As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Outubro, 2008

Novos poetas (XVI) – David Teles Pereira

Enquanto não trago aqui a ‘leitura’ do segundo número da criatura, deixo este recentíssimo poème à clef, estabelecendo um jogo pessoal e críptico com o título do livro novo de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Bravata geracional, sentido de desafio, de demarcação? Seja como for, nele encontramos formulações surpreendentes.

Eu oiço os anjos cantar uns para os outros,
os demónios gritar uns contra os outros.
Eu vejo a limpidez do poema ou a sua completa
aniquilação de estrela fracturada pela
metamorfose cósmica.
E tudo isso me parece tão naturalmente
aborrecido quanto ver uma criança
a ser carbonizada.
Eu sou um colóquio de assassinos e
os verdadeiros assassinos usam facas,
porque é melhor matar por partes.
O fogo não consome o meu fogo,
pelo menos enquanto ele se chamar faca.
E se a faca não corta o fogo…

chega para matar um incendiário.

David Teles Pereira, in blogue ‘O Melhor Amigo’ (http://omelhoramigo.blogspot.com/), Quinta-feira, Outubro 16, 2008


'fire' © Marco Negrinho, Olhares, Fotografia online

'fire' © Marcos Negrinho, Olhares, Fotografia online

Sócrates, o ‘Magalhães’ e o cigano.

Na cimeira Ibero-Americana, o primeiro-ministro de Portugal dedicou entre seis a dez minutos (conforme as fontes) à promoção do ‘computador português’ Magalhães. E não foi de modas, afirmando tratar-se do “primeiro grande (sic) computador ibero-americano”, acrescentando que é “uma espécie de Timtim: para ser usado dos sete aos 77 anos(sic). Não sei o que pensaram da extraordinária comparação alguns generais Tapiocas e Alcazares presentes na cumieira. Mas sei, apesar da pequenez da fotografia, que o esbugalhado ar de felicidade de Sócrates tem ao seu lado o compungido rosto de Luís Amado. No lugar dele eu também estaria. Ouvir o chefe proclamar que todos os seus assessores usam diariamente o ‘Magalhães para (sic) o seu trabalho‘ deve deixar indisposta uma alma civilizada. E sei que, de computador em riste, afirmar  que o mesmo “foi pensado para crianças e por isso é resistente ao choque. O Presidente Chávez já o atirou ao chão e não o conseguiu partir(sic, sic, sic) é conversa de vendedor de tachos e panelas.

*

Quando era miúdo, ia à terra. Uma vez por mês havia a feira do Pinhal Novo, onde um cigano, Paco de seu nome, vendia roupa interior feminina. Os argumentos eram imbatíveis. “Olha a bela cueca ‘azul ciél’, resiste uma vida, a minha filha usa, a minha mulher usa, a minha mãe usa, é a melhor cueca que podem encontrar.” Os mesmos argumentos exibia o cigano Paco que o primeiro-ministro Sócrates. Com uma não dispicienda vantagem para o Paco, no terreno da honestidade: estava a vender artigo novo no lugar próprio.

'é azul ciél'

'é azul ciél'

PS – O cigano Paco é o meu modesto contributo para a existência de um Joe the Plumber cá no torrão.

Novos poetas (XV) – Hugo Milhanas Machado

Publicado na Índice (nº zero), um poema de Hugo Milhanas Machado (1984), que ultima a edição de Mas Que Hei-de, na colecção O Rio da Escrita, na Mariposa Azual.

A caminho da cama


Hoje que se deitou cedo se chovia

que maravilha estamos afinados.

Que se dormiu pouco que tanto fazia

vem por aí gente que se conhece e

juro que alguma palavra me aborrece

assim deitada junto das outras e

perguntam se estão bem se é aqui e

se não tem no texto mais ninguém

que não querem no texto mais ninguém

e o que na boca acontece

a minha e a tua bem de ver

que parece que andamos à turra

mas estamos apenas a caminho da cama

gostamos do engano desta trama minha

e dessa trauma tua se não me engana

agora que se se deitou cedo e chovia

e combinamos jantar mais logo

telefonas tu e telefono eu.

Salamanca, 29 de Abril de 2008

Hugo Milhanas Machado, in revista Índice nº 0, p. 49, Mariposa Azual, Lisboa, 2008

2 in motion III © DDiArte, olhares, Fotografia online

2 in motion III © DDiArte, Olhares, Fotografia online

Edge – A ironia da pobreza

Edge. The Third Culture.

Em 10 de Outubro publiquei aqui o link para a segunda ‘Aula’ do Edge Master Class 2008, subordinado ao tema A Short Course in Behavioral Economics, que teve lugar entre 25 e 27 de Julho, em Sonoma, Califórnia, com um largo e importante leque de participantes, pessoas que, de uma ou outra forma, determinam em parte o pensamento e a acção na economia global. Dirigido por Richard Thaler, Sendhil Mullainathan, Daniel Kahneman, o ‘Master Class‘ teve uma 5ª. aula memorável, dedicada ao tópico The Irony of Poverty. No painel de participantes encontravam-se Daniel Kahneman, Paul Romer, Richard Thaler, Danny Hillis, Jeff Bezos, Sean Parker, Anne Treisman, France LeClerc, Salar Kamangar, George Dyson. Sendhill Mullainathan introduz o tópico de uma forma aparentemente ingénua, na tradição anglo-saxónica de convocar problemas que parecem evidências. Mas não são, como se percebe ao longo da brilhante conversação entre os interlocutores.

I want to close a loop, which I’m calling “The Irony of Poverty.” On the one hand, lack of slack tells us the poor must make higher quality decisions because they don’t have slack to help buffer them with things. But even though they have to supply higher quality decisions, they’re in a worse position to supply them because they’re depleted. That is the ultimate irony of poverty. You’re getting cut twice. You are in an environment where the decisions have to be better, but you’re in an environment that by the very nature of that makes it harder for you apply better decisions“.

Deixo aqui as ligações para esta quinta ‘aula’, bem assim como paras as anteriores. A sexta, e última, será aqui divulgada quando estiver disponível. Para se perceber muito do que se passa hoje no mundo, faz sentido ler estas conversas, notáveis pela capacidade de análise e pela liberdade de pensar.

Class 5 – The Irony of Poverty

Class 4 –Two Big Things Happening in Psychology Today

Class 3 – (Sem tópico previamente definido)

Class 2 – (Sem tópico previamente definido)

Class 1 – (Sem tópico previamente definido)

Edge é uma revista online, onde se reúne o estado da arte do pensamento contemporâneo. A própria revista se encarrega de fazer escolhas (extremamente criteriosas), reunindo aquilo que considera pertinente numa perspectiva que define da seguinte forma: The third culture consists of those scientists and other thinkers in the empirical world who, through their work and expository writing, are taking the place of the traditional intellectual in rendering visible the deeper meanings of our lives, redefining who and what we are.

Cadeia de produção, num contexto de pobreza. Norte do Gana.

Cadeia de produção, num contexto de pobreza. Norte do Gana.


Fotografia do Dia (XI) – Take a View

É conhecido o amor que os britânicos têm pelo landscape, pela paisagem entendida num sentido lato, identitário, onde se dá valor às pedras, aos muros, às colinas e à sua forma, ao cromatismo das estações, a ruínas a que chamam ‘castelos’, que estão lá porque ‘devem estar, sempre estiveram’. Bem sei da barbaridade urbana (e rural) que a Revolução Industrial introduziu na paisagem urbana – e mesmo rural – da Ilhas. Barbaridade humana, também. Com a ascensão das classes médias ao centro do tecido social, o que veio à tona foram afirmações de múltiplas formas de ser, de pensar, de se identificar. Mas, na teia complexa das sociedades ocidentais, os britânicos guardam um acrisolado afecto pela sua paisagem. É-lhes uma herança viva. No ano passado foi lançado o concurso de fotografia Take a View – Landscape Photographer of the Year, com categorias (bizarras), dirigido a fotógrafos amadores e com resultados por vezes admiráveis, que se podem ver no site do Take a View. Esta fotografia faz parte do lote das 15 melhores do concurso de 2008, que pode ser apreciado na galeria colocada online. Escolhia-a pela combinação de cor e luz, pelo equilíbrio compositivo, claro, mas sobretudo pela notável harmonia entre a velha árvore e os geradores eólicos em fundo (curioso: os geradores eólicos eram protagonistas da fotografia vencedora do ano passado). Tradição e modernidade. Mas o mais notável é a vedação. Havia vedações daquelas, em Portugal (onde, aliás, se pode fazer, e faz, excelente fotografia de paisagem, desde que se desvie a lente de sacos de plástico esvoaçantes ou de carcaças de automóveis tombadas onde calha). Havia vedações daquelas, repito. Alguma norma da UE deve ter dado cabo delas.

Morning glow, West Kilbride, Scotland © Peter Ribbeck Take a view

Morning glow, West Kilbride, Scotland © Peter Ribbeck Take a view

The Great American Songbook (XIII) – The Nearness of You

Ninguém pode negar a existência surda de um cenário transformado em private joke (mais correcto, deadly joke), que prevê o assassinato de Barack Obama antes das eleições presidenciais dos E.U.A., ou após as mesmas. O imaginário é poderoso, e Obama congrega, como talvez nenhum outro, os fantasmas de Robert Kennedy e de Martin Luther King Jr. Bem, nisto os americanos não brincam, quando se trata de coisas de estado (não leram os sinais que prenunciavam Columbine e outros acontecimentos deste calibre), mas aí o campeonato da vigilância era outro). Em qualquer dos casos, trata-se do mesmo padrão: adolescentes patologicamente investidos de ódio, organizam planos de mass murdering. Por vezes levam-nos a cabo. No caso concreto, a história reveste-se de contornos de um racismo sinistro, culminando com a morte do candidato democrata. Como sempre, lá estão os códigos dementes, os planos que obedecem a ‘sinais’ e ‘desígnios’ que só têm lugar em cabeças perturbadas. No imaginário colectivo, aposto que se formulam hipóteses de tentativas de assassinato organizadas por grupos ideológicos, poderes obscuros, poderosas forças que se sentiriam ameaçadas pelo ‘preto’. A realidade encarrega-se de desmentir estas ‘teorias da conspiração’. Importa não esquecer que não só os Kennedy e King foram mortos. Antes deles (e só invoco a memória) Lincoln, mas também, Gerald Ford (duas vezes), Ronald Reagan foram alvo de atentados. Em todos os casos estivemos perante actos isolados, perpretados por pessoas mentalmente doentes. Convém manter isto presente. Porque são os cenários mais improváveis, as pessoas mais anónimas, os mais capazes de causar estragos. Barack Obama deve ser mantido afastado das massas. O pior é que ele tem a obrigação – e neste momento da história essa obrigação é incontornável – de se manter próximo delas. Poque o povo, mais que nunca, deseja um Presidente próximo dele.

*

The Nearness of You. Outra canção imortal, da autoria de Hoagy Carmichael e Ned Washington teve um ror de intérpretes a servi-la. Aqui, a grande Sarah Vaughan, numa interpretação contida, mas cheia de sentimento, que escorre pela sua voz, pelas maravilhosas cambiantes da interpretação.

Índice – uma nova revista de livros e cultura

Chegou-me às mãos o número zero da Índice, uma “nova revista dedicada aos livros e à cultura“. Na ficha técnica: “Esta edição foi realizada sob a influência do texto de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho“. O projecto diz, com clareza, ao que vem: “Uma revista dedicada aos livros, aos autores, aos editores, aos livreiros, aos leitores de todas as espécies“. Anuncia uma periodicidade trimestral e 10.000 (!) exemplares a partir do número um.

O que nos traz a Índice? Objectivamente um conceito (palavra que uso com pudor e à falta de melhor, porque me desagrada de todo) transversal nos seus conteúdos, acolhendo novos autores e nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Nela pode encontrar-se o ensaio, a leitura crítica, breves textos em prosa, poesia, evocações, divulgações, textos sobre música, entrevistas. E uma distribuição de publicidade – uma espécie de caderno no miolo da revista – que tem a vantagem de a isolar do resto dos conteúdos, conseguindo, com isso dar-lhe acrescido destaque. Não será portanto, de admirar a ambição dos editores, que estimam ter um público-alvo de 60.000 leitores. Haja quem ouse, neste ‘portugalinho.’ Sem pretensiosismo, sem pertença a clube, tendência, ‘seita’. A liberdade sente-se à solta na Índice.

Tendo Helena Vieira como ‘dínamo’, a Índice é da responsabilidade da Mariposa Azual (a Casa), editora de que já aqui se falou. (Sai ao mesmo tempo que a ‘Mariposa‘ parte para outra aventura, uma nova colecção, O Rio da Escrita, com três títulos já na forja, de que falarei um destes dias).

O que há a reter neste número zero da Índice? A publicação de três fragmentos (belíssimos) dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“, em primeiro lugar. Mas também um texto original de José Luís Peixoto escrito especificamente para o lançamento da Índice. Maria Etelvina Santos oferece-nos Maria Gabriela Llansol. A Música da Caixa de Leitura, um texto breve e emotivo sobre o acto de ler enquanto estabelecimento de uma ordem de realidade, na senda do pensamento de Llansol, (texto que prenuncia o ensaio que publicará na referida colecção O Rio da Escrita, sob o título Maria Gabriela Llansol – Como uma pedra-pássaro-que voa; João Barrento retoma excertos de um notável texto de 1984, em Sem mim falta-me qualquer coisa… a propósito de Os Universos da Crítica, obra referencial de Eduardo Prado Coelho. de Gonçalo M. Tavares temos a reprodução da 1ª página de Jerusalém, que, aqui, recontextualizado, ganha novas matizes. E, depois, a poesia de Nuno Moura – devoção acrítica – Tiago Araújo, Hugo Milhanas Machado, Paulo Condessa, Miguel-Manso, João Saboga (neste caso com duas cenas de uma peça ainda não acabada). Todos estes autores merecem atenção, a ver se consigo dar-lha. Sinalizem-se ainda, os textos de Carla Baptista (Paisagem com mulher e mulher ao fundo, ainda com Prado Coelho como tema); de Marta Lança Abandonar os Livros, sobre a leitura enquanto ‘ritual’, de Cláudia Tomaz, Performances híbridas, elaborando sobre as artes performativas. Finalmente, ainda de Marta Lança, um excerto em tradução livre de um lindo poema, Cahier d’un Retour au Pays Natal (1939), de Aimé Césaire; e uma página de um diário de viagem (?) de Pedro Vieira de Moura, Soderno, copita de limón!. Quase saltava por cima do trabalho de Frederico Pereira, recolhendo as palavras de seis editores sobre a leitura e o seu significado numa perspectiva pessoal.

Pois. É bastante. É muito, para um número zero. O grafismo (notável capa) é talvez o plano onde a revista deva investir um pouco mais, mas pode ser apenas uma questão de gosto pessoal.

Como não é todos os dias, que nascem coisas destas, olhem, sejam valentes e descubram coisas mais raras  e valiosas que o último modelo de LCD da Samsung, está bem?

*

Sem procuração, autorização, solicitação ou qualquer outro ‘ão’ que não seja comoção, aqui se deixa um dos três fragmentos dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“. Particularmente feliz nesta revista, onde tudo se congrega para uma ideia central: o transtorno luminoso da leitura.

Ler, ou seja,

vestir o que leio, em

imagem


Não desenho, mas

capto as linhas do

desenho.

Sei qual é a

carne da cor e da

imagem_______

Maria Gabriela Llansol, Caderno nº 51, 20 de Junho de 1998

Revista Índice. Capa do número zero.

Revista Índice. Capa do número zero.

Tomates contra o cancro

Não, não é para levar para a brejeirice. E daí, quem quiser que leve. No Reino Unido foram desenvolvidos tomates ‘trangénicos’ que, asseguram os cientistas do John Innes Centre, em Norwich, previnem o cancro (é uma forma de dizer. Eles explicam a coisa de forma mais elaborada). Nada que não se ‘soubesse’ já, as virtudes da dieta alimentar Mediterrânea. Mas ‘transgénicos’? E agora? Em que ficamos? Fundamentalistas ambientais ou fundamentalistas da saúde?

Mas lá que são uns bonitos tomates, lá isso são…

'Eu cá faço bem... mas sou transgénico'

'Eu cá faço bem... mas sou transgénico' © John Innes Centre

The Great American Songbook (XII) – Someone to Watch Over Me

Quase tudo o que se diz, nesta altura, no final de campanha para as presidenciais dos E.U.A., é repetitivo, exaustivamente ‘martelado’, até produzir soundbites que se alojem no subconsciente do eleitor. Suspeito, aliás, que o ruído intenso da corrida eleitoral gerado pelas candidaturas, pelos media, seja menos importante para o americano comum que as incertezas do presente, do futuro próximo. Talvez McCain tivesse uma boa linha estratégica numa abordagem mais serena, securizante, mesmo paternalista. Infelizmente estava do lado contrário da vedação. Não podia nem pode dizer que vem tomar conta das pessoas.

*

Someone to Watch Over Me. De novo a imparável dupla Gershwin, George e Ira, que escreve, em 1926 este standard para o musical Oh, Kay!. Uma canção memorável, que teve mais intérpretes consagrados que provavelmente qualquer outra do G.A.S.. Aqui é Frank Sinatra, no filme Young at Hearth, sentado ao piano, a cantar, a fazer olhinho a Doris Day. A representar com cada músculo do rosto. Raios partam tanto talento!

Novos poetas (XIV) – José Miguel Silva

Enquanto absorvo a chegada do número zero da Índice, e o segundo número da criatura, das quais falarei em breve, retoma, ainda, a Telhados de Vidro (o seu décimo número) e o primeiro de três poemas de José Miguel Silva (1969) que nela se publicam, sob o mesmo título (Volta ao Mundo).

VOLTA AO MUNDO

1.

Voltemos a isto, ao cálculo dos danos

na máquina do mundo, à impotência do riso

contra tudo o que não sabemos mudar:

a morte, o egoísmo, o levadiço coração

humano. Porque não há mais nada (ok,

há o amor – vai-te foder) e nos negócios

da razão o pessimismo é a moeda

do momento. Regressemos ao ruído,

à sombria comissão liquidatária

desta fábrica de trapos coloridos.

Se não há melhor emprego para a culpa

e os domingos custam dias a passar.

José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 23, Averno, Lisboa, Julho de 2008

CÓDIGOS © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online

CÓDIGOS © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online

Welcome to Elsinore – cinco anos

Parabéns à Carla Carvalho, A.K.A. Carla de Elsinore, pelo quinto aniversário de um blogue que merece respeito pelo prazer que nos dá. Welcome to Elsinore. Onde o que mais admiro será a dimensão autoral. Depois a irreverência e a juvenil idade, o jogo entre o lúdico, o estético, o peso e a leveza. É há coisas tão bonitas como esta, que não resisto a ‘gamar e copiar’. Sim, vou publicar um post de outro blogue, em vez de fazer um hiperlink. É contra as regras? Estou-me nas tintas. Espero que a autora não me leve a mal. Porque é uma forma de dizer: gostei tanto que o achei como meu.

(publicado em 11 de Outubro no blogue Welcome to Elsinore)

Procrastinação

© Carla de Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

© Carla of Elsinore (Alentejo, AGO/2008)

Pela manhã sentava-me nas tábuas frias da ponte observando o espectáculo das trutas a engolirem libelinhas coloridas, duas a duas, em dia de acasalamento. De um golpe, sem compaixão. Ploc. A puta da máquina estava outra vez avariada depois de ter passado um mês de férias na Canon. Who gives a fuck? Era Outubro e haveríamos de passar o resto do dia na nossa praia, adormecendo ao sol e bebendo caipirinhas – que não é tempo de morangos – antes de anoitecer, no barzinho escondido. O mar grande era todo meu e nem a gruta parecia um lugar estranho. Tudo distante agora e, afinal, nem passaram os dias suficientes para o gajo que dizem que fez o mundo repetir a proeza.

Fica claro porque trouxe este post para as folhas ardem? Porque tinha de ser.

Fotografia do Dia (X) – A China e Hu Jia. Ainda.

Em homenagem, a Hu Jia, a metafórica imagem de como deve ser a vida, o estado de espírito, o ‘abismo’, de quem luta pelos Direitos Humanos na República Popular da China. A fotografia, repito, é uma metáfora. A realidade nem sequer convoca sinais de beleza.

(fotografia publicada no inevitável The First Post).

Shall I overcome?'

Shall I overcome?

Samat Hasan, walks a tightrope in Zhangjiajie, Hunan province, China

A Índia na Lua (2)

Ao ler fragmentos acessíveis dos livros hindus antigos, como o mais antigo deles, o Rig Veda, o ‘Livro dos Hinos’, não  é possível deixar de se sentir a vigorosa aventura humana perante o extraordinário arco civilizacional que se completa com a missão da Índia à Lua. Leia-se este ‘hino’ à criação do mundo, escrito cerca de 1200 a.C..

TAPAS, O CALOR CÓSMICO

1.    Ordem e verdade nasceram do calor quando este explodiu.

Daqui nasceu a noite; desse calor nasceu o oceano encapelado.

2.    Do oceano encapelado nasceu o ano, que ordena dias e noites, governando sobre

tudo o que pestaneja.

3. O Ordenador colocou em lugar devido o sol e a lua, o céu e a terra, a dimensão intermédia do espaço,

e por fim a luz do sol.

Tradução: Manuel João Magalhães, in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro, p.36, Assírio & Alvim, Lisboa, Agosto de 2001.

A Índia na Lua (1)

«Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta»

Isto escrevia Camões n’ Os Lusíadas. Pois cesse o incensar da viagem do Gama desbravando a rota da Índia. Posto que esta nação, este quase sub-continente, acaba de iniciar a jornada (não tripulada, é certo) do caminho celeste para a Lua (já descoberto, também é certo). A Índia, com 1.150 milhões de habitantes (arredondando, já se vê), detentora do 4º maior Produto Interno Bruto do mundo o qual, quando dividido per capita, tomba fragorosamente para 165º (num raro exemplo de equidade na distribuição da riqueza) foi, repete-se, à Lua. Talvez para deixar o Paquistão roído de inveja. Talvez para se distrair dos problemas que enfrenta no trivial mundo terreno. Onde largos milhões lutam todos os dias para desbravar o rumo impossível para alcançar a sobrevivência.

'tás com a cabeça na Lua?'

'tás com a cabeça na Lua?'

Damcherra, India: Labourers manouvre a pontoon of bamboo to market using the current of a river
Photograph: Bapi Roy Choudhury/AFP

The Great American Songbook (XI) – Blue Moon

A pedido de algumas famílias (entendidas em modalidades várias), tentarei cumprir (parcialmente, agora) a promessa de associar diariamente o decurso da campanha eleitoral para a Presidência dos E.U.A. a alguns dos temas do Great American Songbook. Creio que, a 11 dias do acto eleitoral, a diferença (que oscila entre 7 e os 11 pontos, de acordo com as sondagens mais credíveis) já não deixa dúvidas. Só uma extraordinária ocorrência poderá impedir a eleição de Barack Obama. Um acontecimento raro, algo que ocorresse numa noite de Blue Moon.

*

1934. Richard Rodgers e Lorenz Hart (já presentes nesta listagem evocativa) escrevem uma balada que se tornaria um standard do Jazz, e uma iguaria refinada por muitos intérpretes. Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Dean Martin, Django Reinhardt, Frank Sinatra. Até Amália Rodrigues a cantou, numa versão muito bonita. Porque não ouvi-la na voz (inesquecível, quando no auge, antes da fama o devorar) de Elvis Presley?

Fotografia do Dia (IX) – Oásis na China

O Oásis é, na tradição cultural e literária de várias civilizações, um sinal de esperança. Uma metáfora bíblica, corânica (demagógica, até, no caso dos governantes portugueses). No deserto dos Direitos Humanos vivido na República Popular da China – pelo menos pelos valores que, no Ocidente, consideramos válidos e universais – Hu Jia é um Oásis. Preso. No meio da inominável desolação.

(fotografia publicada no The First Post)

Oásis no deserto da Mongólia interior - China.

Oásis no deserto da Mongólia interior - China.

Oasis lake in the Badain Jaran Desert in north China’s Inner Mongolia Autonomous Region

Hu Jia, Prémio Sakharov 2008

O Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento 2008 foi atribuído ao activista político chinês Hu Jia, pelo Parlamento Europeu. Infelizmente, para todos os que rejubilam com o gesto ‘desassombrado’ do  Parlamento Europeu, órgão que, na sua própria definição «impõe-se como um co-legislador, dispõe de um poder orçamental e desempenha um papel de controlo democrático sobre todas as instâncias europeias.» (na prática, um ‘albergue espanhol’), o Prémio Sakharov atribuído ao corajoso activista dos Direitos Humanos chinês significa pouco mais que um gesto de retórica diplomática. Na prática, a China já tinha enviado a sua ‘mensagem’ ao condenar Hu Jia a três anos e meio de prisão pelo delito de “incitamento à subversão do poder do Estado”. Uma pena excepcionalmente branda para o país em causa e a natureza do ‘crime’. A mensagem era simples, para quem a quisesse entender: “Não se metam com as nossas questões internas e nós não damos um tiro na nuca ao sr. Jia”. Estávamos na véspera dos Jogos Olímpicos de Pequim e toda a gente que interessava entendeu. O Parlamento Europeu também. Com o Prémio Sakharov, a Europa está a transmitir, de igual forma, à China, o seguinte: “A União Europeia não vai tomar qualquer medida séria que prejudique as relações com a China a propósito dos Direitos Humanos. Atribuimos o Prémio Sakharov, via PE, toda a gente fica de consciência tranquila, podemos mostrar cara lavada para consumo interno – nós, os europeus, paladinos dos Direitos Humanos – e não se fala mais no assunto.” Os Chineses entenderam. Sabem quais são os objectivos em jogo. O comércio, a fluidez do crédito, o investimento externo. Gabam-se os elementos do PE de não ter cedido às pressões chinesas para que o Prémio não fosse atribuído. E a generalidade acredita. Não percebe que as ‘pressões’ fazem parte deste jogo florentino. Sem elas, a entente implícita em todo este jogo ficaria ainda mais exposta.

(P.S.) – A quem louva o Parlamento Europeu por ter tido a coragem que a Academia Nobel não teve, não concedendo o Prémio Nobel da Paz de 2008 a Hu Jia, gostaria de recordar que o corajoso chinês nunca foi responsável por nenhuma guerra nem serviu de bandeira a interesses de ocasião. Era, por isso inelegível).

Hu Jia, Prémio Sakharov 2008

Hu Jia, Prémio Sakharov 2008

Os afectos franco-alemães

'Mitterand e Kohl'

Mitterand e Kohl

Seria hilariante, se não fosse para considerar. Angela Merkel não gosta do contacto físico demasiado ‘efusivo’ com que Nicolas Sarkozy alegremente a saúda. E recorreu mesmo à via diplomática para fazer o engulho chegar ao conhecimento de ‘Sarko’. Das duas uma: ou a férrea amizade franco alemã já teve melhores dias, ou Sarkozy anda com as hormonas aos pulos. Nesta última hipótese, e considerando a sua cônjuge, é caso para dizer que os genes húngaros do atrevidote francês lhe forneceram carradas de hormonas. Com Merkel é mesmo necessário uma bela dose. Eu, que ainda me lembro de ver François Mitterand e Helmut Kohl de mãos dadas, pasmo com o argumento da ‘cultura’. E, por uma vez, tenho dó de Pedro Santana Lopes, esse outro grande afectivo. Apanhou porrada grossa por causa de um comunicado a desmentir uma sesta. Não me parece mais irrelevante que este patusco episódio.

'deslarga-me!'

'deslarga-me!'

‘criatura’ convida

Sem ainda ter o meu exemplar (mas amanhã é dia de ir ao Chiado) aqui deixo uma nota, a acrescentar a este ‘convite’, que divulgo sem procuração. A criatura já se encontra nestes locais:

Lisboa

Alexandria (Calçada do Combro); Book House (Saldanha); Bulhosa (Campo de Ourique); Bulhosa (Entrecampos) ; Ler Devagar (Bairro Alto); Ler Devagar (Fábrica Braço de Prata); Letra Livre (Calçada do Combro); Portugal (Chiado); Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar); Sá da Costa (Chiado); Trama (Rato).

Porto

Maria vai com as outras (Rua do Almada); Poetria (C. C. Galerias Lumière)

Évora

Fonte de Letras (centro histórico de Montemor-o-Novo)

criatura. lançamento do número 2

criatura. lançamento do número 2

Fotografia do Dia (VIII) – Silêncio

O que dizer perante a pluralidade de dramas inscritos nesta imagem? Uma mulher palestiniana dirige-se para a mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém, para rezar, durante o Ramadão. Anacronicamente velada. Esplendorosamente velada. Quantos conflitos interiores e exteriores estão contidos nesta fotografia? O que dizer? Nada. Guardar silêncio. Como ela.

 © Bernat Armangue / AP

© Bernat Armangue / AP