As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Setembro, 2012

Marta Chaves — [Podias obedecer a um registo de perder]

 

 

Podias obedecer a um registo de perder

o respeito, levantar a saia se a tivesses,

alçar a perna se cão fosses, mandar à merda

quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

 

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,

o combate quase parece sereno. De vez em quando,

fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me

e não queres saber muito mais do que isto.

 

Estás na vida como na montra alguns relógios,

parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo

menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos

viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

 

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para

esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo

e aprendas a ficar.

Marta Chaves. Telhados de Vidro n.º 16 . Lisboa: Averno, 2012, p. 81.

 

«elevation», Vaughan © Vaughan, via Deviantart (D.R.)

Luís Filipe Parrado — Comer uma laranja

 

Comer uma laranja
é como ingerir o próprio sol,

com a boca cheia de luz
não há portanto
espaço
para palavras
sobre mim.

 

Parrado, Luís Filipe, Entre a Carne e o Osso, Lisboa: Edições Língua Morta, 2012

 

Mark Rothko, «Orange and Yellow», (1956) óleo sobre tela, 231 x 180 cm

Maria Sousa — [A mulher]

 

Uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

 

[A mulher]

 

A mulher

organiza as sombras para evitar o escuro

na pele sente o medo

 

é prudente na batalha com as perguntas

que pousam no dia

 

sorriso

 

quando o som do telefone invade a sombra

nenhuma palavra lhe sai da voz

deverá falar como se fossem outras coisas a

respirar em vez do grito?

 

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes

sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.

mas não hoje

 

disse que não seria capaz de mudar

perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos

como movimentos grosseiros

 

nenhuma palavra ali tem asas

 

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha

as persianas e depois as cortinas

sem explicar o sentido do grito. 

 

Maria Sousa — [A mulher], poema inédito (lido no ciclo de leituras encenadas “Da Voz Humana”).

«2» — anna, © anna, via Deviantart (D.R.)