As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Março, 2009

Novos Poetas (40) – Liliana Jasmim

Aos 22 anos, com um livro de poesia já publicado (A Lua Está Acesa, Corpos Editora, Lisboa, 2008), Liliana Jasmim surge com uma poética portadora de alguma ingenuidade formal e de um universo referencial ainda estreito, visivelmente biográfico; mas é essa ingenuidade que, por vezes, joga a favor dos poemas, tão transparentes no seu desejo de narratividade, explosões emotivas com destinatário. A autora tem um blogue, O Silêncio dos Versos, essencialmente dedicado à poesia – onde se podem encontrar textos dela. O blogue, com uma estética evoluída (que é também feita das escolhas) é particularmente bom na qualidade da edição fotográfica.

Um ser corpo?


O corpo em declínio,

num desequilíbrio

sem tronco.


O corpo que apodrece

debaixo dos lençóis,

com a dor a romper

nas costuras de uma ferida.


O corpo projectado no vazio

quase,

oculto

anónimo

quadrado

perplexo

sem nexo

arqueado

queimado

vago


O corpo vacinado, amestrado.

O corpo enterrado nas mãos,

treinado para correr e não para sentir.

O corpo entupido pela rigidez.

Um corpo quase louco

pela insónia de afectos.

Um corpo que se quebra a ler Camus.

O Corpo atormentado pela poluição,

morto pelo grito dos pássaros à noite.

O corpo que finge orgasmos.

O corpo que se cala, quase em pranto.


O corpo,

numa casa aparentemente arrumada

onde sobra um braço dormente para compor as estantes.


Liliana Jasmin → O Silêncio dos Versos (blogue), 1 de Fevereiro de 2009

© Deyvis Malta, Olhares, Fotografia Online

© Deyvis Malta, Olhares, Fotografia Online

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Lula culpa brancos de olhos azuis pela crise

Emigrar para o Brasil? Estas declarações do Presidente da República Federativa do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva são racistas.

Acho que vou emigrar para a Sicília…



Sócrates “corrupto”? O DVD da TVI

Acabo de decidir… vou emigrar para o Brasil!

Dia Mundial sem Carne

Lá tropeço de novo num dos meus ódios de estimação, os “Dias Mundiais“. Neste caso via o The First Post, um pasquim britânico online sofisticado q.b., reaccionário à quinta casa, e altamente bem feito, com uma edição fotográfica (fotojornalismo) notável. Então não é que, dia 20, deixei escapar o “Dia Mundial sem Carne“? Já não me lembro do que comi (provavelmente sandes a correr, sim, foi isso mesmo), mas o The First Post encarregou-se de me lembrar do assunto. Assunto esse que não teria particular relevo (quase tudo tem direito ao seu dia mundial, e ainda hei-de agitar as massas para criar o Dia Mundial dos Sonhos Bons, eu vos prometo). Não fora esta fotografia.

Alguém me explica por que razão a louvável causa da alimentação vegetariana, tão ‘socialmente correcta’, é aqui, em Madrid, alvo de uma performance pública de repúdio do consumo de carne, em que esta é representada por… mulheres em trajes sumaríssimos e ensanguentadas? Que associação legítima é possível estabelecer entre o consumo de carne e a ‘carne’ de mulheres, servida em tabuleiros para os basbaques e os fotógrafos? Não conseguiram entender a mais óbvia, evidente e acanalhada ligação de sentido, que qualquer ‘tuga’ de crescida unhaca no mindinho, ou ‘señorito de bigote pitillo falangista’ fará imediatamente?

E não entenderam que estão a associar o ‘asco’ da carne ao ‘asco’ do feminino?

"A carne é fraca, eh, eh..." - Tony dos Bifes

"A carne é fraca, eh, eh..." - Tony dos Bifes

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Pérolas (17) – Expresso Online

Às ‘desoras’ a que escrevo, abro a home page do Expresso Online, de Segunda-Feira, 23, última actualização 22 Mar às 10:17. É impressão minha ou anda tudo doido varrido? Não é possível encontrar títulos mais rigorosos e notícias menos ‘tablóides’? Bastava a lista que se segue (com links para as notícias). Mas não se resiste a abandalhar um bocadinho.

E como é que ele se safava nas Assembleias de Condóminos. Eram sempre Ordinárias?

“Destrói”? Não terá criticado? Apreciado negativamente? Censurado? Exprobado? Dito mal de? Agora ‘destruir’… terá poderes para tanto?

Com Vídeo? Cambada de amadores, que já não usam película de 16mm.

Abandona? Mas ele afirmou categoricamente que sairia no final do mês! “Abandonará”, certo?

“para quatro (o número de) detidos”. Custa muito?

Será a “Ilha do Tesouro”?

Isto é o Sócrates no jogging. Nos debates mensais tem sido mais kickboxing.

Sim, qual deles escolher? Depende. Ou se está com fé ou se está com tusa.

Vitória? Mas não era um jogo das meias-finais?

'A mim ninguém me tira o Expresso online' - "Gargalhada" © Tânia Bernardes, Olhares, Fotografia Online

'A mim ninguém me tira o Expresso online' - "Gargalhada" © Tânia Bernardes, Olhares, Fotografia Online

Quintas de Leitura – Havemos de ir a Viana, com Filipa Leal

É já dia 26, tendo Filipa Leal como poeta convidada, que se realiza a próxima sessão do ciclo de poesia organizado pelo Teatro do Campo Alegre. Havemos de ir a Viana promete “Cento e vinte minutos de pura magia…”.

Aqui se deixa um poema de Filipa Leal, publicado em 16 de Março no blogue das Quintas de Leitura (enquanto o meu exemplar de A Inexistência de Eva, último livro da autora, procura o seu caminho até à Bulhosa do Campo Grande.)flyer-filipa-leal

No Princípio Era


Não dormia sem o escuro absoluto.

Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,

de ter esquecido gente, do frio

do vidro nas palavras. Demorava tanto

a entender o mundo que agora não dormia

de muita luz que as coisas tinham

antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto

nesse lugar onde vivia com outros como ela

que às vezes pensava: tão estranho nascer

(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)

para o dia passado com estranhos.

E por isso, no princípio, não dormia

sem procurar o amor, sem beijar na testa

a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.

Depois esvaziou-se com cuidado.


→(Filipa Leal, Janeiro de 2007)


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Poesia Portuguesa (29) – Ruy Cinatti

De O Livro do Nómada Meu Amigo, obra culminante no trabalho poético de Ruy Cinatti (1915 – 1986), o primeiro e terceiro poemas, na bela edição da Guimarães Editores, com poema de abertura de Sophia de Mello Breyner Andresen e ilustrações de Hansi Stael.

PROCLAMAÇÃO


A natureza não desce

A contratos. Nem a vida

Se mede pela razão.


A vida é toda mistério.


Quem largamente se deu

Não ofendeu a justiça

Mas viveu do coração.


*


DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida

Passear silenciosamente

Como a ave no ar claro.


Vê-a que desce. Prende-a.

Nas tuas mãos em concha

Fica um instante.


Deixa-a fugir. Outras há.

Ruy Cinatti, in O Livro do Nómada Meu Amigo, (3ª Edição), pp. 17, 19, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1981.

Pintura rupestre, Timor-Leste

Pintura rupestre, Timor-Leste

Henrique Fialho. Um adeus contra o esquecimento.

O acontecimento que marcou o ‘meu’ Dia Mundial da Poesia foi péssimo. Descobri que, anteontem, Henrique Manuel Bento Fialho terminou os blogues Volumen e Insónia. Assim, de repente, como o Clint Estwood virava costas ao nojo e desaparecia no horizonte. Creio que foi um acto libertador, avaliando o que escreveu na despedida. Aquele que, com inteira liberdade produziu o melhor corpo de crítica literária especificamente no espaço da blogosfera; aquele que, não integrando ‘escolas’, capelas, redacções, entregava uma dose de atenção, aguda sensibilidade e visível amor pela literatura – particularmente pela poesia – não deixaria de tomar uma decisão destas sem uma razão. Henrique Fialho, que  entendia os seus blogues como um espaço de ‘partilha’ esclarece-a: “por que me vou? Porque enjoei, porque já não tenho paciência, porque sim, porque estou cansado, porque tenho mais que fazer, porque me doem as costas, porque está um belo dia lá fora.” Nada a dizer. Apenas agradecer. E pedir ao Henrique Fialho duas simples coisas: que continue a ‘partilhar’ as suas leituras, eventualmente noutros lugares, quando lhe deixarem de doer as costas e os dias estiverem feios; e que não apague nunca os seus blogues. Eles são uma antologia contra o esquecimento.


Farewell, Henrique Fialho…

 © Don Relyea, MONOCHROME / Series / Incident.net / 2007-08

© Don Relyea, MONOCHROME / Series / Incident.net / 2007-08

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“Liberdade” – Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…


© (REUTERS/China Daily)

© (REUTERS/China Daily)

Dia Mundial da Poesia

Estas coisas valem o que valem, sempre valerão para animar as gentes, agitar sensibilidades, festejar vivos, relembrar mortos. Acho bem. Multiplicam-se iniciativas neste país de poetas, uma notícia dá conta de 40, número redondo, mas onde não consta o poema gigante na Baixa de Lisboa, ou a intensa programação do CCB. Não estou certo do resultado de qualquer ‘Dia Mundial.’ muito menos dedicado à poesia, essa diacronia. Mas acho bem. Como é Sábado nem sequer haverá aulas de Português. E o tempo, ah, o tempo anda tão bom, tão quente para a época, já tanta gente a ir à praia…

Imagens de livros projectadas nas muralhas da Torre da David, na 'Cidade Velha' de Jerusalém. (AP Photo/Bernat Armangue)

Imagens de livros projectadas nas muralhas da Torre da David, na 'Cidade Velha' de Jerusalém. (AP Photo/Bernat Armangue)

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Muros

Pode evocar-se Berlim. Gaza. Muros de escândalo. Reflexos da fria racionalidade política que revela o rosto da intolerância, a face do medo do ‘outro’. Em Democracia a intolerância não é um valor. O medo não é uma resposta. E contudo… E contudo esta fotografia mostra um veículo a alisar a areia para tornar mais visíveis as pegadas humanas de quem ouse atravessar esta nova secção da “vedação flutuante EUA-México“. Triste nome retórico. Uma retórica ‘Democrática’. A perder de vista.

The First Post © David McNew/Getty Images

The First Post © David McNew/Getty Images

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Pérolas (16) – A DREN não tem o exclusivo

Se julgavam que só os mais altos palonços do Ministério da Educação tinham direito a escrever estuporadamente, como é o caso da Directora Regional de Educação do Norte, Margarida Moreira – veja-se, entre o desgosto e o gáudio, este exemplo e mais este, ambos pescados pela atentíssima subversiva Ana Cristina Leonardo, autora do blogue Meditação na Pastelaria –  estão enganados. Entidades com responsabilidades na estrutura educativa portuguesa (como a Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, via Gabinete de Relações Públicas) vão à liça e esforçam-se por fazer pior. Eu sei que é difícil, mas estão lá perto. Pergunta-se: não se pode avaliar a iliteracia desta gente? De alto a baixo? Da DREN aos Auxiliares de Acção Educativa? E classificá-los em função da capacidade de redigir? E dar responsabilidades a quem saiba, pelo menos, exprimir-se por escrito num português limpo, escorreito? Era um começo. Ser burocrata é fácil. Já escrever uma simples carta, um singelo e-mail…

Exmo (a) Sr. (a),
Agradeçemos a vossa colaboração para a divulgação desta informação por todas as escolas do agrupamento vertical, bem com, escolas básicas do 1º ciclo.
Agradeçendo a atenção dispensada.
A Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto (ESE) abre 5 novos cursos de Mestrado.

(…)

[Nota: este excerto de e-mail foi recebido por pessoa amiga. Por razões de confidencialidade posso apenas asseverar que a fonte é fidedigna, uma vez que tive acesso ao e-mail enviado pelo Gabinete de Relações Públicas (palavra de honra) da ESE do Politécnico do Porto]

'Sei que é difícil, mas hei-de chegar a Relações Públicas'

'Sei que é difícil, mas hei-de chegar a Relações Públicas'

Novos Poetas (39) – Miguel-Manso

Dois em um: aproveita-se para relembrar o número zero da revista Índice, já comentada neste blogue, cujo número zero ainda terá exemplares disponíveis. Como são gratuítos, pode sempre tentar pedir-se um exemplar à Mariposa Azual, editora responsável da publicação (esperemos que a Primavera traga o desejado número um); aproveita-se para relembrar Contra a Manhã Burra, o livro de Miguel-Manso, do qual, naquele número zero da Índice, se publicaram dois poemas. Em Setembro do ano passado. Antes de ser ‘descoberto’ pela generalidade dos media de grande circulação. Sobre o autor, igualmente, já se escreveu aqui no blogue.

Dois em um: dois poemas no mesmo post.

PASSAGEM DO AUTOR


a manhã abriu

à primeira

gaivota


decidiu mais uma

vez largar o mundo

tentar a cicatriz litoral do êxito


mar do lado direito do carro

o frio nos dedos agora limpos de tabaco

a primeira luz


mãos oceânicas

seguram o negro volante

amanhecido


pensa

no mais argênteo comércio

do peixe


é dos que choram no cinema

e depois saem dissimulando

o rosto

 estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

RETRATO de ÂNGELO de LIMA


Sílaba quente

No rumo da frase até à sílaba fria

De Ninive


Da cabeça

uma claridade de tijolo nas

cousas do olhar


desde Chu-Si a Kuan-Su

sobre a mesa de jóias eu agradeço

à criança da razão verde


milhões de vezes

a pirâmide inversa até à

coluna eterna do


poeta Ângelo de Lima

acreana queda em estática face

a pose derramada de

mia soave

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (38) – Frederico Mira George

O nascimento de uma editora dedicada à poesia é um acontecimento. Nesta circunstância, pelo inusitado programa, é um caso. Fora de Mercado, anuncia-se no blogue do seu mentor, Frederico Mira George, no dia 3 de Março passado (lindo dia). Uma Poeira Azul Espalha-se, o primeiro título da ‘casa’, da autoria do próprio editor, é lançado no contexto de um projecto singular: «Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado – Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão. Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados… nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo… enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.»

Evidentemente, não apanhei ainda nenhum exemplar. Podem ler-se muitos poemas do autor no blogue, e em outros da sua autoria, nomeadamente o já extinto mas ainda online Saudades de Antero, onde encontrei dois estimulantes poemas, numa sequência de 39, intitulados caligafia inexplicável (2007). Quanto ao livro (e às futuras edições da Fora de Mercado), é sair por aí e inventar uma alma condizente com a caça às borboletas.

Nota: excepcionalmente não solicitei autorização prévia ao autor que me permitisse uma publicação consentida destes poemas. Dado estarem acessíveis online (embora num blogue descontinuado), espero que me desculpe o atrevimento.

caligrafia inexplicável

# 16

tenho a boca tão seca.

pensou.

será de não falar.

pensou.

pensou.

pensou.

pensou.

tenho a boca tão seca.

será de pensar.

pensou.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

caligrafia inexplicável

# 15

ser um seixo. um seixo que.

transporta.

em si todos os mares,

todos os milénios, o toque de todos os seres.

um seixo.

que.

contempla.

sem desejar nada, sem movimento.

sem naufrágio, sem ilusão. sem agora.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006 in Saudades de Antero (blogue), onde se pode ler toda a série caligrafia inexplicável.

© Iva Freitas, Olhares, Fotografia Online

© Iva Freitas, Olhares, Fotografia Online

As anedotas dos Romanos

Na escola primária diziam-me que o Homem (o género humano) era diferente dos animais por ser ‘racional’ (na catequese a coisa era metafísica, a distinção era feita porque o Homem tinha alma); no secundário a conversa era outra, o Homem distinguia-se das outras espécies da criação pela linguagem – já se deviam conhecer os estudos sobre a capacidade de racionalização dos símios, por exemplo; na faculdade, possivelmente em virtude da aquisição de conhecimentos sobre a complexa comunicação ‘vocalizada’ de algumas espécies de baleias e golfinhos, a sentença vinha, categórica: o Homem é o único ser capaz de pensamento abstracto. Lembro-me de ter concordado. Não conhecia nem poemas nem anedotas que não fossem obra  humana.

O sentido de humor é património do humano. Contudo, a descoberta de um livro de anedotas romano – escrito entre os séculos III e IV, em grego, com o título de Philogelos (‘O Amigo da Gargalhada’) – causa espanto pela enorme semelhança entre os padrões de anedotas dos romanos e as anedotas actuais. Ou seja, as personagens podem mudar (claro que não são o português, o francês, o inglês e o espanhol). Eram os habitantes de Abdera, na Trácia, considerados em Roma muito, muito estúpidos. Mas também estereótipos como o professor distraído, o barbeiro, o careca. De que se riam e como se riam os romanos? Como nós. As anedotas deles podiam perfeitamente compor sketches dos Mounty Python ou dos Gatos Fedorentos. Exemplos? Anedota um – «Um barbeiro, um careca e um professor distraído viajam juntos. Tendo de acampar à noite, decidem fazer turnos para vigiar a bagagem. Quando chega o turno do barbeiro, este vai-se aborrecendo e, para se divertir, rapa o cabelo do professor… Este, quando acorda para o turno seguinte, passa a mão pela cabeça e diz: “É tão estúpido, o barbeiro… acordou o careca em vez de me acordar a mim”.» Anedota dois – «Um homem encontra um velho conhecido e diz-lhe: “É estranho, disseram-me que tinhas morrido!”. O outro responde: “Olha, como vês estou vivo e bem vivo”. Mas o primeiro argumenta: “Desculpa lá, mas a pessoa que me contou que estavas morto é de muito mais confiança que tu!”»

Juro que a ideia de um romano a contar anedotas, de toga, num círculo de amigos é, no mínimo, hilariante. Deve ser o hábito de criança, incutido pelos livros do Astérix. É natural a gente rir-se dos romanos, agora imaginá-los às gargalhadas, na chacota…

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'

Poesia Portuguesa (28) – Luís Miguel Nava

Nota biográfica de um poeta determinante na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e da própria concepção programática que a investia, operada a partir da década de setenta, atingindo o seu vigor criativo na década seguinte, na qual Luís Miguel Nava escreve quase toda a sua obra (a que se podem associar, como referenciais, os nomes de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge): «Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu, cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu, aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte, vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta o mestrado de Literatura Francesa (l980/82), começa a colaborar regularmente como crítico literário em jornais e revistas (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981 e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986 passa a residir em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. A partir dessa data passa a viajar cada vez mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.
Além de três livros de ensaio – O Pão a Culpa a Escrita (IN/CM, 1982), A Poesia de Francisco Rodrigues Lobo (Ed. Comunicação, 1985) e O Essencial sobre Eugénio de Andrade (IN/CM, 1987) –, Luis Miguel Nava organizou ainda uma Antologia de Poesia Portuguesa – 1960/1990, editada em 1991 em português e em francês, por ocasião da Europália (Bruxelas). Publicou os seguintes livros de poesia: Películas (Moraes, 1979, Prémio de Revelação da A.P.E.); A Inércia da Deserção (& etc., 1981); Como Alguém Disse (Contexto, 1982); Rebentação (& etc., 1984); Poemas (reedição conjunta dos livros anteriores, Limiar, 1987); O Céu Sob as Entranhas (Limiar, 1989) e Vulcão (Quetzal, 1994). Este último livro está também publicado em francês (Volcan, tradução de Marie-Claire Vromans, Paris, Ed. Eulina Carvalho, 2000).» – in, Relâmpago, Revista de Poesia.
s.d.

O CORPO ESPACEJADO

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.

Luís Miguel Nava, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987

© Ricardo Alevizos

© Ricardo Alevizos

Boris Vian – assinalando o nascimento

Boris Vian (10 de Março de 1920 — 23 de Junho de 1959)

Boris Vian (10 de Março de 1920 — 23 de Junho de 1959)

Em rapazes, líamos o Boris Vian (10 de Março de 1920 – Junho de 1959) que existia traduzido (A Espuma dos Dias, que é magnífico, o Arranca Corações, na deliciosa colecção de capas pretas e folhas azuis da Estampa, a Livro B). E, assim como não quer a coisa, o Boris Vian que escrevia, com o pseudónimo de Vernon Sullivan, policiais com tórridas e surrealistas cenas de sexo (só a história desta pseudónimo, criado para enganar a censura francesa, fazendo-se Vian passar por tradutor ‘de um famoso escritor americano’ daria uma grande história) editados pela nunca demais chorada A Regra do Jogo, com grafismo do nunca demais chorado João Botelho, esse, o cineasta que nos deslumbrou com Conversa Acabada. Mas não me venham com histórias: por muito boa que seja a sua obra ‘séria’ (ele, que nunca se levou a sério, o que é mortalmente sério para a seriedade dos outros), Boris Vian, o romancista, dramaturgo, contista, letrista, músico (trompetista de jazz) marcou o seu tempo e as gerações que lhe sucederam com uma canção: Le Déserteur, imortalizada por Yves Montand, esse que, não sendo cantor, cantava tão bem. É esta canção, escrita no início da guerra na Indochina, mais tarde proibida de passar nas rádios francesas durante a guerra da Argélia, que se tornou um hino da objecção de consciência em particular e dos pacifistas de bom-gosto em geral (aqueles que não gostassem – hipotéticas criaturas – do Imagine de John Lennon). Mais uma ironia na breve vida deste iconoclasta que, nos seus 39 anos de vida, deixou um rasto de luz na cidade delas.

Le Déserteur

Monsieur le Président,
je vous fais une lettre,
que vous lirez peut-être,
si vous avez le temps.

Je viens de recevoir
mes papiers militaires
pour partir à la guerre
avant mercredi soir.

Monsieur le Président
je ne veux pas le faire,
je ne suis pas sur terre
pour tuer de pauvres gens.

C’est pas pour vous fâcher,
il faut que je vous dise,
ma décision est prise,
je m’en vais déserter.

Depuis que je suis né,
j’ai vu mourir mon père,
j’ai vu partir mes frères,
et pleurer mes enfants.

Ma mère a tant souffert,
qu’elle est dedans sa tombe,
et se moque des bombes,
et se moque des vers.

Quand j’étais prisonnier
on m’a volé ma femme,
on m’a volé mon âme,
et tout mon cher passé.

Demain de bon matin,
je fermerai ma porte
au nez des années mortes
j’irai sur les chemins.

Je mendierai ma vie,
sur les routes de France,
de Bretagne en Provence,
et je crierai aux gens:

refusez d’obéir,
refusez de la faire,
n’allez pas à la guerre,
refusez de partir.

S’il faut donner son sang,
allez donner le vôtre,
vous êtes bon apôtre,
monsieur le Président.

Si vous me poursuivez
prévenez vos gendarmes
que je n’aurai pas d’armes
et qu’ils pourront tirer.

Boris Vian

Cristina Branco – Kronos

Com Abril, de 2007, descobri a arte e a voz de Cristina Branco, para lá do seu anterior trabalho como fadista. Nesta deriva para além do fado, a cantora lançou ontem Kronos, com canções de compositores portugueses de grande valor. O álbum é muito belo. Como ainda não sei converter ficheiros mp3 no editor deste blogue, socorro-me do ‘You Tube’, onde já se encontra a canção Bomba Relógio, autoria de Sérgio Godinho.

(Pesquiso e encontro excerto de entrevista à cantora, falando sobre o álbum: «Tem a ver com o tempo. Eu quando pedi aos autores que escrevessem, pedi para que escrevessem sobre o tempo. É sobre a passagem do tempo pelas nossas vidas. Da progressão ou regressão das coisas na nossa vida. Dez discos depois, achei que era uma boa maneira de parar e olhar para o tempo, pensar no que é que queremos fazer com ele», diz Cristina Branco em entrevista. No décimo álbum da sua carreira, a fadista colaborou com músicos tão díspares e pouco habituais no fado, como José Mário Branco e Sérgio Godinho, ao lado de Carlos Bica e Mário Laginha, junto às letras de Hélia Correia e as composições e piano de Ricardo Dias. «É uma união com os meus dois últimos discos, um de homenagem à Amália e o outro ao Zeca Afonso. Nunca me atreveria a ter pedido antes a estes compositores. Acabou por ser fácil convidá-los, depois de ganhar a coragem. Antes não me sentia ainda à vontade para falar com eles. Mas tudo correu bem. Foi óptimo», comenta a intérprete.)



Quem Quer ser Biliocanário?

Por amor de deus, como é que eles conseguem distinguir o melhor?

6.000 aves competem num concurso de canto, província de Yala, Tailândia © The First Post

6.000 aves competem num concurso de canto, província de Yala, Tailândia © The First Post

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convite dois – ‘Eu e os Outros’, de Ricardo Alevizos

Subscrever newsletters electrónicas tem destas coisas. Uma pessoa fica a fazer parte de uma mailing list que, sabe-se lá por que razões, acaba nas mailing lists de outras entidades. Não tendo, que me recorde, solicitado informação à Câmara dos Azuis (Arte & Antiguidades) recebo este convite por mail. Ma(i)les que vêm por bem. Possibilidade de descobrir o trabalho de Ricardo Alevizos (1969), na exposição Eu e os Outros, patente de 13 de Março a 2 de Abril, com inauguração dia 12, das 19 às 22h. O autor de arte digital fotográfica, representado na prestigiada Saatchi Gallery, tem um site onde se pode apreciar uma extensa galeria de trabalhos. A exposição, nas suas palavras:

“Eu e os Outros. O caminho até aos outros. Fico perto de Mim, fico perto dos Outros. Não sei… Fico no meio!
Pedi aos “Outros” que visitassem memórias passadas, que as vivessem em tempo real. Foram momentos intensos que se prolongam no tempo. Identifiquei-me com vários mundos, não entrei em nenhum. Vi o branco, vi o preto. De frente, descobri o que estava escondido. Memórias adormecidas pelo tempo, perturbadas por um grito. Pequenas etapas das nossas vidas, retratadas nesta exposição.”

'Animal', © Ricardo Alevizos

'Animal', © Ricardo Alevizos

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