As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Dezembro, 2009

Feliz Ano Novo – Norman Rockwell

O ano acaba com a morte de um grande ilustrador nova-iorquino, David Levine. Termina-se aqui o ano com outro grande ilustrador daquela cidade, possivelmente o mais popular e famoso em todo o século XX. Norman Rockwell, de cuja obra Reagan gostava e na qual a América conservadora se revê, ainda hoje nostálgica. Contudo, essa era apenas uma leitura muito primária do trabalho do autor. Feliz Ano Novo.

Happy New Year, Norman Rockwell (d.r.)

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David Levine (1926 – 2009) – in memoriam

Ilustração de David Levine: Jean-Paul Sartre, Naguib Mahfouz, Paul Bowles, Arundhati Roy

Novos Poetas (48) – Nuno Brito

Ainda na Cràse, número zero, após a surpresa da descoberta de Luís Felício, podem encontrar-se alguns outros autores que sobressaem. Nuno Brito (Porto, 1981) publica três poemas, formal e tematicamente distintos entre si, mas tendo em comum uma grande capacidade de criar imagens inesperadas. Na riqueza imagética, mas também nos bruscos saltos do enunciado, estará a singularidade do autor. A aparente “desigualdade” entre poemas derivará da mesmíssima razão que origina a “desigualdade” dentro de cada poema: o salto, a guinada, a deslocação e o estranhamento do sentido, manipulados laboriosamente para criar trabalhos que prenunciam uma voz poética não confundível. [Nuno Brito tem, publicado em 2009, o livro Delírio Húngaro, com a chancela da Edita-me]

Panteão Nacional


Fui ao Panteão Nacional adorar um ou dois mortos que se riram

o suficiente

e isso chega

A Puma que protege a sua entrada, dita com os olhos verdes quem

é imortal e quem é mais do que isso. Vigia os dez milhões

de habitantes.

Todos eles com as suas bússolas apontadas para sul foram

antigos Reis de Alexandria.


© Carla Salgueiro, Olhares, Fotografia online (d.r.)

O Pai Natal politicamente correcto

Por uma vez cedo ao politicamete correcto, ao air du temps, aos bem pensantes, às consciências esclarecidas e acolho genuinamente o princípio contido nesta ilustração. Acontece que duvido muitíssimo que esta não ilustre, apenas, um wishfull thinking. O que é uma pena.


(obrigado Ci, o Cormac McCarthy está a chegar)


Novos Poetas (47) – Luís Felício

Então, abro uma revista de poesia que desconhecia, a Cràse, no seu número zero de cinquenta exemplares e leio o trabalho de nove autores que desconhecia, ou quase. Entre todos tornam-se evidentes ao meu gosto os poemas de Luís Felício. E penso que terá caminho na poesia.

Então, chego ao fim e vejo nota biográfica: Luís Felício, Tavira, 1982.
Seleccionado para o Concurso Nacional de Jovens Criadores 2008 e publicado na Colectânea; premiado e publicado nas edições 2007 e 2008 do Concurso Literário Lisboa à Letra; vencedor do Concurso Nacional Aveiro Jovem Criador 2007; vencedor do Prémio Nacional Jovem Literário Luís Teixeira, com a obra assim também um corpo, em vias de publicação pela editora Livro do Dia. Finalista de Hist. da Arte e Filosofia, FLUL. Publicou na revista literária sin-ismo. Publicou no DN Jovem desde 2002. E penso que outros pensaram que terá caminho na poesia.

Então, dois dias após a leitura de alguns poemas de Luís Felício, na já citada Cràse (a ela se voltará), com a já referida saliência, mão amiga faz-me chegar, após lhe ter mencionado o nome, o último poema de Felício, com devida autorização do autor para publicar este inédito. E penso que há coincidências que têm, elas coincidências, um caminho poético.

[Agradeço a Luís Felício, que não conheço, a autorização concedida para a publicação do poema.]

"ao nada, ao pó, ao esquecimento" © Carla Salgueiro, Olhares, Fotografia online (d.r.)

“La musique savante manque à notre désir”

Rimbaud, in Conte, Illuminations


I – poética  (estátua, som e gesto)

1

alguém canta, se adormeço entre rosas;

alguém canta, se o mármore amadurece

por dentro da vertical cegueira do sangue

e se recolhe no tímpano; e,

alguém canta se, subitamente,

o silêncio é uma fatalidade musical,

e o pó, esse fruto semeado entre os dedos,

ainda inclinados sobre a pedra,

aguarda o florescer da manhã

entre a carne palpitante do peito

e a friíssima sede do cinzel auscultando o coração

de quem canta rodeado de noites

e semeado das nocturnas pétalas do pó

2

enquanto o pó não floresce por dentro

do movimento do sangue, e os braços

de quem dorme dentro da pedra

apenas se erguem inutilmente

para uma negra solidão de metáforas,

o poeta fecha-se num quarto escuro,

o poeta fecha-se dentro da pedra, e espera

pela perfeita coincidência da mão e do gesto

e da água e do fruto; o poeta espera, inclinado

justamente sobre o vértice da água guardada

nas ânforas das imagens;

o poeta sabe que toda a água é perpendicular

à verticalidade desse gesto

que escreve sempre as últimas coisas

3

o poeta sabe

que todo o deus é um paradoxo formal.

o poeta sabe que o que o poema diz são

os lentos braços de mulher desse deus

repartindo as águas diante da pétrea fronte

coberta de pó.

água!, quem canta clama por água,

alguém sempre ama o seu metafórico som,

quando embate na oblíqua pedra escarlate do peito.

diz-se água dentro da noite, e as ânforas do verso transbordam

no crescente das luas das imagens incitadas às enseadas

dos dedos segurando o cinzel.

mas água!, o sangue pesa, e toda água é levíssima,

como se cantasse perpetuamente;

toda a água é a coincidência do som e do gesto

na oblíqua brancura musical de um ofício

de esculpir o negrume que medeia pupila e pulso,

coração e tímpano; toda a água estremece

neste ofício de se saber uma ferramenta musical

4

o pulso, rodeado de água negra,

o pulso, fonte e clareira do movimento. o pulso recolhe

o dilúvio da epiderme do som, quer a pele e a sede

desse mármore;

o pulso, que segura o cinzel, o pulso

é o naufrágio de uma cega leveza sonora de metáforas

a prumo no aprumo do canto escrito no pó semeado

à tangente do lábio lírico.

é depois uma, a primeira, sempre aquela palavra

que dissemina as águas, e que é a ascese

lunar da sombra através das ancas da fêmea em pranto

perante o pathos das imagens estilhaçadas

pelo movimento que as inicia; é sempre

essa palavra que fica –  essa palavra que

é sempre a loucura do mínimo

5

poema: escarlate e pétrea geografia do tumulto,

vertical ascese lunar da sombra e da água negra

do verbo contornando as penínsulas dos dedos,

e instigando as enseadas do sangue

ao litígio dos promontórios das imagens,

aliciando o golfo do coração

e a ancestral paisagem da memória,

à queda a prumo no aprumo

de cantar tudo o que não se pode cantar;

poema, horizontal leito, sono em que se estremece, sempre

que alguém canta o solar destino de todo o canto,

sempre que alguém canta o que não se pode cantar

6

e, não se pode cantar essa mulher feita de penumbra

que cresce por dentro dos versos, essa água negra

que devora as imagens desde o fulcro do gesto

dos dedos inclinados sobre a brancura da página

à cova de seda vermelha do coração; não se pode cantar

o rosto dessa mulher, que é uma escarpa de vidro recolhendo

os prodígios, amalgamando os meridianos da ordem

e propiciando a coincidência da escuta e da pupila,

e a catarse dos anjos (essas metáforas) enrodilhados

diante do coração da visão; não se pode cantar

esse anjo de penumbra que germina entre os umbrais

dos braços cingidos por uma elipse de lume

7

e, não te posso cantar a ti (imagem),

que me costuras um anjo de pó na fronte, se as ânforas do verso

vertem as marmóreas madrugadas do canto

através da rosa aberta da casa onde te deitas comigo,

e se fico submerso de memória e água até ao coração,

e sucumbo a esse levíssimo peso da lua cingida pelas ancas;

não posso cantar a casa, essa rosa

onde me pões a pedra sobre o coração;

e, repito, não posso cantar a casa,

a clareira de todo o movimento do mundo,

o radial espaço da permanência; não posso cantar,

sem que a água negra brote dos buracos líricos da pedra;

não posso cantar o mais mínimo destino.

8

apenas posso cantar as imagens. apenas posso cantar

imagens de imagens; tão só posso cantar

o invisível movimento das imagens, sem fixar a rosa

no cume das águas erguidas a prumo até onde (o) nada se vê.

porém, entre o movimento do cinzel, a invisibilidade do mundo,

a escuridão da água rasa em torno dos olhos

e o florescimento do pó, sei que

o poema, esse gesto antiquíssimo, sei que o poema dirá

o enorme talento dos minerais, e que tu, imagem do meu sono

nos interstícios das coisas, tu, estátua, tu

havias de dizer as metáforas todas enfileiradas, de rosto voltado

para a penumbra do pó semeado entre os dedos;

e sei que tu haverás de dize-las,

por fim, maduras para a escuta de todos os líquidos perecíveis

e do coração do pó estremecendo onde

o gesto coincide com o som,

sei que tu haverás de dizer o lugar

onde as imagens sempre se detém para ouvir

a íngreme loucura do coração, o lugar onde

finalmente o mármore amadurece

na epiderme da escuta em que o poema ressoa

através do imóvel tímpano da pedra

9

hei-de cantar que no poema as imagens

são essas rosas de mármore semeadas no flagelo

que as mulheres costuram ao peito

cada vez que cantam no sono de quem

imagina por gesto e música o ocluso coração da pedra,

de quem sabe que as imagens são

também a floração mineral do sangue

entre os dedos auscultando

o sono e o branco coração

do pó

Luís Felício (poema inédito, 2009)

Preparo os dias da cinza

Poemas. Também os fui escrevendo e vou de vez. Em quando.

«porque tu és pó e ao pó voltarás»
BÍBLIA, Génesis, 3-19

Preparo os dias da cinza.

Os tempos sem sobressalto.

A terra árida onde apenas o vento

dispersa a inutilidade das ervas.

Aguardo o silêncio fundo

das vozes que não se ouvem.

A sobra, a escuta inútil

de uma alegria perdida.


Agradeço os dias da cinza

o tempo do coração inerte.

Nele guarda-se o fogo

que nem o desejo alcança.

Espero no pó das brasas extintas

o ressurgir de uma chama,

escondida e de novo acesa

no mais frio dos dias da cinza.

«Ashes», The Grayson, © The Grayson, via Deviantart


E eram tão novos…

Não estavam a queimar livros; não berravam palavras de ordem  censórias (em lugar de “não compre”, pediam para que não se lesse); não estavam zangados. Não pertenciam a grupos, juventudes, blocos, seitas. Eram novos e, com  ânimo, especaram-se no Parque das Nações, frente ao centro comercial. E diziam a quem passava: “É mentira”. Com gentileza. Uma coisa quase irreal: uma manifestação contra um livro (As profecias de Nostradamus, de Mario Reading).

Pasmei com a singularidade da coisa (é certo que uma Igreja Baptista de Penafiel organizou iniciativa pouco concorrida contra o último Saramago. Mas era iniciativa de “igreja”). Achei lindo, tão alegres e uma dúzia, fazendo pública a sua opinião. Mais bonito que manifestação de megafone contra os transgénicos. Afinal de contas, é pura poesia o acto de se pronunciar contra um transgénico literário. E eram tão novos, palavra de honra.

[Nota: a fotografia foi tomada por puro impulso, com consentimento, a partir de um telemóvel. Entrei assim, pifiamente, para o clube dos repórteres de rua. Dos péssimos, claro.]

fotografia: afa, com c.m. e a.a.

(clique para ampliar)

O Efeito World Press Photo

Fotografar um ano é uma impossibilidade logística, mesmo que nos fiquemos pelo domínio do real. (Mais arrojado seria, e porventura interessante, se alguns esforços concertados tentassem, por exemplo, fotografar o “imaginário” de um ano. Mas talvez esse fosse um trabalho improvavelmente poético e pouco comercial.)

As grandes cadeias produtoras de conteúdos já perceberam o filão que o fotojornalismo proporciona, nestas compilações. A lágrima vende e a dor atrai. A procura de “instantâneos” que retratem a pobreza, o sofrimento, o acontecimento histórico, o momento raro acaba por produzir aquilo a que me apetece chamar “O Efeito World Press Photo”: a banalização da excepcionalidade.

Nos anos recentes, porém, assiste-se a uma tendência de viragem neste tipo de escolhas. A procura de situações geradoras de solavanco sentimental fácil, tipo criancinhas a morrer de fome, tem dado lugar a critérios mais aproximados a uma realidade desemocionalizada.

© Aaron Huey / Atlas Press

Nesta fotografia retirada da galeria da Time (The Year in Pictures 2009), podemos observar a grandeza de Seattle – a cidade da Microsoft, para os mais distraídos – , a partir de um acampamento de homeless.

Não nos deixemos enganar pela palavra. Homeless, aqui, não quer dizer sem-abrigo. Significa, literalmente, sem casa.

(Nela, a ausência do elemento humano torna-o absurdamente presente. Mais presente que o próprio contraste entre o primeiro plano e a grande cidade luzente. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderia oferecer milhares de imagens deste contraste. But damn, this is America.)

Poesia Portuguesa (41) – Carlos de Oliveira

Poema pertencente ao livro com o mesmo título (datado de 1968), de um autor que tanto tentam classificar e, contudo, se escapa às gavetas em que o procuram arrumar, nada inocentemente, aliás. Aqui se afirma que Carlos de Oliveira é “ingavetável”. (O mesmo se aplica ao ilustre exercício de categorização exacta do que é prosa poética, do que será poesia prosódica.)

SOBRE O LADO ESQUERDO


De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.

OLIVEIRA, Carlos de, Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

"Sobre o Lado Esquerdo" © Tiago Roldão, Olhares, Fotografia online (d.r.)


Novos Poetas (46) – Rui Almeida

Ainda o lançamento, em Lisboa, na Livraria Trama, do sexto número da Callema, em animada noite de Verão, de amena informalidade e alguma paródia. No que à poesia respeita, publicam-se trabalhos de Rui Almeida (um dos pândegos daquela noite), Fernando Silva e do poeta turco Orhan Veli, pela primeira vez trazido à língua portuguesa

Destaquei um poema de Rui Almeida (n. 1972), primeiro vencedor do “Prémio de Poesia Manuel Alegre” (2008) com o livro Lábio Cortado, recentemente editado na Livrododia (que pena aquela capa) e já comentado aqui por Henrique Fialho, e também aqui por Nuno Dempster. Rui Almeida é, de resto, autor de um blogue, Poesia Distribuída na Rua, de fazer inveja aos maiores e melhores sítios divulgadores de poesia online. (Fora da rede nem se fala.)

Mas pelo poema publicado na Callema (antecedido de nove outros, do mesmo autor, numa sequência apenas aparentemente fragmentária) se fica, pelo seu rigor formal, contenção imagética e tom delicadamente aforístico, tão contundente como o metafórico murro que nele irrompe.

[DEZ PECADINHOS MORTAIS AO ACASO]


Suavíssimos pretextos para nada;

O medo de ouvir falar do vento;

O avanço das armas escondidas;

Os tesouros perdidos frontalmente;

Sinceridades sem razão de ser;

A violência de conter o murro;

Segredos que se dizem sem ouvidos;

Os silêncios que mascaram as sombras;

O vil excesso de um pão sem fome;

As palavras escritas com maiúsculas.

Almeida, Rui, in Revista Callema, n.º06, p. 14. Maio de 2009

"White Man" © M, Olhares, fotografia online (d.r.)

Portugal – Coreia do Norte e o sorteio.

Ontem realizou-se o sorteio dos grupos que vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol de onze (versão masculina), na África do Sul, em 2010. Ninguém parece ter ficado satisfeito com a nossa sorte. Cristiano Ronaldo queixa-se, Carlos Queirós diz que o primeiro jogo é decisivo (mas não são todos?); os comentadores torcem o nariz e, a esta hora, o site da FIFA aponta o “grupo” como o mais difícil, por larga margem sondada à boca do clique.

Pois eu acho o grupo lindo. Jogar contra o Brasil deveria ser encarado como uma festa, um feriado não-oficial; a Costa do Marfim surge-nos para recordar a nossa história, faceta descobridora, o pioneiro contacto de europeus com os litorais africanos para lá do Bojador, as traficâncias do ouro, do marfim, da pimenta; dos escravos. A Coreia do Norte… bem, a Coreia do Norte foi, em 1966, Inglaterra, o adversário digníssimo que permitiu à Selecção Nacional o jogo verdadeiramente épico da sua história. Em menos de nada estamos a perder 0-3. Então agiganta-se Eusébio e, com ele, uma equipa (e uma nação, colada aos rádios; e um Governo, atento à oportunidade de propaganda, ainda que em formas e modos rudimentares, pré-socráticos, digamos). O jogo, mais que o resultado final (5-3), entrou no domínio da lenda.

Agora, que vamos encontrar de novo os norte-coreanos, fixem bem os nomes de todos e cada um dos seus jogadores. Talvez daqui a dez anos estejamos a subscrever abaixo-assinados da Amnistia Internacional. Se tivermos informações suficientes para. Futebol, política, afectos, heroísmo e direitos humanos. Uma combinação rara.

Pedindo indulgência ao jornal, e ao desaforo de abuso do direito de citação, transcreve-se aqui, integralmente, o artigo de Helena Matos, no Público de 19 de Novembro. Ganhou a matéria uma luz intensa, uma pertinência nova e urgente, com o sorteio de ontem à noite. Até parecia augúrio. Chapeau, Helena Matos.

Decorem-lhes os nomes, aos rapazes da Coreia do Norte que nos defrontarão na África do Sul. Ou apontem-nos num caderno, no pc, no diário. Para memória futura.

(continuará)

Eusébio acaba de marcar um dos seus quatro golos, num jogo histórico.

O que foi feito do homem que marcou golo no primeiro minuto?

“Agora que a propósito da queda do Muro de Berlim se faz ouvir a ladainha relativista sobre os novos muros – perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada! – é ocasião para recordarmos um dos mais brilhantes jogos efectuados pela selecção portuguesa de futebol. Aconteceu em 1966. Portugal defrontou a Coreia do Norte, cuja equipa estava ainda embalada pela euforia da vitória sobre a Itália. Portugal chegou a estar a perder por três a zero. Como não sei nada de futebol, sou incapaz de explicar o que aconteceu, mas aos meus olhos leigos nessa matéria só parece que, a partir de dado momento, a bola e Eusébio se encontravam em perfeita sintonia no caminho para a baliza dos norte-coreanos. Portugal acabou por ganhar por cinco a três. Quatro dos golos foram de Eusébio. O resto foi o que se sabe. Para Portugal, evidentemente. No livro Os Aquários de PyongYang, do historiador francês Pierre Rigoulot e do refugiado norte-coreano Kang Chol-hwan, ficamos a saber que os jogadores norte-coreanos, uma vez regressados à Coreia do Norte, pagaram caro os resultados desse jogo: alguns foram expulsos dos locais onde viviam e outros acabaram nos campos de prisioneiros. Kang Chol-hwan, que foi internado aos nove anos por o seu avô ter sido considerado reaccionário, encontrou um desses jogadores no campo de Yodok. Mais precisamente encontrou Park Seung-jin, o jogador que marcou um golo a Portugal logo no primeiro minuto de jogo. Mas o Park Seung-jin detido em Yodok destacava-se entre os outros prisioneiros não pelo poder dos remates, mas sim pela sua capacidade de vencer a fome. Comia todos os insectos que encontrava e por isso chamavam-lhe “Barata”. Ainda estava vivo, mas já muito fraco quando, em Fevereiro de 1987, Kang Chol-hwan mais o seu pai, tio, irmão e avó foram autorizados finalmente a sair de Yodok.

O que é feito de Park Seung-jin?

O destino destes jogadores ou as tragédias pessoais de alguns dos heróis desportivos dos países socialistas têm matéria q.b. para reflectir sobre a diferente natureza dos muros. Desconheço se Park Seung-jin alguma vez voltou a saltar de alegria como fez quando enfiou a bola na baliza de Portugal em 1966. Mas sei que a força do futebol foi suficiente para que alguém, em 2002, se interessasse pelo destino desta equipa e conseguisse transformá-la em matéria de documentário. Pode ser que agora a pretexto do Mundial se fale outra vez destes homens e, quem sabe, se procure confirmar os relatos de refugiados norte-coreanos e declarações do Governo japonês que dão conta de raptos de mulheres em Macau pelos serviços norte-coreanos que usavam esta mirabolante técnica para, entre outras coisas, arranjarem professoras de línguas. Estes raptos tiveram lugar num tempo em que Macau era administrado por Portugal e até agora o desinteresse que os rodeia é para mim tão inexplicável quanto aquela revirvolta no resultado do Portugal-Coreia do Norte de 1966″

Helena Matos, in Público n.º 7170, 19 de Novembro de 2009

Lucy Pepper – as ilustrações na Callema 06

O lançamento do sexto número da Callema em Lisboa deu origem, no início do Verão, a animado encontro na Livraria Trama. À Callema se voltará. Antes, deixam-se aqui as ilustrações que fecham a edição, da autoria de Lucy Pepper, artista plástica inglesa que reside em Portugal. Na revista, a sequenciação das ilustrações, possível pela passagem das páginas, permite um efeito de surpresa e ironia deliciosos. Uma suite genial, de uma ilustradora que pode ser melhor conhecida no seu blogue.

Antecedendo Aldeia, o texto (escrito em língua inglesa e traduzido na própria revista):

“Todos os pintores que visitam Portugal apaixonam-se pela sua luz clara e transparente. Tenho mais sorte do que eles, já que a posso ver durante todo o ano nas suas várias personalidades.”

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

Reler

Quando abri este blogue impus-me a regra de não publicar escrita própria. Até hoje.

(ao Paulo F.)

Reler


Permanece entranhada no corpo daqueles que contam mais de cinquenta anos, dizem, a memória deste vírus que novo dizem. Antigo será então, cinquenta anos séculos contariam na história dos vírus, tivessem eles memória. E têm. Recordam-se das barreiras que terçaram, e em lembrando recombinam-se para enganar a memória orgânica dos que têm mais de cinquenta anos. Não enganam, por poderosa ser a biblioteca do corpo destes homens, destas mulheres. Em meninos combateram na trincheira do sistema imunitário, viveram para ainda transportarem a memória de um triunfo. São mais fortes, os que envelhecem. Relêem a gripe A. Não precisam muito de vacinas.

(E não se resgatarão um dia da morte, seja como for.)


Melhor seria o emprego de inesgotáveis lotes de vacinas (best-sellers, apropriados Livros do Ano) contra a memória do que já lemos. Um paliativo para combater a sua febril redescoberta, os arrepios, a suspensão do próprio respirar. Porque, ainda que passado muito tempo, num livro que nos atacou até às entranhas opera-se uma proeza de transmutação: sendo o mesmo é fatalmente outro. Mais poderoso que a nossa indefesa memória, feliz e rendida, por via de ser ela a recombinar. E assim se derrotar.

Pego nos “Sonetos” do Antero, rascunhados a lápis aos dezasseis anos. Releio: «Só males são reais, só dor existe;/ Prazeres só os gera a fantasia;/ Em nada, um imaginar, o bem consiste,/ Anda o mal em cada hora e instante e dia». Anotada, a lápis, a palavra sentencioso. Expus-me ao Antero com dezasseis anos. Febril, fervi. A ele volto, outra vez me assola, três décadas mais tarde. E não tenho defesas para a contagiosa emoção que inaugura; nem vacina para a palavra que escreveria hoje: lúcido.

No trânsito da memória emotiva é devastador reler; nada que se compare à inútil mutação de um vírus na memória do corpo dos que têm mais de cinquenta anos.


(Resgata-nos um dia à morte, seja como for.)

"Duplo Sentido" © Joana Sousa, Olhares, fotografia online (d.r.)

"Duplo Sentido" © Joana Sousa; Olhares, fotografia online (d.r.)


Ruy Belo — «Segunda Infância»

Ainda e de novo Ruy Belo. Ainda o seu primeiro livro, Aquele Grande Rio Eufrates, datado de 1961. Ainda o tema do “regresso, como é tão bem sugerido, a propósito deste poema, num surpreendente ensaio de Henrique Manuel Bento Fialho (Ruy Belo: uma aldeia que não existe), analítico e emotivo em simultâneo, com um pé fora de uma leitura excessivamente académica. Na Agulha, revista brasileira  de cultura (São Paulo). Em lendo o poema, leia-se o que Henrique Fialho escreve. Um outro olhar ajuda.

SEGUNDA INFÂNCIA

À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos

Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

BELO, Ruy, Obra Poética, vol. 1 [Aquele Grande Rio Eufrates], (1.ª Ed.)  – Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo (d.r.)

© Duarte Belo (d.r.)

Regresso – Poesia Portuguesa (39) Ruy Belo

Regresso ao blogue, como se o tivesse largado ontem. Regresso empoleirado nos poemas de Ruy Belo.

REGRESSO

Não não mereço esta hora

eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes

que exerci o comércio num mercado de palavras

Não mereço este frio este cheiro tudo isto

tão antigo como os meus olhos

talvez mais antigo que os meus olhos

BELO, Ruy, Obra Poética, vol. 1 [Aquele Grande Rio Eufrates], (1.ª Ediç.)  – Presença, Lisboa, 1981.

”]© Duarte Belo [filho do poeta, fotógrafo. Fotografia tomada em casa de Mário Cesariny]