As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Maio, 2009

Jay Leno foi-se embora…

…e deixa saudades. Ao fim de 17 anos à frente do ‘The Tonight Show da NBC, um programa que é já uma instituição dinástica, Jay Leno foi um bom ‘monarca’. Deixa uma marca irrepetível (como também deixou Herman José, apesar de o seu declínio ter começado quando tentou implementar um modelo de talk show semelhante em Portugal e descobriu que mesmo palavrões não fazem audiências). Em 17 anos nem tudo correu bem. Óptimo, os espectadores adoravam. Mas algumas coisas correram mal. Muito mal. Just watch:



Carol Ann Duffy, ‘poet laureate’

Desde o primeiro dia de Maio, Carol Ann Duffy (1955 – ) é oficialmente a ‘poet laureate‘ do Reino Unido. Trata-se da primeira mulher a ocupar o ‘cargo’, do primeiro poeta de origem escocesa, do primeiro poeta assumidamente bissexual. Estas singularidades não deveriam merecer a relevância que os media lhes tem conferido, face à qualidade e consistência da obra da autora. Mas, ao assumir o lugar desta peculiar tradição (não exclusiva, mas eminentemente britânica), que remonta pelo menos a Ben Jonson, nomeado pelo rei Jaime I em 1617, e foi servida por nomes como John Dryden, Alfred Tennyson, Ted Hughes, Duffy torna-se agora notória para o grande público, ‘para além’ da sua obra. Na história da incumbência, uns recusaram (Philip Larkin) ou demitiram-se. Não espanta: o cargo é perpétuo, a remuneração anual ascende à astronómica soma de £5750 libras e é suposto que se escreva alguma poesia por encomenda ‘oficial’! O ‘The Guardian” tem um excelente dossiê online sobre o assunto, que inclui um poema recente (Premonitions) e uma selecção de poemas de autoras contemporâneas, feita pela própria ‘poet laureate‘.

Em ‘piloto-automático’, dirijo-me ao blogue Do Trapézio Sem Rede; um cão sabe sempre onde pode haver um osso escondido. Encontro, sem espanto, dois poemas de Carol Ann Duffy, traduzidos por L.P.. Aqui deixo um deles, pedindo muita licença e de ‘chapéu na mão’, em sinal de respeito; e perguntando aos meus botões, sem respeito nenhum, como seria a guerra de ‘capelas’, ‘capelinhas’, castelinhos’, ‘feudos’ e ‘quintais’, se tal função existisse em Portugal; e uma escolha tivesse de ser feita.

'A menestrel oficial sou eu'

'A menestrel oficial sou eu'

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio

Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.

(versão minha [N.R.: de L.P.]; o original pode ser lido aqui)


Isto é uma bomba atómica…

Gráfico do sismo provocado pelo teste nuclear na Coreia do Norte,dia 25, registado pela Agência Meteorológica do Japão.

© Photo: Yuriko Nakao, 'The First Post

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Poesia Portuguesa (34) – Natália Correia

Em 1975 Natália Correia fazia da sua arte poética arma de combate, objecto de arremesso. Nunca deixara de o ter feito; nunca deixaria de o fazer, de resto. Mas a sua inclinação para o jocoso, o paródico, fundada na tradição setecentista (que ela tanto amava) ganha, em alguma da sua poesia ‘cuspida’, um território indisputado. Como tudo parecia tão miseravelmente sério quando a Natália escrevia assim; como tudo permanece tão actual neste poema, no início de um ciclo eleitoral, mais de três décadas depois.

[Nota: o poema que aqui se publica, é antecedido por um excerto de um texto incluído no mesmo livro, que ajudará a contextualizar melhor a reflexão da autora sobre esta poesia aparentemente ‘fácil’. Haverá possivelmente uma gralha de pontuação entre as palavras ‘crocodilo’ e ‘chega’, mas transcreve-se como está impresso.]

«Se por vezes a minha poesia retrocede para cuspir algumas pérolas na face dos tiranos não é que me comovam os ademanes de chuva dos oprimidos. As minhas causas são humanas, tão humanas quanto a recordação do homem não ser uma pausa de sangue na noite escamosa de um crocodilo chega até onde a palavra liberdade o estende num tempo sem medida.»

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso

dentífrico dos candidatos

e pelas ruas nos aponta

o céu, em múltiplos retratos.


céu não póstumo ou merecido

em cruel sala de espera

mas entre parêntesis de fogo

festiva véspera de guerra


Teor de montras a vida

com democrático humor

a todos deixa viver

a sua dose de flor


Publicitária a vida faz

sua campanha eleitoral

prato de vida apetitosa

temperada com humano sal


Televisor férias de verão

tira a vida do seu discurso

e um amor provençal

que nos domestica o urso


Popular a vida é toda

pétalas de apertos de mão.

Que meus versos me vinguem

de cair nesse alçapão!

CORREIA, Natália, Poemas a Rebate – colecção poesia século XX, 1.ª edição, Edições Dom Quixote, 1975.

Artur Bual - 'Natália Correia', óleo sobre tela

Artur Bual - 'Natália Correia', óleo sobre tela

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O spot falsificado, muito melhor que o original

É javardo, eu sei; é grosseiro, pois; é estúpido, claro. Mas tem muito mais piada que o original. E deixa clarinha a clivagem de que o rapaz nunca se vai livrar: entre o ‘génio nacional’ e o ‘grande maluco’.

Energias renováveis – a insustentável leveza de as ter

Qual será o gasto em combustíveis fósseis para fabricar uma ‘elegância’ destas?
A man is dwarfed by a wind turbine blade at the Whitelee Windfarm near Eaglesham, East Renfrewshire, in Scotland. © Photo: David Moir

A man is dwarfed by a wind turbine blade at the Whitelee Windfarm near Eaglesham, East Renfrewshire, in Scotland. © Photo: David Moir, 'The First Post'

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Até já, senhor João Bénard da Costa

Agora que já toda a gente falou bem, falando bem, e justamente bem, de João Bénard da Costa, é fútil dizer seja o que for. Mas apetece-me muito citar as últimas linhas do livro onde se reúnem as suas crónicas n’ O Independente:

(…) Também, por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

BÉNARD DA COSTA, João, Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida, p. 268, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 1990.

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

Poesia Portuguesa (33) – Gil Nozes de Carvalho

Em 1985 a saudosa Na Regra do Jogo publicava, na sua colecção inverso (na qual não haveria um único título que não fosse excelente), Aboiz, de Gil Nozes de Carvalho, então no início do seu reservado trabalho poético (anteriormente havia publicado Alba (1982); Palmeiras (1983) e Basilisco (1984), este com a artista plástica Marta Wengorovius).

Um trabalho de rigor, depuração, procura aturada de uma voz que se transmitia por processos mínimos, enigmáticos, com uma individualidade que ‘isolava’ o autor e autonomizava a sua poética de outras contemporâneas. Curiosa, a nota de leitura (recensão) de Joana Varela para os serviços competentes da F.C.G.. De Aboiz se deixam aqui os dois primeiros poemas.


LUCANUS CERVUS



A tua boca

é uma curta espera do mundo,

esconde, dos fenómenos, a escada.

O teu voo

outra vez entre imagens uma certa

espera que finda

*

CERTEZAS DO TEMPO



Foi de uma colina obscena que viemos,

no dia se esconde o dedo, nascemos.

Deste caminho, só o hálito

não serve aos mortos. E a recompensa,

a tua vida, quando entra

na casa e, rápido cheiro, apodrece.

Também eu propus o estrangulamento,

que o corpo ficasse fora das muralhas,

no ar

qual bule ardido.

CARVALHO, Gil Nozes de, Aboiz – colecção inverso, 1.ª edição, Na Regra do Jogo, 1985.

[Nota: Aboiz: (boiz) (í)

s. f.
Armadilha para pássaros.
Fig. Engano, cilada.]
 Inside The Cage Inside The Cage © Tiago Marques, Olhares, Fotografia Online

Inside The Cage Inside The Cage © Tiago Marques, Olhares, Fotografia Online


Farrah Fawcett vai morrer

Lentamente chega à perturbante morte, ela que era, para nós rapazinhos, a perturbadora imagem da vida. E a morte da vida dela tem o rosto da vida da nossa morte.

Farrah Fawcett

Farrah Fawcett

(…)

2. Repare. Sobre os telhados da cidade, nas ruas esguias, onde a multidão dos homens se aglomera e dispersa, nunca se extinguem verdadeiramente o pavor e a graça. Perseguidos aqui… reaparecem além… (…)

MENDONÇA, José Tolentino, Perdoar Helena, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2005.

Novos Poetas (44) – Helena Carvalho

É uma pena que esta autora escreva tão pouco. Antes assim. Antes escrever pouco e assim.

A invenção da noite

Inventamos a noite porque não há noite bastante
que nos adormeça,
nem teia que nos enrede na absoluta lucidez
do último minuto.

Como queríamos lá estar, bem presos
nos fios de seda,
imóveis
resignados
carne-exposta,
a esperar o fim
do tiquetaquear estridente do relógio
e a culpar o sorriso diabólico da aranha.

É quando a noite se estende e nós voltamos a
inventá-la
que desafiamos o tempo.
Montamos os vários palcos do duelo
Que tal um toque vintage na decoração, madame?
arquitectamos as teias onde seremos as presas e,
pelo sim pelo não,
anestesiamo-nos ainda com um pouco mais de noite.
Por favor, mais dois dry martini, um para mim e outro para a senhora. Como é mesmo o seu nome?

Então somos só nós e ele.
A densa escuridão injecta-se nas veias como um sedativo,
e já poucos conseguem ver o movimento dos vultos.
Mais dois destes! Como que raio é que disseste
que te chamavas?
Ouve-se apenas: contidos gritos humanos,
o ranger de ponteiros
e um som agudo
de lâminas e guindastes.

Amanhecemos retalhados –
nós e o tempo –
entre o escuro das paredes nocturnas e
a claridade das janelas. Corpos mutilados e horas paradas.

Mas as horas logo voltam à vida
dos relógios que afinal nunca pararam
de contar;
só nós, consumida a noite,
ficamos desfeitos no palco
a refazer a topografia dos membros e do corpo
próprio.

Ainda hoje,
à mesma hora,
voltaremos a cortar os pulsos
porque a noite não nos adormecerá.

Boa noite… Não se quer sentar e oferecer-me uma bebida?

Helena Carvalho, in, a luz da noite, blogue da autora.

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

Os ‘meus’ Blogues – Do trapézio, sem rede

(…) uma coisa que eu acho belíssima, essa ideia de que, quando nos confrontamos com um texto, olhamos e dizemos: «tenho aqui uma guerra». Ou seja, há uma opacidade original do texto original, opacidade não quer dizer que a gente não perceba a uma primeira leitura, há uma opacidade à tradução, há uma barreira à tradução, na qual depois aplicamos tudo isto que estamos a teorizar. Mas aplicamo-la como? Quando estamos a traduzir uma frase não estamos a decompô-la, pelo menos racionalmente. Há um mecanismo quase espontâneo, digamos, intuitivo.” – António Mega Ferreira, em “tradução: a panela, o cozido e o caldo”, debate sobre a Tradução, realizado em Março de 2004, publicado em “A Phala 1″ (segunda série, 2007, Assírio & Alvim).

No silêncio discreto, no anonimato das iniciais L.P., o autor do blogue Do trapézio, sem rede tem vindo a realizar um trabalho de grande valor e, por vezes, de descobertas inesquecíveis. Esta ‘poesia passada para português’ não nos oferece apenas, com uma regularidade de metrónomo, poemas de 130 autores (and counting…) vertidos para a língua portuguesa: tem a virtude de nos dar a conhecer muitos poetas que estão fora dos círculos do reconhecimento mais imediato; e o mérito de nunca omitir a fonte, numa atitude de honestidade e seriedade que se deve assinalar. Visito muitas vezes ao Do trapézio, sem rede – nome que, reportando-se à tradução, é já uma enunciação da percepção do autor sobre o seu trabalho. Vou lá muitas vezes, repito, jamais me desiludo. Nunca encontrei cedências de gosto. Antes uma criteriosa escolha de autores; de poéticas; e traduções que admiro. Agradeço muito. Recomendo muito o Trapézio, essa caixa de rebuçados da poesia universal.

Aqui se deixa o último poema que nos é oferecido em tradução – data de dia 18 -, com a respectiva indicação da fonte, cuidado que o autor infalivelmente não descura.

Vladimír Holan

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.

(versão minha [Nota: do autor do blogue, L.P.], a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).
'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online [D.R.]

'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online

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Amazing Grace

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A silhueta do shuttle Atlantis, fotografada com o sol em fundo © NASA

A silhueta do 'shuttle' Atlantis, fotografada com o sol em fundo © NASA, no 'The First Post'

Pérolas (21) – A vitalidade do Vital

(No Expresso online de hoje)

“O PS não precisa de acasalar com outros partidos na Europa”

É este o título da notícia sobre as declarações do Professor Vital Moreira num jantar em Vila do Conde. (Em bom rigor ele afirmou: “não precisa de acasalar com outros para se reforçar no Parlamento Europeu“, mas o Expresso deu-lhe uma pitadina mais de sal.)

O estimável Professor Vital começa a ser um habitué nas ‘pérolas’ que amorosamente se juntam neste blogue. Porque só dá vontade de lhe fazer duas ou três perguntinhas:

– O PS não precisa de ‘acasalar’. Mas não quer? ‘(Acasalar’ é bom, dizem-me.)

– Em não ‘precisando’ de ‘acasalar’ na Europa, precisa de acasalar em Portugal?

– E ‘precisando’ de acasalamento em Portugal, tem em vista dar continuidade à espécie (ao poder)? É o inato impulso de espalhar a sementinha?

– O PS já discutiu, na sua Comissão Política, os prazeres do acasalamento ‘internacional’?

Questões Vitais. Questões de Vitalidade. Grande Vital, és danado pr’á brincadeira. Dentro do ‘torrão’, claro.

Palavra de honra…

(clique para ampliar)

'Vem Vital, que eu não levo a mal!'

'Vem Vital, que eu não levo a mal!'

‘O Rapto de Europa’ (1628-29), Peter Paul Rubens, Museo del Prado


Feira do Livro de 2009. A minha.

Este ano acho que vou organizar a minha ida à Feira do Livro da seguinte forma: vou buscar o escadote de madeira e começo pela parede da esquerda, primeira estante, prateleira de cima. Não paro até vasculhar os livros todos que estão em ‘segunda fila’ – atrás dos que estão à frente, se é que me entendem. Tenho a impressão que acabarei cansado. E com ‘sacos e sacos de ‘livros do dia’ para ler. Ou de ‘livros da vida’ para reler!

'eh pá, estes têm desconto!'

'eh pá, estes têm desconto!'


A marijuana está mais ‘potente’

De acordo com a CNN, a monitorização que tem sido feita, desde há décadas, às características da marijuana que circula no ‘mercado’ revela que esta está 10% mais ‘potente’, valor que ameaça continuar a subir. O assunto parece ser preocupante porque, segundo parece, maiores concentrações do princípio activo (o conhecido THC) têm um efeito contrário à boa e velha ‘erva’: tornam as pessoas, em particular os adolescentes, potencialmente disfóricos, irritáveis e paranóicos.

Um tipo lê e pasma. Só quem não tem um contacto aberto com adolescentes é que ainda não se deu conta que, hoje, as variedades, as propriedades e os efeitos dos ‘charros’ e da ‘erva’ são muito mais fortes e alteradores da consciência dos consumidores. “No outro dia houve um que deu duas passas e quis atirar-se ao mar. A sorte dele é que estávamos a mais de 30 quilómetros da praia“, contam-me. Contam-me muitas histórias destas. De como o ‘pólen’ (haxixe com efeitos muito fortes) se está a transformar na droga da moda. De como há tipos com 16 anos a ficarem agarrados às ‘ganzas’ numa semana, como antigamente se ficava com a heroína, ou a coca. 10%? Os americanos alarmam-se.

Por cá o discurso oficial é outro. Como deixaram de se ver junkies nas ruas e assaltos generalizados feitos por drogados desesperados – os heroinómanos foram, em grande parte, enquadrados em programas de substituição por metadona – a ‘Droga’, o problema que enchia as páginas dos jornais nas décadas de oitenta e noventa, “deixou de ser um problema socialmente prioritário”. Este engano vai sair caro.

Basta passar um bocado à conversa com um grupo de adolescentes. Ou uma noite numa discoteca. Ou um final de tarde nas imediações de uma escola secundária.

Quando os responsáveis  voltarem a enfrentar o problema no terreno, vão ter uma ‘bad trip’. Dá uma grande moca, a realidade.

'Por acaso a planta é linda'

'Por acaso a planta é linda'

Vergílio Ferreira – conta-corrente

Distante, longínquo, remoto – qual é mais longe?

Meulher bonita, mulher bela – qual delas é mais alta?

É um tipo infelicíssimo, é um tipo desgraçado – qual tem menos dinheiro?

É um tipo correcto, é um tipo honesto – qual deles é mais magro?

É um vigarista, é um aldrabão – qual deles veste melhor?

É um doido, é um louco – qual deles fala mais alto?

É um estúpido, é um cretino – qual deles escreve nos jornais?

(verbete em 16 de Agosto, 1992)

FERREIRA, Vergílio, Conta-Corrente – nova série IV, 1.ª edição, Bertrand Editora, 1994.

© António Matias, Olhares, Fotografia Online

© António Matias, Olhares, Fotografia Online

Pérolas (20) – O flagelado

 

(No Expresso online de hoje)

Vital Moreira: Sem maioria absoluta Sócrates já teria morrido flagelado


O senhor Professor Vital não quereria sugerir “já teria morrido por ingestão de cicuta“? Sempre se cumpria uma tradição onomástica. E evitava-se esta referência ao imaginário cristão. Não, já não é impressão minha. A martiriologia vai ser a gramática e a retórica das eleições – de todas! – para o P.S.


"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

Cuitelinho – Nara Leão

Quando ouvi esta canção pela primeira vez, fiquei em estado de graça. A voz de Nara Leão, a conjugação entre uma melodia delicadíssima e uma letra de uma enorme dureza – e tristeza – tem o cuitelinho (o colibri) como mote.  Canção com origem no folclore tradicional do sudeste brasileiro, não admira que existam diversas versões para a letra. A que foi recolhida e fixada por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó surge como a ‘definitiva’. Gravada em 1974, surpreende os espectadores que acompanharam a telenovela ‘Esperança’ da Rede Globo. Está gravada no CD ‘Música Popular do Centro-Oeste/ Sudeste’, lançado originalmente pela editora Marcus Pereira, que integrou a coleção de quatro LP’s ‘Mapa Musical do Brasil‘.

[De novo, é preferível fechar os olhos, o clip não presta para nada. Mas a canção é excepcional]

A letra. A letra é uma obra-prima da língua portuguesa.

Cuitelinho

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d’água
Que até a vista se atrapáia, ai..
.

Isto é um ‘press-release’, sim senhores, Contra a Manhã Burra

Envia-me a Helena Viera, da Mariposa Azual, a seguinte informação, que transmito com muito gosto:

Miguel-Manso escreveu e editou CONTRA A MANHÃ BURRA em 2008.
A pequena edição de 250 cópias editadas pelo autor, esgotou rápida e surpreendemente.
Manuel de Freitas e José Mário Silva deram pelo caso e informaram das muitas razões
pelas quais devíamos prestar atenção a este livro.
Nuno Moura trouxe o texto à Mariposa Azual para que a palavra continuasse a circular.
A 2ª edição está disponível 5ª feira, às 21h, na associação crew hassan, Lx,
em ambiente de Festa.
apresentação do livro –  João Pacheco
leitura de alguns poemas pelo Miguel-Manso
e alguns temas originais do estreante grupo – Babilónia Reduzida.
'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

Ruy Belo – Na Morte de Marilyn

Marilyn. Uma tema improvável na poesia de Ruy Belo? De forma alguma. O poeta pega no mito e descontrói lentamente o ícone para chegar à mais funda fragilidade tão humana desta mulher. A fragilidade. Ruy Belo conhecia-a como as borboletas conhecem as lâmpadas. Aqui, dito, tão bem dito, por Luís Miguel Cintra (aconselho a que se fechem os olhos, o clip é dispensável).