As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Abril, 2011

Gabriel Machado — Lamentações 3.0

Nunca se conhece tudo, pouco sabemos; nem uma parcela ínfima, sequer. O que é um bem, parece-me, descobrir chama a uma alegria. O nome de Gabriel Machado era-me desconhecido em absoluto, até encontrar um poema, este poema na Agio n.º 1. Escrito que me assombrou pela humildade, que se encerra na sua belíssima formalização, mas fundamentalmente na proposição: um regresso à aceitação da imperfeita possibilidade do real como hipótese de redenção.

Na Agio encontra-se um valente punhado de excelentes poetas e poemas, de origens e vozes diversas. Irregulares? Será sempre irregular a qualidade do que integra uma revista literária. Não entendo a relevância da polémica sobre ruptura / continuidade que se estabeleceu a propósito do surgimento desta revista. Quem nos dera termos muitas e mais. Assim, como esta, diferentes desta, muito bom seria.

LAMENTAÇÕES 3.0

a cada um a sua paixão

ou a imóvel cruz a que prega //

e embora nenhum culto

se abra já à metáfora de um tempo maduro,

há ainda que reconstituir

o traço da memória, os lugares mais remotos

da infância mítica //

para que um ídolo, jeremias,

por fim erga as suas redes e anuncie:

«seremos livres e felizes»

sem nenhum trovão a eclodir-lhe na língua.

Gabriel Machado in, Ágio, Revista de Literatura, n.º 1, Lisboa: Artefacto, Lisboa, 2011

(Nota: o editor de texto embirrou. Não parte as estrofes. Ficam estas assinaladas com o sinal gráfico // até funcionar e ser reeditado)

Rui Lage — Caça Grossa

 

 

CAÇA GROSSA


Entopem o gargalo da toca

espetando o nariz, calcando

esquivo lagarto pateando

ossinhos de rato no Éden

de outra vida

enquanto das élficas orelhas

sacodem dejectos de sol:

duas raposas recém-nascidas.


Indiferentes ao milhafre

e à doninha,

em qualquer colo felizes

de qualquer leite beberiam.


Mas na aldeia,

numa porta de estábulo

imunda e carunchosa

o sangue secou no ruivo pêlo

e na materna cabeça a pólvora

onde a bala deu entrada.


Lage, Rui, Corvo, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2008 − encontrado aqui.

 

«mummified fox», david bolwell © david bolwell, via Deviantart (D.R.)

Pedro Mexia — [Entre mergulhos]

 

 
Entre mergulhos

uma pedra rasa salta três vezes

na água.

E assim se divide

assim se parte

o rio. A infância

dum lado. Do outro

a terra firme

onde isto se passou.

 

Mexia, Pedro, Colóquio/Letras n.º140/141, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Abril de 1996.

 

«skimming stone»

José António Almeida — Artigo treze da Constituição

 

 

 

Artigo treze da Constituição

 

«Cem euros, ou levas uma facada»

— isto é Portugal em 2005

numa vila da província no sul:

o que principia na cama acaba

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

O que germina como crocitante

revoada de pássaros ao peito

do mais íntimo de corpos no coito

é relatado tintim por tintim

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Isso que mais custava dizer ontem

desde que nasceu até agora:

«sou homossexual, não me envergonho»,

proclamas com serena gravidade

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Confessar a própria sexualidade

— que ninguém a ninguém é obrigado,

os olhos fixos por vezes nas armas

da bandeira de Portugal ao fundo

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Almeida, José António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.77

[originalmente publicado em Obsessão Lisboa: & etc, 2010]

 

 

Possidónio Cachapa — 50

 

 

No meio de uma sala, uma gaiola dourada com uma mulher lá dentro. Cheira a cera e os mosaicos negros e brancos do chão brilham. Mas não reflectem o tecto. O que estará por cima.

Veste apenas lingerie, a mulher. Não se consegue ver a cor da roupa porque as janelas estão quase fechadas e há cortinados de tule, cobertos de pó, na sua frente. Sombras, no chão aos quadrados.

O cheiro de rosas sobe até à mulher que aproxima as mãos da cara e aspira.

Olha as flores fanadas sobre as costas da mão e pergunta porquê. Tem também jarros brancos, a amarelecerem nas pontas enroladas. As curvas elegantes e lascivas das suas copas a cobrirem-se de manchas amarelas e castanhas. Morrem flores nas mãos da mulher e é esse cheiro que a entristece.

“Vou pensar numa coisa boa, boa”, diz a si própria. Repete o ritual de meditação a que se forçou nos últimos anos: uma praia, as areias amarelas, o sol quente sobre a pele acabada de sair da água. Enterra os dedos e sente os grãos, a passar entre eles. Repara que tem os cabelos fora da toalha, mas não se recolhe. Um movimento agita a areia quente, agora, desagradavelmente quente, e um pequeno escaravelho preto sai do nada, caminhando na direcção do seu corpo. Faz-lhe cócegas, o insecto escuro sobre a pele, um pouco enrugada. Das suas costas vem uma voz a rir, que não consegue ver. é a de uma rapariga. Está a rir-se e provavelmente a mover os braços. A pele firme dos braços. A suavidade dos braços. A mulher não a vê, mas sabe que um homem tem as mãos sobre esta pele que apenas adivinha.

“Asso”, e levantou-se em direcção às dunas.

Quase só silêncio,  naquela sala. No chão da gaiola dourada, acumulam-se cascas de sementes. Comeu-lhes, uma a uma, o núcleo branco, doce. Quase sem dar por isso. Estão secas, as cascas, e rangem debaixo dos seus pés descalços.

Por cima da casa, passam corvos negros. Rodam, afastam-se, quase tocam as telhas rosa-velho e laranja, o musgo e o arroz-dos-telhados.

“CRRRÁÁÁÁÁÁÁ”, gritam, por cima do edifício, da gaiola e da mulher que nesse preciso instante pensa que são quase sete horas e o marido não dá sinais.

Mas engana-se. Ele acaba de entrar. Pousa a pasta.

“Hoje, uma das empregadas desatou a gritar com um utente. Não sei o que lhe disse ou fez o homem para provocar aquela reacção. Coitado, ainda tentou travá-la, evocar direitos. Mas ela parecia um bicho, por um instante. Apenas um instante. Depois, desfez-se em lágrimas, claro. Pediu-me desculpa, que não sabia o que lhe tinha dado.”

Tirou a gravata e largou os sapatos num canto. Na cozinha, bebeu água, de um copo largo, impecavelmente limpo.

“Tive pena dela, coitada. Tão nova ainda. Não percebe.”

Os seus olhos brilharam, por um instante. O cheiro das meias, estreadas nessa manhã, entrou na gaiola. A mulher conteve, já sem dar por isso, a respiração.

“Encorajei-a entender melhor as pessoas. As necessidades delas. Aquilo que às vezes nos parece um abuso e que não é mais que um gesto de alguém que precisa da nossa atenção. Coitado de quem é novo.”

Desapertou o cinto e foi mudar de roupa ao quarto.

Na sala a mulher tremeu um pouco.

“Estou numa praia, ao lado de um barco de pesca virado ao contrário. Cheira a madeira húmida e a restos de peixe seco, e é natural que assim cheire. Se levantar a cabeça consigo avistar as silhuetas dos pescadores, muito ao fundo, a fumar e a lamentar a vida. O vento sopra quente.”

A lingerie estava encharcada em suor. Junto às raízes brancas do cabelo, pequenas gotas.

“O vento sopra quente, a areia escalda”, pensou. Do quarto, a voz do marido ao telefone. A mulher toca nas frades da sua gaiola dourada, agora vermelhas, em fogo, e descobre-as frias.

Um corvo pousa sobre o algeroz e apanha o papel com o bico.

HISTÓRIA DO HOMEM-CORVO:

No meio de um terreno de cultura, semeado regularmente com trigo, existia um espantalho, feito de uma cruz de paus secos. Estava vestido com um casaco velho e um lenço que tinha pertencido à mãe do dono do terreno. Por cima, a fazer de cabeça, um nabo gigante, comido aos poucos por pássaros, insectos e até pequenos mamíferos, que subiam pelas roupas acima, e voltavam com restos do tubérculo nos dentes. O nabo estava coberto por um chapéu de palha e era dentro deste que vivia um homem-corvo. Quentinho e protegido, debaixo do chapéu dos outros.

Era boa pessoa. Isto é, não chateava. Tinha lido os clássicos, antes do tempo. Tratava por tu o Joyce, o Musil, o Borges, e mais recentemente o Raduan Nassar (de quem gostava mais do nome que da escrita).. Onde ia buscar os livros não se sabia. Apenas que os lia, em silêncio, dia após dia, ano após ano. No meio desta concentração esquecera-se até de acasalar. Acordava em algumas noites de Primavera, aflito, sem saber porquê. Mas no dia seguinte, já se tinha esquecido e mergulhava de novo na leitura, saindo apenas para comer alguma coisa que rastejasse pelo chão ou para renovar a sua biblioteca.

“Não sabem o que perdem”, dizia ele aos outros animais, que passavam perto. Tinha deixado crescer uma barbicha oitocentista e, em virtude dos olhos cansados, roubara uns óculos a um velho adormecido à espera de uma camioneta de carreira que tardava. “Sabem lá a alegria que dá ler uma frase como esta: “O poeta celta Taliesi diz que não há nenhuma forma no universo que não tenha sido a sua”?. Mas as formigas não lhe ligavam, os melros cruzavam-se no ar, apenas contentes, um pouco mais à frente, o agricultor que desconhecia a sua existência, continua a lavrar a terra. “Pobres ignorantes”, pensava.

Como, apesar de tudo, isto lhe deixava um sabor amargo no bico, decidiu um dia começar a escrever, usando tudo aquilo que tinha lido. Repetindo a ideia testada, a frase certa. E quando fez isso, alguns animais vieram ter com ele. As ovelhas abriam a boca de espanto, as vacas sustinham o ruminar por um instante, uma ave tonta pousava ao lado, piando de vez em quando, “É genial!”. O homem-corvo ficou contente. Não é preciso muito para deixar contente quem nunca tinha tido nada, e continuou na sua escrita-leitura e na sua leitura-escrita.

Os dias passaram. e as vacas que pareciam escutá-lo foram cortadas em tiras de carne escura, a pele a forrar cadeiras. Antes delas, as ovelhas tinham levado um tiro sobre o crânio e o ar que ali vivia juntara-se à estratosfera das coisas vazias. Enquanto a barbicha do homem-corvo embranquecia, as coisas que julgara  conhecer morreram todas. Sobrou o campo, o lavrador cada vez mais velho, o clima que se tornava caprichoso, as dores junto às unhas das patas finas. No seu quinquagésimo aniversário, o homem-corvo tirou a cabeça fora do chapéu onde vivia, olhou os campos que nesse ano não estavam semeados, e percebeu que não lhe restava tempo para começar a viver.

Desceu do espantalho, enterrou os pés na terra e, quando começou a chover, virou o bico aberto para cima. Só depois caiu, as asas abertas em cruz para que o vento as movesse tanto tempo quanto possível.

 

No cimo de uma casa, um corvo levanta voo. Por baixo, uma gaiola com uma mulher lá dentro. À sua volta, os mosaicos grandes, brilhantes e estéreis cheiram a cera. Está na penumbra, esta sala.

 

Cachapa, Possidónio in, «Egoísta n.º 50», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Junho 2008

 

(post reeditado)

[Nota: a reprodução integral deste texto de Possidónio Cachapa é um acto ilícito, de acordo com os termos fixados pela publicação. Ao transcrevê-lo, na íntegra, a partir da edição comemorativa do quinquagésimo número da mesma, ponderei duas ordens de razões: nos meios literários, e culturais mais elitistas no nosso burgo a «Egoísta» não “conta”; não é referida, mencionada, o seu lugar significativo, original, na divulgação das artes e das letras que se produzem em Portugal e noutros países não são (ou serão muito raramente) referenciadas, tal como as suas edições, os autores, a qualidade gráfica (creio que tal facto se deve a um preconceito absurdo quanto à origem e à natureza do negócio do publisher , o que é uma característica de saloios). Por outro lado,  não tive capacidade ou coragem para cortar um «excerto» deste fascinante texto de Possidónio Cachapa, a título de citação. Resta-me pedir toda a indulgência possível a Mário Assis Ferreira (director, que deu asas a este singularíssimo projecto), à Patrícia Reis (editora, de irrepreensível criatividade e acerto). E parabéns igualmente ao projecto gráfico (Henrique Cayatte) e ao Possidónio Cachapa, evidentemente. Para que conste, farei chegar ao conhecimento dos primeiros e ao autor do texto esta transcrição.]

 

(já depois de transcrito o texto, quero agradecer à Patrícia Reis e ao Possidónio Cachapa, editora e autor, a sua permissão e generosidade)

 

«Scarecrow» — Igor © Igor, via Deviantart (D.R.)

 

 

António Ladeira — Há anjos

 

 

«where the angels float», Nuxk © Nuxk, via Deviantart, (D.R.)

 

Há anjos

à memória de Mário Cesariny

 

Há anjos

que não compreendem o que dizemos

que não compreendem o próprio sentido

das palavras que, incessantemente, repetem

da esperança universal de que têm de nos convencer diariamente.

 

Há anjos que ressonam como foles

que andam cansados porque estão acordados há séculos

que precisam de ser transportados às costas

alimentados intravenosamente

protegidos da ferocidade do mundo.

 

Há anjos que lêem livros

anjos que escrevem poemas.

 

Há anjos que deixaram crescer a barba

que gostam de se deixar adormecer pelo comovente murmurar

das barbearias.

 

Há anjos que acabaram de nascer

que têm nomes vulgares

que viajam de avião

que até gostam de aeroportos.

 

Há anjos secretamente apaixonados por fadas,

por longos rios cheios de luzes

por súbitos glaciares.

 

Há anjos que são subcutâneos.

 

Há anjos que estão sempre com febre

que são ingénuos como enigmas.

 

Há anjos que vivem em arranha-céus,

que trabalham em andaimes

de onde às vezes se precipitam de propósito.

 

E há anjos que são funâmbulos.

 

Há anjos que talvez nos surpreendam

que às vezes nos saúdam, disfarçadamente, por entre a multidão

que abrem os olhos de noite.

 

Que, na sua voz interrompida, mutilada,

pedem calma.

 

Pedem muita calma.

 

Ladeira, António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, pp.19/20

[originalmente publicado em Relâmpago/26, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2010]

 

«yesterday», Corbin K. Zahrt © Corbin K. Zahrt, via Deviantart (D.R.)

 

Links relacionados:

Sobre António Ladeira

António Franco Alexandre — o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

 

 

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,

o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;

ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,

surpreende o vigor, a plenitude

das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,

separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,

e o circuito das chamas recomeça.

 

é um país subtil, o olho franco das mulheres,

há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,

os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,

morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,

viajar de navio de buenos aires a montevideu.

esta é a viagem que não faremos nunca, soltos

na minuciosa tarde dos lábios,

ágil pobreza.

 

permanentemente floresce o horizonte em colinas,

os animais olham por dentro, cheios de vazio,

como um ladrão de pouca perícia a luz

desfaz devagarmente os corpos.

ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,

para que seja

alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,

no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

 

Alexandre, António Franco, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001. p.1812/3

 

«Sleep Tight», Walkabout Wolf © Walkabout Wolf, via Deviantart (D.R.)

 

 

José Tolentino Mendonça — Me and my brother

 

 

«Porque a experiência do divino não se dá exclusivamente em lugares dedicados à oração e em espaços que em gratuidade facilitam o silêncio, mas em plena 2ª circular em hora de ponta, nas rotundas onde o tempo é dobrado, e nas ruas cheias de encontrões de Álvaro de Campos» — Raquel Nobre Guerra

 

 

Me and my brother

 


Percorria os lugares daquela fotografia

a muralha de silvas, a quinta reencontrada

os finais de ano

e aquilo que depois não está

onde antes existiu

 


tinha esquecido para que serve

a infância

não é uma terra protectora

ao contrário do que dizem

com os seus céus que vemos cair

os fragmentos selvagens

em que mais tarde pensamos

vezes sem conta

o pudor já então reconhecível

que nos faz trair a vida

um pouco como tudo isto


Mendonça, José Tolentino, Baldios, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

 

«twins», Kamila Czajkowska © Kamila Czajkowska, via Deviantart (D.R.)