As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Maio, 2010

Nuno Moura – «Vasquinho Dasse – Histórias muito pequenas e muito más»

Agora que consta estar para breve novo livro do Nuno Moura (rejubilemos), é boa altura para lembrar, dez anos depois, a publicação de O Livro dos Livros ou (respiremos fundo) «Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu. Regina Neri – o monstro do entrepernas. Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más. Ivo Longomel – piudefule. Adraar Bous – beauty conteste talcum powder. Robes Rosa – teatro para cães. Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13. Alexandre Singleton – relatório & contas». O volume, de 307 + V páginas, ainda pode ser encomendado no site da Mariposa Azual e serão os 9,80€ mais bem gastos para quem goste, claro. E para quem queira conhecer. Do “Indiciado” Vasquinho Dasse 123 textos, histórias muito pequenas e muito más. Aqui se deixam as primeiras seis.

"Rescue Me", succhio.luce © succhio.luce via Deviantart


1.

Uma mulher vai na parte mais bonita da rua.


O seu gelado passa de boca em boca no passeio contrário

mas pouco dos galos a combusta.


Apetece-lhe chegar a casa e pôr a cabeça sobre os pêlos

do peito.


Ficava-lhe bem uma barba postiça lá para baixo

mas há muito tempo que não o faz.


Um cigarro antes de ir dormir.

Um beijo para acordar o charlie brown.

A camisola da ginástica perto do saco perdido de frio.


2.

Foi trágico.


O homem respondeu ao assobio para cão.


3.

Nos quartos por cima do alterne viking choque dance bar

uma mulher veste uma roupa própria para sair.


Não diz nada ao príncipe nem às colegas.


4.

Na cervejaria número noventa à esquina

em fora de horas

o feiticeiro não resiste em levar um chocolate para os

seus miúdos.


5.

A c-mais-s tinha instalações com pessoas dentro de

cadeiras

em salas abrancadas.


Como ele esperava uma aparição, tinha os olhos

vermelhos.


Acendeu o cachimbo. Atrasada como sempre ela viria

para a aula

das oito e meia.


Quando ele for o reitor, ou o governador, vai dizer que

quer governar muitos anos

e a rapariga vai dar-lhe um grande beijo entre as pernas.


Para ela é abraçar o poder.

Para ele é o cheiro do cloro que ela traz depois dos

treinos.


6.

Apanhou um táxi e disse, – um desastre quanto é?

MOURA, Nuno, “O Livro dos Livros” (Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu. Regina Neri – o monstro do entrepernas. Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más. Ivo Longomel – piudefule. Adraar Bous – beauty conteste talcum powder. Robes Rosa – teatro para cães. Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13. Alexandre Singleton – relatório & contas), Lisboa: Mariposa Azual, 2000.

Mafalda Gomes – «o meu amor é glandular»

Pode falar-se em maturidade na poética de uma autora de 17 anos? Não creio. Nem a questão é importante, a partir do momento em que nela encontramos maioridade, num plano já muito elevado comparativamente aos intimismos, lirismos e à tendência confessional da escrita «adolescente», da qual totalmente se desprende e distingue a escrita de Mafalda Gomes. Assinalável pelo domínio dos processos formais e mesmo por um rigor que exige mão muito mais que apenas certa; um olhar cravado entre a ironia e a crueza, por vezes em simples epigramas cortantes. Muito jovem escritora. Já escritora.

Mafalda Gomes pertence ao colectivo Ajavardamento Poético (as «Abóboras Mecânicas», alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua. Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes) cujo interesse pela poesia, espelhado no seu excelente blogue, já se falou aqui. No referido blogue, existem links para os blogues pessoais de quatro das integrantes do grupo. O blogue de Mafalda Gomes, «o meu amor é glandular», de onde se extraíram os textos «epigramáticos» e o poema, é uma visita irrecusável.

"floating by", Oliver James Squibb © Oliver James Squibb, via Deviantart

*


da charcutaria


eu não faço fiambre de memória

estou a encher chouriços onde me deixaste

*

comi do pão que amassei


Mastigo o mês de maio em direcção ao colosso mar que me afogará.

É o extremo de trajectórias distintas que me aleijam


*

” e rapazes ? “

existem no mundo para glória de suas mães

*

menstruação


gosto que as mulheres sangrem, manchem

a roupa interior, sujem

a borda dos dedos o interior das

frases e dos favores –

gosto que as mulheres sangrem sobre tudo quanto lhes estende a mão

a faca acesa que as atravessa

o rio que escorrega o lume que tomba o corpo

sobre tudo quanto as faz morrer

gosto que as mulheres morram

Herberto Helder – “Quero um erro de gramática que refaça”


Quero um erro de gramática que refaça

na metade luminosa o poema do mundo,

e que Deus mantenha oculto na metade nocturna

o erro do erro:

alta voltagem do ouro,

bafo no rosto.

Helder, Herberto, “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

"the other side of the room" © Cyril Berthault-Jacquier & Mehmet Arslan (díptico) via Deviantart

(clique para ampliar)

Como voas agora, ave tão leve?



Como foste nascer com o coração trocado, tu que tinhas o coração tão certo?

Como é que cresceste bebé azul, coisa parva, tu que eras verde de ervas e de árvores,  das algas, do tejo do montijo, verde esmeralda, verde do sporting?

(Como se trocaram as cores, quando devias ter amadurecido do verde ao ouro?)

Como era ser corpo ao contrário e não lhe querer mal? Onde escondias força?

Como aprendeste a viver com a dor, a tua noiva negra? E a enganá-la, a encorná-la quando podias, com um gole de vinho, com a obstinada ideia do surf?

Como te atrevias a querer tanto viajar, amarrado que estavas às horas dos tubos, à distancia dos hospitais, ao comprimento de uma cama que escolheste solitária, terreno de combate íntimo?

Como é que desenhavas com precisão tão milimétrica, com as tuas mãos  pequenas?

Como erguias a vida pelos ombros com essas tuas mãos tão pequenas e preciosas, e a querias viver toda, comê-la toda, a gaja que te amarrava como a um pássaro numa armadilha? Como é que desejavas tanto a puta da vida? A puta que não te queria?

Como conseguiste não gritar todas as imprecações possíveis contra deus? Como é que o aceitaste porque, não o aceitando, te negarias?

Com é que o teu coração trocado trocou as voltas do coração dos outros e te fez ser amado? Que truques escondidos tinhas?

Como é que conquistaste o amor da mulher destacada? Que encantamentos de afeição conhecias?

Como escreveste sem ironia o último irónico acorde, carregado fortissimo: “Um clássico. EXCELENTE!!!” as tuas últimas palavras no facebook, quando ela te «deu» o what a wonderfull world?

(Como é que a gente te tira do facebook?)


Como nos foste morrer, se eras a vitória do dia contra a morte?

Como voas agora, pardal tão leve? Onde foste esconder-te no céu?

Conta-nos, conta-nos que estamos a tempo de te ouvir.

Conta-nos tudo, Jorge.


em memória do Jorge Baúto – (1971 – 2010)

Ian Curtis – nos 30 anos da morte

Faz hoje trinta anos que Ian Curtis morreu. Pode não se gostar da personagem, da ideologia, da ruptura estética que protagonizou, do carácter depressivo. Mas era mais que um letrista: era um poeta.

love will tear us apart

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won’t grow
And we’re changing our ways, taking different roads
Then love, love will tears us apart again
Love, love will tears us apart again
Why is the bedroom so cold
You’ve turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect run so dry
Yet there’s still this appeal that we’ve kept through our lives
But love, love will tears us apart again
Love, love will tear us apart again
You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there’s a taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good just can’t function no more
But love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

Entre o sagrado e o profano

A mais que humana e terrena condição dos padres, revelada pela impagável fotografia de Adriano Miranda (roubada do Público, por favor não me processem, que quase sempre vos trato bem). Ontem durante a visita de Bento XVI à cidade do Porto, Jesus estava mesmo no centro das atenções.

© Público, Adriano Miranda

Rui Almeida – um poema

Última escolha da escolha “Resumo, a poesia em 2009”. Outros autores ou poemas gostaria de deixar aqui (todos os de Luís Filipe Parrado, ou de David Teles Pereira, de Rui Pires Cabral ou de Ana Salomé, apenas para falar dos mais novos ou ainda menos conhecidos, mas cujos trabalhos estão mais acessíveis online). Escolhe-se o belíssimo poema de Rui Almeida.

O homem que se olha ao espelho sabe

Que vai morrer. Não sabe quando ou como,

Mas reconhece a finitude da vida

— Da sua vida, de cada vida.


Contempla o processo biológico

E admira-se perante o zelo do tempo

A modelar-lhe a velhice no rosto.

Dino Valls, "Las tentaciones de San Antonio", 1991, Têmpera de ovo e óleo © Dino Valls (D.R.)

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Almeida, Rui, “Lábio Cortado”, Torres Vedras: Livro do Dia, 2009

Coisas que só um homem entende

Vai-se ouvindo como um aforismo, ou um grave pensamento que pousou. Ou uma verdade feita: «Há coisas que só uma mulher entende». E em escutando a gente acredita, até porque nunca se ouviu alguém dizer o contrário. Embora,

(os emboras não são convenientes, eu sei)

embora, talvez seja frase redutora, que corta pela metade, como quem diz: só há dois géneros, duas sexualidades, sol e chuva. E generalizadora,  que “a mulher” percebe-se  serem todas por igual no “entender” (talvez se devesse dizer sensibilidade), indistinto exército perceptivo. E confusa, que “coisas” é um saco onde cabe muito “entendimento”, se calhar tanto quanto tanto é misterioso e específico isso das “coisas” das mulheres. Porém,

(os poréns não são convenientes, eu sei)

porém, mesmo admitindo que muitos homens poderão não e muitas mulheres poderão sim; mesmo dando inutilmente às “coisas” um nome… apetece-me  por vezes dizer, sem pretensão a aforismo, a verdade feita, sem esperar aceitação:

«Há coisas que só um homem entende».

Forçoso é dar-lhes um nome, reduzir as coisas a coisa. E concreta e objectiva e sólida. E então fica assim:

Por vezes um tipo fica emparedado entre a leveza de ficar e o peso de fugir.


Then i’m radio and then I’m television
I’m afraid of everyone, I’m afraid of everyone
Lay the young blue bodies with the old red violets
I’m afraid of everyone, I’m afraid of everyone


With my kid on my shoulders I try
Not to hurt anybody out loud
But I don’t have the drugs to sort,
I don’t have the drugs to sort it out


I defend my family with my orange umbrella
I’m afraid of everyone, I’m afraid of everyone
With my shiny new starspangled tennis shoes on
I’m afraid of everyone, I’m afraid of everyone


With my kid on my shoulders I try
Not to hurt anybody I like
But I don’t have the drugs to sort,
I don’t have the drugs to sort it out


Your voice has stolen my soul


The National – Afraid of Everyone , “High Violet” (2010)

Lena Horne (1917 – 2010)

Nos primeiros tempos deste blogue muito se falou do «Great American Songbook», dos seus autores, temas, intérpretes.

Hoje morreu Lena Horne, uma das grandes intérpretes norte-americanas, ela que trazia a América toda misturada no sangue; a cantora, actriz e bailarina que viu Hollywood fechar-lhe as portas por causa das ideias políticas, de esquerda para os padrões Estados Unidos; que seria imortalizada pelo talento, coisa que, na “América”, acaba quase infalivelmente por vir à tona.

Stormy Weather, canção que a imortalizou, aqui em imagens do filme com o mesmo nome.

Don’t know why there’s no sun up in the sky

Stormy weather since my man and I ain’t together

Keeps raining all the time, the time

Life is bare, gloom and misery everywhere

Stormy weather, just can’t get my poor self together

It’s raining all the time, the time

When you went, you went away, the blues walked in and met me

If he stays away, ol’ rocking chair will get me

All I do is pray, the Lord above will let me walk in the sun once more

Can’t go on, everything I had is gone

Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time

I walk around, heavy-hearted and sad

Night comes around and I’m still feeling bad

Rain’s pouring down, blinding every hope I had

This pitterin pattering, beating and spattering drives Me Mad

Love, Love, Love, this misery’s just too much for me

Can’t go on, everything I have is gone


Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time, keeps raining all the time

Olga Roriz – A Sagração da Primavera

“E agora aqui estou perante a obra recusada.”

Dias 29, 30 de Maio e 2, 3 de Junho, Centro Cultural de Belém – Lisboa

Ensaios de "A Sagração da Primavera" © C.O.R.

Sobre o que sinto

“Duas são, à partida e penso que à chegada, as minhas âncoras nesta peça que, inesperadamente, me proponho, predisponho ou imponho agora criar.

Digo inesperadamente porque ao longo de todo o meu percurso como coreógrafa, e já lá vão 32 anos, a única peça que decididamente nunca quereria coreografar era precisamente “A Sagração da Primavera”. As razões, até há 3 anos atrás, eram todas elas tão óbvias que nem por um momento me preocupei ou lamentei com essa minha decisão.

E agora aqui estou perante a obra recusada. Perante essa obra assustadoramente maior. No entanto tenho de confessar, talvez com alguma arrogância ou inconsciência, que pouco a pouco me deixa de assustar.


Talvez porque me estou a apaixonar ou já me apaixonei e quando isso me acontece sou imparável e só me tranquilizo quando consumo totalmente esse objecto desejado.”

Olga Roriz | 28 de Fevereiro de 2010

Ensaios de "A Sagração da Primavera" © C.O.R.

João Almeida – “Em tempo de miséria”

Da selecção “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim.

Em tempo de miséria

desço por um jardim transparente

entre lodo e hortelã

andam assistentes sociais pelo bosque

à procura de pobres

agitam contas e berlindes

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

troco à sombra do derradeiro cipreste

dois versos e um dedo

por uma noite de sono e um detonador

dark forests, Husckarl © Husckarl, via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Almeida, João, “Glória e Eternidade”, Vila Real: Teatro de Vila Real, 2009

Jónsi – Go Quiet

A singular história de Jónsi Birgisson, vocalista do grupo irlandês Sigur Rós, manifesta-se em registo excepcional a solo, com “Riceboy Sleeps” (2009) e “Go” (2010). Na sequência deste álbum, Dean Deblois realiza um filme, “Go Quiet”, com uma ideia tão simples como bela, até porque se fundamenta no acontecido. Na passagem do ano, Jónsi organiza uma festa em sua casa. “It’s new year’s day in Reykjavík, and Jónsi awakens to a trashed house in the wake of his party. He avoids cleaning up and instead procrastinates by playing songs that reflect the night before, the bittersweetness of new year, and the melancholy of a year gone by“. É o que Deblois conta; é o que filma. O trailer é soberbo (para ver em full screen).

“Como Desenhar Um Circulo Perfeito”, de Marco Martins.

Como desenhar um círculo perfeito, de Marco Martins (cartaz)

(clique para ampliar)


Quando estreou Alice (2005) fascinou-me a capacidade de Marco Martins dar espessura e dimensão a uma história tão “magra”. A brilhante linguagem cinematográfica do autor encarregou-se de criar um filme inesquecível (para o qual muito contribuíram, claro, a soberba interpretação de Nuno Lopes, a banda sonora de Bernardo Sassetti, a direcção de fotografia de Carlos Lopes (Cácá).

Hoje estreia “Como Desenhar Um Circulo Perfeito“, do mesmo realizador. Já não estamos no domínio da disfuncionalidade social/familiar, mas na ruptura dos conceitos família/relação. Histórias limite, histórias no limite, antítese da imagem do “desenho de um círculo perfeito”; ou metáfora (porque a história permite leituras plurais e, ou muito me engano ou vai ser alvo de debate no mais cretino dos terrenos, o da moral). Como diz Marco Martins em excelente entrevista dada hoje a Eurico de Barros, no DN.”Quando estava a escrever o argumento, descobri no YouTube que havia um campeonato mundial de desenho de círculos perfeitos e pareceu-me que seria uma metáfora perfeita e muito forte para a personagem do Guilherme e para sugerir que eles estão presos dentro de um desses círculos.

Sinopse: “Numa velha mansão com traços de uma Lisboa há muito desaparecida, os gémeos Guilherme e Sofia cresceram a partilhar experiências e, aos poucos, vão descobrindo a sua sexualidade. Mas Guilherme, incapaz de lidar com o amor não correspondido da sua irmã e das relações que ela mantém com outros rapazes, acaba por fugir de casa. Refugia-se em casa do pai, que vive isolado, imerso num mundo quase autista. Guilherme descobre então que a vida não cabe num círculo perfeito e volta para casa. Quando os gémeos se reencontram, surge finalmente o amor. De forma íntima e silenciosa, o filme oferece o prazer da exploração dos limites, criando um universo fechado e claustrofóbico, inocente e contagiante na simplicidade das suas emoções. (fonte: http://www.best-cine.com).”

Assinale-se que o argumento é assinado em conjunto pelo realizador e pelo escritor Gonçalo M. Tavares; que a banda sonora continua a contar com Bernardo Sassetti; e que no elenco surgem, para lá dos jovens “actores” protagonistas, gente como Beatriz Batarda e Lourdes Norberto, razões de expectativa, escolhas inteligentes. Refira-se ainda a troca de produtor: de Paulo Branco em Alice, Marco Martins passa a trabalhar com António e Pandora Cunha Telles; e, finalmente, o link para o site oficial do filme, muitíssimo cuidado para o que é norma cá no burgo. E bem bonito.

Isto posto… só falta ir ver o filme.

José Tolentino de Mendonça – “Para ler aos Noviços”

Colecta da selecção “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim. Um poema de José Tolentino de Mendonça, um dos quatro escolhedores que organizaram o volume.

Para ler aos Noviços


Deus não aparece no poema

apenas escutamos a sua voz de cinza

e assistimos sem compreender

a escuras perícias


A vida reclama inventários e detalhes

não a oiças

quando inutilmente perscruta as sequências do seu trânsito


Só há um modo verdadeiro de rezar:

estende o teu corpo ao longo do barco

que desce silencioso o canal

e deixa que as folhas mortas dos bosques

te cubram

Fisherman biplavC © biplavC via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Mendonça, José Tolentino de, “O Viajante Sem Sono”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

Zeinal Bava… uma aposta na portugalidade

No comments. Tenho um term of agreement, um mission statment para defender, uma joint venture com este senhor: a Portugalidade. Era o mínimo que se exigia: PORTUGALIDADE! Em doublespeak, em triplespeak, who cares… O nosso core business é a PORTUGALIDADE.

Olha que porra.

Bénédicte Houart – um poema

Poema de Bénédicte Houart escolhido para integrar a colectânea “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim com o apoio da FNAC.

jaz viva e adormece

a menina de sua mãe

os caracóis soltos na almofada

os braços a bacia os pés partidos

o corpo pousado na cama articulada

as flores murchando na jarra improvisada

sentada numa cadeira a seu lado

a mãe descose as suas camisas de dormir

o corpo danificado

inchou de dor de nada

politraumatizada

jaz viva e anoitece

a menina de sua mãe

"Deep deep sea", © Sugarock via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009”, Lisboa: Assírio & Alvim,2010

(originalmente publicado em:) Houart, Bénédicte, “Aluimentos”, Lisboa: Livros Cotovia, 2009.

Hugo Colares Pinto. duas ilustrações

Gosto tanto de ilustradores, e não fazia a mínima ideia de quem era Hugo Colares Pinto ou sequer da natureza do seu trabalho, que pode ser visto aqui, pelo menos parcialmente. Por ínvias vias chego ao seu nome e a algumas peças que se podem apreciar online; e continuando sem conhecer decentemente a obra deste autor, impressionam a expressividade cromática, a linguagem, o sentido da composição, a destreza técnica do que vi. Aqui ficam duas ilustrações da série One. E manifesta vontade de conhecer mais (agradecem-se contributos).

"looking at" - técnica mista © Hugo Colares Pinto (DR)

"metro station COMBATENTES" - técnica mista © Hugo Colares Pinto (DR)

Finnegans Wake redux

"porra, onde é que eu ia?!"

(clique para ampliar)

Dois senhores pacientes, um linguista (Danis Rose) e um físico (John O’Hanlon), dedicaram 30 anos de vida a introduzir umas singelas 9.000 correcções e “pequenas” alterações ao original da célebre, polémica e problemática obra de James Joyce; nove milhares de pequenos nadas que, de acordo com os autores, conferem maior coerência e inteligibilidade ao texto: «Esta coerência foi restaurada por completo na nova edição e resulta no que se pode chamar a primeira edição definitiva da obra-prima de Joyce», afirmam, orgulhosos, os perpetradores.

Pois. Perante tanta confiança e júbilo, algumas perguntas se podem colocar:

Queremos ler o Finnegans Wake para o entender?

Queremos ler o Finnegans Wake?

Quereria o autor que a obra fosse arredondada e facilitada? Ou até simplesmente lida enquanto “leitura”?

Conseguiram Rose e O’Hanlon fazer mesmo alguma coisa de jeito, ou apenas usaram adoçante?

E pode plausivelmente acreditar-se que, agora-finalmente-até que enfim, com 9.000 pinceladas, a coisa fica assim “legível” e lobotomizada?

A avaliar por estas duas páginas dos apontamentos de Danis Rose, não creio. A quem se dispuser a gastar 900 libras na coisa (em edição especial) garanto que é uma arriscada decisão de investimento no mercado de bens culturais; aos outros, quase que afiançaria tratar-se de uma inutilidade.