Al Berto — [os dias sem ninguém]

by manuel margarido

 

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

         foi bela a madressilva
         subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar

 

Al Berto. O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia: Paulo Nozolino