As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2014

José Miguel Silva | FALA O DIRECTOR-GERAL

FALA O DIRECTOR-GERAL

Caros accionistas, a eleição dos nossos candidatos
veio demonstrar, uma vez mais, que a democracia
funciona e nada temos a temer. Agora é atacar
as derradeiras guarnições de mais-valia (como fundos
de pensões e monopólios naturais), que a janela
desta crise é preciosa, mas não dura, se até o CEO
tem limites e o petróleo nos começa a falhar.

A classe média continua a pernear no tapete rolante
da dívida, mas os média têm feito uma excelente
cobertura e ninguém desconfia de nada – é dar-lhe
toda a corda de esperança que reclama, para que
no momento certo o alçapão se abra sem alarde
e suavemente nos livremos desta roda de bocas
inúteis, que já só atrasa o andamento da economia.

Resta o problema dos relapsos e dos enraivecidos,
que vociferam pelas ruas “não pagamos” e motim.
Mas são, convenhamos, conduzidos por gatinhos
escaldados, sem crédito nem guizos nem projecto
coerente. Nada que seduza o coração dos isolados,
como o provam as sondagens e o misto de admiração
e inveja que continuamos a despertar nas cobaias.

Mas nem tudo são rosas, cavalheiros, pois se o clima
emocional da populaça é tele-regulável, o mesmo
não se pode dizer da frente ecológica, onde poderosas
forças de bloqueio se concentram como gases deletérios,
esgotamentos, externalidades que ameaçam gravemente
o nosso modo de vida. Em poucas palavras: não cabe
mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.

Sete mil milhões de bocas engodadas pelo isco
do consumo rivalizam por recursos limitados,
que pertencem por direito natural aos nossos netos.
Começou a grande dança de cadeiras, e nunca
como hoje a presciência valeu tanto no mercado
evolutivo. Felizmente, somos nós quem determina
quando a música termina e a corrida começa.

Temos na mão o queijo, a faca e o conto de fadas
da modernidade, temos por nós a confusão
do inimigo, o fantasma da desordem, a esperança
e o vazio dos desesperados, além da nova lei
de segurança interna. Assim, e embora seja cedo
para celebrar (pois a história, mesmo de trela
ao pescoço, não deixa de ser um animal imprevisível),

hão de concordar, cavalheiros, que as coisas estão
bem encarreiradas. Todavia, não podemos vacilar.
O capital unido jamais será vencido! Há que pôr
a compaixão na gaveta e no terreno uma vontade
de ferro, pois avizinha-se a batalha decisiva desta
guerra de classes. E, passada a turbulência, cá
estaremos, accionistas do futuro, para herdar a Terra.

José Miguel Silva, Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa, Janeiro 2014

Ilustração de André da Loba

Ilustração de André da Loba

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Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (quatro poemas e nota de leitura)

Refastelado no veludo negro
do inferno, um gato
espera por mim
*
Espera por mim, negro
e macio, confortável-
mente sentado à porta do inferno
*
Desde sempre à minha espera
aconchegado no veludo negro
do inferno
*
Resignadamente sentado
à porta do inferno
à espera de quê ou de quem
— ou de mim? — o gato

Há um longo poema contido neste livro, dividido em pequenas construções de três/quatro versos, funcionando como peças de dominó que, ligando-se entre si, se desdobram em formulações novas. O gato espera o homem que por ele se interroga sem cessar.

O gato desperta perguntas elementares, que se desenroscam em novas questões essenciais, primitivas, afastadas de razão ou metafísica (Para não pensar / excessivamente / passo a mão, devagar, / no seu dorso morno). Apenas o gozo de perguntar, que encontra resposta na temperatura, na macieza, no conforto, no desejo do gato; no que é primordial. Que as coisas do mundo ocorram e se convulsionem (sucedendo por Frielas ou por [Fernando] Pessoa) é, para o gato, para o homem, na tranquila incógnita que organiza o poema, indiferente.

Escrever simples não é fácil. Já que nos aborrecemos de vez com as tentativas sobre a forma haikai que abundam por aí, é dobrado o prazer de ler e interpretar (divagar sobre) os significados sugeridos pelo delicioso livro de Rui Caeiro.

Depois o prazer disto: os desenhos da Inês Caria (como este do extra-texto, que aqui se reproduz), os cadernos por abrir, o toque dos tipos, as gralhas rasuradas à mão pelo autor, o cólofon a informar: «Este livro é uma edição de autor, com arquitectura de Luís Gomes, foi composto em chumbo com caracteres Futura, por Eugénio Palma e impresso numa Minerva Heidelberg por António Trovão, em Lisboa no mês de Julho de 2013.»

CAEIRO, Rui, Um Gato no Inferno, Lisboa: Edição do Autor, Julho de 2013

Rui Caeiro | Um Gato no Inferno (ilustação de Inês Caria)