As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Junho, 2009

Poesia Portuguesa (37) – Manuel Gusmão

Uma pedra na infância


Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância


Para que de vez se cale essa respiração

contida suspensa no escuro


Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre

essa infância essa fala ininterrupta essa


falagem que falha e promete e inventa

os sonhos e as promessas e o riso sem porquê


Para que de vez se interrompa a esperança esse

mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:


Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa

que é a infância, as vozes da noite no poço.


Apaga a infância isso que falta sempre à chamada

e para sempre trocou já os desejos e os medos.

GUSMÃO, Manuel, Migrações do Fogo , Editorial Caminho, Lisboa, 2004.

© Daniela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

© Daniela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

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Poesia Portuguesa (36) – Casimiro de Brito

Poema escolhido no livro Opus Affettuoso seguido de Última Núpcia, de Casimiro de Brito, autor de vasta e variada obra, na belíssima edição da Limiar (com direcção editorial de Egito Gonçalves e gráfica de Armando Alves). Poemas direitos ao amor erótico, ao canto do corpo, do outro. Do outro corpo. Poemas onde a distância se mede. E é o verdadeiro tema.

XXXVIII


A luz que me dás, esquiva e dura,

serve-me de abrigo onde desfeito

é já o meu cansaço. Halo escuro

a luz dói – perdição incerta

de um pobre e calcinado coração

que sabe de amor

o que batalhas são.

BRITO, Casimiro de, Opus Affettuoso seguido de Última Núpcia , Colecção “Os Olhos da Memória”, n.º 75, 1.ª edição, Limiar, Porto, 1997.

Casimiro de Brito

Casimiro de Brito

A Rapa das Bestas, Galiza

Em Junho, a tradição cumpre-se: os homens enxotam os cavalos selvagens das montanhas, cercam-nos na planície, dominam-nos, cortam-lhe um pouco de crina, marcam-nos com um ferro que os identifica como animais selvagens de montanha. Por um momento, homens e animais reúnem-se num encontro íntimo, violento, catártico. Pode não se achar graça nenhuma a isto, claro. Mas este ritual, tão antigo como a Galiza, já era descrito por Estrabão há cerca de 2.000 anos. Para assim se ter mantido, ao longo de milénios, alguma importância muito primordial o percorre.

 

Aqui pode ler-se mais sobre a Rapa das Bestas. Se se pesquisar (o ‘Google images’, por exemplo), compreende-se melhor a visceralidade da coisa.

 

A Rapa das Bestas em Mougas, Galiza

A Rapa das Bestas em Mougas, Galiza

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Uma questão fracturante?

Por unanimidade, o Congresso dos E.U.A. acaba de aprovar uma resolução histórica, face a uma reparação que era, no caldo cultural americano, fracturante: formalizou um pedido de desculpas pela responsabilidade histórica que permitiu a escravatura durante dois séculos e meio. Faz, contudo, questão de sublinhar que esta resolução não dará qualquer caminho legal a pedidos de indemnização e de reparação de qualquer natureza. Está certo. O Vaticano também pediu desculpa pela perseguição a Galileu 500 anos depois. E por cá? E se alguém se lembra de transformar o esclavagismo praticado pelos portugueses numa questão ingente? A mim, o assunto parece-me urgente; tão urgente como a Moção de Censura apresentada pelo CDS/PP esta semana.

"Portuguese Slave" © Smithsonian Institution

"Portuguese Slave" © Smithsonian Institution


Pérolas (23) – Teixeira dos Santos

(não seria antes um TIR prestes a atropelar uma escola inteira de criancinhas?)

BPN era «criancinha prestes a ser atropelada»

(Teixeira dos Santos in Sol Online)

'Teixeira, O BPN está em rota de colisão: boa leitura para este Verão'

O BPN era uma criancinha bem crescidita. Percebe-se a ideia de a 'atropelar'

Aniversário (com Sophia em fundo)

(À Ana Clara, minha filha. 16 anos. Os dias… tão poucos tantos)

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Clara3

O Hino da Monarquia

É irrelevante eu ser republicano, assunto que nem me preocupa por aí além. A verdade é que nunca gostei muito do hino nacional, o nosso, o da República. Nem da música, nem da letra (especialmente da letra, concordo com o António Alçada Baptista que, num 10 de Junho, propôs que a mesma fosse mudada, que se mandassem os canhões borda fora, para escândalo das alminhas). Depois de declarada esta heresia, deparei, por acaso, com o hino – monárquico e cartista – que vigorou até à implantação da República. Garanto-vos que, depois de ler a letra, que aqui deixo, o épico texto de Henrique Lopes de Mendonça me parece Shakespeare! Mesmo sem ouvir a música! Realmente…!

Hymno da Carta – Hino Monárquico (1834-1911)

1.
Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

2.
Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

3.

Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

4.
A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos Portugueses
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

hmf

Novos Poetas (45) – Luís Filipe Parrado

Com a saída do seu terceiro número, percebe-se com alguma nitidez que a revista de poesia “criatura” está num ponto em que precisa de um golpe de asa, sob pena de, em breve, ficar num limbo em que autores, linguagens e estéticas se repetem e encerram sobre si, caminho excelente se der origem a um casulo; uma pena se gerar apenas um novelo. Assinala-se a presença de dois autores espanhóis (Ben Clark e Elena Medel), convenientemente traduzidos (colocando uma questão editorial: por que razão se lhes apresenta uma pequena nota biobibliográfica, quando nenhum dos outros autores portugueses a merece? Serão assim tão conhecidos? Inversamente, serão excessivamente modestos por junto?). O conjunto de seis poemas de Luís Filipe Parrado surje, no conjunto, enxuto nos recursos, certeiro na amplitude e com uma contundência desemocionalizada. Luís Filipe Parrado é, aqui, ‘categorizado’ como novo, não pela sua idade, mas no sentido em que, por não ter atingido a sua obra um conhecimento público suficiente notório, não evitamos deixar de o ler com a atenção devida ante a ‘novidade‘.

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR


Naquele tempo o meu pai trabalhava

por turnos

como herói socialista

no sector siderúrgico

e dormia com a minhamãe.

A minha mãe esfregava

a sarja encardida:

a água ficava da cor da ferrugem.

Havia, por perto, um cão

esgalgado,

sempre a rondar.

Depois a minha irmã nasceu

e eu fui obrigado

a rever a minha mitologia privada do caos.

Entre uma coisa e outra

aprendia mentir.

E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

PARRADO, Luís Filipe, criatura n.º 3, p. 119, Abril de 2009

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

Thomas Schittek – Experimentar ser feliz

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Thomas Schittek - "Columbeira Portugal. S/T. Aguarela sobre Papel. (2008)

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A obra de Thomas Schittek, pintor alemão há muitos anos radicado em Portugal, inscreve-se numa corrente pessoal, que atravessa paralelamente a arte contemporânea, dela se distanciando pela recusa de um discurso meta-referencial, dela se aproximando pelo necessário questionamento da sua leitura. De facto, Thomas Schittek parte de uma metodologia de trabalho onde o fundamento, o desenho, é objecto de sistematização extrema, num registo quase arquivístico,  evoluindo para a tela, em diferentes técnicas que utiliza de acordo com os objectivos expressivos pretendidos – pastel, aguarela, óleo sobre tela; e o azulejo, trabalho de fogo que o pintor tão intensamente domina, não se limitando à pintura, mas operando todo o processo da sua produção artesanal.
É nesta relação com a primordialidade que se pode encontrar uma das possibilidades de leitura da obra deste artista plástico. Tendo como grelha fundadora um universo de referências clássico – os elementos naturalistas, a paisagem, a figuração, Schittek aproxima-se, lentamente (e em toda a obra do autor a lentidão tem um carácter determinante) dos elementos formais mais elementares, num processo ‘regressivo’ em que a geometrização básica, o cromatismo e a coloratura nos transportam para o domínio da fruição da infância, e convidam ao mais primitivo dos olhares: aquele que, maravilhando-se, se interroga.
Estamos claramente no território do prazer de quem cria transportado para o desafio do prazer de quem se apropria. Pintura solar, portanto, mesmo quando atravessada por períodos de tonalidades mais obscuras. Pintura (e azulejaria) de um artista que, num movimento tão característico na história da arte, descobre no Sul os fundamentos da sua obra. Não por acaso, em Schittek dominam as temáticas relacionadas com o mar, a terra, o sol, recorrentemente utilizando  o grande formato. Para uma criança também uma folha de papel é enorme. Progressivamente, o pintor tem-se aproximado de uma figuração mais definida, num percurso de uma coerência alegremente sacudida pela capacidade de reformulação e exploração constantes. De novo o pintor revela até que ponto se permite regressar a uma possível infância.

Situamo-nos, em consequência, perante uma obra marcada pela procura, não conceptualizada mas ‘encontrada’, de um tempo. O tempo de ser feliz. Movimentando-se num campo de linguagem pictórica muito mais amplo que os contemporâneos, fundado na tradição e possuindo o desejo de espanto característico dos modernos, a obra de Thomas Schittek gera espontaneamente um desejo primeiro: experimentar ser feliz.

[Um núcleo de obras de Thomas Schittek pode ser apreciado em Lisboa, numa individual de Escultura e Pintura, na Galeria do Hospital de Santa Maria – CHLN]

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela.

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela. (2004)

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Camões – o meu soneto

Da produção lírica camoniana, este soneto teve sempre um lugar próprio e destacado no meu gosto. O enjambement do segundo verso de cada estrofe obriga a uma leitura delicada, atenta ao lugar onde a pausa deve ser feita. O primeiro verso, por exemplo, deve naturalmente ser suspenso na primeira palavra do segundo, Labão. Mas requer uma suspensão subtil, que não faça perder o ritmo do verso de dez sílabas e a fluidez do poema. O tema, claro, é de uma beleza fulgurante. Hoje pode, a justo título, ser entendido como uma apologia da estupidez. Mas é ‘o meu soneto’.

[o soneto foi publicado em em 1595, quinze anos após a provável data da morte do poeta. E é um pretexto muito expressivo para assinalar o ‘dia da raça’]

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,


começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.”

'Mais sete anitos com as ovelhas, grande totó'

'Mais sete anitos com as ovelhas, grande totó' - (Bazzano, Itália © Sílvio)

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Votar…

(ao João Miguel)

Esta foi a minha primeira ‘Eleição’. Em 1975 votava-se pela primeira vez em Portugal em sufrágio democrático directo e universal, a Eleição da Assembleia Constituinte.  Exactamente um ano depois do 25 de Abril apresentavam-se ao escrutínio um PS de punho fechado, o que arrebanhou mais votos, um PCP sem medo de mostrar a foice e o martelo (e com grandes expectativas, estrondosamente defraudadas), um PPD que surpreenderia; um CDS ainda ostracizado; e o PPM, reminiscência de correntes que conseguiram sair do Estado Novo com um estatuto democrático aceitável.  Ah, e meia-dúzia de partidos à esquerda do PCP que faziam um barulho dos diabos (onde andarão, hoje, os Pupes, os Féque éme-éles?). Este foi o acto eleitoral fundador da nossa democracia representativa. A intensidade com que se viveu o dia viria a ter poucos paralelos, ou sequer aproximações, no futuro.

Tinha acabado de fazer 13 anos. Estive à frente da televisão até depois da meia-noite para saber resultados concretos (com o Joaquim Letria imperturbável, rosto perfeito de bonomia, perante tanta ansiedade.) Cheio de inveja do meu entusiasmado pai, que podia votar, acompanhei-o, esperei com ele nas filas imensas de gente que aguardava o seu momento (hoje acompanhei-o de novo, quase o empurrando, não queria, “isto desilude-me”). Hoje acompanhei o meu filho a votar pela primeira vez, com a serenidade e solenidade da sua ‘primeira vez’. E senti, (juro que consegui) um breve golpe da adrenalina. Mesmo sem multidões; mesmo sem filas; mesmo com cidadãos nas mesas de voto que são pagos para prestarem um serviço cívico; mesmo com cidadãos a votar com a expressão de quem ‘fui ali comprar pão e já volto.’

[Nota: a imagem foi retirada, sem pedido de licença e com muito agradecimento, do blogue Pré-História.]

'O mais à direita é do Centro'

'O mais à direita é do Centro'

(clique para ampliar)

Tradutores – o ‘desprezo’ com cartaz em fundo

Por estes dias a profissão de tradutor está em destaque em Espanha, com a realização (amanhã) do colóquio Con traducción no hay Pirineos na Feira do Livro de Madrid e do simpósio Traducir Europa, já na segunda-feira, no Instituto Cervantes; em Outubro estará pronto o Libro Blanco de la Traducción. Pretexto para uma entrevista com três dos mais consagrados tradutores espanhóis María Teresa Gallego Urrutia, José Luis López Muñoz e Miguel Sáenz (Larache, que pode ser lida aqui, no El País.  Com clareza, falam do principal problema da profissão: o ‘desprezo’ dos editores. Pretexto, igualmente, para deixar aqui o lindíssimo cartaz dos “Premios nacional de traducción” (sic), autoria de Agustin Sciammarella, notável ilustrador espanhol.

© Agustin Sciammarella

Isolda, de Olga Roriz – Companhia Nacional de Bailado

É já no dia 12 e, por isso, isto não é um press-release, é um alerta às hostes. Valerá muito uma ida até ao Teatro Municipal de Almada (Sala Principal), para assistir ao programa, que se prolongará ao longo do dia (pelo que convirá obter informações de horários, lugares, etc.)

“A Companhia Nacional de Bailado recupera duas peças de bailado, ISOLDA de Olga Roriz e FAUNO de Vasco Wellenkamp, criadas para o Ballet Gulbenkian. A par destas obras, a CNB inclui também neste programa uma nova criação de Rui Lopes Graça, coreógrafo residente da companhia. O espectáculo termina com o bailado STROKES TROUGH THE TAIL da coreógrafa Marguerite Donlon, que estreia pela primeira vez na CNB. Com este programa, a Companhia Nacional de Bailado propõe uma viagem pela criação contemporânea europeia.”

Sobre ‘Isolda’, afirmou a coreógrafa: “Agarrei no tema da Isolda sem tragédia, mas de uma forma dramática no sentido teatral. Afinal, é a mulher quem reina no amor. A dramaticidade de Isolda foi encontrada por uma expressividade puramente física, não emocional. O movimento tanto é lento e suspenso como veloz, térreo e brusco. Os figurinos decoram o corpo, concedendo-lhe um ar tratado e criando uma atmosfera operática. Quero mostrar o progresso do cansaço através dos fatos pesados e pedi às bailarinas para não lutarem contra esse cansaço. Pretendi que sobressaísse a energia de cada uma delas e é aí que pudera acontecer a beleza deste trabalho. (…)”.

'Isolda', de Olga Roriz

'Isolda', de Olga Roriz

Guiné-Bissau – golpe de Estado?

Lembram-se do sonho de Amilcar Cabral? Lembra-se da clivagem, quase instantânea, entre os cabo-verdianos e os guineenses após a independência? Na pobreza, Cabo-Verde foi traçando um rumo; na pobreza, a Guiné-Bissau deixou-se aprisionar pelos seus ‘demónios’: uma sociedade multiétnica, multi-cultural, com enormes diversidades religiosas, linguísticas, sociológicas. Em comum, uma cultura guerreira ancestral, que os portugueses experimentaram na carne (era declaradamente o teatro de guerra já perdido, quando se deu o 25 de Abril). Sem uma estratégia unificada, sujeita aos cabos de guerra, às alianças de ocasião com o Senegal, a Guiné-Conacry, absolutamente dependente do apoio externo, incapaz de organizar um aparelho de Estado mínimo, à Guiné-Bissau estava guardada a última das armadilhas: ser plataforma de tráfico massivo de droga (os colombianos passeiam-se em Bissau como os cowboys no antigo Oeste). Esta circunstância excitou ambições, desvendou cobiças e fez as armas sairem dos quarteis, das aldeias, das casas. Neste momento mata-se na Guiné- Bissau. Esta madrugada foram cinco, entre eles um antigo primeiro-ministro, um antigo ministro da Defesa e um candidato presidencial. Mata-se para alcançar ou manter o poder. Um poder espúrio, é certo. Mas lucrativo. Se eu fosse um guineense decente – ou corajosamente cobarde, emigrava já. Para um lugar mais civilizado. Para Nápoles, por exemplo.

© RTP [D.R.]

© RTP

Manter o inimigo à vista

“Uma das maiores subtilezas da arte militar é nunca levar o inimigo ao desespero” – Montaigne


Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Poesia Portuguesa (35) – Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira escritor e poeta ‘neo-realista’? Os rótulos, os rótulos. Também se pode afirmar que os dentes não são matéria erótica. Também é uma questão de rótulos!


Dentes

Os dentes, porque são dentes,

iniciais. Na espuma,

porque não são saliva

estas ondas

pouco mordentes; este

sal que sobe quase

doce; donde?


Numa espécie

de fogo: amor é fogo

que arde sem se ver;

porque não é

de facto fogo este frio aceso;

da saliva à lava

passa pela espuma.


Só os dentes.

Duros, ácidos, concentram-se

tacteando a pele,

tatuando signos sempre

moventes

de fúria. Mordida

a pele cintila; espelho

dos dentes, do seu esmalte voraz;

suavemente.

OLIVEIRA, Carlos de, Trabalho Poético, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2003 (Obra reunida, o poema foi publicado originalmente em Pastoral, 1977)

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online


Morreu o meu ‘grasshopper’


Master Po: [after easily defeating the boy in combat] Ha, ha, never assume because a man has no eyes he cannot see. Close your eyes. What do you hear?
Young Caine: I hear the water, I hear the birds.
Master Po: Do you hear your own heartbeat?
Young Caine: No.
Master Po: Do you hear the grasshopper that is at your feet?
Young Caine: [looking down and seeing the insect] Old man, how is it that you hear these things?
Master Po: Young man, how is it that you do not?

Morreu David Carradine (1936 – 2009) um actor que muito apreciei, estando mesmo em crer que foi bastante mal aproveitado pela indústria do cinema. Mas, seja qual for o filme em que mais gostei de o ver (e foram tantos), de quem vou ter mesmo saudades é do meu ‘grasshopper’, do meu gafanhoto, na série “Kung Fu”. É bom, muito bom, quando nos assaltam, felizes, as memórias da infância. So long, Master Caine.

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

Os trabalhos e os dias

Nos dias que aí vêm, qualquer post que surgir neste blogue será fruto de persistência ou teimosia, coisa que não abunda. Não, não estamos na alvorada dos tempos do Homem, como cantava Hesíodo. Estamos cheios de trabalho, nestes dias.

A raça de ouro

Primeiro de ouro a raça dos homens mortais

criaram os imortais, que mantêm olímpias moradas.

Eram do tempo de Cronos, quando no céu este reinava

como deuses viviam, tendo despreocupado coração,

apartados, longe de penas e misérias; nem temível

velhice lhes pesava, sempre iguais nos pés e nas mãos

alegravam-se em festins, os males todos afastados,

morriam como por sono tomados; todos os bens eram

para eles: espontânea a terra nutriz fruto

trazia abundante e generoso e eles, contentes,

tranquilos nutriam-se de seus pródigos bens.

HESÍODO, Os Trabalhos e os Dias, 109-19, tradução de Mary C.N. Lafer

'Eu cá ando cansado. É dos trabalhos destes dias'

'Eu cá ando cansado. É dos trabalhos destes dias'

Pérolas (22) – O Louçã não paga

(mas era ele quem ia pagar? Ou falava pelos portugueses todos?)

«Louçã recusa pagar dívidas de quem gastou «à tripa-forra» o dinheiro dos outros no BPN»

(in Expresso online, onde mais podia ser?)

'Não pago! Eles que comprem a roupinha na Zara, como eu!'

'Não pago! Eles que comprem a roupinha na Zara, como eu!'

Dia Mundial da Criança… pois.

'dados de 2007'

(clique para ampliar)

Acredito em poucas coisas: nos direitos humanos; na liberdade individual, política, religiosa e económica; na rule of law e na bondade intrínseca; no património ambiental que nos foi legado; na ars, gratia artis, em especial na poética que nos foi deixada pelos homens. E acredito nas crianças. Dito isto, acho obscena a existência de um “Dia Mundial da Criança”. Serve para quê? Para nos lembrar, a um de Junho, o que ignoramos o resto do ano? Assinala o quê? As causas directas (pobreza, fome, doenças) que matam 25.000 crianças por dia (oito dezenas (80!), enquanto fumo um cigarro)? A hipocrisia e inutilidade destas coisas deixa-me ligeiramente nauseado.

"Não posso comemorar. Estou a trabalhar numa mina de safiras, no Madagáscar. Gostaram do filme?" © Roberto Schmidt/AFP/Getty Images

'Não posso celebrar. Estou a trabalhar numa mina de safiras, no Madagáscar. Gostaram do filme?' © Roberto Schmidt/AFP/Getty Images

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