As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Novembro, 2010

Daniel Faria – Um pássaro em queda mesmo

 

 

 

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

 

Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003

 

«5939», CiCe © CiCe, via Deviantart (D.R.)

Mafalda Gomes – pris vis

 

 

pris vis

o meu amor cai

no vácuo
e eu vou com ele

namorados modernos, eu e o meu amor
afunilamos na medida cósmica do impossível

astros – eu amo
cair na primeira pessoa é mais perigoso do que escrevinhar no metro
a queda voluntária
do poema não compreende
se eu amar

a degeneração começou no primeiro
tropeço e foi uma questão de utilidade
aconchego, uma questão de piso

continuará mais tarde, vertigem
líquida e doida do porvir e faço saber que o verso não terminará jamais porque eu tenho vontade de dizer que um poema é um milagre, um sentimento dentro uma esfera de tinta azul, uma cona molhada, uma pedra que deus não levanta. se em verdade não vos falar, ide, pois, queixar-vos ao imperativo de vos falar verdades que não doam tanto

– tu não me queres

 

Mafalda Gomes, via o meu amor é glandular

 

«I Was Falling High», Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (D.R.)

António Manuel Couto Viana – Despojo

 

 

(na sequência do post anterior)


Despojo

E, agora, o que faremos?

A quem legar o que resta

Do simulacro de festa

Que tivemos?


Quem aproveita os detritos

De uma alegria forçada?

Quem confunde aflitos gritos

Com imposta gargalhada?


Iremos por onde alguém

Descubra os nossos farrapos.

Vês flores no jardim de além?

– Vejo sapos.

Viana, António Manuel Couto, Voo Doméstico, Lisboa: Editora Arcádia, 1978

«Lost», Krystian © Krystian, via Deviantart (D.R.)

Links Relacionados:

António Manuel Couto Viana (1)

António Manuel Couto Viana (2)

Recensão crítica a Voo Doméstico, por Eugénio Lisboa. In: Revista Colóquio/Letras.


João Miguel Fernandes Jorge e a importância de uma nota de posfácio, seguido de dois poemas (um de Joaquim Manuel Magalhães)

 

 

Um posfácio (neste caso, uma «Nota») pode ser um apêndice de circunstância (pode aliás ser muitas coisas). Raras vezes a nota final de um livro contribui de forma tão estimulante para a compreensão da petite histoire, ou da gesta que se encontra na origem de uma obra, como este texto de João Miguel Fernandes Jorge que fecha a edição de Obra Poética – Volume 3,  do referido autor. A transcrição desta nota revela-nos impressões e considerações do autor perante uma decisiva parte da sua obra e, o que é igualmente de grande pertinência, as histórias que cada um dos livros referidos lhe evocam. Nela, na «Nota», é como se um período de uma intensa importância na reformulação dos cânones da escrita poética em língua portuguesa nos surgisse, por um lado de forma evocativa, por outro quase como uma crónica. À transcrição da referida «Nota», seguem-se as transcrições de um poema de Cartucho e, compreensivelmente, do poema «28 de Setembro», de Joaquim Manuel Magalhães, na sua versão publicada em Os dias, pequenos charcos (a outra, a de Um Toldo Vermelho, não se justifica evidentemente transcrever aqui).

 

«Cartucho»

 

 

NOTA

 

A primeira edição de Meridional surgiu em 1976 na Plátano. Uma segunda versão foi publicada no Roubador De Água (1981). Com pequenas alterações é esta segunda a versão que sigo.

Vinte e Nove Poemas (1978) foi o primeiro livro da colecção Inverso (Regra do Jogo) e trazia, numa das páginas iniciais, uma polaróide de João Botelho. Pertencem a este livro poemas de 1977 e 78 e ainda poemas que foram contemporâneos de Sobre Sob Voz (1971). Alguns deles tiveram publicação anterior em Fevereiro, revista de poesia (1972).

Direito de Mentir (Arcádia, 1978) é um livro de que particularmente gosto. Inclui dois títulos anteriores: Cartucho (edição dos autores, 1976) e Man Ray, Oito Tiros à Sua Morte (O Oiro do Dia, 1977). Cartucho (a que correspondem os cinco primeiros poemas de «Poemas que estavam no Cartucho e outros que podiam lá ter estado»), foi um cartucho mesmo e onde me acompanharam o Joaquim Manuel Magalhães — a quem se deve a ideia —,  o António Franco Alexandre e o Hélder Moura Pereira.

O meu pai deu-nos os cartuchos, o cordel e os chumbos que os fechavam. Lá dentro ficaram poemas bem amarrotados. Mandámos imprimir um rótulo com os nossos nomes na tipografia «Proletariado Vermelho», que ficava no meu bairro. Não esquecer que corriam os gloriosos dias de 76! De resto, quando eu e o Joaquim vínhamos da Consolação com a mala do carro cheia de cartuchos acabados de fazer, fomos interceptados por uma operação stop das vigilâncias populares, à entrada da Calçada de Carriche. Ao mandarem abrir a mala do carro e ao verem os cartuchos perguntaram: — «O que é isto?» O Joaquim respondeu-lhes: — «São livros!» Como se de rosas se tratasse! Acharam coisa acertada para a revolução em curso. (Seria este o motivo para o seu poema «28 de Setembro» de Os dias, pequenos charcos).

Quanto a Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte trazia consigo um desenho de António Palolo.

Mas o Direito de Mentir no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Domestico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.

Depois é a poesia pequeno jogo entre acaso e destino, entre matéria e memória. Quase posso chamar para este momento a presença do meu poema final de O Regresso dos Remadores (1982): «Poemas»: «Aspectos perdidos / pequenas sombras ao redor de poderosa imagem // Aquilo que / distingue a palavra ave da palavra pássaro.»

Há neste acaso e destino e nesta matéria e memória o carácter da experiência e da duração que encontra o seu fundamento na constituição íntima não só do seu criador, como na fantasia desse mesmo criador. Um passo para o surgir de um outro jogo: o que vai da presença de uma memória pura ao existir de uma memória (in)voluntária. Ontem, um parasita cultural escrevia acerca de um livro meu: «Este notável poeta é muito inteligente, e muito arguto nos objectos que escolhe, mas deixa-nos sempre a estranha impressão de raramente acertar. É uma espécie de Mr. Magoo feito caçador de borboletas.»

Agradeço-lhe a notabilidade e a inteligência. Tenho de ambos que me baste. E fico contente com a imagem de «Mr. Magoo». Em Mr. Magoo pode muito bem ter a poesia e a feitura da arte um seu sinal. Quase cego, pitosga, tudo trocando pelo objecto próximo, de quando em quando acerta ou julga acertar; e traz ao conquistado espaço do vivido a sua aparente borboleta.

Pequena criação; Mr. Magoo é bem o poeta ou o feitor da arte: uma vida inteira ou um breve instante para dar lugar a um verso e, quantas vezes somente um verso vai restar como sustentáculo de toda uma obra, que sempre permanece escondida em tudo o que o criador vê.

 

Consolação, 1 de Janeiro de 1988

 

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988

 

«Mr Magoo»

 

 

POEMAS QUE ESTAVAM NO CARTUCHO

E OUTROS QUE PODIAM LÁ TER ESTADO

 

1

 

Como podemos esperar.

Aguardar o que as nossas mãos possam reter.

Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas

têm já o estado do vento

o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

 

Aguardar mais aguardar nada

Quanto mais se repete uma palavra

«estou sentado virado para a parede desta casa»

baixo, mais baixo ainda,

«estou sentado virado para a parede desta casa»

 

Fazer que não haja sucedido o sucedido.

O prazer de sentir chegar as coisas

O riso sob a chuva

O frio que faz. Aqui

 

Como podemos esperar uma noite de lua e vento?

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988, p.91

 

 
28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.

Isto é, como devia ser. O curro

predispunha à intervenção.

Essa urgência de voltar à mesma

havia de turbar o meu regresso

a Lisboa. Barreiras CDE de resistência

coscuvilhavam bagagens à procura

de calibres, uma fila maçada

de automóveis burgueses era vista

como homens de mão do Spínola.

No meu vinham cartuchos,

perto de duzentos com poemas,

rótulo nominal e fio com chumbinho.

O polícia popular não entendeu,

«São livros, meu senhor!»

Outros dois não queriam crer.

Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

Magalhães, Joaquim Manuel, 5º poema de Escritos militares, 8ª parte de Os dias, pequenos charcos (1981)

 

«28 de Setembro 1974 barricadas à entrada de Lisboa contra a "Maioria Silenciosa"» (arquivo: C.M.Odivelas)

Sebastião Alba – Ninguém Meu Amor

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

Alba, Sebastião, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

«Death of a paper boat», CuPlinio © CuPlinio, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Sobre a singularíssima vida e obra de Sebastião Alba

Gare

À medida que se aproxima da gare, o homem sem sono não se dá conta que as grandes lâmpadas amarelas dos candeeiros tristes e ralos da praça se vão apagando. Um engano camarário reles, porque ainda é noite, as ruas de repente ficam escuras; e daí não é engano, são as lâmpadas que, ao adormecerem, perguntam, com insolência: — porque não dormes, homem insone? Sem respostas na cabeça (tão branca por dentro) para ouvir perguntas inaudíveis, o homem entra na gare e nessa as luzes têm ideias diferentes: alinhados, grandes globos de luz dourada laranja industrial encadeiam-no, apertam-lhe as pupilas como um choque, fria onda a bater na costa. Porque faz frio, e os círculos de luz não aquecem, apenas dão uma cor intensa, tracejante ao ar gelado, juntando-se a ele para acordarem o homem que não dorme, e afirmando: — Se não queres dormir, acorda então, pela luz e pelo frio acorda de vez, que tens andado tão adormecido que nem dormir queres conseguir. E o homem, que não ouve esta praga, semicerra os olhos e procura em vão uma máquina de café que funcione. As grandes acesas esferas paralelas do comboio que chega, o primeiro da manhã, levam-no ao difícil esforço de não ficar com demasiadas luzes de luzes de luzes nos olhos quando os fecha, as pálpebras já cansadas não querem confusão, já lhes chega o que chega. O homem, que quer dormir e não consegue porque não consegue querer, pisca e volta a piscar os olhos, desvia-os para o altíssimo tecto da gare, onde a cor é macia como a cinza das penas dos pombos. Aí repousa os olhos durante muito tempo; até que estes aquietam, a sua cabeça vazia vazia continua, vazia densa em tumulto, mas a parar devagar, a parar como o comboio que chegou. E nisto deve ter levado muito tempo, porque quando baixa a cabeça para a gare, quando os seus olhos deixaram de repousar na penumbra do tecto e no manso esvoaçar dos pombos, o dia nasce. Tinha chegado a hora natural de acordar para o homem que não consegue dormir porque quer tanto que não consegue querer.

De frente para a linha, o homem, os olhos agora muito abertos e vendo claro como se tivesse bebido o café que não encontrou, fixa-os, os olhos, nas linhas do caminho de ferro. Ao contrário das bolas, das lâmpadas, dos faróis, ao contrário dos círculos que acendiam, apagavam e apareciam para confirmarem que o sono é a mais arbitrária e dura das batalhas quando se não têm os mapas do sossego dos comuns, o homem olha as linhas. E ao contrário, o homem vê que as linhas, por serem tão rigorosas, tão precisas, e prometerem sonhos apenas porque se perdem de vista, o homem sente que os carris paralelos, as linhas de aço azul, não falavam com ele: pediam-lhe, docemente, que falasse ele com elas. E o homem falou. Falou apesar de si, as linhas eram tão limpas e imutáveis que lhe deixam a cabeça, agora a limpar-se da névoa branca, poder falar por ela. E a sua cabeça sem sono começou a falar, sem mando. Dizia — linhas de ida, de partida, de chegar onde o sono te deixa à solta os sonhos; ao contrário dos círculos amarelos dos faróis, não era um augúrio de chegada, mas um imenso desejo de partida,  a respiração funda e macia de abalar sozinho para um lugar qualquer.

Então o homem sente o que a linhas prometiam, no seu alongado aço que se estendia até um ponto ínfimo que a sua vista conseguia unir, que delas se poderia partir para o calor e para o sono. O contrário dos círculos que chapavam perguntas que não ouvia, não podia ouvir, não escutaria nunca. Os círculos: luzes que não deixam ver e se enrolam e volteiam em revoltas sem fim, sem remédio na sua forma fatal, porque é uma fatalidade um círculo, dando voltas tantas e tantas que batem certo a doer no cérebro ainda há pouco vazio de vazio.

O homem lança um último olhar sobre as linhas. Um olhar muito mais prolongado que aquele que repousara no tecto da gare. Os olhos do homem enchem-se de água, sem qualquer expressão no rosto; essa, a expressão, está noutro lado e sai-lhe dos lábios secos, sai seca e rouca. – É por ali, pai, dá-me a mão.

 

«Train Station», Sinankut @ Sinankut, via Deviantart (D.R.)