As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Novembro, 2008

Pérolas (3)

«Não existe natureza no estado pristino. A evolução dos padrões ambientais ao longo dos séculos tem sido o desenrolar, sobre o meio envolvente, da luta de classes.»

– Carlos Ferreira de Moura, Lisboa, in ‘Tribuna do Congresso’, Avante online. –

© Frank de Nota

© Frank de Nota

‘Nada de luta de classes, camaradas. Senão ainda nos extinguimos!’

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Gaja nua XXX – A Vitória!

No dia 18 escrevi aqui um post de ingénua (ou mesmo falsa) indignação. Julia Ormond suscitava seis vezes mais visitas que um belo poema de António Osório. Insatisfeito com a falta de uma justa paridade entre duas preciosidades – o olhar de Ormond, a poética de Osório – publiquei novo poema deste autor com o manhoso título ‘Gaja nua XXX‘ e uma série de tags destinados a excitarem os motores de busca. Prometi divulgar os resultados. Pois bem, 12 dias depois, venho clamar ‘vitória’.

Graças ao ardil, António Osório, clandestinamente divulgado com identidade forjada, foi visitado pelo triplo dos cultores da bela actriz britânica. Melhor ainda: graças à brincadeira, o primeiro poema de António Osório que aqui publiquei disparou nas visitas, multiplicando por dez a sua procura. É caso para pensar que, quem anda atrás de ‘gajas nuas’ tem também alma de poeta.

Apolo venceu Dionísio, com ajudinha de um Hermes malandro.

Terei forçosamente, a benefício de inventário e satisfação das almas, de publicar aqui as palavras e combinações de busca que conduziram quase uma centena de portugueses ao post. Enganados, é certo. Mas felizes. Afinal, cumpri o que prometera. Mostrei mesmo uma ‘gaja nua’.

gajas nuas (várias pesquisas)
gaja nua
(várias pesquisas)
parodias (várias pesquisas)
xxx
(várias pesquisas)
gajas nuas xxx (várias pesquisas)
xxx gajas nuas (várias pesquisas)
http://www.gajas nuas xxx (um internauta menos habilitado)
parodias (um bacano)
feitiço de amor queria ver o episodio d (uma velhinha que acompanha novelas, decerto)
parodias de portugues (um bacano patriótico)
gajas nuas portuguesas (patriótico plural)
gaja portugal nua (patriótico singular)
portuguesa nua (à procura de sua dama, este)
luisa do portugal no coracao nua
(Grande Prémio ‘fixação de carácter obsessivo’)


Em homenagem a todos aqueles que, de ‘gaja nua’, passaram directamente à poesia, resta-me assegurar-lhes que são a prova do Portugal país de poetas. E oferecer-lhes mais uma gaja nua!


Vénus de Milo - Museu do Louvre

Vénus de Milo - Museu do Louvre

Pérolas (2)

“Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: ‘Quando for grande, vou inscrever-me no PS.’ É tocante.”

– Maria de Lurdes Rodrigues (Ministra da Educação, Público (P2), 28.11.2008 –

'Receber do PS é tocante. Vou-me inscrever'

'Receber do PS é tocante. Vou-me inscrever'

Le Carré no Courrier – um serviço

Ainda a propósito do número de Dezembro do referido Courrier Internacional, a edição salva-se em grande estilo com um esplêndido texto biográfico de John Le Carré (uma devoção, desde ‘A Perfect Spy‘) onde o escritor relata, num tom supinamente irónico, os seus tempos de espião profissional. Como a peça em causa tem o título «The Madness of Spies – A Secret Service secret» e, na tradução portuguesa (não assinada) surge redutoramente vertida em «Um segredo dos Serviços Secretos»; como o texto começa desta forma: «I carried my first 9-mm. automatic Browning when I was just twenty years old. I was a National Service second lieutenant in the Intelligence Corps in Austria. It was my first clandestine mission, and I was in heaven.», e a tradução nos oferece «Tinha apenas 20 anos, quando tive a minha primeira Browning automática de 9mm. Era segundo-tenente do National Service, em serviço no Intelligence Corps, o destacamento dos Serviços Secretos britânicos na Áustria», penso que presto um decente ‘serviço’ ao deixar aqui o link para o texto original, publicado em 29 de Setembro no The New Yorker.

Nota: Na capa do mencionado C.I., surge o título «Espionagem – John Le Carré conta a sua história». Se o título referido no post anterior era, verdadeiramente, um understatement, este é, em boa verdade, um exageradíssimo overstatement. Critérios).

'lindo serviço...'

'mas que lindo serviço...'

Fotografia do Dia (XX) – Os Robots Eróticos

O Courrier Internacional, na sua edição portuguesa de Dezembro, ostenta na capa esta notável fotografia. Bem mais notável que a compilação de artigos relativos ao tema, diga-se. Reza assim, também na capa: ‘Robôs quase humanos – os progressos da inteligência artificial aproximam-nos da ficção científica. E levantam problemas éticos‘. Uma modelo de retórica prudente, estes título e sub-título. O pessoal quer é pormenores. E lá estão, bem maquilhados de sociologia, psicologia comportamental, evolução tecnológica, etc. Em síntese: parece que a investigação, em robótica, está a desenvolver aceleradamente  aplicações funcionais nos domínios da guerra e do sexo. Necessidades básicas, portanto. O mercado manda.

'Abraça-me. Tenho frio!'

'Abraça-me. Tenho frio!'

Pérolas (1)


“The financial situation at the moment is so bad

that women are now marrying for love”

– anónimo –


'lovers on the Seine'

'mori, se não tiveres uma cabaninha, serve uma tendinha'

Novos Poetas (XXVI) – Filipa Leal

Filipa Leal (1979), já com obra publicada  – Lua-Polaroid (ficção, 2003), Talvez os Lírios Compreendam (2004), A Cidade Líquida e Outras Texturas (2006), e O Problema de Ser Norte (2008) -, emerge com a grave leveza de uma poética no limiar da narrativa, processo que lhe permite acentuar um lirismo intenso, construído em torno da interpelação do quotidiano, transmutado em matéria poética. Em linha divergente de muita da poesia que se escreve agora, o ‘eu’ desloca-se do centro do poema, deixando de ser o seu objecto focal, para o lugar da ‘observação’ poética do real, de interacção emocional com as coisas, as pequenas coisas. Os resultados são (no livro Talvez os Lírios Compreendam, o único que li) de uma espessura intensa. De um desencantado humano olhar.

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.


Filipa Lealin ‘Talvez os Lírios Compreendam‘, Cadernos do Campo Alegre, 2004.

(tanto ruido no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online

(tanto ruído no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online

Fotografia do Dia (XIX) – Os Robots Dramáticos

É irónico. A palavra robot foi inventada por Karel Capek num texto para teatro, R.U.R. (Rossum’s Universal Robots) – título inglês da peça – escrito em 1920 e representado, pela primeira vez em 1921. O étimo adquire universalidade na literatura muito graças à (hoje reconhecida) extensa produção literária de Isaac Asimov dedicada ao tema (nomeadamente no célebre I Robot). Na era da electrónica, o robot materializa-se em larga escala na produção industrial, substituindo a ‘robótica’ o trabalho ‘humano’ nas fileiras de intensa componente tecnológica. Agora, em 2008, o robot volta… ao Teatro. Será capaz de uma gargalhada cénica? De uma lágrima furtiva, que comova o coração dos espectadores? Talvez. Duvido que consiga atingir as cambiantes da ironia.

(Nota: recuso-me, até ver, a escrever robô. Não alinho nesse complô).

Na fotografia, uma peça representada pelo primeiro teatro experimental do mundo a utilizar humanos e robots, na Universidade de Osaka, Japão. – Fonte: The First Post.

'to be, or not to be... humanoid'

'to be, or not to be... humanoid'

(clique para ampliar)

Poesia Portuguesa (XI) – Mário Cesariny

Ainda em memória de Mário Cesariny.

PARADA


Com um grande termómetro no chapéu

e um certo ar marcial equidistante

todos saíram hoje das suas casas na duna

para a rua a soprar o vento que vem de longe

a certeza que há-de vir de longe


Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

nas montras nos passeios por baixo dos bancos

passam os pontos escuros para o outro lado

sem esquecer o espelho

sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

da cor do sol

o pescoço da nossa felicidade


Mário Cesariny, in ‘burlescas, teóricas e sentimentais’, p. 124, colecção forma nº 7, Editorial Presença, Lisboa, 1972 (Antologia, tendo origem o poema na obra ‘Pena Capital‘, 1957).

Mario Cesariny - Óleo sobre cartão

Mário Cesariny - Óleo sobre cartão

Poesia Portuguesa (X) – Mário Cesariny

Passam hoje dois anos sobre a morte de Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 – 2006) poeta, artista plástico, expoente maior do Surrealismo em Portugal. Se a sua obra escrita foi desigual, o apogeu do seu trabalho galga a mais alta fasquia da poesia portuguesa do século XX. Um homem raro, no país dos cautelosos.

(excerto – estrofe final – do poema CORPO VISÍVEL)

Contra ele meu amor a invenção do teu sexo

único arco de todas as cores dos triunfos humanos

Contra ele meu amor a invenção dos teus braços

maravilha longínqua obscura inexpugnável rodeada de água

por todos os lados estéreis

Contra ele meu amor a sombra que fazemos

no aqueduto grande do meu peito O MAR


Mário Cesariny, in ‘burlescas, teóricas e sentimentais’, p. 133, colecção forma, editorial Presença, Lisboa, 1972 (Antologia, tendo origem o poema na obra ‘Pena Capital‘, 1957)

Mário Cesariny (1923 - 2006)

Mário Cesariny (1923 - 2006)

Cesária Évora em regresso ao passado

'bienvenue sur le site de Cesaria Evora'

'bienvenue sur le site de Cesaria Evora'

Hoje à noite, no Cinema São Jorge, Cesária Évora regressa a Lisboa para apresentar «Rádio Mindelo», trabalho que recupera registos de canções feitos na década de sessenta, na Rádio Barlavento, Mindelo. Acompanha-a o compositor Gregório Gonçalves, autor de parte dos temas, na generalidade inéditos. Cesária antes de ‘Césária’, antes de ser ‘La Diva aux pieds nus‘, antes de ser ‘descoberta’ pelos franceses – mérito difícil de engolir pelo mercado da edição nacional, que em devido tempo a ouviu e nela não acreditou.  Por essas e por outras é que o site da cantora está em duas línguas, opcionais: o francês; e o inglês. Lusofonia. Pois.

David contra Golias

Na terra onde David derrotou Golias, jovens palestinianos usam fundas para lançarem pedras contra polícias fronteiriços israelitas, durante um protesto contra a construção de uma controversa barreira na povoação de Nilin, West Bank, Ramallah. Cíclica, a história repete-se. Reifica a mitologia. Mas, hoje, David está do lado contrário. Estará?

'somos mais corajosos que os bombistas suicidas'

'somos mais corajosos que os bombistas suicidas'

(clique para ampliar)

Novos Poetas (XXV) – David Teles Pereira

Por deferência de Beatriz Hierro Lopes, recebo este poema (assim como o anterior, de Diogo Vaz Pinto). David Teles Pereira num registo lírico desencantado, onde as marcas referenciais ao Livro Sapiencial ‘Cântico dos Cânticos’ são visíveis (por vezes muito). Porém, em confronto com o poema publicado em criatura 2 e aqui já editado (‘Carta de Amor‘), um surpreendente salto na desenvoltura, ampliando uma identidade de escrita e um domínio formal dos seus processos que faz esperar a emergência de um percurso poético maduro. O que se considera sobre este poema poderia, de igual forma, aplicar-se ao trabalho de Diogo Vaz Pinto.

(Nota do Autor: Uma versão mais curta deste poema foi publicada anteriormente no blogue {O Melhor Amigo]. Para além dos versos acrescentados e de algumas alterações nos versos da versão original, foi mudado o título do poema, o que, por si só, corresponde à alteração com mais significado. A versão original a que se deu o nome de Cântico Maior (furtado a Fiama Hasse Pais Brandão) pretendia ser uma adaptação, mudança ou variação da primeira parte do Cântico dos Cânticos atribuído a Salomão.


Cântico Menor

Negasses-me o incenso da tua pele as tuas rajadas Elevação
superior à morte.
Através do mar que em teus seios nasce Mar onde eu afogado
Sempre te amei.
Faz-se um cometa entre os teus dedos e a corrente impede-me
de avançar Fiquemos tristes, fiquemos
presos nas tuas rajadas Elevação
eu fantasma que sempre te amou.

Ruiva e eterna escrava do Sinai de olhos
vazios como um diamante comprado na Pelikaanstraat.
Observa-me altíssima que rubros são teus filhos
do metal nascidos
contra o sangue que me corre nas veias revoltados
nunca escolhidos.

Tu aquela que sugou o meu astro, dá-me de beber
o que carregas na boca
por baixo da língua. Porque hei-de ser a expiação
o anjo caído no centro da terra onde se respiram as areias?
Sei que tens mau sangue ó mais dispendiosa das mulheres
não esperes por mim
perto dos rebanhos que enquadras como a morte
como o teu ciclo de sangue.

Tu demónio que puxa o carro do Portador como
demónio nascido dentro de mim te invoco.
Embelezam os teus dotes o fogo e o grifo que te adorna
como um rastro de medo.
Sangue real é servido em tua honra e as estrelas
rematam a minha derrota.
Quando a corrente desatar de nardo se vai adornar
o leito da tua brancura judaica.
Entre os meus dedos o sangue a linfa o vinho
e eu que sempre te amei não terei descanso.
Eu que sempre te amei hei-de semear a tempestade
e os pássaros de asas negras obedecerão a Azazel.
Ó meu inimigo assumido em silêncio suave é o toque
desta espécie de morte.
Vigia o meu templo sem paredes chamado Devoção.

Eu orquídea nascida nas areias do Negev de pétalas tatuadas.
Como a orquídea rodeada de sede assim me vês amante
cujos filhos fazem brotar da terra a própria luz.
Assim vês Teus filhos nascidos do metal irreverente
Elevação qual forma impura.

Tu sombra amaldicionada nos espelhos Escuro é o teu desejo
o canto O silêncio e o ciclo de sangue das tuas filhas.
Adormece-me pois que estou doente de amor
fraco da garganta em teu regaço. Ó essência de amêndoas
o meu fruto a minha tortura Sempre te amei e És tu.
Soubesse o amante erguer-me de entre as flores
e ser-me-ia possível possuir esta verdade
a história de como corpos se transformam em diferentes corpos.

Mulher nascida em Jerusalém num dia vermelho
pelos animais que cruzam o deserto todos as noites
não me envolvas eu que sempre te amei não me envolvas
em teus ébrios segredos Elevação qual forma impura.
O invernos vêm e vão sucedem-se Eterno é o frio
da tua ausência Salomé.
Brotam como nascidos da terra os teus seios eis que chegou
o tempo das rosas eis que o vento de Novembro sopra
desde as colinas de Baal-Hermon o lugar da transformação.
Deixo os meus olhos nos teus aí não teremos frio
neste corpo vive Lilith que brinca com espelhos
pede Pede que todos os dias dances para ela Salomé
e os teus filhos expiarão com sangue a tua altíssima culpa.

Negasses-me a tua essência
O vinho que me inicia nos mistérios de Hattin
Elevação na sua forma mais impura.
Eu que sempre te amei qual fantasma que habita
em silêncio as grutas do Negev seu Lírio dos Lírios.
Dança em meu redor Rosados são teus lábios
eis que chega a hora em que os surdos ouvem Dança
e rápido serás superior à morte Dança
Elevação qual forma impura.

David Teles Pereira(enviado por correio electrónico)

'deserto do mar vermelho © carlosmfernandes, olhares, fotografia online

'deserto do mar vermelho' © carlosmfernandes, olhares, fotografia online

Novos Poetas (XXIV) – Diogo Vaz Pinto

(poema recente do autor, datado de dia 20 de Novembro – também pode ser encontrado no blogue O Melhor Amigo.

Ontem deitado no divã entendi quase sem querer
algumas das linhas que escreveste,
provocaram-me cólicas naquele momento, mas depois
fumei o melhor dos meus cigarros sentindo à distância
a perfeição formal dos teus lábios, o modo
como espremias o meu horizonte
e o desfazias, reduzindo-o ali em pus.
Quis bater palmas mas senti o ciúme uivando
no meu peito, essa coisa que agita os fracos.

Neste tempo em que se consagram poetas menores,
lembro-me que foste tu quem sorriu primeiro
enquanto me segredavas ao ouvido:
eis que chega renovada a hora dos assassinos.

Só agora começo a perceber-te.
Olhei um quadro que nunca teve sentido para mim
e vi um carrossel cheio de crianças enraivecidas
de alegria. Brincavam até à morte e os seus corpos explodiam,
luminosos, num festim alegórico.
Peguei na esferográfica e, sem ter palavras,
desenhei no pulso um relógio. Encostei a cabeça de lado,
ouvi o seu ponteiro imaginário chutando os meus segundos
e o tempo passou-se, mijando círculos à volta dos meus pés.

Esta noite dormi numa cabine telefónica, sonhando
com uma chamada de longa distância. Pareceu-me
ter-te ouvido respirar do outro lado e já não sei
se me toquei procurando uma espécie rara de orgasmo
ou se apenas senti o sexo encolher-se na boca do medo.

Quando acordei estava encharcado num suor branco,
voltei ao quadro, mas já não vi nada.
Agora não posso dizer se tudo não passou
de um distúrbio epiléptico ou se o ciúme…
No fundo eu sei e tu sabes que entre os dois
só um vai caber nos livros de História.
Talvez aquele que à beira do fim
seja encorajado pelo outro a suicidar-se.

Diogo Vaz Pinto(enviado por correio electrónico)

© joão goulão, olhares, fotografia online

© joão goulão, olhares, fotografia online

Fotografia do Dia (XVIII) – George W. Bush Home Alone

George W. Bush remains in place as various world leaders come back for a second group photo at the G20 Summit on Financial Markets and the World Economy at the National Building Museum in Washington. – no The Independent.

Não, não é o pathos do homem que se revela nesta fotografia. É o patético.

'tenho tantos amigos...'

'tenho tantos amigos...'

Cavaco e o BPN

Cavaco Silva é um Antigo. Anterior à consciência moderna da desordem íntima. Anterior a Pessoa. Anterior a Freud. Cavaco Silva foge dos estados de alma. Procura a organização racional e vigia, férreo, as emoções. É um homem em constante trabalho de agregação do Eu (a frase ‘nunca me engano e raramente tenho dúvidas‘ não era uma bravata, enunciava um programa de vida).

Por isso se estranha muito o Comunicado da Presidência da República, sobre a sua (não) relação com o BPN. Porque nele tudo é desordem. No plano institucional (público), comunica a partir da sua condição de Supremo Magistrado da Nação. Ora o Presidente da República não pode responder, em Comunicado Oficial, a ‘mentiras’, ‘insinuações’, de que tomou conhecimento por meio de ‘contactos estabelecidos por jornalistas’. Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Presidente da República.

Mas a desordem reside, mais concretamente, no facto de sermos confrontados com um Comunicado do ‘Prof. Cavaco Silva e a sua Mulher‘. Ou seja, uma declaração no âmbito do privado (onde a pequena minudência impera, com detalhes que são, de forma geral, desnecessários e, por isso, pela ideia implícita de ‘quem não deve não teme’, confrangedores). Que se saiba, ninguém duvida da honradez de Cavaco Silva, Cidadão.

O que terá passado pela cabeça do homem ao utilizar, de forma cristalina, o espaço comunicacional proporcionado pelo seu cargo para procurar a reposição de uma honra inquestionada, pertencente à sua vida privada?

Quem falou, neste comunicado? O Presidente Cavaco? O Prof. Silva? Em qualquer caso, seja bem-vindo aos pavores identitários do mundo pós-moderno.

'Estou a ver. Não quer deitar-se um pouco no divã?'

'Estou a ver... Não quer deitar-se um pouco no divã?'


Pantufa Negra

Os cartoons de Luís Faustino, apresentam-nos uma bichana preta com uma ironia ácida, tocando, por vezes, os limites do nonsense. Retomam (utilizando a fotografia digitalmente trabalhada) uma perspectiva que me recorda o saudoso ‘Guarda Ricardo‘ de Sam, excepcional série, marcante nas décadas de setenta a noventa, de um artista que transcendia as fronteiras da tira humorística e tinha obra noutros domínios das artes plásticas. Como nada é por acaso, também estes cartoons se publicam no Expresso (edição online, onde podem ser subscritos por correio electrónico), encontrando-se a série no blogue, Cartunes e bonecos. Um dos meus prazeres semanais é receber a ‘Pantufa Negra‘ via e-mail. Aqui se deixa o corrosivo trabalho de sexta-feira, dia 21. Carlos Queiroz é o pretexto para a ironia.

Luis Faustino © www.expresso.pt

Luís Faustino © http://www.expresso.pt

Fotografia do Dia (XVII) – U2 (Sunday Bloody Sunday)

Os U2 em 1983. Sunday Bloody Sunday. O fogo e a bruma. Uma canção que fez de mim um gajo melhor.

(Fotografia inédita, publicada no livro ‘U2: A Diary’ de Matt McGee, Omnibus Press. © Greg Wigler.)

'ganda fumarada, pessoal'

'ganda fumarada, pessoal'

Poesia Portuguesa (IX) – José Tolentino Mendonça

Naquele que penso como o primeiro livro já pleno da sua voz única de poeta, longe não sabia, José Tolentino Mendonça partiu para uma obra que se destaca, com fulgor, no panorama da produção poética da década de noventa. Aqui se deixa o primeiro poema do singelo (e lindo) livro, da colecção forma, da Editorial Presença. Singelos eram os livros, grandes poetas por esta colecção passaram.

OS INCÊNDIOS


Não devias empurrar fogo tão solitário

sob os umbrais de uma morada

nos carreiros que vão dar aos montes

sairás ainda em súplica

quando os incêndios ignorarem a ameaça

da tua vassoura de giestas


a sombra uma vez avulsa

não retorna a mesma


não despertes o que podes calar


José Tolentino Mendonça, in ‘longe não sabia’, p. 9, colecção forma, editorial Presença, Lisboa, 1997

'sequelas' © luis oliveira, Olhares, fotografia online

'sequelas' © luís oliveira, Olhares, fotografia online

Novos Poetas (XXIII) – Catarina Nunes de Almeida

A descoberta da poesia de Catarina Nunes de Almeida (1982), neste seu último livro, A Metamorfose das Plantas dos Pés, despertou muito forte atenção perante a maturidade e a força da poética da autora. Com um livro anteriormente publicado, Prefloração (que não li), Catarina Nunes de Almeida surge como uma voz singular e a ser seguida. De muito perto.

Abriu no colchão as valas possíveis

e enterrou por ordem alfabética

cada parte do corpo: os pêlos

os pântanos as unhas encravadas

e as unhas que outros cravaram pelas coxas.

Estudou cuidadosamente as ondas as horas

para que não restassem dúvidas

sobre os caminhos marítimos

para a noite. Por fim

podou todas as janelas do quarto;

bebeu o vinho;

roeu a carne do quarto

até não sobrar nenhum coração.


Catarina Nunes de Almeida
in ‘A Metamorfose das Plantas dos Pés‘, Porto, Deriva, 2008

'iluminarei a alma' © mariah, olhares, fotografia online

'iluminarei a alma' © Mariah, Olhares, fotografia online