As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Julho, 2010

Daniel Jonas – Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias



Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

chegaríamos a iguais resultados

pelo que de nada adianta imaginar um almagesto

ou tabelas de paralaxe para isto

a que convencionalmente chamamos amor,

nem calcular o ângulo

entre nós e o centro da terra,

de nada nos aproveitara, tu e eu

centros escorraçados de irregular gravitação.


Porém, isso não me impediu de ver plêiades

cada vez que surgias (só

não te dizia nada) plêiades iluminando

meu Hades

com suas cabrinhas coruscantes

pascendo

o vale da sombra da morte.


E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?

quando o melancólico transístor

destila também outras perguntas, mas nenhuma

tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência

a subir em tubos estreitos

ao contrário do mercúrio?

Isto é view-master e são coisas que faço

na tua ausência.

Jonas, Daniel, Os fantasmas inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

Sacred Geometry © phidelity.com

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Ruy Belo – Na morte de nicolau

Em celebração de Sérgio Paulinho, ciclista, filho de Jacinto Paulinho, ciclista também ele. O Sérgio ganhou uma etapa da Volta a França (uma enorme proeza), dizendo a si mesmo, quando arrancou para o sprint, que «era mais forte que o outro». Pensamento humilde, porque simples conhecimento de si.

José Maria Nicolau

NA MORTE DE NICOLAU


José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?

Nunca ele pedalou tanto como agora

Decerto vai chegar antes da hora

A etapa era decisiva e está ganha


Ele que várias vezes deu a volta a portugal

deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida

A alguns anos já da primeira partida

fugiu. Tudo se torna agora mais real


Que média fez num terreno tão mau

É tudo serra custa tanto subi-la

Deixem que eu vista a camisola amarela

ao grande corredor josé maria nicolau

Belo, Ruy, Obra Poética (volume 1), Lisboa: Editorial Presença, 1981

David Mourão-Ferreira – Matura idade

Os dois sonetos com que David Mourão-Ferreira se estreia na publicação de poesia na Colóquio / Letras (n.º 2, Junho de 1971, publicação de que viria a ser marcante director); poemas  mais tarde integrados no livro com o mesmo título (1973).

Matura idade


I

Um silvo Um baque Um cheiro a gasolina

Esse que fui e nunca mais retrato

tão à beira do rosto e do regato

onde tudo por fim não se ilumina


Ó deusa Ó cabra Ó mãe Ó assassina

À dúzia tive o lote mais barato

Cada rosto uma ruga no meu fato

cada voz uma ruga uma ruína


E este avião em chamas no deserto

longe tão longe cada vez mais perto

E a gasolina agora já nas veias


Olha o museu de súbito incompleto

Perdeu-se o rasto a quem roubou o feto

O regato esvazia-se às mãos cheias

II

Às mãos cheias esgota-se o regato

Mas que mão Mas que bêbeda assassina

as águas poluiu de gasolina

e manchou para sempre o meu retrato


O osso a carne a pele o pêlo o fato

O que estiver mais perto da ruína

é que neste momento me ilumina

pra que o rasto se venda mais barato


Verei por fim dentro de mim o feto

Sufocarei no cais do Incompleto

o silvo que antecede as marés-cheias


Julgava-me tão longe E tão perto

vem do deserto o eco do deserto

que se prolonga ao fim das minhas veias

Mourão-Ferreira, David, Matura Idade, Lisboa: Arcádia, 1973

"Deserted Men" © Nesten (polaroid dessaturada) via Deviantart


Crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público – “O meu novo casamento”

Publiquei aqui a primeira crónica do Miguel Esteves Cardoso da série ininterrupta e diária a que se propôs, com a promessa de, por respeito aos direitos de autor, ser essa transcrição excepção. Agora que o escritor renova o seu contrato com o jornal, alargando-lhe o âmbito, não resisto à «cópia» da crónica de ontem, 12 de Julho. Ou de, como a partir de um facto trivial (a aparente banalidade de um  contrato), MEC escreve uma brilhante crónica.

O meu novo casamento


Este mês casei-me com o PÚBLICO que, como disse o meu amigo José Cardoso, fez de mim uma mulher honesta.

Sou muito feliz com o PÚBLICO, meu marido em caixa alta. É bom pertencer ao PÚBLICO e fazer o que ele me diz e ele deixar-me fazer o que quero.

Foi longo e picante o namoro. Mas até a mais eufórica das noivas sabe que, a certa altura, começa o casamento em si. Devagarinho, vão-se revelando, de parte a parte, hábitos irritantes e manias. Mas também inesperadas graças e doçuras. Havendo amor, fazem-se pequenos pactos, trocam-se aceitações e abdica-se das importâncias.

Tenho a sorte de saber, graças à Maria João, como cresce um bom casamento. Nos primeiros anos a ordem dos pronomes é eu, tu, nós. No deslumbramento do tu, o eu começa a ser menos eu, mas o nós quase não existe: só eu e tu e “que giro ou que mau tu seres isto ou eu ser aquilo!” Passados três anos já há um nós. É um de nós para além da soma do eu e do tu. É um casal de que gostamos e de que dependemos. Embora o eu ainda tenha medo. E fica: eu, nós, tu.

É duro o tu ficar em último mas logo arranja companhia quando o nós passa para primeiro e fica: nós, tu, eu. É esta a fase de casamento em que estou. Não sei o que vem a seguir mas suspeito que não ficarão na mesma linha e que será, por cima, nós e, por baixo, tu e eu. Deus me livre que seja assim com o PÚBLICO. Mas caso com ele na mesma.

"the marriage", choas-overlord-joe © choas-overlord-joe, via deviantart (para B.A.B.F.)

Pedro Homem de Melo – Solidão

Ó solidão! À noite, quando, estranho,

Vagueio sem destino, pelas ruas,

O mar todo é de pedra… E continuas.

Todo o vento é poeira… E continuas.

A Lua, fria, pesa… E continuas.

Uma hora passa e outra… E continuas.

Nas minhas mãos vazias continuas,

No meu sexo indomável continuas,

Na minha branca insónia continuas,

Paro como quem foge. E continuas.

Chamo por toda a gente. E continuas.

Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.

Invento um verso… E rasgo-o. E continuas.

Eterna, continuas… Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

Pedro Homem de Mello

«fading away», Gilad Benari © Gilad Benari, via Deviantart (D.R.)

Matilde Rosa Araújo (1921 – 2010)

Foi um mail do Rui Almeida que me deu a notícia da morte de Matilde Rosa Araújo, autora que marcou gerações de leitores e partiu sem capas de jornais ou notícias de abertura de telejornal. Não era um simples mail e trazia, nele, um belo texto da escritora. O Rui fez mais pela devida homenagem a esta autora que muitos meios de comunicação social. Meios? Grupos inteiros.

[Rui Almeida é poeta (Lábio Cortado, Livro do Dia, 2008); e autor de um dos mais amplos e persistentes blogues de divulgação de poesia portuguesa, Poesia Distribuída na Rua]

MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[…] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo… Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta… Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante… E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «…agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos… que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira […]

(in Távola Redonda – folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 – da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

Convento da Arrábida, Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. (Fonte: Fundação Oriente)

Vergílio Ferreira – Em Nome da Terra (fragmento)

 

“Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe. (…)


 

Janela

Janela

 

Bati palmas, elas ressoaram pelo espaço do Olimpo. Não fui bem eu que as bati mas o duplo de mim, não te sei explicar. As palmas foram à frente e eu já não as pude apanhar. Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. Claro, havia a destreza, a perfeição da tua realização, mas agora sei que havia outra coisa. Queria dizer-te simplesmente que havia o teu corpo, mas não chega. Havia outra coisa – que coisa? Mónica, minha querida. Havia, deixa-me pensar. Ah, poder falar do teu corpo. Perder o pé da realidade. Fechar à volta uma cortina para que nada de ti me fugisse e ficar eu só diante de ti. Sinto agora alguém dentro de mim a perguntar e depois? que é que aconteceu? Sei lá o que aconteceu, quero lá saber. Quero é estar contigo no nada do tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que «acontece»?”

 

Ferreira, Vergílio, Em Nome da Terra, 10.ª edição, Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 28 – 29.