As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Setembro, 2008

A globalização e o umbigo…

Hugo Chávez e José Sócrates encontraram-se pela quarta vez este ano, ao que parece. Coincidência? Amizade desinteressada? Enlevo mútuo? Não me parece. Chávez tem de sobra matéria-prima que lhe permite falar alto. Falta-lhe contudo respeitabilidade junto do mundo civilizado, algo que ele procura, sabe-se lá porquê, de forma desesperada (em nome da Venezuela, que por osmose, confunde com a sua magna pessoa). Sócrates sempre é Primeiro-Ministro de um periférico país da UE, com uma palavrita a segredar aos ouvidos dos grandes do mundo e dos oligarcas africanos. São credenciais respeitáveis, há que reconhecê-lo. Falta-lhe porém mercados, exportação, equilíbrio no comércio externo. Ambos são pragmáticos e pensam que podem encontrar, um no outro, salvação para as suas carências. Um vende petróleo, presume-se que de forma simpática. O outro casas pré-fabricadas, ‘memorandos na área da electricidade’ (raios partam se se consegue perceber estoutra pérola de retórica!)… e ‘Magalhães’. (Não deixa de me surpreender este fabuloso equipamento. Além de computador – não abriu com destreza em língua castelhana na sua apresentação a Chávez, mas suspeito que o assunto lhe seja indiferente – tem a funcionalidade extra de ‘chave de fendas’ comercial. Chapeau!)

Uma coisa une os dois estadistas. A percepção de que o mundo, hoje, é um T0 onde todos acabam por se encontrar na cozinha. E um conceito de globalização cujo epicentro se encontra algures num raio de cinco centímetros em redor do seu umbigo.

"4-Friends"? 'Bora juntar o Zédu e o Putin...

"4-Friends"? Bora juntar o Zédu e o Putin...

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Novos Poetas (VI) José Carlos Barros

Mais matéria peneirada da Revista criatura (ainda me processam ao abrigo do Código do Direito de Autor e Direitos Conexos, haverá alguns dos 500 exemplares do número um a ser vendidos. O número dois já está à venda desde o dia 22. São 350 exemplares, correi!). Aqui deixo este poema de José Carlos Barros.

AS FRASES

Vem de muito longe o pó

na tijoleira das entradas das casas. Os mortos

saem dos retratos a sépia

pendurados nas paredes

e parecem tocar-nos

no ombro.


Uma frase desmoronava as barragens

dos desastres. Não era ainda

a noite. Ele deixava as mãos muito levemente

sobre a água

do tanque a experimentar

a imponderável ondulação dos significados.

José Carlos Barros, in revista criatura nº 1, p. 67, Núcleo Autónomo Calíope da F.D.L, Lisboa, 2008

moulin Wolfsmunster © erick boileau, Olhares, Fotografia online

moulin Wolfsmunster © erick boileau, Olhares, Fotografia online

Dia Mundial…

É já no Domingo. Informa-se que dia 28 se ‘celebra’ o “Dia Mundial do Coração”. Acho bem. Aguardo o Dia Mundial dos Rins. Espero o das Varizes. E do Cólon, tão esquecido que anda. Évora foi convidada pela Fundação Portuguesa de Cardiologia para acolher este ano as ‘comemorações’ (ah, pérola de retórica)! E vai proporcionar mais ao povo sofredor: a “Feira da Saúde e da Actividade Física” (em cada autarca há um poeta, comprova-se). Levado pela inspiração destes auspiciosos sucessos, apetece-me propor uma alternativa metafórica ao pobre e estafado coração. O ‘Dia Mundial dos Sentimentos’. Os Sentimentos têm sido muito desprezados. As pessoas brincam com eles e depois queixam-se, e depois é tarde. Um ataque de ciúmes acumula plaquetas nas artérias do sangue quente. Um acesso de paixão aumenta perigosamente o colesterol emocional. Lamber um líquido pescoço amado pode levar ao suicídio, caso o episódio passe da púrpura possibilidade à negra memória. Deveria haver um Fernando Pádua dos Sentimentos. Sugiro, neste dia que virá, muito exercício físico entre frescos lençóis (Évora pode ser muito quente em Setembro). E uma ‘Feira da Saúde Sentimental’, com carrossel e tudo, que eleve os amantes a voos inesquecíveis. Nos céus do Alentejo.

Anda mori, vamos sarar a Évora...

Anda môri, vamos sarar a Évora...

O ‘Magalhães’ e a retórica

Afiança o Jornal Digital que, em São Mamede de Infesta, Matosinhos, Portugal, José Sócrates, presidiu à entrega dos primeiros computadores Magalhães a alunos do 1º. Ciclo do Ensino Básico, na Escola Padre Manuel de Castro. No acto, Sócrates disse: «Estamos hoje a formar uma nova geração de portugueses que domina o inglês e as tecnologias de informação e comunicação. Será uma geração mais bem preparada e em melhores condições para servir o objectivo do desenvolvimento do nosso país». Eu pasmo com o desígnio. Sócrates quer (melhor, está) a formar uma nova geração. De portugueses. O homem novo lusitano, à escala de uma geração! Com o Magalhães, esse milagre de inovação que devemos à Intel, dinâmica empresa nacional que, antes mesmo de se virar para o torrão, ousou, com uma visão globalizante digna de aplauso, produzir o mesmo aparelho em 30 países. Desde 2006. Com outro nome. E é assim que, em S. Mamede Infesta nasce “uma nova geração (…) para servir o objectivo do desenvolvimento do nosso país.”

Não se caustique a bondade da politica. Ela é, de facto, do domínio da bondade. Da fé no Magalhães. A retórica, essa, é absolutamente abjecta.

“A nossa tarefa consiste em dar à juventude a possibilidade de organizar, por si mesma, a sua vida, de forma activa e dinâmica, e ajudá-la com habilidade a fazê-lo. (…) tudo isto, pois, deve servir, entre nós, a formação cultural do homem novo.”Enver Hoxha“A Luta Ideológica e a Educação do Homem Novo“. [Citação desenvergonhadamente editada, de modo a criar semelhança entre os discursos. A ideologia, os pressupostos e os tempos são completamente diferentes. Mas a retórica, senhores ouvintes, a retórica…].

"As Novas Geraçães querem Magalhães"

"As Novas Geraçães, querem Magalhães"

Novos poetas (V) Nuno Moura

(por conter incorrecções factuais, este post foi editado (rasurado é mais verdadeiro), e já se encontra rectificado no blogue.)

Pronto, estilhaçam-se definições sobre o que são os ‘novos poetas’. É Nuno Moura que me apetece convocar, mesmo com livros publicados na década de noventa, ele hoje já muito dentro dos trinta.  Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Lembro-me dos empenhos juvenis em que se meteu para publicar o seu primeiro livro – que pagou a uma fazedeira de edições, a Signo – Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (1992, 1.200 exemplares!). Lembro-me do entusiasmo com que abriu uma pequena editora, a Mariposa Azual, (agora parece que gerida por Paulo Condessa, seu companheiro de aventuras) que cometeu a proeza de publicar a Obra de Adília Lopes (15 livros reunidos) e a proeza maior de conseguir para a mesma três ilustrações de Paula Rego. Lembro-me do seu afã em sessões de leitura de poesia, onde acontecia sempre algo de inesperado e surreal (e acabava por lhe acontecer sempre algo de surrealmente inesperado). Lembro-me do excesso, do compromisso feroz entre a vida e a poesia, tão anacrónico e comovente. Lembro-me do inacreditável nome – apenas o nome, este nome, é um acto poético – do livro Nuno Moura e Mariposa Azual apresentam os livros Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu Regina Neri – o monstro do entrepernas Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más Ivo Longomel – piudefule Adraar Bous – beauty conteste talcum powder Robes Rosa – teatro para cães Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13 Alexandre Singleto – relatório & contas (Mariposa Azual, 2000). Sei que está envolvido em nova aventura, o lançamento da Revista Índice, no dia 11 de Setembro (20.000 exemplares? 60.000 de ‘audiência’? Tão excessivamente típico que pode ser mais uma pirueta do ‘Comediante’.) Deixo um excerto de Calendário das Dificuldades Diárias, coisa que não se deveria fazer, por impossível de ser retirado do seu contexto, mas… É livro para se ler do princípio ao fim, de um fôlego, até nos faltar o fôlego. Onde andas, Nuno Moura?

(…)

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu.

(…)

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, Diário, p. 31, &etc, Lisboa, 2002.

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Piotr Kowalik

Conheci o trabalho de Piotr Kowalik (n. Lublin, Polónia) na capa dupla da Periférica (nº 13, primavera de 2005), penúltima edição de uma revista de boa memória. A impressão que me causou foi tremenda, acentuada pela visita ao site do fotógrafo e por troca de imagens e impressões com amigos (actualmente os seus melhores trabalhos podem ser vistos noutros lugares). As séries The Cross We Choose to Bare (da qual faz parte esta magnífica ‘Pietà’) e Hope evocam no plano formal a pintura de Caravaggio e a sua intensa carga dramática, obtida por uma paleta cromática fulgurante, e por um jogo único entre o claro/escuro. Também no domínio da composição se entreviam pontes delicadas. Fiquei admirador. Hoje está bastante comprometido com trabalhos de ‘encomenda’. Em perda criativa. Ora uma coisa não teria de levar à outra.

The Cross We Choose to Bare - Release At Last My Love.

The Cross We Choose to Bare - Release At Last My Love.

Gordurosa criatividade…

Via Público online, informa, a Lusa que os «Restaurantes aplaudem o “menu saudável”, mas querem outra designação». Eu, no lugar da ARESP – Associação de Restauração e Similares de Portugal, também queria. Porque a entidade preconizadora do tal “menu saudável” designa-se (palavra de honra) Plataforma Contra a Obesidade (da Direcção-Geral de Saúde). Ora quem, num rasgo genial, criou o nome (sabe bem repetir, é calórico para o espírito) Plataforma Contra a Obesidade, também pode inventar alternativas para “menu saudável”, nome infeliz que coloca todas as restantes restaurativas manjas do dia na indesejável categoria de “doentias”. Alternativas e mais eficazes, digo eu. Imagina-se o cidadão a perguntar ao empregado: «Então Lopes, o que é hoje o “menu saudável”? Feitinho agora ou é d’ontem? Não passa das oitocentas caloriazitas, pois não?». Pois não. Não imagino. Prefiro dar uma contribuição à (vá lá, só mais uma vez, um dia não são dias, hoje é para a desgraça) Plataforma Contra a Obesidade:


“Menu Angelina Jolie”

“Menu Brad Pitt”


Resolve. O objectivo dos nativos e das nativas não é a saúde. É parecer airoso e airosa na praia.

Plataforma? É Continental?

Plataforma? É Continental?

Novos poetas (IV)

Manuel de Freitas


NADA DE NADA

para o José Carlos Soares

Um dia, logo de manhã, entraremos

num cemitério e perguntarás a Antonia

Pozzi se estar morto é mais ou menos

triste do que estes dias arduamente sepultados.

Receando que saibas a resposta, beberei

com Lowry a primeira ou a última tequila,

na certeza de que ambos os adjectivos estarão

certos (um pouco, talvez, demasiado certos).


Assim possa a chuva apagar todos

os versos que escrevemos

para nada, sobre nada, contra nada,

à sombra imensa dos jacarandás

que floriam – distraídos, quase por engano –

no Rossio. E inundavam de luz (nunca

vi uma luz tão escura) as portas

e os umbrais deste cemitério assim.

Manuel de Freitas, in revista Telhados de Vidro nº 7, p. 47, Averno, Lisboa, 2006

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online

a slaughter of roses © rattus, Olhares, fotografia online

Grande negócio!

Ficámos a saber pela imprensa que sete empresas foram acusadas pela AdC (Autoridade da Concorrência) de combinarem entre si os valores dos serviços de catering prestados a estabelecimentos do Estado. Falamos de refeições fornecidas a lugares nos quais o cidadão comum sempre reconheceu a  lauta excelência dos repastos:  hospitais, cadeias e escolas. Perdão: a hospitalizados, presos, crianças. A isto chamam as notícias ‘cartelização’ (e o meu vizinho, especialista em leilões de sucata , ‘cambão’). O montante da lesão financeira ascende, segundo o Público online a 172 milhões de euros. Ora, segundo se escreve no Correio da Manhã online «As empresas incorrem numa multa máxima de 38 milhões.» Se assim for, (o jornalista não escreveu «cada uma das empresas» mas «as empresas»), estamos, literalmente, perante um grande negócio. 132-38= 94 milhões de euros, na pior das hipóteses, a da ‘multa máxima’. Divaguemos… quanto representam em bifes de peru, pescada número 5, batatas, cenouras, maçãs golden, arroz carolino peganhento e frio, 94 milhões de euros? Divagando, eu diria… automóveis topo de gama, férias longínquas, segundas casas (de campo) para as famílias e terceiras (urbanas, é uma questão de urbanidade) para as amantes. Mas isto são divagações. Porque, sem divagar, surge uma perplexidade: quem comprou nunca se apercebeu de nada? Ou teremos de divagar também sobre quem adjudicou os serviços destas empresas?

Somos todos amigos... e estamos no mesmo barco, tralalá!

Somos todos amigos... e estamos no mesmo barco, tralalá!

Novos poetas (III) – criatura

Já referi que a razão desencadeadora da divulgação, aqui, da poesia ‘nova’ que se vai produzindo, teve como ponto de partida o pertinente artigo de capa da Ípsilon de 12 de Setembro (“Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?“), que credito agora, agradecido, a Luís Miguel Queirós, autor do(s) textos(s), acompanhados por ilustrações de João Fazenda. Em caixa, assinala-se o nascimento de uma nova revista de poesia: criatura, lançada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Parece que algum entusiasmo se gerou em torno da mesma, até por publicar trabalho de criadores que ainda não têm edição da sua obra em livro. Quer a matéria sobre a revista, quer o próprio artigo de fundo levantam múltiplas questões. Uma delas é a possibilidade de se ir validando a existência de uma ‘diferença’, uma ‘corrente’ emergente de poetas que, no seu conjunto, permitiriam que se falasse de uma ‘nova geração’. Lendo o primeiro número de criatura (mas também a Telhados de Vidro, a Magma), não creio que se possa ser categórico. Nem vejo, de resto, grande problema no facto. Se, numa década, aparecer um par de bons poetas, óptimo. Se aparecer apenas um que se vá afirmando pela excepcionalidade, fantástico. Pressentem-se, porém, traços identitários que são comuns à escrita de muitos dos autores publicados na revista. Uma focalização no ‘Eu’ enquanto matéria poética, a partir de uma perspectiva niilista; um regresso ao lirismo e à temática amorosa numa abordagem onde o corpo se instaura como lugar central e de angústia, de incomunicabilidade; a percepção do sem sentido do espaço social como território de redenção (é flagrante a ‘despolitização’ da generalidade do trabalho poético que vai surgindo). Talvez tudo isto se perceba melhor num belíssimo texto Beatriz Hierro Lopes (“Geração do Silêncio“) que encontramos neste primeiro número e que pode ser lido no blogue da autora (At the Still Point). Concluindo: não encontrei nenhuma pepita de ouro. Mas materiais de nobreza vária, inevitavelmente irregular. Aqui destaco um poema de David Teles Pereira.

A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.
Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,
Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-me das suas varandas,
Recolhem os filhos para dentro das saias,
Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.
Eu sempre esperei, sem ver outro dia,
Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

David Teles Pereira, in revista criatura nº 1, p. 46, Núcleo Autónomo Calíope da F.D.L, Lisboa, 2008

criatura - anúncio do lançamento.

criatura - anúncio do lançamento.

Este vai longe…

Em notícia acabada de colocar online no site da TVI, Pedro Passos Coelho afirma: «Santana Lopes pode ser um forte candidato à Câmara Municipal de Lisboa.» Isto sim, é saber arregimentar tropas. Sem pressas. Sobre o mesmo Passos Coelho escreve-se, mais à frente: “Em relação a si próprio, Passos Coelho admite estar apenas disponível para continuar a presidir à Assembleia Municipal de Vila Real.” Pois. O outro também começou na Figueira da Foz (começaram dois, aliás). Vila Nova de Gaia também é tábua de partida. Vila Real serve perfeitamente. “Apenas disponível” é uma pura figura de retórica. Anuncia outras disponibilidades, sem apenas. Este vai longe. Tem apenas um pequeno problema: o longe onde vai chegar será fatalmente muito perto.

Quanto mais emaranhado, mais longe... mais perto...

Quanto mais emaranhado, mais longe... mais perto...

Ontem, no CCB

Sala cheia para receber Maria João Pires, evidentemente o grande chamariz que levou o público ao CCB. Com ela o violoncelista Pavel Gomziakov e o tenor Rufus Müller. O programa convocava um delicado diálogo entre obras de Beethoven (duas sonatas, cinco lieder e as conhecidas 32 Variações sobre um tema original em Dó Menor, Wo0 80) e de Schubert (uma sonata e seis lieder). Nestas escolhas estava igualmente implícito um outro ‘programa’, de carácter conceptual: procurar a revelação da essência espiritual (“mística”, nas palavras de Maria João Pires) contida no balanço entre a ‘revolta’ (Beethoven) e a ‘aceitação’ (Schubert), de acordo com a percepção expressa pela pianista. Para favorecer este objectivo, algumas singularidades marcaram o espectáculo, como o pedido para que não houvesse aplausos entre cada uma das peças – mas apenas no final da primeira parte e no termo do concerto. Contudo, o que mais concorreu para o ambiente de serenidade e intensidade emocional foi a inequívoca cumplicidade entre os intérpretes, muito para além do plano do desempenho. Um clima de genuíno afecto esteve sempre presente e contribuiu, de facto, para uma audição diferente das obras destes dois grandes compositores do romantismo musical europeu. Maria João Pires não surpreendeu (que bom!). A fluidez única, um cromatismo e uma leveza que lhe são tão característicos, uma sonoridade inconfundível. A dela. É como se a estivéssemos a ouvir há vinte anos, mas ainda mais intensa e perfumada. Gomziakov pareceu bem na sonata de Schubert (Der Zwerg, op.22, nº1, D 771) mas creio que não muito feliz na primeira sonata de Beethoven (sonata para piano e violoncelo nº 1 em Fá maior, op. 5 nº1). A grande surpresa da noite (para mim, claro) foi a notável performance de Rufus Müller, um tenor de excepcional craveira, aliando uma técnica irrepreensível, um controlo sem mácula mesmo nas passagens mais exigentes a uma expressividade encantadora. É verdade que as coisas não lhe correram bem (nem a Maria João Pires) no desacerto ocorrido no lied Der Musensohn, op. 92, nº 1, D. 764.

Mas os momentos altos foram muitos, particularmente Im Frühling, D. 882 e a interpretação fascinante, de uma sustentação magistral, que fechou a noite, do lied Nacht und Träume, op. 43, n.º 2, D. 827. Müller cuja magnífica voz de tenor alto obriga a voltar à questão dos limites e definições do que é um tenor. E contudo… Estavam Müller e Pires a terminar este momento mágico e derradeiro do concerto, mesmo na última frase, quando soam, em simultâneo, dois telemóveis. E o espectáculo acaba assim, com um detalhe ínfimo a produzir perturbação, notória nos intérpretes. O silêncio que se seguiu, até se iniciarem os aplausos – entusiastas, claro – foi uma forma inteligente que o público encontrou para limpar a nódoa. Porque o pano de fundo, esse, foi uma noite excelente, num concerto com um conceito e um ambiente de serena intimidade.

Sou surdo, não tenho telemóvel!

Sou surdo, não tenho telemóvel!

Subconsciente monárquico

A situação não podia ser mais prosaica: sentado no sofá, lia o jornal enquanto ouvia as notícias, após o almoço. Ouvia, não via. E quem eu ouvia era, garanto, a voz de D. Duarte de Bragança, putativo herdeiro da coroa portuguesa (descontinuada). Contudo, atraído pelas palavras proferidas «Sabe, não me parece a ocasião oportuna para me pronunciar…» (citado de memória) levantei os olhos do jornal. Palavra de honra que era o Sr. Presidente da República que estava no ecrã. A voz, a voz de Cavaco Silva era, asseguro, de uma semelhança inquietante com a de Duarte Pio. No tom. No timbre. Na pausa. Na guturalidade. Devaneio imediato: terá a primeira figura da República um subconsciente monárquico?

onde estão os meus óculos?

onde estão os meus óculos?

Do online ao papel

Há quase dez anos, em plena época da chamada “bolha tecnológica”, no início do vertiginoso processo de criação/transposição de conteúdos para o meio online, numa conversa acesa com um colaborador de grande inteligência, juventude e ego, dizia-me este, conhecedor do meu gosto pelos livros: «Esquece, daqui a vinte anos não se fazem livros. Está tudo na web!». Recordo, com o rigor que o tempo permite, ter-lhe respondido: «Pois. Mas os melhores conteúdos que forem produzidos na web hão-de passar a livro». Não sou propriamente áugure. O tempo encarregou-se de produzir um trânsito que processa agora, em grande crescimento, nos dois sentidos. Dei hoje conta, em artigo da Folha Online (São Paulo, Brasil) que o poderoso grupo Bertelsmann vai publicar uma versão impressa (alemã) da Wikipedia, símbolo maior da produção de conteúdos online e referência incontornável na discussão das vantagens e desvantagens dos dois meios (o materializado e o desmaterializado) na produção e fixação do conhecimento. Um calhamaço com 1.000 páginas e 50.000 verbetes. E lembrei-me do que disse Eduardo Lourenço, na belíssima entrevista que concedeu a Carlos Vaz Marques no nº. 72 da LER, de Setembro de 2008*: «(…) o relacionamento com os livros  – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.» A intimidade da relação que Eduardo Lourenço estabelece entre a pessoa e o livro é mais do que uma questão filosófica ou estética. Conduz inexoravelmente a interrogações que parecem centrais e ocupam um espaço de discussão imenso: como se lê digitalmente? Como se se apropria o leitor de um texto no ecrã de um computador (ou de um i-pod)? Mais: como se escreve digitalmente? Quais as variáveis implícitas à produção escrita que se deslocam, quando se desloca o meio em que se escreve?

*A revista LER tem um blogue, excelente, por sinal, rico em conteúdos, informação, com uma capacidade manifesta em convidar quem o visita para a vertigem nos livros. Admirável jogo de espelhos…

A fragilidade pode "desfolhar-se"?

A fragilidade pode "desfolhar-se"?

Novos poetas (II)

Outra voz. Manuel de Freitas. Poema publicado sob o ante-título BOA MORTE.

PONTA DO SOL

para a Inês

Havia um arco sobre o mar
e falésias onde o vento
doía muito. Tive medo
de encenar tão concretamente
a minha morte. O próprio restaurante
(lágrimas com bife do lombo)
avançava pela rocha dentro
numa espécie de resignação feliz
a um tempo menos capaz de ser tempo.

Mas chega a parecer ridícula
esta obstinação
de quem no mundo procura apenas
o inexistente fim do mundo.
Choravas, doutra maneira,
a juventude derrotada,
desatenta ao alarme das gaivotas
e que já nem o garrote da memória salva.

Manuel de Freitas, in revista Telhados de Vidro nº 1, p. 47, Averno, Lisboa, 2003

marcas-dagua-xxxvii © Carlos Azevedo Matos, Olhares fotografia online
marcas-d’água-xxxvii © Carlos Azevedo Matos, Olhares, fotografia online

Yes, they can’t…

A falência do banco norte-americano Lehman Brothers, e o iminente colapso – muitíssimo mais preocupante – da AIG, a maior seguradora dos EUA (que necessita de reunir 80 mil milhões de dólares ainda hoje para evitar que lhe suceda o mesmo) vem clarificar muito as eleições americanas. Questões como a experiência, a capacidade de liderança (sobretudo no âmbito militar), a credibilidade, são de repente secundarizadas pela economia. Os candidatos têm cerca de 50 dias para centrarem todas as suas baterias naquilo que agora realmente importa. Já ouvimos isto: It’s the economy, stupid!. Nunca a frase fez tanto sentido, para as gerações do após-guerra. E nenhum dos runners é estúpido. Ambos se apressaram a apresentar um conjunto de medidas que prefiguram um programa. Bastante contrastantes, por sinal. Obama intervencionista, vai meter o bedelho em tudo o que o Estado puder regular (pelos padrões americanos, é certo). McCain preconiza uma linha oposta, acentuando ainda mais a liberalização da economia, reduzindo os impostos sobre o lucro das empresas, das grandes fortunas (vai ao detalhe dos impostos sucessórios). A enunciação do que cada um preconiza pode ler-se neste artigo, cuja fonte é a France Presse.

Não haverá gente mais avessa aos impostos que os americanos. Porém, possivelmente Obama vai sair a ganhar com uma situação que já ultrapassa a definição de instabilidade. Porque McCain pretende aplicar, na essência, o programa de Bush W, aggiornato e com carácter de urgência. Ora, quem mudou para o Oeste quando a vida ficou dura, atravessando um continente à procura de terras (e de ouro), pode não gostar de impostos. Mas sabe quando é preciso mudar. Nos E.U.A. o povo pode ser ‘estúpido’ (os europeus, pelo menos, têm a certeza disso). Mas tem memória, uma memória bem fresca e vincada por ideais. Ainda é poderoso o mito da América como a Terra Prometida. É muito provável que seja Barack Obama, o idealista racional, aquele que os americanos acabarão por ver como o portador de uma bandeira de esperança. Subsiste apenas um pequeno senão. A realidade já não comporta personagens salvíficas.

Eu não sei que tu não sabes que eu não sei que tu não podes...

(¨Eu não sei se tu não sabes se eu não sei se tu não podes...¨)

Novos poetas (I)

Na Ípsilon de Sexta-Feira, 12 (que emprestei, não podendo creditar agora a autoria), um artigo de fundo (e de capa) sobre os “poetas novíssimos”, numa inevitavelmente difícil definição temporal ou geracional, manejada com critérios francamente aceitáveis. O tema é abordado de forma ampla, não se limitando a um name dropping subjectivo, mas levantando igualmente questões como a existência (ou não) de novas linguagens e estilísticas que configurem tendências, os novos modos de produção e publicação – a Internet tem aqui um lugar de deslocamento da escrita e da leitura/apropriação do poema que faz sentido ser pensado – e os cada vez mais finos e dispersos canais de comunicação entre quem escreve e quem lê (resta a questão, pertinente, de saber se ainda há quem leia poesia.) Entre os nomes que se referenciam consta Renata Correia Botelho, a quem se destaca a capacidade para uma escrita formalmente apurada, sonora. Eu tinha-a lido há muito, quando saiu o número zero da Revista Magma, numa separata que a acompanhava, com o título Avulsos, por causa. Nessa altura deixara-me a impressão de uma certa incipiência – e nada mais dela li depois – mas  também uma capacidade notável para o poema breve, solar, dominado por um erotismo amarrado à trama dos sentimentos. Nada de novo como temática poética, mas, ainda assim, além do que vulgarmente se lê, quase em tonalidade diarística adolescente, nos dias que correm. Está decidido. Sempre que puder vou deixar aqui poemas com pressa de serem conhecidos, escritos por poetas a urgir. A seguir.

12


Salmo

cobriu-lhe os seios de

trevos, para dar sorte, e

pintou-lhe as

unhas de escarlate


na cama de deus

dormirá, hoje, uma mulher bonita.

Renata Correia Botelho, “Avulsos , por causa“, in Separata da revista Magma número zero, Junho de 2005.

A realidade não precisa de mim © Mariah, Olhares, fotografia online

A realidade não precisa de mim © Mariah, Olhares, fotografia online

A Braguilha de Brando

Peguei ontem (e pegar é, neste caso, um acto de força) na badalada biografia de Marlon Brando (Brando Unzipped, criativamente traduzido para a edição portuguesa como Brando mas Pouco), de Darwin Porter. As setecentas e tal páginas que constituem o calhamaço – palavra com imensas conotações metafóricas no que ao conteúdo do livro diz respeito – são de um tédio mortal. Onde se poderia esperar uma biografia centrada na obra, na genialidade do actor, Porter brinda-nos com uma sucessão imparável de todas as aventuras homo, bi, heterossexuais do senhor que transformou muitos filmes em masterpieces exclusivamente em virtude da sua presença. Excuso de dizer que não passei do terceiro capítulo. Imaginem uma crónica escrita por Carlos Castro (com o repeito devido ao plumitivo português), em registo cru e explícito, multiplicada ad nauseam et infinitum. Eu tenho consideração por Eduardo Pitta, mas o modo como nos apresenta o livro no seu excelente blogue (Da Literatura), no post Brando de Braguilha Aberta é, no mínimo, benevolente. Porque nem como retrato de época o livro se safa (Eduardo Pitta também não o sugere, de facto). Compreendo o picante da coisa. Mas não serve sequer para entender minimamente Marlon Brando enquanto artista, enquanto persona, enquanto lenda bigger then life. Como acrobata sexual, gigolo, príapo, devorador de tudo o que mexesse em seu redor, não me interessa. Muito menos saber o que fazia à roupa interior.

PS – É ridícula a bolinha vermelha, na capa do livro. E não deixa de ser irónico que o livro se tenha vendido com o Público, por cerca de 20€. O mesmo jornal que nos oferece a excelente Colecção Cahiers du Cinema – Grandes Realizadores“, com uma criteriosa selecção de filmes em DVD acompanhados por um livro, pelo preço de 9,95€. Nestas coisas há sempre que dar uma no cravo (ah, as conotações), outra na ferradura.

Vou fazer-te uma proposta que não podes recusar.

Vou fazer-te uma proposta que não podes recusar.

As Certezas Difíceis (III)

Em declarações após o jogo contra esse ‘Golias’ que é a Dinamarca (36ª posição no ranking da FIFA), e após ter levado um banho de táctica (“arte de combater ou ordenar as tropas em posições e locais favoráveis”, diz o Priberam, e ajusta-se aos últimos 10 minutos da partida) Carlos Queiroz, o homem que treina a funda deste ‘David’ que é Portugal (9ª posição no ranking referido) declarou, sem um laivo de comoção: «Quem não marca é punido injustamente». Fez mal. Deveria ter-se dado conta do carácter histórico da frase. Acompanhando o futebol com a distância interessada que convém, sempre ouvi dizer que “quem não marca acaba por perder justamente”. Isto desde o tempo dos antigos, que me ensinaram a ‘ler’ futebol. Crédulo como sou, sempre encontrei mérito no axioma. Até chegar Queiroz, o Professor, e inverter uma noção lógica, dada como adquirida pelo tempo e pela experiência. De facto, o homem está vocacionado para as certezas difíceis.

Sol negro na Dinamarca. Estorninhos. © Bjarne Winkler

Sol negro na Dinamarca. Estorninhos. © Bjarne Winkler

Renúncias

No Público de Quinta-Feira, 4 de Setembro, caderno P2, coluna “Frases de ontem”, item “Escrito na pedra”: «Uma pessoa pode abdicar de sexo, mas o sexo não abdica da pessoa» – Gabriel García Márquez. Está certo (embora tenha dúvidas que o colombiano escrevesse uma frase destas na pedra). Parafraseando-o, talvez o Público pudesse também escrever numa lápide, colocada à porta das suas instalações: «Um jornal pode abdicar do lucro, mas o lucro não abdica do jornal».

Abdico do sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal preferido!

Abdico de sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal favorito! © Roy Lichtenstein