As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2013

«Do Lado Esquerdo» — nasceu hoje uma nova editora de poesia, com novo livro de Maria Sousa.

Do Lado Esquerdo

Do Lado Esquerdo


Nasceu hoje uma nova editora de poesia, em Coimbra. «Do Lado Esquerdo» é iniciativa de Maria Sousa e de Nuno Abrantes, co-editores da revista digital a sul de nenhum norteque já contabiliza sete edições. O nome da editora, certamente inspirado no poema de Carlos de Oliveira «sobre lado esquerdo», revela apropriadamente a intensidade afectiva que os seus autores empregam na actividade de editores. Apresenta, igualmente, um jogo de sentidos, tal como o poema de Carlos de Oliveira o fazia, em tempos muito duros de luta contra a censura (mas também não o serão estes, nomeadamente no que à censura económica diz respeito?).

É justamente com um título de Maria Sousa, o livro Mulher Ilustrada, que se inaugura o catálogo da editora. Que o editor assuma igualmente o papel de autor é tradição antiga, nada a obstar. Mesmo porque se aguardava, já, um novo título da autora, depois de Exercícios para endurecimento de lágrimas, («Edições Língua Morta», 2010). Maria Sousa, que se define de forma bem original, em nota biográfica elaborada para a sua apresentação no Ciclo de Leituras Encenadas «Da Voz Humana», que teve lugar no ano transacto, na companhia «Escola de Mulheres — Oficina de Teatro». Escreve a autora: «Coisas que me fazem bater depressa o coração* O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, um olhar, um rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia. *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)». Acrescenta-se que Maria Sousa participou em várias revistas literárias (Criatura, Sítio, Saudade, Umbigo) e num Seminário de tradução literária organizado pela L.A.F. (Literature Across Frontiers); e que é autora de um dos mais antigos e prestigiados blogues relacionados com a poesia: «there’s only 1 alice»

Sobre o primeiro livro, e já com alguns dos poemas que compõem o agora inaugural Mulher Ilustrada, escrevi, na ocasião, que estávamos perante uma autora que trava  uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

Mulher Ilustrada acentua claramente a voz da autora, ampliando os lugares simbólicos, refazendo e renovando a semântica que lhe é peculiar, acentuando de forma mais elaborada, num trabalho incessante de depuração, onde a ironia e a nostalgia estão presentes, numa permanente elegia de um eu idealizado, perdido no confronto com a sua realidade íntima.

O resultado merece a maior atenção para uma obra em sólida construção, já em plena maturidade, que se ergue com um saber laboriosamente tecido.
 

 

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

Aqui se deixa o díptico que encerra Mulher Ilustrada, livro que pode ser adquirido nos lugares indicados na página da editora «Do Lado Esquerdo», na rede social «Facebook».

I

vejo-te na soleira da porta

hesitas. em cena apenas estou eu

penso em mudar-me

mas, entre erros e desculpas

falta-me espaço

 

se contares histórias serão daquelas que

ninguém quer ouvir

relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas

sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

 

II

entras, não tens medo

rodeado de olhares com sono que ainda não sabem

que as palavras são sempre as mesmas

(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

 

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

 

dizes que nem sempre o guião é o mesmo

mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

 

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem

que balança no vazio

 

última tentativa: observo-te e tu já não me vês

conheces-me tão pouco, não, isto…

isto não é um dueto, é um duelo

 

friamente o silêncio cai sobre nós

não há vozes nem adereços

(a cena está vazia)

 

há apenas uma cortina de vento onde as palavras

nunca se moldaram

 

Sousa, Maria, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013

 

João Miguel Fernandes Jorge — O Melro de Mazagão (poema e apontamento)

Era um corpo feito às mãos caía-lhe pó dos dedos

era dos meus amigos o mais propenso à ilusão.

E eu estava ali quieto sobre a casa, a alma

pode ser muitas vezes uma pedra

eu estava ali quieto isto é o mais importante: era

um corpo feito às mãos.

Ia por um caminho de palmeiras

aquele que procura o meio-dia e o encontra

era um homem entre uma rua da Nazareth e a rua do Celeiro

de espírito orgulhoso: esses tempos já lá vão

se quisermos aprender alguma coisa

dos pedreiros escrevendo a estrela e o

crescente

Mazagão é a miragem de portos barcos e reinos.

Para que serve? Preferia ficar a bordo onde podia trabalhar

sem interrupções e onde várias vezes me senti inspirado

como nunca tinha estado antes nem voltei a estar depois.


Eu por mim sou assim quando chego aos portos embarco.

E sonho um país onde nunca acabam as casas

porque as casas são para não ter fim: «já não

tenho pressa agora já não quero chegar a lado algum».

e que mais hei-de fazer deste terreiro de favas e papoilas?

A matéria não podia já mover-se por si própria ou

se movia ao acaso. Era uma ponte em vão.


Era um mar de dragões e solitários espíritos esse

onde navega o melro de Mazagão

as coisas que se transformam em função das suas paixões,

um melro canta sempre de determinada maneira

avisando contra toda a espécie e fortuitos acontecimentos.

Era da família dos amarílis

e se o não era ele, era o seu canto.


Pois quando volvemos o olhar enfrentando este terror

insinuando a dúvida pela fugaz economia

e dizendo ecce ancillla domini

semelhante ao desprezo de Platão,

disto estou certo: era um corpo feito às mãos.

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

dante gabriel rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Dante Gabriel Rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Voltamos ao Direito de Mentir (1978, 7.º livro do autor) e, talvez por acidente, ao quase caricato episódio que o autor relata, na reedição da Obra Poética, da Editorial Presença: «no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Doméstico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.». Ironia que tem, como ponto de legitimação uma verdade intrínseca, íntima, que atravessa o poema e o livro como evidência e proclamação do olhar do autor perante os acontecimentos do mundo, permitindo-lhe o Direito de Mentir, de afirmar a sua própria percepção do real contra a «verdade» das evidências (aquilo que, carecendo de demonstração, se configura como revelação: «ecce ancilla domine» Lc: 1,38). Joaquim Manuel Magalhães escreverá, a propósito do livro, ser este: «expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas (…) num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial.» (Magalhães, Joaquim Manuel — Os Dois Crepúsculos, Lisboa: «Na Regra do Jogo», 1981, p. 243).

[Nota: Este poema teve uma publicação prévia na revista «Raiz & Utopia», números 3-4, Outono/Inverno de 1977.]

Nuno Brito — «Duplo Poço». Excerto e Nota de Leitura.

Nuno Brito

Nuno Brito


(excerto)


OUTRA FORMA DE MENTIR

I. 

Sou a verdade, uso uma mini-saia vermelha,

Vejo os homens masturbarem-se nas sua varandas enquanto me olham,

passo nas ruas de Alexandria, Berlim, Tóquio, Budapeste,

Bernini esculpiu-me, Whitman descreveu-me

mas nunca nenhum homem me possuiu

Por mim correrão futuros antiquários ainda por nascer

Afundo-os de desejos, mutilo-lhes os sonhos

Sou múltipla e tudo acendo sobre a forma de calor,

Quem tem medo está mais próximo de mim, estou na boca dos amantes,

Nos seus ternos abraços

II. 

A minha visão é fragmentada de tanto olhar para o sol,

um fabricante de sinos do futuro, também ele cego,

mergulha dentro de mim e badala como do fundo de um lago suíço,

não tenho sono, nunca dormi até hoje,

ouço o badalar link link link link,

subaquático e triste:

Todos os comboios correm até mim,

velo o sono de um faroleiro com medo do escuro,

teço-lhe os sonhos de fios dourados,

puxo as extremidades para o centro da alma e sento-me a chorar,

também eu tenho medo do escuro e me deito à sombra

as cidades possuem o céu,

o céu possui a música

e a música possui-me a mim,

sou todas as viagens, a meus pés construíram Tróia,

os semi-deuses esculpiram Cápri dos meus joelhos —

A amnésia beijou-me a boca;

O futuro líquido na forma de dois joga pólo aquático consigo mesmo,

tudo é um, tudo está condenado a ser um,

criei a poesia, teço todas as narrativas,

mergulho em todas as prosas,

todas as ficções me atravessam a nuca,

de um ao outro lado um comboio apita, um rio passa,

acorda um gato em queda,

os homens têm caminho à sua frente

e bebem o caminho, porque têm sede e o futuro é de beber,

as memórias também são de beber, o amor é líquido,

apesar de não existir também eu bebo o caminho:

Nado dentro de todos os homens;

Não penso, sinto, não corro, minto.

(Duplo Poço, pp. — 25/26)

«Duplo Poço» — Nuno Brito

«Duplo Poço» — Nuno Brito


(nota de leitura)

Ao ler o terceiro livro do Nuno Brito, encontra-se, desde logo, um conjunto bastante complexo de meios profusos no processo de formalização da sua obra. Entre eles é particularmente nítida, porque se destaca como constante e deliberada, a utilização das repetições, das consecutividades, aquilo que o Vasco Graça Moura chamou «automatismos conducentes à fragmentação» e associou ao surrealismo, a propósito da obra de Nuno Brito, noção essa que não se afigura excepcionalmente feliz.

Cremos que, preferencialmente a automatismos, poderíamos falar de consecutividades e repetições. Sabêmo-lo desde o corpo teórico da Psicanálise (e recusa-se uma leitura de Duplo Poço à luz de semelhante grelha), que aquelas não são meras reproduções invariáveis de actos, palavras, ideias… Produzem serializações, serializações estas com um referente sempre em movimento, a partir do lugar e do contexto da sua enunciação no corpo do texto, produzindo significados novos, no caso vertente causadores de estranheza, recontextualização, associações inesperadas e poderosas, causadoras imediatas do espanto. Como se de uma hiper-consciência se tratasse, capaz de se traduzir em matéria poética.

Encontra-se, neste livro uma escrita em transe, em trânsito entre o não consciente e o consciente, que opera um fabuloso movimento de  revelação e preenchimento, o contrário da ideia de fragmentação, já aventada a propósito da escrita de Nuno Brito. Quando o autor escreve:

«A Via Láctea brinca, como se fosse um menino… A história foge para dentro dos búzios. A erosão rói devagar os pulsos da solidão — Ela joga Tetris sozinha — com a boca cheia de calmantes (…) A erosão rói devagar os pulsos da solidão.»

Não são fragmentos ou associações livres que encontramos, mas inesperadas ligações imagéticas que explodem no texto. Duas formalizações sintéticas (entre muitas outras que se poderiam isolar) posicionam a obra perante o leitor, abrindo-se em múltiplas leituras:

«Como se fosse um rato. A poesia persegue os balões de hélio, a gravidade puxa-a para a terra, mas há extremidades finas, onde não há segurança, a cerâmica sigilata esconde-se no chão» (…) «Por baixo a água quente, que vem quase do centro da terra.»

É como se o autor partisse do Universo (que é um descomunal vazio preenchido), e chegasse ao âmago, ao centro da terra, ao centro do corpo (com transitividade de ida e volta). E, nesse movimento, persegue o preenchimento feérico de um vazio primordial. Detenhamo-nos neste conceito de vazio:

Percebendo o universo como a totalidade (e toda obra de arte é uma totalidade), o que poderemos ver fora dele? Se deixar entrar e sair o vazio é a função de do vazamento e preenchimento, então o universo pode comparar-se a um completude que é um todo contextual de si mesmo.

Nuno Brito refere, explicitamente, as «paredes do Universo», ou seja, espelha uma integralidade cujo exterior é seu próprio vazio interno; na escrita do Nuno Brito, os limites do vazio, ao contrário de dividirem o que é exterior do que é interno, conduzem o que é externo para dentro do que se acha dentro.

E é esta deslocação que se materializa em Duplo Poço. O preenchimento, a incrível aventura de materializar o vazio.

Uma procura explosiva de corporalização, por meios que só o autor conhece e pertencem à sua violenta liberdade poética:

Este movimento é trabalhado, em estado de pura fruição, apagando o autor a sua própria identidade enquanto um Eu (que aqui surge multiplicado, de resto, em vozes). Torna-se, o autor, numa espécie de mediador entre o mistério do cósmico e o mistério do ovo, movimento que vai do primordialmente mundo ao primordialmente humano.

Em Duplo Poço, Nuno Brito fá-lo de forma quase oracular — e não é por acaso que Cassandra é, talvez, a persona que mais se faz sentir significantemente na obra.

O autor, voluntariamente afastado do centro do texto, é o agente que detecta, reformula e difunde brilhantemente (no sentido da irradiação) uma nebulosa teia de matéria que vai encher o vazio de sentidos.

Não é concedida ao livro uma programática explícita; antes a possibilidade para que os múltiplos significados, imagens e ideias que poeticamente congrega se espalhem, disseminem, num poderoso derrame misterioso, por vezes obscuro, insondável. E, em consequência, marcado pela possibilidade da luz.

Não, não é de forma cómica que assim labora Nuno Brito, e de novo se contrariam algumas ideias formuladas a propósito da escrita do autor. Não se sentem marcas de amargura, ironia ou tristeza em Duplo Poço. Pelo contrário.

Significa isto que é patente o quanto Nuno Brito se diverte. Sente-se, em cada texto, em cada frase, em cada imagem, o prazer de brincar. Jogar aos dados com o universo e o leite materno, é coisa séria demais para que nela não se encontre, desde a primeira página, o enorme gozo de um criador que tem a rara faculdade de ouvir as vozes, os sinais, as cores, os sons que depois multiplica e reorganiza de forma intensamente poética.

Embora de forma redutora, poderíamos segmentar: há quem reduza voluntariamente o léxico, os significados, as imagens, procurando a depuração, na qual a forma se submete aos significados; há quem, pelo contrário, amplie, expanda a pluralidade semântica através de recursos lexicais e de estilo.

Em Duplo Poço, pelo contrário, o autor parte de um léxico e linguagem opulentos, joga com recursos estilísticos de grande diversidade e explode os campos semânticos, criando uma imagética riquíssima, muito além da produção de meros efeitos de surpresa: é de revelação e preenchimento que aqui se trata. E há toda uma linha que atravessa esta obra: sente-se que, (e inevitavelmente só poderia ser) é escrita em estado de júbilo.

«Qualquer gesto humano me excita violentamente, amo tudo quanto flui», escreve o Nuno, que acrescenta, para não deixar dúvidas:

«a literatura (a primeira morte) só serve para unir — os fios que usa são dourados»

A profunda riqueza de ouvir, ver, sentir e, seguidamente, reformular em abundância a riqueza associativa da escrita atinge, por vezes, em Nuno Brito, os limites de um entendimento racional do que está escrito, por parte de quem o lê (inferência a partir da experiência pessoal, das leituras feitas, refeitas).

Mas o que está inscrito coloca a questão da incorporação e investimento (preenchimento) do autor e da apropriação do leitor. Porque, muitas vezes, não apreendemos o que quer exactamente o autor dizer, mas experimentamos, de forma intensa, o que ele nos está a dizer; ou seja, atinge o (nosso) próprio inconsciente. Como quando escreve:

«O homem não legitima, a luz legitima»

Isto sente-se, mais do que se entende no plano racional ou mesmo emocional.

Desta forma o autor despe-se deliberadamente do papel de produtor e caucionador da sua obra, surgindo a mesma como um reflexo brutalmente multiplicado da luz (palavra nuclear para a compreensão da obra) que aquele ele recebe, capta e dissemina.

(Evidentemente não se trata de uma espécie de augure que descobre nas entranhas das galinhas os mistérios da natureza humana e responde pelo Universo.)

Utilizando formalizações várias, que se entrecruzam, como a narrativa,  textos de pendor quase ensaístico (um deliberadíssimo logro, ardilosamente forjado), escrevendo muitas vezes num registo aparentemente onírico, Nuno Brito domina os processos que conduzem à sua ars poetica.

Não parecem subsistir dúvidas quanto a este domínio integral da obra por parte do autor. O que se afigura notável é a agilidade com que o emprega e o modo como o faz surgir, de forma aparentemente compulsiva, sendo a destreza de recursos uma quase evidência. Quase.

Estabelecendo, por intermédio de pares semânticos que são antinomias arquetípicas, dualidades primitivas, nelas e na sua relação dinâmica começa a revelar-se o programa implícito da obra, uma unificação dos opostos, poços invertidos que a si mesmos se enchendo, se vazam:

a memória / o esquecimento

o passado / o futuro

o sexo / a morte

o feminino / o masculino

De todos estas antinomias muito haveria a dizer, mas centremo-nos nesta última:

Que o autor estabelece uma ordem hierárquica na qual se encontra uma clara predominância do feminino como o referente matricial revela-se claro e axial na obra. O feminino é diacrónico, é Deus, é o universo, o corpo, o lugar da apaziguamento. O vazio, o duplo poço a ser preenchido. O leite é um símbolo recorrente ao longo deste livro (muitas vezes surgindo como leite condensado, o que nos propõe alguns indícios: a infância, a doçura, a espessura, o sémen).

«A realidade amamenta-se da ficção (a primeira mãe)

bebe do seu leite gordo e quente

um leite que sabe a calma»

O masculino surge-nos, por outro lado, como a presença de uma possibilidade efémera de luz ofuscante, e o seu símbolo maior, em comparação com o leite, é o muito fálico farol, ocorrência sincrónica e fenómeno que permite o vislumbre da luz que guia no sentido do encontro, da fusão.

«A literatura só pode ser União»

Regressemos à questão que nos é recordada pela frase «O homem não legitima, a luz legitima». Que legitimidade é esta? A procura de uma união; a demanda de uma ordem que a poética ambiciona encontrar e estabelecer.

Esta união tem uma origem claramente pulsional, erótica. No livro multiplicam-se um conjunto de repetições e variações em torno do tema orgástico, do vir-se. Citemos duas:

«Os louva-a-deus fêmeas arrancam a cabeça do macho durante o sexo, no exacto momento em que este se está a vir. As ceifeiras colhem o trigo e riem-se. O futuro vem-se dentro da memória.»

«Está-se a vir: A amnésia está por cima, possuída de um prazer extremo — espeta-lhe a faca nas costas. O tempo pára…

o seu sexo incha de prazer»

Analiticamente, o prazer sexual é um momento enunciador do desencontro, encontro com o fantasma da morte: a minha fantasia, aquela que me faz gozar, não é a do outro. Há um desencontro incontornável, gerador do medo, causador de uma procura incessante, repetida, consecutiva, nunca terminada, uma luta contra o esquecimento do outro:

«A amnésia mete uma estrela-do-mar entre as pernas

O seu sexo sabe a mar,

A amnésia mete a noite entre as pernas

O seu sexo sabe a chuva de verão»

O orgasmo, o vir-se, e a ele volto dada a importância e frequência da sua ocorrência na essencialidade dos textos, é, neste trabalho que procura uma ordem, uma unificação que conferirá a calma, uma peculiar forma de paz, espelhado como cristalização do tempo. Instaura-se, desta forma o jogo entre medo/morte e salvação/vida.

O que encontramos, em Duplo Poço, como  uma possibilidade de programática última, vem da esfera do desejo. A gloriosa, cósmica tarefa de preenchimento do Vazio.

E é o poeta quem nos dá as pistas, as linhas possíveis do seu acto tremendo:

«A literatura só pode ser União»

«O amor é como carne»

«Só o amor permite ver de cima»

«O Riso é o Gerador Único do Universo»

«Só o Riso é Deus»

O desejo de unificação através do riso, da alegria, do júbilo. O entendimento da origem do ínfimo e do infinito como um sopro de amor. A escrita, o trabalho poético como a voz possível para enunciar a explosão!

Explosão seminal: esperma, sangue, palavras, luz, transpostos para uma explosividade escrita.

«A poesia prova deus,

Ele sabe a gente»

Em última análise, é a Explosão o leitmotiv onde se constrói e perfaz a obra. Um Big-Bang cósmico e íntimo, a partir do qual a matéria se expande até ocupar o vazio.

É silencioso o vazio do Universo. São silenciosas as células. Nuno Brito, perante este silêncio, toca, interpreta a sua música tão pessoal. Dá-nos a ouvir o som do silencioso poço do corpo; a música do silencioso poço do mundo. Duplo Poço é expressão brilhante desta explosão da musicalidade do Universal. É obra.

Refira-se, finalmente, ser esta a primeira edição de um autor da nova chancela, a Hariemuj Editora, sob a batuta de Maria Quintans (que já dinamiza a revista de poesia Inútil). Quando editar poesia (ou prosa poética) se destina a um universo cada vez mais restrito de leitores, saúda-se a escolha desta obra, prenúncio de uma vontade e persistência que, devidamente acauteladas pela exigência e por uma acertada linha editorial, poderão conferir a esta nova editora um lugar sólido no rarefeito e volátil mundo da edição de poesia no nosso país.

(esta nota de leitura, editada, foi elaborada a partir do texto de base para a apresentação do livro Duplo Poço, no dia 22 de Dezembro de 2012, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul)

Nuno Brito, Duplo Poço, Lisboa: Hariemuj Editora, Novembro de 2012