

mas como a água passa

a luz liberta

alarga.


E manifesta-se

mais como as agulhas.

É já outro

habita nova morada.

Como o osso de um pardal

onde deus viveu

esta manhã.


«winter beach», knollorulez © knollorulez, via Deviantart, (d.r.)

Nuno Júdice – Jogo

 


Jogo


Eu, sabendo que te amo,

e como as coisas do amor são difíceis,

preparo em silêncio a mesa

do jogo, estendo as peças

sobre o tabuleiro, disponho os lugares

necessários para que tudo

comece: as cadeiras

uma em frente da outra, embora saiba

que as mãos não se podem tocar,

e que para além das dificuldades,

hesitações, recuos

ou avanços possíveis, só os olhos

transportam, talvez, uma hipótese

de entendimento. É então que chegas,

e como se um vento do norte

entrasse por uma janela aberta,

o jogo inteiro voa pelos ares,

o frio enche-te os olhos de lágrimas,

e empurras-me para dentro, onde

o fogo consome o que resta

do nosso quebra-cabeças.

Júdice, Nuno, O Movimento do Mundo, Lisboa: Quetzal, 1997

«Lonely Queen», hermin abramovitch © hermin abramovitch, via Deviantart (D.R.)