As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Maio, 2012

Luís Miguel Nava — A Fome

 

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

 

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

 

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

 

 

Luís Miguel Nava. Vulcão, Lisboa: Quetzal, 1994, p.17.

 

Francis Bacon (c.1970)

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Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Inês Lourenço — três poemas

No número 28 da Relâmpago, revista literária da «Fundação Luís Miguel Nava», dirigida por Fernando Pinto do Amaral, tendo Vitorino Nemésio como tema nuclear,  anuncia-se a atribuição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira, pelo seu livro Se as coisas não fossem o que são. Publicam-se, igualmente, um conjunto de poemas inéditos de alguns autores (Inês Lourenço – Sete poemas; Manuel Gusmão – A pintura corpo a corpo; Miguel Cardoso – de O Mundo e as suas tarefas; Sheryl St. Germain – Seis poemas). Do site online da revista recolhem-se três poemas de Inês Lourenço, que aqui se reproduzem, com expectável anuência da autora e sem possibilidade de contactar a Fundação Luís Miguel Nava. Espera-se indulgência.

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

 

CIFRÃO

Dizias: não se importe de perder
dinheiro com a sua revista de poesia. Pelo mesmo,
alguns empenharam jóias de família.

Naquele café com nome monetário
eras bem o poeta de Os Amantes Sem Dinheiro
mas sem anjo de pedra por irmão. Só
nas mesas vizinhas, grupos
buliçosos de estudantes de Belas-Artes, desconheciam ainda
a arte de caçar patrocínios.

Depois mudaste para o Duque, que
copiou o brasão à tua rua, para mais tarde passares
ao mar do Passeio Alegre e às palmeiras da Foz
que chegaram tarde à tua vida.
Mas acabaste por voltar às cercanias das Belas-Artes,
para descansar num Prado, pouco distante
do jardim de São Lázaro, onde segundo outro poeta,
costumavas medir o tesão das flores.

 

CAFÉ ESTRELA D’OURO

Na Rua da Fábrica, perto
de livrarias e simpáticos alfarrabistas,
redigíamos panfes pela libertação
da mulher, devidamente pastoreadas
por um pequeno partido de esquerda, onde
só nos podíamos libertar
ao lado dos homens.

Inês Lourenço. in Relâmpago, n.º 28, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2012.

“Jardim de São Lázaro – vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo.” Crédito Fotográfico: JotaCartas, via Wikimedia Commons (D.R.)

 

 

Página da Fundação Luís Miguel Nava (Relâmpago)

Logros Consentidos, blogue de Inês Lourenço

Página na Wikipedia, com a bibliografia mais actualizada da autora

Ruy Belo — Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu

 

(em modo de paixão por um livro)

 

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

 

Que o medo não te tolha a tua mão

Nenhuma ocasião vale o temor

Ergue a cabeça dignamente irmão

falo-te em nome seja de quem for

 

No princípio de tudo o coração

como o fogo alastrava em redor

Uma nuvem qualquer toldou então

céus de canção promessa e amor

 

Mas tudo é apenas o que é

levanta-te do chão põe-te de pé

lembro-te apenas o que te esqueceu

 

Não temas porque tudo recomeça

Nada se perde por mais que aconteça

uma vez que já tudo se perdeu

 

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164

 

«lost», Kristyan @ Kristyan, via Deviantart, (D.R.)

 

 

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões

Rui Pires Cabral — A Vida Paralela

 

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.

Rui Pires Cabral. Ladrador, Lisboa: Averno, 2012.

 

«Train Ride», Alex © Alex, via Deviantart (D.R.)

Carlos Queiroz — Libera Me

 

Livrai-me, Senhor,

De tudo o que for

Vazio de amor.

 

Que nunca me espere

Quem bem me não quer

(Homem ou mulher).

 

Livrai-me também

De quem me detém

E graça não tem,

 

E mais de quem não

Possui nem um grão

De imaginação.

 

 

Carlos Queiroz. Poesia de Carlos Queirós, Lisboa: Editorial Presença, 1966.

 

desenho de Almada Negreiros

 

Nota biográfica e dois poemas de Carlos Queiroz no Projecto Vercial.

Rui Lage — Birds, Beasts, and Flowers

 

This is the iron age
but let us take heart
seeing iron brake and bud
seeing rusty iron puff with clouds of blossom
D. H. Lawrence

 

 

 

O aguaceiro manso das jovens

passeia na sala tardia

(o pêssego de Lawrence amadurece

algures nas tuas mãos).

 

Ao longe nuvens de flores aparecem

raiando a costa do ferro e do gelo,

a ilha de Miranda sabe o caminho

para a casa da luz,

escrito no sangue do tigre

que nos livros

acende a temível simetria da noite:

sangue sujo de amor

na inocência

e na experiência.

 

Na sala tardia,

a polpa ferida de literatura inglesa,

o caroço preso à floração

do vestido de Ofélia,

que ouviu adagas

e medrou lilases da terra sem vida.

 

Espera a romã, os figos,

a nêspera: não esperes o enfarte,

acento agudo

na sílaba final do mais longo dos versos.

Rui Lage. Berçário, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2004.

 

Capa sobre sobre fotografia de Carlos Pinto Coelho.

A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

Duarte Belo — Castro do Pópulo. Pópulo. Alijó. Vila Real. CMP 103 (série M 888) fi480912 04-07-2003

 

1

Mas, se nestas seis décadas e meia

eu fui capaz de algum voo

 

— concedo: semelhante ao das galinhas,

isto é, rudimentar, desgracioso,

com muitíssimo dispêndio de energia

para pouca ascensão, breve e apenas

em desespero de causa;

em todo o caso uma forma de voo

pelo qual me sustentei no ar

em horas de menos peso —

 

devo agora, fechado o ciclo do voo,

como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja

que muda de ramo

ou que em fins de Dezembro

fecha para balanço.

Nem como executar

um mandato de detença.

Nem expiar a desordem

de, sendo pedestre, ter voado.

Nem um remate compulsivo

à sedição.

 

Pousar, é tudo. Regressar

ao afago das coisas da terra.

A terra cobrar por fim o que lhe devo

e eu cobrar dela o que me move

desde a primeira hora.

 

Voei, está voado.

Nada de nostalgias.

 

2

Escolho o galho

mais ajeitado à minha condição

e, como a ave a quem o voo se esgota

temporariamente, apeio-me do voo.

E também como a ave que, acabada

de pousar, bate ainda as asas

por duas ou três vezes,

assim as bato eu.

Mas enquanto a ave as bate

como para sacudir delas

os resíduos do voo,

eu faço-o por exigência de equilíbrio:

o ramo verga, já não tenho

a agilidade doutros tempos,

cairia se não batesse as asas.

Isto é: bato-as da mesma forma que

o funâmbulo tenteia a vara

e o cego a bangala.

Para me acomodar mais facilmente

no exterior do voo.

3

Nem o meu pouso é passageiro

como o da ave. Daqui em diante

assistirei ao decurso dos dias

pousado definitivamente.

Eis-me pois pousado, procurando

ajeitar o corpo à nova condição.

Os olhos erguidos para o espaço

donde me escorracei

para saber se porventura risquei

o cristal do ar com o meu voo.

Um arranhão que fosse, que depois dele

o cristal já não fosse cristal.

Não risquei.

Louvado seja Deus.

Depois de tanto voo desastrado

deixo o ar nítido inteiro

como o encontrei.

(Não admira. Sempre tive o cuidado

de sacudir os pés à entrada do voo.)

4

Não. Não é por nostalgia,

que nesta hora extrema de pousar

me lembram as hábeis imprudências do voo,

as suas impudências, a tomada da luz.

Parece-me isto antes gratidão.

Voar foi sempre o mais útil

dos meus gestos inúteis.

A haste de feno ao canto da boca.

Um donativo à carne.

O orifício por onde

se escoavam as enxurradas.

Intensamente pousado,

é isto que me lembra.

A. M. Pires Cabral, Telhados de Vidro n.º 6. Lisboa, Averno, 2006, p. 11 – 15.

Duarte Belo — Santuário de Panóias. Vale de Nogueiras. Vila Real. Vila Real. CMP 115 (série M 888) nb2054-26 13-05-1996

Créditos fotográficos: Duarte Belo.

Blogue da Averno, editora da Revista Telhados de Vidro (o número 16 acaba de ser publicado)

A. M. Pires Cabral no portal da D-GLB.

 

(no segundo poema, antepenúltimo verso, surge impresso «e o cego a bangala». Optou-se por manter tal como está publicado.)

Ângelo de Lima — EDD’ORA ADDIO… MIA SOAVE!…

fac-símile digitalizado do poema impresso (Biblioteca Nacional Digital)

 

Aos meus Amigos d’Orpheu

 

— Mia Soave… — Ave?!… — Alméa?!…

— Mariposa Azual… — Transe!…

Que d’Alado Lidar, Canse…

— Dorta em Paz… — Trespasse Idéa!…

 

— Do Occaso pela Epopéa…

Dorto… Stringe… o Corpo Enlace…

Vae A’Campa… — Ave!… — Alméa!…

 

— Não doi Por Ti Meu Peito…

— Não Choro no Orar Cicio…

— Em Profano… — Edd’Ora… Eleito!…

 

— Balsame — a Campa — o Rocio

Que Cahe sobre o Ultimo Leito!…

— Mi’Soave!… Edd’ora Addio!…

 

Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 (adoptou-se, no post, a transcrição ortográfica original do poema).


capa do livro «Ângelo de Lima, Poemas in Orpheu 2 e outros escritos»

(clique para ampliar)

Ângelo de Lima no portal da D-GLB

link para o sítio da Biblioteca Nacional Digital, que permite a descarga da «Orpheu» digitalizada

Golgona Anghel — Podia fazer um bocadinho mais de esforço

 

Podia fazer um bocadinho mais de esforço,

sei lá: deixar de ser essa clepsidra cheia de neve.

Gosto da sua pose clássica,

de peitos nus debruçados sobre um futuro académico,

livros raros e bibliotecas nacionais;

mas fazia bem em tirar de vez em quando

a gravata e o chapéu,

subscrevo e recomendo, eu.

 

Você sabe, gosto de coisas triviais, sou o seu cão banal,

colecciono cabelos

nas folhas de um herbário sentimental,

sou vítima do seu produto interno bruto, objecto

em série da maneira como segura no volante,

eu imundo e encharcado,

eu a sustentabilidade da segurança social,

analfabeto, pedreiro da Lena Construções. Lda.

 

Eu fácil eu farto eu fome

com a vida marcada na pele,

 

olha-me de frente

quando gritas e esticas a pernoca.

Quem manda aqui sou eu.

Agora abre a boca.

 

Golgona Anghel, Vim porque me pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2012.

 

 

«Svefn g englar II», Katarzyna Kędroń, via Deviantart (D.R.)

 

 

Golgona Anghel no site da editora Mariposa Azual

Luiza Neto Jorge — Venho de dentro, abriu-se a porta…

 

Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

 

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

 

Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989

 

«time», Magda Kołakowska, © Magda Kołakowska, via Deviantart (D.R.)

Luiza Neto Jorge no portal da D-GLB

Luiza Neto Jorge na página da revista Relâmpago

 

Lígia Reyes — Real Love

 

Meu amor madre‐pérola, 

Olha‐nos, a desfazermos 

Em ponto caramelo o corpo 

Em nostalgia e folhas de Outono ‐ 

Rash‐Rash ‐ Como queimávamos os pés 

Nesses passeios ínfimos 

Pelas avenidas de uma cidade  

Que chora um Rio: Descosíamos 

Os botões, alinhavados às palavras 

Da poesia e construíamos pontes. 

Vamos remar a favor do mármore, 

Não tenhas medo: Mil suicídios 

Aconteceram quando eu parti, 

E agora sobram cartas para lermos 

Até ao fim da vida. Juntos 

Venceremos o flogisto, acolheremos 

Patriamente a vitória da cinzas, 

Manjaremos tenras asas de fénix 

Até nos esgotarmos num jardim belo 

E uma chávena de chá ao fim da tarde.

 

Lígia Reyes. in, a sul de nenhum norte n.º 6.

 

 

«i once loved you by the sea», IgnotoDeo © IgnotoDeo, via Deviantart, (D.R.)

João Miguel Fernandes Jorge — Este é o Papel Singular da Alegria

(para o meu amigo Rui Almeida)

 

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de água
estações de novembro
pequena razão dos ventos da manhã.

Não trafiquei não porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de água
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudarão. O rigor
da luz torna invulnerável o desejo de perder
esta pressa de verão.

Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa não o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

João Miguel Fernandes Jorge, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

«spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantart (D.R.)

Fernando Assis Pacheco — Um Campo Batido pela Brisa

A tua nudez inquieta-me.

 

Há dias em que a tua nudez

 

é como um barco subitamente entrado pela barra.

Como um temporal. Ou como

certas palavras ainda não inventadas,

certas posições na guitarra

que o tocador não conhecia.

 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo

para um lado misterioso e frágil.

Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe

contorno, peso. Destrói o meu corpo.

A tua nudez é uma violência

suave, um campo batido pela brisa

no mês de Janeiro quando sobem as flores

pelo ventre da terra fecundada.

 

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas

com o vocabulário da tua nudez.

Tenho «um pensamento despido»;

maturação; altas combustões.

De mão dada contigo entro por mim dentro

como em outros tempos na piscina

os leprosos cheios de esperança.

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete

que lanço com mão tremente desastrada

para rebentar e encher a minha carne

de transparência.

 

Sete dias ao longo da semana,

trinta dias enquanto dura um mês

eu ando corajoso e sem disfarce,

iluminado, certo, harmonioso.

E outras vezes sucede que estou: inquieto.

Frágil.

Violentado.

 

Para que eu me construa de novo

a tua nudez bascula-me os alicerces.

 

 

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

 

 

«Corporality», Michal Huštaty © Corporality, via Deviantart (D.R.)

 

 

Fernando Assis Pacheco no portal da D-GLB

Mário de Sá-Carneiro — Além-Tédio (na celebração do dia de nascimento)

Na celebração do 122º aniversário do nascimento de Mário de Sá-Carneiro

 

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive –
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…

 

Paris 1913 — 15.

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão, (2ª ed.), Coimbra: Edições Presença, 7 de Outubro de 1939

 

Capa do livro, com ilustração de Júlio*

 

Mário de Sá-Carneiro no portal da D-GLB

 

* Nota biográfica do artista plástico Júlio

António Gregório — A traição do Celso

Aqui há dois anos, num daqueles postos de venda rodeados de plástico que se encontram hoje nas estações de metro, comprei o único livro que conheço de António Gregório (Uma história de desamor treze vezes), por um euro e cinquenta cêntimos; livro de contos que ficou logo pago, por não ter usado bilhete de metro entre o Cais do Sodré e a Almirante Reis, entretido que vinha a lê-lo. Digamos que António Gregório me ficou de borla, com a vantagem do gozo de ter lido, pelo caminho, grande parte de um livro publicado aos 24 anos de vida do autor, na Âmbar: uma festa de ironia, de  formalização por vezes estonteante, mas de um domínio exemplar da escrita, em função da intencionalidade narrativa. Recordo-me particularmente das variações que o autor era capaz a propósito de um simples incidente, ou acidente, normalmente doméstico. O absurdo e a relatividade, um quase paródico olhar sobre os acontecimentos mais triviais, que eram desmontadas em doses torrenciais, onde cabia o auto-sarcasmo. Não conheço, de António Gregório, mais obra publicada, mesmo tendo procurado um bocadinho. Eis que no Resumo, a poesia em 2011 me deparo com um poema previamente publicado na Criatura nº 6 (única que ainda não possuo). Ao ler este poema, delicioso, lembrei-me imediatamente, pela temática, do grande texto/poema de Ruy Belo As Grandes Insubmissões, publicado no livro Homem de Palavra(s), na edição de 1969, da Dom Quixote.

Dito isto, a publicação deste poema é absolutamente deliberada e mesmo medida para que se ajuste sequencialmente no tempo: com a final da Taça de Portugal, da Taça de Inglaterra e a aproximação do Campeonato do Mundo de Futebol, as contiguidades nunca são inocentes.

A traição do Celso

Jogava comigo na defesa reduto

dos inábeis dos impopulares (abaixo

de nós só o guarda-redes); o Celso e eu

vendo a glória avançada e esperando os embates

entre o medo de sempre e o desejo da acção

heróica redentora. Mas como no amor

cabia-nos menos defender antes de ser

repositório de culpas pelos falhanços

colectivos e como um amante traiu-me

 

quando atrás de não sei que instinto (parecia

doido) subiu à baliza dos outros e

marcou o melhor golo da terceira classe.

 

António Gregório, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Play Time, simplyspoken © simplyspoken, via Deviantart (D.R.)

[Nota: já depois de editado o post, sou informado da existência de um mais recente livro de António Gregório, American Scientist, Quasi, 2007 (reimpressão). Dizem-me que, ocasionalmente, surge nas livrarias da Bertrand]

Joana Jacinto — Ordinal

 

Ordinal

                                                                                                           

I

Espera um segundo,

Se eu te disser

‘Espera um segundo’

Confiarão os teus dias naquilo que os olhos ouvem?

Espera um segundo.

Abre mão

das palmas dos olhos,

das palmas das mãos,

das palmas dos braços,

da palma do regaço,

das palmas dos pés

Nelas: todos os corações.

 

II

Espera um segundo,

Divide cada momento em seis.

Contempla o arco

o sol

Deixa cada momento morrer

na palma da tua mão.

As mulheres amam sempre.

Espera um segundo,

Estende a língua ao silêncio.

Sabe-o. Sobe

sobre o degrau último do tempo

Ouve-a, que paira.

As mulheres têm vários corações.

Espera um segundo,

Extrai os dias

da rocha

o tempo

Coloca-os sobre uma placa de madeira.

Destila o sal

do conta-momentos

momento-a-momento

a-tempadamente

fende:

Sagra dos dias a forma intacta.

As mulheres amam sempre.

Guarda o tempo,

momento-a-momento

recolhe-os para o verão.

 

III

Espera um segundo,

Des-conhece.

Des-arruma, des-compara, des-ordena

o cheio

chão das coisas.

Des-sê.

As mulheres têm vários corações.

Um no círculo dos olhos

chama-se  relâmpago,

espelho.

Um no círculo das mãos

chama-se  pele,

esquisso.

Um no círculo dos braços

chama-se  tear,

edifício.

Um no círculo do regaço

chama-se  pomo,

pérola.

Um  no círculo dos pés

chama-se  casa,

eternidade.

Espera um segundo,

Como se tivesses seis anos

 

e um sorriso de gengivas

o aguardasse debaixo da almofada pela manhã.

 

 

Joana Jacinto, in Cràse n.º 1, Março 2010

«Little red riding hood», Raccoon © Raccoon, via Deviantart

Jorge de Sena — As Quatro Estações eram Cinco

O verão passa e o estio se anuncia

que o outono se há-de ser e logo inverno

de que virá nascida a primavera.

Mais breve ou longo se renova o dia

sempre da noite em repetir-se, eterno.

Só o homem morre de não ser quem era.

Jorge de Sena, Exorcismos, 1972. Republicado na compilação Poesia III, Lisboa: Editorial Presença, 1989.

«seasons II», tom © tom, via Deviantart (D.R.)

Helena Carvalho — O pé da bailarina

Às vezes o mundo explode e insinua‐lhe o seu enigma. Revela pistas e mostra as peças que o compõem, ou parte delas. Nem o mundo foi o crime perfeito. Tenta encaixar as peças, mas elas faltam‐lhe sempre. As que não faltam descansam sobre as placas flutuantes que suportam tudo o que é do mundo e dos homens. Ondulando, cada peça é uma forma instável – ora redonda, ora obtusa – que vai regurgitando significados diferentes. E os seus olhos são servos enfeitiçados que lhes adivinham a secreta participação na ilusão que vela o sentido do mundo: umas vezes, esforçam‐se por captar o que fica da transfiguração das coisas e da sua aparição intermitente, outras, cerram‐se como punhos agastados para sossegar um estômago às voltas. O sentido é um sol quebrado.

Por vezes, quando os seus olhos abertos se perdem, há aqueles instantes plenos em que tudo se alinha perfeitamente, os momentos geométricos em que tudo se equilibra no fio de trapézio de uma palavra ou de um dia de chuva. E ela equilibra‐se também sobre um chão que plana despido de gravidade. Então é um corpo que roda sobre si mesmo com o mundo suspenso na ponta dos pés.

Helena Carvalho. in, a sul de nenhum norte n.º 6, p. 55

«Ballerina As Is», spinninghead © spinninghead, via Deviantart (D.R.)

 


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