As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Junho, 2012

Luís Miguel Nava — [As ondas que se encontram]

 

As ondas que se encontram

ainda agora em formação no espírito

dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve

com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,

saber que se ele

fosse uma cama estaria por fazer nada me traz

agora além de desconforto.

Luís Miguel Nava. Poemas, Porto: Limiar, 1987, p.59.

Aimee Ketsdever, «empty bed in an empty room II», via Deviantart (D.R.)


 

 

Anúncios

Luiza Neto Jorge — Anos quarenta, os meus

 

De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos, à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como o chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar, três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja, numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita «Viva».

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas, águas mil, um fictício arco-

 

-íris como que é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge. In: Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987, p. 59-60.

 

Paula Rego, «Voices (I)», 1996-1998. Série Children´s Crusade (D.R.)

Dia Mundial da Criança — as grandes embirrações e a censura.

Tenho um horror muito grande aos ‘Dias Mundiais’ esses post-it’s institucionais da memória piedosa. O Dia Mundial da Criança irrita-me particularmente. Que não haverá dia algum que me lembre de crianças; são as crianças  que que me lembram a existência dos dias.

Sally Mann, «immediate-family-3», s/d)

[este brevíssimo apontamento foi publicado directamente no Facebook, acompanhado pela magnífica fotografia de Sally Mann, fotógrafa com obra de grande talento. O facto de a artista fotografar os seus filhos (repito, os seus filhos) desde há anos, com uma intimidade e  afecto que se sente bela e incomum, de publicar essas fotografias, levou alguns puritanos a considerá-la pornógrafa. Pelos vistos também no Facebook assim o entenderam: em dez minutos o apontamento — com a fotografia — tinha sido apagado. Fico triste. E nada surpreendido: o Noddy seria sempre mais adequado]

Sally Mann

Página de Sally Mann

Sally Mann family pictures

Al Berto — [os dias sem ninguém]

 

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

         foi bela a madressilva
         subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar

 

Al Berto. O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia: Paulo Nozolino

Ruben A. — O amor é de outro reino.

 

Num tempo em que o tema amoroso é quase tão obnóxio como a gesta, ou a moral; quando abordado pela generalidade dos escribas contemporâneos assusta por nefastas múltiplas formas, é um prazer reencontrar Ruben A. e a sua forma tão peculiar de agarrar o motivo, elevá-lo a alturas valentes, não largar o osso.
[este fragmento foi copiado do site «O Citador», por preguiça de transcrição e indecisa capacidade de escolha. Escolheram por mim. E ainda bem.]

 

«O amor é de outro reino. Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias códig…o de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.»

Ruben A. Silêncio para 4, Lisboa: Moraes Editores, 1973

 

Fotografia: Rubem A. (s/d; autor desconhecido)

 

Fiama Hasse Pais Brandão — Lisboa sob névoa

 

(ao N.)

 

Na névoa, a cidade, ébria

oscila, tomba.

Informes, as casas

perdem o lugar e o dia.

Cravadas no nada,

as paredes são menires,

pedras antigas vagas

sem princípio, sem fim.

 

Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002.

 

fotografia: kramsay © kramsay (D.R.)

 

 

 

Maria Sousa — quatro poemas

 

 

só o verde fala neste tempo de silêncio 

somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores 

 

espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca 

 

*

 

a casa é uma memória onde 

devagar desenho percursos 

(mapas para inventar o tempo) 

 

para a habitar reparto as sombras 

 

e enquanto as estações se confundem 

acordo para uma insónia agitada 

onde uma casa existe 

mas não tem paredes 

 

*

 

da noite dizes que a respiração é hábito 

uma ruga a imitar a sombra nasce da cor  

que se define em ausências 

 

apago o tempo na cama por fazer 

soletro‐te a riscar manhãs da noite 

há que respirar com as janelas abertas de par em par 

(cheiram ao verde escuro das árvores)

 

*

 

Em dias de sílabas que 

talvez consigam dar sentido ao ontem 

(é aí que te arrumo) 

 

há sempre os primeiros sons quando do outro lado 

da voz as palavras estão vagas 

 

com o frio a roçar a garganta 

tudo está destinado à fala 

 

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração

 

 

Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

 

 

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)

Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010).

Herberto Helder — O Extremo Poder dos Símbolos

 

 

«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»

 

Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

 

monoceroi © by monoceroi, via Deviantart (D.R.)

Manuel de Freitas — III (Grande Hotel de Paris)

III (Grande Hotel de Paris)

para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém

dias grandes, irredutíveis a versos,

em que a indecisão da luz

nos açoita de felicidade.

 

São dias raros, futuras

imagens do nada, o suficiente

para que a palavra amor substitua

o primeiro cigarro da manhã.

 

Chegámos tarde. O quarto 203

trazia-me de novo o teu corpo.

E até a música dos sinos

vinha deitar-se connosco.

 

Manuel de Freitas. Telhados de Vidro n.º 3 [Último poema do tríptico Passeio Alegre]. Lisboa, Averno, 2004, p. 44.

 

 

Residencial Grande Hotel de Paris (Porto)

 

Manuel de Freitas no portal da D-GLB.

José Ricardo Nunes — seis poemas

Poetas há que passam discretamente ao lado do núcleo do reconhecimento imediato; as instâncias, modos e agentes de validação dos que alcançam nome maior são por vezes aleatórios… e assim deverá ser sempre. Na poesia de José Ricardo Nunes não encontraremos a formalização pretensiosa, a procura da frase de efeito, da figura de estilo, da imagem de grande aparato. Contudo, os poemas que aqui se transcrevem, deixam perceber a importância de um autor perfeitamente alinhado com os seus contemporâneos, que estabelece um inequívoco jogo íntimo entre os lugares, os acontecimentos dos lugares, e os acontecimentos íntimos pelos lugares suscitados. Uma poética feita de pequenas subtilezas, numa voz que aparenta simplicidade, mas que se deixa penetrar muito além do retrato que sobressalta. José Ricardo Nunes continua a publicar, com a regularidade e a constância de quem apenas aparenta  comprazer-se com o labor poético, fora dos circuitos de validação.

[acompanham estes poemas três fotografias de Rui Fonseca, que os sucedem na edição do número da revista Quolóquio/Letras de onde se transcreveram os poemas]

«Esmoriz», (1995), Rui Fonseca (D.R)


CASA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO

Na Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão
como empadas, bebo café,
olho pelas vidraças
em vez de ler.

E a medo escrevo
uma coisa tão diferente

20-IV-97

CABO CARVOEIRO

Quando amanheceu fomos ao Cabo Carvoeiro
ver se o que sobrara chegaria
para suster o mar. E no café da ribeira
não consegui contar as folhas do chá.
Mas terá sido mesmo assim?
Ou pus apenas as pedras de lado,
as maiores, deixando que a areia se escapasse
por entre os dedos? Tão brilhantes
olhos que se puxam
naquela noite de Óbidos,
não houve outra igual.

9-V-97

ESMOLA

Versos,
em brasa,
como tostões à porta de uma igreja
iluminando as mãos
de um pobre.

4-XI-99

«Praia da Vieira», (2000), Rui Fonseca (D.R.)

RAÍZES, OSSOS

Parei o carro à beira da estrada
e fui até junto das raízes
e dos troncos há muito apodrecidos.
O rosto do meu pai e essas oliveiras
São imagens que agora se misturam.
Quase que são a minha nova pele.
Espetadas no vazio, as raízes
aguardam por um pouco de terra
que o tempo foi tornando imaginária.
Sinto o gesto alheio no interior dos ossos
e dou-lhe todos os meus ossos.

25-III-00

REFÉNS

Repetimos os passos,
os mesmos passos do fim
para o princípio. Delapidamos
riqueza: imagem sob imagem
no espelho do quarto, as metamorfoses.
Corpos, uma voz à deriva
por entre amarras e segredos.
Somos reféns.

15-IV-00

UM NOME

O vento trouxe a cinza
para junto da porta da entrada,
um pequeno lençol suficiente
em tamanho e consistência
para que nele com o indicador
possa escrever um nome. Um nome,
não interessa qual.

18-IV-00

José Ricardo Nunes. “Casa de pão-de-ló de Alfeizerão; Cabo Carvoeiro; Esmola; Raízes, ossos; Reféns; Um nome”. In: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 249-254.

«Tocha», (1993), Rui Vieira (D.R.)

 

Em 2006, no blogue Poesia & Limitada, o sempre atento João Luís Barreto Guimarães escreve Biografia sumária de José Ricardo Nunes, já inevitavelmente desactualizada, onde se poderão encontrar ainda alguns poemas do autor:
«JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e “Novas Razões” (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha.»

José Ricardo Nunes no portal da D-GLB.