As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Fevereiro, 2011

Verdes são os Cantos — Hugo Milhanas Machado e Bruno Béu

Amanhã, dia 25, na Livraria CE Buchholz – Rua Duque de Palmela, nº 4 – Lisboa, às 21.30h, nova sessão de «Verdes são os Cantos». No e-mail de divulgação enviado pela organização, pode ler-se: «um ciclo mensal que tem como objectivo reunir novos nomes da poesia e da música portuguesa numa sexta-feira de cada mês. O cenário é sempre uma das livrarias do grupo Coimbra Editora. As sessões dividem-se em dois momentos – um recital poético e um concerto. O quinto encontro conta com a presença do poeta HUGO MILHANAS MACHADO e com a música do BRUNO BÉU. Porque o mote destas sessões é a poesia, os poetas e os músicos trarão algumas escolhas de “autores da sua vida” que serão lidos e comentados juntamente com o público.»

 

«Verdes são os Cantos», com Hugo Milhanas Machado e Bruno Béu

 

Do último livro de Hugo Milhanas Machado, As Junções, aqui se deixa o primeiro poema do livro, chamando a atenção dos puristas da poesia que também Ruy Belo escreveu (belíssimo) poema sobre o ciclismo.

COL DE PEYRESOURDE


No dia em que te toquei a trança

tempo tive de ficar de frio na janela

o leite derramava na cozinha

ia muito devagarinho e descia

desenhava um nome no chão


Pensar em ti era só pensar em campeões

ou como fiz ir dentro ver o Tour de França

eu que gostei de ti no dia em que te toquei a trança

e só ficou a marca de leite na planta do pé

as letras brancas e inclinadas nas estradas


Machado, Hugo Milhanas, As Junções, Lisboa: Artefacto, 2010, p. 13

Sophia de Mello Breyner Andresen — Porque os outros se mascaram mas tu não

 

É um poema tão lido, digerido, tão bandeira, tão utilizado, manipulado, instrumentalizado, tão já lugar comum, que nos esquecemos de o ler como se o lêramos pela primeira vez. Mas raios me partam se hoje não me veio à cabeça a tarde toda. E a noite.

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.


Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

«Chains», by Markus © Markus, via Deviantart (D.R.)

Não me importo com o plágio… mas ao menos podiam citar!

logótipo e cabeçalho das «Correntes d'Escritas» (D.R.)

Na pressa de divulgar o prémio os responsáveis do site oficial das Correntes d’Escritas copiaram na íntegra (apenas cortando uma palavra mais difícil) o que escrevi em 11 de Janeiro sobre «O livro do sapateiro», de Pedro Tamen. Isto tem um nome feio: plágio. Copy/paste. Sem espinhas.

Em 6 de Janeiro eu escrevera aqui: «Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos «O livro do sapateiro», 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.»

Hoje, há uma hora, no site da Câmara Municipal da Póvoa do Varzim: «Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos O livro do sapateiro, 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.»

 

É ler e comparar: apenas eliminaram a palavra «lhano», talvez por, na pressa, terem tropeçado nela. Assim, além de plágio, é adulteração. Seria um mínimo de ética terem citado a fonte… mas talvez demonstrasse falta de trabalho, para não dizer preguiça. Acho mal e estou decepcionado com as “Correntes d’Escritas”.

Apple Senior Vice President Scott Forstall shows off an iPhone 3.0 software update, due this summer, that includes features such as the ability to cut, copy and paste. Credit: Justin Sullivan / Getty Images

Pedro Tamen vence o Prémio Literário Casino da Póvoa, nas Correntes d’Escritas, com «O livro do sapateiro»

 

E por aqui ficamos muito contentes (na ‘sondagem’ que aqui foi feita havíamos votado neste livro, em «A Inexistência de Eva» de Filipa Leal e em «Arado», de A. M. Pires Cabral.)

Em Janeiro aqui se deixaram 5 poemas + 1 deste magnífico livro. Basta clicar no link e ler; aberto o apetite, trate-se de comprar o livro onde se encontre. Como foi dito então, «Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos».

Pedro Tamen, fotografia de António Pedro Ferreira (D.R.)

 

 

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem» — Os resultados!

 

Tal como prometido, hoje divulgam-se os resultados da sondagem que lançámos há exactamente um mês, permitindo a todos que exprimissem a sua preferência sobre as obras a concurso. Contrariamente às expectativas, pronunciaram-se mais de cinco ou seis pessoas. Na verdade foram 102 votos expressos, que permitiram apurar os seguintes resultados:


 

(clique para ampliar)

O livro de José Tolentino Mendonça, «O viajante sem sono» (Assírio & Alvim) ganhou com um voto de vantagem sobre «A Inexistência de Eva», de Filipa Leal (Deriva). Um poeta muito justamente consagrado, com uma obra que se afirma na década de noventa, vence a votação com um voto mais que o livro magnífico de Filipa Leal, poeta surgida já na primeira década deste século sendo, para nós, o livro apresentado a concurso o melhor de todos os que escreveu (e são todos bons). Agora resta saber se a decisão do júri anda perto desta votação. O que é, de resto, irrelevante.

Obrigado a todos os que participaram. E boas «Correntes d’Escritas».

 

Bicicletas

Por muito tempo amarei casas que existam apenas

para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote

As casas interessantes não têm pretensão nenhuma

Estão perto de nós na hora necessária

mas a qualquer momento

com mais clareza

afastam-se das certezas que perdemos

e da imensidão que se avista de lá

Um velho  provérbio diz:

Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo

de uma estação clemente

Mendonça, José Tolentino, O viajante sem sono, Lisboa: Assírio e Alvim, 2009, p. 42