As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Setembro, 2010

Luís Felício – o som a casa

Com o som a casa, Luís Felício acaba de ganhar o concurso literário Artefacto Poesia, instituído pela Sociedade de Instrução Guilherme Cossul. Do livro, a ser publicado ainda este ano nas Edições Artefacto, se deixa aqui um poema (em pré-publicação pro bonum e agradecida), fragmento de uma obra onde os poemas se concatenam. E os parabéns ao Luís Felício, que me confiou/confidenciou para leitura o manuscrito original, (que poderá ter conhecido alterações.)

*

cravo o prego no olho

do pássaro a cal mimética

opera a dissolução dos caminhos


sei que infância alguma me trará

de volta o branco odor do pó

(o nome assim tão raso do mundo)


à/a frase que cumpre o desígnio da espada

no furor da caça na solidão dos púcaros

a frase o friso semeado a mel cingido em ancas


e só meu esse gesto inodoro que

ornamenta a face afogueada do guerreiro

cujas mãos consumam a ira

de todas as metáforas

o céu é um favo a prumo sobre os olhos

o amor uma vertigem mineral

o gesto tão infantil de cavar o céu

inteiro a prumo a golpes de cinzel e susto


é sempre através dos nomes que a infância termina

é sempre através dos nomes que na carne se consuma

a terra aberta desde a raiz dos cânticos

«under the sky», Ariana Jordan © Ariana Jordan, via Deviantart (D.R.)

Luís Miguel Nava – Retrato

RETRATO


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo-a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.

Nava, Luís Miguel, in Colóquio/Letras n.º 104/105, Julho de 1988, Fundação Calouste Gulbenkian

«Skin Moans», Ali Khatib © Ali Khatib, via Deviantart (D.R.)

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Mário Cesariny – Pastelaria

À Helena Amaral, que em 1986 me ofereceu o meu primeiro livro de poesia. Este, onde se encontra o poema transcrito.


Pastelaria


Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura


Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio


Afinal o que importa não é ser novo e galante

— ele há tanta maneira de compor uma estante


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos

frente ao precipício

e cair verticalmente no vício


Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa é não haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come


Que afinal o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita

gente:

Gerente! Este leite está azedo!


Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora — ah, lá fora! — rir

de tudo


No riso admirável de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Cesariny, Mário, burlescas, teóricas e sentimentais, Lisboa: Editorial Presença, 1972

«A Brasileira», Stuart Carvalhais, Tinta-da-china s/ papel (s.d.), espólio Museu da Cidade (D.R.)

Agustina Bessa-Luís – As Fúrias (excerto final)

(de volta)

Virtualidades das redes sociais: uma página dedicada à escritora acende como um rastilho a memória que do seus livros tenho. Procurando dar contributo para a referida página, acabo com As Fúrias na mão, e mesmo antes de o começar a reler já, deixa-se aqui o fragmento com que o romance termina. Falta um par de dias para que se cumpram 33 anos sobre a sua publicação.

«As traseiras da Rua do Almada ... e da Praça Filipa de Lencastre», Carlos Romão © Carlos Romão, via «A Cidade Deprimida», blogue

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(…) Uma das vezes em que esteve na casa paterna ouviu falar na moradia da Foz, que ia ser vendida para dar lugar decerto a novas garagens e super-mercados. Os seus habitantes tinham sido desalojados, e para evitar outros intrusos, as janelas foram estilhaçadas e parte do telhado arrancado. A escada até ao primeiro andar foi destruída. Aguardava assim o braço do ‘caterpillar’, com uma energia que a fazia parecer ainda um belo modelo de metrópole passada. Pedro Rondom não foi lá; seria demasiado romântico uma visita dessas, e sobretudo o tempo não estava distraído no sentido dessas cogitações. Mas pensou com amargura que nada restava de Virgínia, que a marca da sua mão não ficara na balaustrada da entrada onde muitas vezes a vira, o tronco inclinado para fora como o de uma estátua prestes a precipitar-se. O cabelo, delgado, escondi-lhe a face; mas ele adivinhava-lhe o movimento dos lábios, a pálida boca que resumia uma passividade da razão que ele quisera explicar. Por fim, pelo que tinha de irremediável, isso fizera com que a amasse.

Uma família de ciganos instalou-se no jardim, mas foi expulsa logo a seguir; as rãs continuaram a coaxar tranquilamente no lago cuja podridão fazia rebentar bolhas de gás à superfície. Talvez a salamandra negra existisse ainda como um pequeno monstro dos abismos que dorme e desperta sem ética possível e sem transcendência. Era eterna por isso mesmo. Pois o que toda a inteligência ilumina é mortal. Doutro modo, a vida tornava-se insuportável.

Porto, 28 de Setembro de 1977.

Luís, Agustina Bessa, «As Fúrias», Lisboa: Guimarães e C.ª, Editores, 1983