As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Outubro, 2011

Rui Miguel Ribeiro — XX Dias (dois poemas)

 

 

 

 

 

 

(post reeditado)

 

 

XII ∙ AS PALAVRAS

 

Escuto só as tuas palavras.

Tenho o presente a partir

da minha fraqueza.

Chega até mim

quem me explica

a luz surda destes dias.

 

*

 

XVII ∙ O QUARTO

 

Neste quarto que me priva

da voz, visão e ouvido do mundo,

entre renúncias, sobrevive

a minha existência;

o que será uma memória

irrenunciável do vazio,

um trajecto deserto,

sem temperatura, até um desejo

de magoada serenidade.

De uma idade terminada.

 

Ribeiro, Rui Miguel, XX Dias, Lisboa: Averno, 2009

 

© Yesica, via Deviantart

Sobre Rui Miguel Ribeiro: «*Nasceu no Porto, em 1974. É Matemático e vive em Lisboa. Publicou os primeiros poemas com 24 anos e colabora, desde então, regularmente com algumas publicações, nomeadamente Criatura e Telhados de Vidro. Publicou os seguintes livros de poesia: Europa e mais três poemas, Letra Livre, Lisboa, 2007, XX Dias, Averno, Lisboa, 2009.» [informação recolhida aqui]

Gonçalo M. Tavares — A Água

 

 
No café trazem-me um copo com água

como se ele resolvesse todos os meus problemas.

É ridículo – penso – não há saída.

No entanto, depois de beber a água

fico sem sede.

E a sensação exclusiva do organismo

acalma-me por momentos.

Como eles sabem de filosofia – penso –

e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

Tavares, Gonçalo M.,  1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

 

«The Glass: Drowned» — Alberto Guerrero © Alberto Guerrero via Deviantart (D.R.)

 

  blogue de Gonçalo M. Tavares

 

António Franco Alexandre — Acrilírico

as suas ágeis mãos sonharam tempo

quase entre os meus recados, os secretos

canais onde altos barcos, a

brancura,

sabia o som das vozes imortais.

juntou-me ao seu cabelo, à sua audaz

mudança de memória.

agora encosto os cantos nas esquinas

na prata enevoada dos seus dedos.

já me esqueci? não sei se me persiste

um duro chão, a escada

redonda onde nasci,

a breve idade.

estou no vento que escorre as suas águas

na barreira de incesto que nos move.

em suas mãos dissimulado

avança, entre clareiras, o roteiro

de nossas mansas aves.

aceito a sua água, o seu retrato

junto à ponte, no meio

de inúteis castiçais.

ouço-a, de noite, sussurrar as penas

que a língua não consente.

 

é o seu bafo que me aquece

as brilhantes retortas

o doce candelabro.

eis a sua pálida figura, o seu retrato

a giz nos vastos

armazéns do império.

és este cuspo de óleo, este ligeiro

verso da lembrança.

ou ficará de mim esse outro rastro?

no resto dos seus olhos

pousarei o lençol, lembrando

o ângulo das chuvas, e os brandos

meteoros.

passeio-me

de tranças, com um fio

azul por entre as franjas

flexíveis da memória.

encontro esse motivo nos teus dedos,

na sua carne de curtume branco.

deixa que viva nos seus olhos, rosto.

entornou-se no vento foi delgada

como as ruínas de uma

breve espera.

Alexandre, António Franco, Colóquio/Letras n.º 53, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1980

photographer: Jerrica Raglin — Via Deviantart (D.R.)

António José Maldonado — Dies Irae

Alguns poetas caíram num aparente esquecimento e é como em tudo, pouco haverá a fazer. A indignação apenas indicia que quem a exprime possui memória e possível pendor para a indignação. Não é o caso, apenas recentemente conheci alguma pouca obra deste autor. Como não acredito que os bons poetas (e mesmo os menos bons mas ainda assim bons) se desvaneçam no éter, não me preocupa muito recomendar a redescoberta de António José Maldonado. Cada um encontra, reencontra ou tropeça no que lhe calha. E, nestas coisas,  creio muito na causalidade dos acasos. De vez em quando, num dia feliz, achamos o que nos esperava.

[Nota biográfica singela, seguida de poema e hiperlink (satisfatório) para a entrada sobre o autor no portal da DGLB:]

«Poeta português nascido em 1924, em Bragança. Após ter terminado os seus estudos secundários, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.
Deu então início a uma carreira docente, lecionando em escolas secundárias situadas em vários pontos do país, como por exemplo, Faro, Lisboa e a sua Bragança natal. Chegou também a ocupar o cargo de reitor em instituições de ensino em cidades da Angola colonial, como Lobito e Carmona.
Em 1951 fundou, em parceria com Jorge Nemésio, Fernando Guimarães e José Manuel Ferrão, a revista Eros. Estreou-se como poeta nesta publicação, que foi mantida até 1958, e na qual figuravam também ensaios.
Publicou o seu primeiro livro em 1960, uma coletânea de poemas intitulada Futuros ou Não. Com um intervalo de mais de duas décadas, seguiu-se Limite Cultivado (1984).
António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada “Geração de 50”, que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente “Êxodo”, “Dies Irae” e “Os Fundadores de Cidades”.»

António José Maldonado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-10-09].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$antonio-jose-maldonado&gt;.

 

DIES IRAE

 

Não me esqueçais

vós, coexistentes insectos, andados objectos da minha alma.

chão consultado por muito povo,

sala própria de todos os destruídos invernos.

Sob o sol, entregamos o chão da erva

e tu, arcanjo — cimento de luz —, unirás a agonia dos frutos

às raízes dos astros.

Rumor nenhum ultrapassará o fogo e a água

e demoradas cicatrizes continuarão o assombro da unidade.

Na baía mais larga, as línguas de Pentecostes instruirão

os ceifeiros para as espigas desta jornada.

Terminada a conjunção do tempo,

as primaveras expõem aos ombros sua nudez silenciosa.

Amanhã beberemos paciência,

amanhã será o homem encontrado no seu osso,

sua fala arredondada pelas marés,

seu dedo dócil — a medo pintado — sem título,

e tu, Senhor, desocupado de passado e de futuro,

cercado de altura e de provérbios.

 

Maldonado, António José, Colóquio/Letras n.º 33, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro de 1976.

 

«Seven pomegranate seeds» — Franglais Photography © Franglais Photography, via Deviantart (D.R.)

  António José Maldonado no site da DGLB

Miguel Pires Cabral — hoje chamei o teu nome

Último post em que destaco um autor  do terceiro número da revista online “a sul de nenhum norte”. Um poema de Miguel  Pires  Cabral que, de acordo com nota biográfica apresentada,

«nasceu  em  Macedo  de  Cavaleiros  a  27  de Março  de  1974. Escreve os seus primeiros poemas algures pela viragem do milénio; Lançou em Agosto de 2010 o seu primeiro livro  de  poemas  originais  intitulando  “Café  Solo”.  O  seu  primeiro  livro  conta  com  prefácio  de  Marta   Pessanha  Mascarenhas,  edição  de  LMOPC  –  Editores  ©  &  Impressão  pela  Dom  Texto  ‐  Vila  Real. Prepara  nesta  altura  um  segundo  livro  de  poemas  originais,  estando  a  sua  edição  prevista  para o verão de 2011.»

Acrescento que é autor do blogue «Barbitúrico da Alma», onde se pode encontrar alguma da sua produção poética mais recente e / ou dispersa.

hoje chamei o teu nome

Hoje chamei o teu nome,
o teu dia cansado,
a tua ausência,
longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,
foi um corrupio de ida em volta
ainda que breves tenham sido
as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,
encontro‐me finalmente
de frente para este rosto
que também trago cansado.

São estes dias de suor
e esquecimento
que nos fazem esquecer
dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica
que nos aproxima – para além
de todo o esquecimento
que nos representa – assim.

 

Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

 

«facing things», via DEviantart

 

   Blogue de Miguel Pires Cabral,  Barbitúrico da Alma.

Tomas Tranströmer — Prémio Nobel da Literatura 2011 (3 poemas)

(post reeditado)

Ao fim de quinze anos (Wislawa Szymborska foi distinguida em 1996), um poeta recebe o Prémio Nobel da Literatura! Saramago e Pinter escreveram poesia, mas não eram propriamente poetas. Um acontecimento, embora o nome de Tranströmer fosse desde há muito um dos apontados como possível laureado. Aqui se deixam 3 poemas do autor respigados online e uma belíssima fotografia do poeta (que pode ser muito ampliada).

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Tranströmer, Tomas, 21 Poetas Suecos, Lisboa, Vega, 1980.

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

(Tradução do alemão para português por Luís Costa)

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.

(Tradução para português por Luís Costa)

tomas tranströmer

(clique para ampliar)

Herberto Helder — LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

 

LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

 

Helder, Herberto, Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim 2009

 

fotografia: «7_Troco de oliveira recolhido em Santa Bárbara de Nexe. Museu de Faro. 2005» — Duarte Belo

 

   Herberto Helder no site da DGLB

   Site do fotógrafo Duarte Belo