As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Abril, 2009

Canção de Embalar

(À Direcção-Geral de Contribuições e Impostos)

A Letra e a Música são de José Barata Moura, a partir de versões anónimas populares antigas (“Cai a noite, de mansinho,/ João Pestana vem  a caminho,/ Pra embalar o menino/ E dar-lhe um bom soninho”; ou “João Pestana vem  a caminho/ E traz o sono prò meu menino”). Leia-se, a propósito, o estudo de Carlos Nogueira, “Notas Sobre a Cantiga de Embalar“, que se pode descarregar no site da Casa da Leitura, Fundação Calouste Gulbenkian.

“Já lá vem
O João Pestana
Pé ante pé
Voz que  não engana

Vem de longe
Já muito cansado
Pobre João, coitado

Faz ó, ó,
Menino  também
Faz ó, ó,
Que o soninho já vem

Cai a noite
E o vento lá fora
Assobia forte
Não se vai embora

Conta histórias
Um nunca acabar
Coisas de encantar

E o vento
Não  sopra só
Também traz
Ao menino ó, ó

Devagar
Muito de mansinho
Levando o bébé
Ao pegar o soninho

Já lá vem
O João Pestana
Voz que não engana

E o João
Sabendo  o que faz
Vê o menino
Adormecer em Paz”

Child Asleep 2 © Louis Kahan, 1997

Child Asleep 2 © Louis Kahan, 1997

Novos Poetas (42) – Bruna Pereira

Alegro-me com a descoberta de um blogue, Poetas Portugueses do Século 21, para logo me entristecer com o seu (aparente) termo, em Dezembro de 2008. O trabalho dos seus criadores permitiu, ainda assim, juntar trabalhos de duas dezenas de autores, de diversa valia, quase todos muito novos. Por desfastio de uma inclinação para a ‘desconstrução egótica’ que muito se inscreve na actual produção poética, escolhe-se este poema (este enorme desejo de narrativa, formalizado em poema) de vincada face ‘neo-neo-realista’, versão actualíssima de um quadro que se julgaria passado e é tão de agora que até dói. A autora é Bruna Pereira (Ponte do Lima, 1983).

Lavara as mãos em sangue antes de jantar tremoços.

Era a educação dos limpos.

Dos Judas de espelho em casa e palito na boca.

Dos sem culpa numa vida de lavatório com germes.

Era fácil não querer saber dos outros.

Do gato, da mãe acamada, do filho sem papa e sem dentes ainda.

Do filho que dizia não ser seu enquanto se coçava e via o futebol.

– És uma puta! E tenho mais em que gastar o meu dinheiro.

E estava feita a oração antes da ceia.

E da varanda que é também sala de estar, subia o fumo da mulher do batom

[vermelho que aquecia a rua.

– Mas que caralho pensas que é isto?

E havia menos um prato inteiro que lavar.

Se a conta da água estivesse paga.

Se houvesse água em casa.

Choro, vidro, golo, menos outro prato, ralho, estalo, grito, copo voador, berro,

[copo partido no chão, tremoço,

vizinho apaga a luz, falta, casca de tremoço, murro, intervalo de jogo, outro

[vizinho finge que não está a ver

nada, resultado 2-1, pum, silêncio.

Sirene do INEM.

Quando alguém leva um tiro no meu bairro, aparece sempre a sirene do INEM

[apegada a uma ambulância amarela.

Depois volta a haver silêncio, fecha-se tudo em casa, os gatos esgueiram-se por

[entre os caixotes do lixo podre

que ninguém recolhe e a mulher do batom vermelho desaparece nuns mínimos

[que fogem de carro.

Eu vou lavar os dentes e tentar dormir.

Mas nem sempre consigo…

Bruna Pereira in → Poetas Portugueses do Século 21 (blogue)

Red pill Blue pill © Mário Leal, Olhares, Fotografia Online

Red pill Blue pill © Mário Leal, Olhares, Fotografia Online


Pérolas (19) – A “Mão de Deus”

A gente abre a página do Expresso online e a gente pasma (a gente lê regularmente outras folhecas online, tipo o The Guardian, o The Independent, ou o El País e não encontra coisas destas). A gente fica a pensar se o Expresso – online –  se está a abrutalhar aceleradamente ou se é o mercado que pede, exije e consome isto. A gente gostava de um Expresso online menos The Sun. A gente agradece.

[Nota: clicando nos links, acede-se às notícias, que serão provavelmente mais sérias que os seus paródicos títulos deixam supor]

NASA capta “mão de Deus”

Mas afinal não tinha sido o Maradona?

Primeiro cão transgénico muda de cor com a luz

E o segundo? Muda de raça com a sombra?

Um quinto das Câmaras corta no IRS

As Câmaras não podem organizar workshops para os seus munícipes?

Ponte da Barca: Paulo Gonzo dá concerto a 340 metros de profundidade na barragem da EDP

A assistência está garantida: 300.000 taínhas e alguns achigãs.

O Cantinho do Smith

Este Smith é… o Smith? Estarão já a pensar onde instalar o Sr.?

Cartas dos leitores Casamento homossexual: sim, não ou talvez?

O que é um ‘casamento homossexual talvez’?

(títulos (?) retirados da edição de 23.05.09  do Expresso Online, às 23h13m)

'Então Deus é azulinho... como a «Celeste» do Maradona'

'Então Deus é azulinho... como a «Celeste» do Maradona!'


Ana Jorge, a grande marota

A ministra Ana Jorge anunciou ontem também ter assinado um despacho que determina o aumento de 37% para 69% na comparticipação estatal dos fármacos necessários a um ou mais ciclos de tratamento durante a Procriação Medicamente Assistida (PMA).Jornal de Notícias.

Por uma vez, e mesmo por ser assunto sério, dou aqui sinceros parabéns a um político. Ana Jorge, Ministra da Saúde (que até se tem destacado por um cómodo de sensatez na governação), aumenta a comparticipação dos fármacos necessários à Procriação Medicamente Assistida para… 69%! Exactamente. Esse número que, desde a minha puberdade (e a de todos, creio) é signo propício a reinações, chacotas, anedotas, comentários chistosos e outras saudáveis parolices. Não fez a coisa por menos: nem 70%  (percentagem “redonda”); nem 75% (percentagem “três quartos”). Nem 67% (percentagem “dois terços”, arredondada.) Fugindo aos três quartos de duvidosa reputação e aos beatíssimos dois terços, Ana Jorge impõe os 69% como uma medida triplamente benigna: aumenta significativamente a comparticipação; livra-nos do chatíssimo 37% (o número 37 tem alguma graça?); e assume de caras uma percentagem que pertence ao domínio semântico do “interdito”. Agradeço-lhe, muito, a gargalhada que me proporcionou. Sua marota!


Férias no Afeganistão

Se nesta fotografia não há muito trabalho de photoshop, então acabei de ter um desejo delirante para as próximas férias. Mesmo que estes campos contenham muitas seivas de efeitos alteradores da consciência, o landscape é um regalo. Qualquer semelhança entre as imagens que estamos habituados a ver do Afeganistão e esta ‘alucinante visão’, revelam uma discrepância absurda.

'são papoilas, senhor...'

'são papoilas, senhor...'

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Pérolas (18) – O press release

Um leitor atento faz-me chegar esta verdadeira pérola de divulgação de uma obra, neste caso sob a forma do famigerado press release. Não conheço os autores do livro, que provavelmente não terão qualquer responsabilidade no assunto. Mas será que ninguém leu esta prosa inenarrável e serôdia duas vezes?

“Apresentação da obra Nuno Álvares Pereira – A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável, da escritora Isabel Ricardo, na FNAC Chiado, no dia 17 de Abril de 2009, às 19:00 horas.
Nuno Álvares Pereira – A demanda do Mestre de Avis e a vida do Santo Condestável, é a obra eminente que declara como causa retratar a época, os factos e figuras históricas, em particular, a vida de D. Nuno e a personalidade do homem, chefe militar, estratega de batalhas, personagem heróica, figura histórica, e benfeitor, que arrebatou as gentes de boa fé do tecido social e político português. Na esteira de uma crise dinástica que D. Nuno soube enfrentar com audácia e sapiência, é de suma importância que todos os leitores portugueses possam testemunhar e revigorar a virtuosidade e os valores que regeram a conduta do Santo Condestável perante as vicissitudes da sua vida, feitos militares, familiares, sociais e conventuais. Uma incitação literária para uma sociedade mais justa e fraterna. Um forte apelo para a dignificação da vida, de um melhor humanismo partilhado, através duma reflexão conciliadora de lealdade para com a identidade do país, que ajuda a responder aos desafios do tempo presente.
Apresentação a cargo dos seguintes membros:
Dr. Alexandre Patrício Gouveia – economista de formação, prestou consultoria a diversos Ministros e ao Gabinete do actual Presidente da República, Cavaco Silva. Empresário reconhecido e singular, que em paralelo, elabora a aliança sem mácula do homem com a História e com a cultura portuguesa – um excepcional impulsionador do nosso legado.
Isabel Ricardo – escritora ligada ao seu húmus natal, a Nazaré, e detentora de uma capacidade de manifestação da “alma colectiva”, que origina nos leitores a autoconsciência do nosso património e figuras activas da História de Portugal. Com mais de 20 títulos publicados para os leitores mais jovens, a sua expressão reflecte uma eloquência sóbria e depurada apoiada pela Planeta Editora, que publica os seus romances históricos de peculiar qualidade.

'Estás tramado, Pereira! o Carmo fica ao pé da FNAC Chiado!'

'Estás tramado, Pereira! o Carmo fica ao pé da FNAC Chiado!'


Poesia Portuguesa (30) – João Miguel Fernandes Jorge

Volta-se a João Miguel Fernandes Jorge, ao seu quinto livro, Turvos Dizeres, ainda na alvorada de uma obra poética sem ‘filiação’ nem ‘escola’, obra singular. Neste ano de 1973, neste livro (nesta bela edição do Círculo de Poesia da Moraes, com o inesquecível ‘sol’ de José Escada aposto em tarja negra sobre a capa em cartolina cor de cartão), já se encontravam os fundamentos do que o poeta nos daria: uma poesia contra a corrente, diferente, intransigente no seu programa estético, que apenas o tempo permitiu vislumbrar em toda a sua dimensão. O livro, dividido em cinco partes, começa com um conjunto de dez poemas sob o ante-título A Ilusão Veemente. É o primeiro poema que aqui se publica.

Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida

e nada sei sobre o Guadalquivir.

Nada sei das inundações arruinando searas pessoas

nada sei dos seus rápidos do infindável tráfego

que o homem vai remando para jusante.

Histórico traiçoeiro rio

(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.

Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.

Que me queres? Queria conversar.

Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.

Então fala-me do Guadalquivir.


Olhei apenas para as águas do rio (porque

me sentia tão só como o cão de Francis Bacon

entre uma esquadria vermelha).

Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.

João Miguel Fernandes Jorge, in Turvos Dizeres, p. 13, Colecção Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1973.

O rio, caligrafia da água-Quase memórias de África © Manuela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

O rio, caligrafia da água-Quase memórias de África © Manuela Rodrigues, Olhares, Fotografia Online

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Novos Poetas (41) – Liliana Jasmim

De novo Liliana Jasmim. Consecutivamente, na serialização ‘novos poetas’. Não é novidade, neste blogue. E justifica-se plenamente, dada a recente produção textual da autora. Tomando o tema da ‘Luz’, Liliana Jasmim escreve no seu blogue – O silêncio dos versos – uma sequência de textos (um octeto de fragmentos narrativos, seguido de dois poemas, o último dos quais se destaca. É um temática muito bela e difícil, inscrita numa tradição, aqui retomada, de redenção pela presença do Outro como fonte de ‘iluminação’. A tonalidade de prece reforça a carga dramática do poema que tem, a propósito, um dos melhores primeiros versos que li nos últimos tempos. O resto do poema merece-o.

Devora-me, luz que gritas na sombra!


Devora-me, luz que gritas na sombra!

Ilumina-me estas mãos feitas de pedra;

sangra os meus versos de amor e, tão

somente neles, deita-te para dormir.

Seguirei por estas linhas tortas,

para dançar junto à tua cintura;

dar-te-ei uma maçã, para abrirmos

num dia de Sol, e fecharei

todas as portas que a Morte abre

para receber o teu corpo.

Liliana Jasmin → O Silêncio dos Versos (blogue), 16 de Abril de 2009

Mov #3 (*) © José d' Almeida & Maria Flores, Olhares, fotografia online

Mov #3 (*) © José d' Almeida & Maria Flores, Olhares, fotografia online

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Sem Eira Nem Beira – os Xutos dominam…

Confesso, sim, sempre gostei dos Xutos & Pontapés. Não por os ter visto nascer (vi nascer coisas como os UHF, os Táxi, os Trabalhadores do Comércio, valha-me deus) mas pela inacreditável bojarda de energia com que aqueles putos começaram. As letras eram pobres? Batiam! O Tim cantava mal? O pessoal sentia aquilo! E bastou pouco, muito pouco tempo, para os Xutos terem criado duas coisas daquelas que ficam para sempre: um conjunto de canções maiores (Remar Remar, O Homem do Leme, Na América, Esta Cidade, Barcos Gregos, Direito ao Deserto, Sémen, designo apenas as que mais gosto); e uma iconografia única, como nunca ninguém fez em Portugal ao nível das bandas. Os Xutos são, hoje, trinta anos passados, uma marca transgeracional – basta olhar para o primeiro frame do video-clip para perceber a força da imagem que conseguiram gerar e, mais significativo, consolidar. Os espectáculos do grupo até se podem repetir um bocado. Mas são uma festa, o melhor que se faz no nosso país no domínio do Rock&Roll. Acomodados, os rapazes? Bem, ao lançarem o seu novo álbum, comemorativo de três décadas de carreira, os Xutos conseguem abanar, de novo, as águas, com o tema Sem Eira Nem Beira. E esta canção é uma bomba tão poderosa contra José Sócrates como um bom caso de polícia. Claro, como os rapazes não são parvos, um destes dias estão a tomar o pequeno-almoço com o sr. engenheiro.  Com um sorriso inapelavelmente simpático. E  letal.

Anda tudo do avesso

Nesta rua que atravesso

Dão milhões a quem os tem

Aos outros um passou – bem


Não consigo perceber

Quem é que nos quer tramar

Enganar

Despedir

E ainda se ficam a rir


Eu quero acreditar

Que esta merda vai mudar

E espero vir a ter

Uma vida bem melhor


Mas se eu nada fizer

Isto nunca vai mudar

Conseguir

Encontrar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a comer


É difícil ser honesto

É difícil de engolir

Quem não tem nada vai preso

Quem tem muito fica a rir


Ainda espero ver alguém

Assumir que já andou

A roubar

A enganar

o povo que acreditou


Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar

Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a foder


Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Mas eu sou um homem honesto

Só errei na profissão

(Refrão)