As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Fevereiro, 2009

O “romance perdido” de Jack Kerouac

O “romance perdido” de Jack Kerouac, The Sea is My Brother, escrito nos anos em que trabalhou na marinha mercante, vai ser publicado na íntegra pela primeira vez. Descrito por Kerouac como sendo uma obra sobre “a simples revolta de um homem perante a sociedade como ela é, com as desigualdades, a frustração, e a dor auto-infligida”, o manuscrito de 158 páginas foi o primeiro romance do autor. Não foi, contudo, publicado durante a sua vida. The Sea is My Brother faz parte de uma vaga de obras não publicadas desde o nascimento do ‘culto’ pelo autor, que só agora vão surgindo. Uma colaboração com William Burroughs, datada de 1945, And The Hippos Were Boiled In Their Tanks, foi publicada pela primeira vez em 2008. No ano passado também ocorreu a primeira publicação de Wake Up, datado de 1955, enquanto, em 2007, a versão não expurgada de On the Road foi publicada pela primeira vez. O manuscrito de The Sea is My Brother, juntamente com a “correspondência e comentários revelando o seu desenvolvimento como jovem escritor, incluindo a correspondência com o seu amigo e poeta Sebastian Sampas“, foi adquirida pela Harper nos Estados Unidos, segundo a Publishers Marketplace. A notícia é dada hoje (ontem) pelo The Guardian. Desconhece-se, é óbvio, qualquer iniciativa de publicação da obra em Portugal.

Jack Kerouac em Nova Iorque © Corbis

Jack Kerouac em Nova Iorque © Corbis

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W. B. Yeats, um poema

[post reeditado]

Tradução, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães, de um poema de W. B. Yeats, um amigo meu. Enviada por Amélia Pais, cara leitora atenta.


He Wishes for the Cloths of Heaven


Had I the heavens’ embroidered cloths

Enwrought with golden and silver light

The blue and the dim and the dark cloths

Of night and light and the half-light


I would spread the cloths under your feet:

But I, being poor, have only my dreams

I have spread my dreams under your feet

Tread softly because you tread on my dreams.


W. B. Yeats


Ele Deseja os Tecidos do Céu


Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,

Lavrados com a prata e o ouro da luz,

Os tecidos azuis e foscos e de breu

Que têm a noite, a luz e a meia luz



Estenderia esses tecidos a teus pés:

Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;

São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;

Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Wind Flowers, John Waterhouse

Wind Flowers, John Waterhouse

Poesia Portuguesa (27) – Pedro Tamen

Pedro Tamen (1934), poeta, eminente tradutor, professor, administrador de múltiplas entidades públicas e privadas ligadas à cultura, é um daqueles homens incontornáveis na segunda metade do século XX, a figura do ‘intelectual’ que surge no frutífero cadinho dos então designados ‘católicos progressistas’ (e da Moraes). A sua biografia/bibliografia – de excelente qualidade – pode encontrar-se aqui → (Pedro Tamen). Na revista Colóquio/Letras, 127/128, de Janeiro/Junho 1993, dedicada a António Nobre, Tamen, que era à época administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, editora da revista, publica este poema com António Nobre como tema. De assinalar que o excepcional número duplo da Colóquio Letras, de grande apuro estético e abundantes hors-texte (o meu exemplar apanhou água num dos cantos e está apropriadamente atacado de tísica desde então) tem sobrecapa e, ilustrações de Miguel Branco (1963), um pintor e escultor com uma linguagem única e inclassificável nas correntes de expressão plástica contemporâneas, que pode ser apreciada na imagem que ilustra este post (a referida sobrecapa, o tamanho engana, a pintura tem 19 x 24 cm, uma ‘miniatura, portanto) e contextualizada no comentário à sua obra → (da autoria de Nuno Faria).


NOBRE REVISITED

por

Pedro Tamen

Tão dlim, tão dlão,

tão coração,

tão rim.


(Ó meu poeta prejudicado

pela suavidade do portuguesismo,

pela saudade antes do saudosismo,

pelo sexo de só crucificado,


meu cor-de-terra quando foge

onde não há verdades verdes que despontem,

ó meu poeta que ainda tosses hoje

tendo nos olhos as olheiras de ontem!)

Março 93

Pedro Tamen, in Revista Colóquio/Letras, número 127/128, p. 15, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro/Junho 1993

Miguel Branco / Sem Título, óleo sobre madeira, 1992

Miguel Branco / Sem Título, óleo sobre madeira, 1992

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Quem Quer Ser Bilionário? – uma outra perspectiva

«Quem Quer Ser Bilionário?, de Danny Bolye foi o esperado grande vencedor da noite. Venceu as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Mistura de Som. No final da cerimónia, os elementos do elenco e da equipa técnica do filme invadiram, literalmente, o palco.» → sound + vision, blogue que faz um resumo dos acontecimentos da madrugada passada.

Muito bonito, de facto. Impecável cerimónia, plena de um encanto aggiornato aos tempos que se vivem, globalizado (Slumdog Millionaire) e liberal (Milk).

(Só tenho pena por Mickey Rourke, dividida pela satisfação por Sean Penn.)

E em Bombaim (agora diz-se Mumbai, parece), como será acolhido um filme como Milk?

     Vizinhos do actor Azharuddin Mohammed Ismail (Quem Quer Ser Bilionário') vêem a cerimónia dos Oscars em Bombaim, India © The First Post

Vizinhos do actor Azharuddin Mohammed Ismail (Quem Quer Ser Bilionário') vêem a cerimónia dos Oscars em Bombaim, India © The First Post

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Poesia Portuguesa (26) – António Franco Alexandre

O nome deste blogue nasceu de um fragmento de Oásis (1992) de António Franco Alexandre (n. 1944). Poeta muito cá de mim, particularmente o livro referido e Aracne (2002). Os dados biográficos, bibliográficos, os prémios, estão no link, não carecem de referência aqui. Poeta ‘classificado’ como difícil, estabelece, muitas vezes a partir de elementos temáticos relacionados com a natureza, uma ligação íntima entre o corpo, o amor, a escrita, numa textualidade geradora de uma intensa osmose, produtora de significações múltiplas, de grande riqueza imagética e poderosa carga emocional.

A UM PÁSSARO

Cristal de azul, chamado

pela canção das asas,

um novo dia pousa sobre as casas; tu,


coração, de pássaro fulgindo,

corpo do bem-amado

amor que abre na noite o arvoredo. em fogo,


oculto em luz, agora

quem dera ouvir a fábula, o enredo

a rede que nas horas se desprende.


em minha mão humana

não pousam, que passavam, os cantantes

nomes vivos das aves. erguer-me:


em claridade voas. terra

a nenhuma memória subjugada, chama

sulcando o ar, que fontes


de bruma incendiadas levantaram

a simples melodia do teu canto?

neve


alada,

ouvir sem voz o vivo vento, corpo

de melro ou cotovia ou nome absolto


no espaço de ar, a vibração da cor;

ou santo colibri, volátil signo;

ou palavra de cego acorrentado;


que luz, em tuas folhas, te deu sombra

e harmoniosa, passageira concha?

que livre amor te inventa, derradeiro


sinal da noite ardendo em meiodia? ou tu,

eternamente repetindo o instante

em teu cinzel de azul nos desejaste?


nenhum secreto nome, nenhum mito

te habita rouxinol ou sapo aflito

mas o sopro da aurora nas colina;


és, na ramagem, folha que contempla;

trapo de céu, ou rio que cegos vemos,

a transparência que o pudor vestiu.


António Franco Alexandre, in Revista Colóquio/Letras, número 76, p. 52, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Novembro de 1983.

Amber Marie Stifflemire, Blue Bird

© Amber Marie Stifflemire, "Birds of a Feather"

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Busca, busca…

Uma das benesses que me dá a existência deste blogue é a possibilidade de bisbilhotar o que as pessoas procuram, através dos “motores de busca” pesquisa essa que, sabe-se lá por que razão, as faz aterrar aqui. Na última semana fiz uma selecção das ‘pesquisas’ mais interessantes, dividindo-as (se tal é possível) em duas áreas: culturais e delirantes. Em cada uma delas, embora com a dificuldade que se pode imaginar, atribuí o Prémio As Folhas Ardem da Curiosidade Atrapalhada (PAFACA). Ainda há-de ser um evento de relevo, anual e transmitido pela RTP, com apresentação do Malato.


Pesquisas ‘Culturais’

publicar colóquio letras – Vamos lá a isso!

jonas, daniel email poeta – Desejo de contacto directo com a poesia?

literatura surda – Um género literário novo?

poesia coração dos bosques – A nostalgia do Lobo Mau.

o ano em que morreu poeta herberto hélder – Pesquisa previamente bem informada!

morte de herberto helder – É como a do Mark Twain…

j carlos poeta portugues – Todos os J Carlos são poetas. Somos um país de.

fernando assis pacheco não me fodas cor – O gosto de ler pode levar a excessos.

cesariny pintura mais conhecida – Não, não é a Gioconda.

1 quadro de matisse inesquecivel com inf – É como o poema do Cesariny.

poemas muitas vezes não vemos, ou não – Pesquisa especulativa.


E o prémio  PAFACA vai para:

capinhas para galão de agua – Isto não é uma pesquisa, é um poema.

Pesquisas ‘Delirantes’

falar verdade a mentir duarte citações – Pesquisa cifrada, vou passar ao SIS.

children playing – Ui!… vou mesmo passar ao DIAP.

no diva – Ou o género está errado, e vamos à Ópera, ou falta o acento e vamos..

coraçao nua – Outro poeta, sem preocupações com a acentuação.

mulher bonita de saia – Tão bonito…

bonito ser feio europa – Um eleitor à procura de critérios para votar nas europeias?

porque uma casa no campo? Sim? Porque?

texturas de cobertores antigos – Requintado.

portugal plastico barato alexandre – Outra pesquisa cifrada. SIS com ela.

mentir manuel esteves cardoso – Traz água no bico. SIS já.

quem eram maltecos – Sim? Quem eram?

escrava cezaria – Escrava Isaura? Cesária Évora?

dias de luta são dias de gloria – Uma excelente palavra de ordem para a CGTP.

obama sexo – Já começaram a querer tramar o homem. Passar à CIA.

E o prémio  PAFACA vai para:

depilação vela – Pesquisa onde a palavra ‘vela’ abre um mundo de especulações.

'falso rene magritte copos hic'

'falso rene magritte copos hic'

Poesia Portuguesa (25) – Sophia de Mello Breyner Andresen

De tão conhecida a sua obra, apeteceu-me publicar um poema singularizado, introdutório de O Livro do Nómada Meu Amigo, de Ruy Cinatti, poeta que aqui chegará. No poema, Sophia evoca o amigo ‘desaparecido’ em Timor, escreve em louvor da sua ausência. Uma ausência que provoca esperança, porque significa ‘não ficar’ para ‘Destruir com amargas mãos seu próprio rosto’. Leia-se: viver no sufocante mundo salazarista.

PARA RUY CINATTI

AUSENTE EM TIMOR E ALGURES

APÓS CINCO ANOS SEM NOTÍCIAS


Aquele que partiu

Precedendo os próprios passos como um jovem morto

Deixou-nos a esperança.


Ele não ficou para connosco

Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.

Intacta é a sua ausência

Como a estátua de um deus

Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.

Ele não ficou para assistir

À morte da verdade e à vitória do tempo.


Que ao longe,

Na mais longínqua praia,

Onde só haja espuma, sal e vento,

Ele se perca, tendo-se cumprido

Segundo a lei do seu próprio pensamento.


E que ninguém repita o seu nome proibido.

Janeiro de 1956

Sophia de Mello Breyner Andresen, poema de abertura, in, Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1981 (3ª edição).

'Entardecer' - Ilha de Jaco, Timor-Leste © Rita Leal, Olhares, Fotografia Online

'Entardecer' - Ilha de Jaco, Timor-Leste © Rita Leal, Olhares, Fotografia Online

Cristiano Ronaldo – uma outra perspectiva

Eu, num restaurante, à espera de uma amiga, almoço de trabalho. Pego numa revista tipo “news magazine” que agora nenhum sítio que é sítio dispensa. Entretenho-me com uma matéria sobre Cristiano Ronaldo, abundantemente ilustrada, a propósito de o rapaz ter ganho o prémio de “melhor jogador do mundo”. A minha amiga chega. O diálogo que se segue, é tão fiel quanto a memória me permite. Ou seja, reproduz-se aqui, na íntegra, com as palavras todas:

Amiga – Não sabia que gostavas de futebol.

Eu – Gosto um bocado. Mas é para me entreter.

Amiga(mirando, indolente, com olhos falconídeos, as páginas da revista) – Esse tipo é assim tão bom?

Eu – É. Com 18 anos já era um sobre-dotado. Depois foi para Inglaterra e aprendeu a juntar o talento com o sentido táctico, o jogo de equipa… (pausa enfática) De qualquer modo, se está em dia sim, ainda é capaz de agarrar na bola e ‘comer’ a equipa contrária.

Amiga(pausa enfática) – Pois. Se eu tivesse menos dez anos, quem o comia todo sei eu quem era.

O almoço, entretanto, começou.

'eu cá sou bom'

'eu cá sou bom'

Jacinta canta Songs of Freedom

“Depois de esgotados os seis primeiros concertos, Jacinta apresenta-se com Songs of Freedom em três novas datas. Num projecto inovador, Jacinta cria um espectáculo irreverente e absolutamente surpreendente, apresentando uma soberba simbiose do jazz com célebres temas dos anos 60, 70 e 80. De Ray Charles a U2, passando por James Brown, Nina Simone, Bob Marley, Beatles, Beach Boys, Stevie Wonder, Prince, Bee Gees e Bobby McFerrin, Jacinta – considerada a melhor jovem artista de jazz do continente europeu em 2007, no âmbito da iniciativa “O Melhor da Europa” – promete revelar todo o seu potencial enquanto intérprete, evidenciando-se a sua voz umas vezes portentosa, outras vezes sublimemente delicada e, sobretudo, a sua competência ao nível do swing. Neste regresso a um passado recente, a selecção dos instrumentos foi criteriosa, apresentando-se desta vez num formato minimalista com piano e saxofone. Evidenciam-se ainda os arranjos e as interpretações de Jacinta que oferecerão a este espectáculo uma lufada de contemporaneidade.”

Reticente embora à expressão “lufada de contemporaneidade”, (este é o texto do press-release), serve o mesmo bem para divulgar que Jacinta se apresentará de novo, no Teatro São Luiz, dias 26, 27 e 28 de Fevereiro. Não se perca, e anteveja(ouça)-se, nesta reportagem da SIC.

Novos Poetas (36) – Helena Carvalho

E, de repente, acontecem-nos descobertas assim. Entra-se na labiríntica casa da blogosfera, vagueia-se de quarto em quarto, passa-se por salas vazias, e de súbito deparamos com um espaço habitado. Pela poesia, neste caso. Por uma poeta, Helena Carvalho (1982) com pouca obra escrita – “não chega para fazer um livro“. Mas seguramente com muita escrita sedimentada antes da poesia (narrativa e ensaística); e muito boa leitura assimilada. O poema, publicado pela autora sob o pseudónimo de Dissonantia, intitula-se meta-texto. Justo título, pela construção em estrofes (quase) repetidas que se transformam em matéria poética pela pergunta meta-textual que as intercala. Mas, se fosse apenas um jogo construtivo, o poema seria consideravelmente menor do que na realidade é; adquire fôlego pela sistemática utilização de paradoxos, hipálages e imagens surrealizantes, de novo desconstruídas, parodicamente, nos três versos finais. A autora tem publicados, no seu blogue, A Luz da Noite, outros poemas, de uma forma geral marcados por um lirismo ácido, desencantado, de uma desenvoltura que se assinala. Pode Helena Carvalho tornar-se numa autora de escrita maior? Possivelmente. Certamente merece ser lida e seguida.

meta-texto

As pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes nadam.

Nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.


Que quer este poema exprimir?

Qual o seu sentido meta-textual?

Exactamente isto:


Que as pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes voam.

Que nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

e quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.

Errata: sendo do senso comum que os peixes não nadam

na terceira linha do poema deve ler-se

“onde os peixes saltam à corda”.

Dissonantia (Helena Carvalho), Terça-feira, Setembro 16, 2008, via → A Luz da Noite

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

Minguante – micronarrativas online, nº 13

Em post editado a 17 de Janeiro dei conta da existência da revista online de micronarrativas Minguante, divulgando alguns textos do número zero por minha conta e risco, uma vez que havia solicitado aos responsáveis autorização para o fazer, sem ter obtido resposta. Ela veio, de pronto, amável e esclarecedora de um simples mal-entendido, permitindo-me a transposição, para este blogue, de dois ou três textos de que tenha gostado mais em cada edição. Na sexta-feira, dia 13, saiu a edição de Fevereiro, justamente com o número 13 (na realidade são já 14, contando com o tal zero). Tema: a Superstição! A desigualdade qualitativa dos textos ainda é significativa – e um pouco inevitável, com a presença de mais de seis dezenas de autores, portugueses, espanhois, brasileiros. E o tema não se presta a facilidades. Escolhi três autores, o último dos quais pela sua correcção e destreza narrativa, admirável numa rapariga de 15 anos, Rita Avelar, de Ferreira do Alentejo. (Agradeço aos responsáveis da Minguante, na pessoa de Luís Ene, e deixo-lhes uma palavra de encorajamento na continuidade e evolução qualitativa da revista.)

Minguante nº 13. 'Superstições'.

Minguante nº 13. 'Superstições'.

Fernando Gomes

A passagem do tempo

Acabara de sair da consulta à cartomante. As infalíveis cartas garantiram-lhe que viveria ainda muitos anos. Ao atravessar a passagem de nível, uma fracção de segundo antes de ser trucidada pelo comboio das onze e vinte e dois, só teve tempo de pensar como o tempo passa depressa.

© Guilherme Limas, olhares, Fotografia Online

© Guilherme Limas, olhares, Fotografia Online

Mário Calado Pedro

Do espírito da contradição

Não pode fazê-lo – mesmo que o quisesse, que não quer. Mas acima de tudo, não o deve fazer. E é por isso mesmo que fará tudo para o fazer.

A alma dos mortos

Com o cano da arma apontado à cabeça, disse ao bandido: Cuidado com alma! O bandido riu-se com desplante e contou-lhe que já a não tem: Vendi-a por bom preço! Sim, disse ele, mas cuidado, porque te pode voltar. Já estarei morto nessa altura, prometeu o bandido rodando a arma na sua cabeça. Exactamente por isso, disse, não há nada pior que estar morto e ter alma…

Esta merda

Esta merda não é minha, não pode ser, não me cheira, pensou. Olhou melhor. Mas pelo aspecto não conseguia perceber: pequenas bolas comprimidas num rolo, típicas da prisão de ventre… As nossas fezes têm sempre cambiantes muito diferentes. Mas o cheiro… Não me cheira à minha merda, disse para si próprio. É que o que fazemos, não é que cheire bem, mas tem um cheiro confortável, um doce-quente que o nosso nariz reconhece como amigável… Definitivamente, esta merda não é minha, desabafou. Limpou o cu e saiu assustado.


© Pereira Lopes, Olhares, Fotografia Online

© Pereira Lopes, Olhares, Fotografia Online

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Rita Avelar

Quando era pequena dizia sempre à mãe que não acreditava nas histórias de fantasmas que os meninos lhe contavam na escola. Agora sabia que a palavra certa era supersticiosa. Não era supersticiosa. No entanto, a vida muda tanto como o tempo ao longo do ano.

Encontra-se sentada no sofá com o copo de whisky do costume sobre o colo, e olhar fixo no espelho à sua frente. Vê uma mulher de 37 anos com aparência de 50. Agora, a sua vida está de tal forma minada de problemas que já não acredita em quase nada. O marido partiu de malas nas mãos faz hoje uma semana. A mãe morreu há dois meses. O irmão está em Paris a estudar, e as amigas evaporaram-se tão rápido como o álcool do bar da casa. Finalmente decide-se a pegar no papel da direcção da casa, nas chaves do carro e a sair.

O dia está nublado, como a sua alma. Não foi difícil chegar ao destino. Entra, expectante, no edifício e sobe até ao andar referido no panfleto. À sua espera está uma senhora carismática, cheia de energia, cabelo negro e pinturas faciais exageradas, com um baralho de cartas de tarot na mão.


© Marko Ferreira, Olhares, Fotografia Online

© Marko Ferreira, Olhares, Fotografia Online

Valentine’s Day – Tom Waits

Tom Waits, num programa de televisão desconhecido, em data desconhecida. Ah, mas a canção é Take Me Home, do One From the Heart, filme do meu coração. História tão banal, tão simples, rapaz ama rapariga, os dois descompassam, conhecem cada um um outro, ‘apaixonam-se’, hão-de voltar aonde os afectos mais fundos moravam. Frannie (Teri Garr) pede a Hank (Frederic Forrest) que pedirá a Frannie. Pedidos desencontrados que se encontram. A banda sonora de Tom Waits (acompanhado, na interpretação, por Crystal Gayle, que canta o tema) é pelo menos tão bela como o Do Fundo do Coração. E esta canção excepcional, com uma letra tão básica, uma melodia tão simples, é aquela que me lembra sem falhas a grandeza absurda da parvoíce que é o amor.

Escrito de madrugada. ‘Ainda’ é dia 14 de Fevereiro, data sem qualquer significado, mas que nunca esquecemos graças à tv, internet, jornalinho e publicidade.

take me home

you silly boy

put your arms around me

take me home

you silly boy

all the world’s not round without you


I’m so sorry that I broke your heart

please don’t leave my side

take me home

you silly boy

cause I’m still in love you

– Tom Waits

Poesia Portuguesa (24) – Gastão Cruz

Fora de tempo (parece ‘estatuto editorial’), aqui se refere que na quarta-feira, dia 11, Gastão Cruz venceu o Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, este ano dedicado à poesia. Aqui se deixa um poema do livro a que foi atribuído o galardão, A Moeda do Tempo. E o link para o evento literário, que este ano comemora a sua 10ª Edição, e adquire, na Póvoa de Varzim, uma importância muito significativa no panorama dos eventos literários em Portugal.

NO SOL

Irás achar que foi um erro e foi

um erro, que nada se passou

e na verdade nada acontece nunca

de verdade: a verdade seria


eterna e o acontecido pertence

aos eclipses do tempo precipícios

em que depois da morte ficam vivos,

como se o não estivessem, os momentos


caídos;

foi isso um erro porque nada existe

nem nós, já ao império das vagas

submetidos,


porém na praia oblíqua onde estivemos

permanecer no sol foi tudo o que quisemos


Gastão Cruz, A Moeda do Tempo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.

Por do Sol Praia Faro © Paulo Alexandre, Olhares, Fotografia Online

Por do Sol Praia Faro © Paulo Alexandre, Olhares, Fotografia Online


Outra Pietá – Jan Saudek

Jan Saudek nasceu em Praga em 1935. Quando muito jovem, ele e um irmão estiveram colocados num campo de concentração nazi e donde só por sorte conseguiram escapar às experiâncias de Josef Mengele. Saudek, que usa a fotografia como forma de expressão, foi um dos primeiros fotógrafos checos a ser conhecido no ocidente, o que lhe valeu a suspeita do governo checo até aos anos 80. As suas fotografias, inicialmente a preto e branco e, mais tarde, a cores, giram em torno da sexualidade e da relação entre homens e mulheres, velhice e juventude, vestuário e nudez. Em geral, adopta uma abordagem antagonista para alcançar poderosos efeitos pictóricos. Sem artifícios, a fotografia de Saudek penetra na plenitude da vida. A sua linguagem directa foi rápida e vivamente aclamada no mundo da arte. (fonte: http://oseculoprodigioso.blogspot.com/, onde pode ser visualizada uma galeria do autor.)

Pietá, Jan Saudek (1997)

Pietá, Jan Saudek (1997)

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Poesia Portuguesa (23) – Eugénio de Andrade

Aproximava-se o final da produção do poeta, com “Sal da Língua“. Eugénio de Andrade mergulhava na infância. Aproxima-se da criança que nele habita como quem se abeira da morte.


No fim do verão

No fim do verão as crianças voltam,

correm no molhe, correm no vento.

Tive medo que não voltassem.

Porque as crianças às vezes não

regressam. Não se sabe porquê

mas também elas

morrem.

Elas, frutos solares:

laranjas romãs

dióspiros. Sumarentas

no outono. A que vive dentro de mim

também voltou; continua a correr

nos meus dias. Sinto os seus olhos

rirem; seus olhos

pequenos brilhar como pregos

cromados. Sinto os seus dedos

cantar como a chuva.

A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade, Sal da Língua Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1995.

© António Félix, Olhares, Fotografia Online

© António Félix, Olhares, Fotografia Online

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Sócrates e a auto-vitimização

A auto-vitimização e desculpabilização como reflexo da desresponsabilização individual – Uma pessoa (…) simpática e afável, mas com uma deflação de auto-estima proporcional a uma autocentração e um egoísmo quase patológicos, elege sempre os outros como bodes expiatórios dos seus problemas, das suas próprias atitudes menos próprias, da sua irresponsabilidade pessoal, transformada, ulteriormente, em atitudes depressivas de auto-desculpabilização e vitimização. (…) Isabel Metello.

No Público online, após ter visto o resumo do debate parlamentar de hoje: “Está em condições de garantir ao Parlamento que não há qualquer interferência nem qualquer condicionamento dos serviços de informações sobre investigações criminais em curso?“, perguntou Paulo Rangel a José Sócrates hoje, no Parlamento. A pergunta é legítima, e colocada em sede própria. O primeiro-ministro qualificou de “insultuosa” a pergunta de Paulo Rangel. “O senhor deputado é que utiliza esses truques e essas tácticas, de quem quer trazer a questão do Freeport, dos serviços de informações para o debate na Assembleia da República. Faço-o frontalmente, faça-o com coragem“. Mais que as palavras, o tom em que falou Sócrates fez-me lembrar (inesperada reminiscência) o meu colega de escola primária que, depois de ter atazanado os colegas no recreio, chegou à aula e fez queixa à professora, perante toda a turma, por ter levado uma canelada. Levou uma palmada. “Queixinhas, vá-se sentar e esteja calado“, disse-lhe a professora.

Receio que os nervos do homem não andem bem. É natural. Representar aquele papel todos os dias deve cansar muito.

'It is an injustice. Yes it is!'

'It is an injustice. Yes it is!'


Poesia Portuguesa (22) – Adília Lopes

Este poema conversa comigo, com a voz familiar do quotidiano. Os toques do quartel, os sinos dos Anjos, a Rua José Estêvão, ao pé do D.ª Estefânea, onde a pé passo, a caminho de. Vejo-a às vezes, à Adília Lopes. Olhos fixos no caminho, virados para dentro, um pouco rapariga, um pouco idosa. Palavra de honra se ela não ia a pensar exactamente neste poema, um destes dias de folhas de choupos caídas no chão. É meu vizinho de vida, este poema.

MÚSICA DA RUA JOSÉ ESTÊVÃO, EM LISBOA

O portão do Pátio do Duarte

Os toques do quartel

O sino dos Anjos

Os pardais

As folhas dos choupos

*
Foi bom não me ter casado. Não tenho cabeça para outra cabeça.

Adília Lopes, in Telhados de Vidro, n.º 11, Averno, Lisboa, 2008.

Largo de D.ª Estefânia, Lisboa

Largo de D.ª Estefânia, Lisboa


Os ‘meus’ Blogues – irmaolucia

Escrever um blogue não será exactamente um exercício de verborreia regular, onde o autor ou autores desabafam pensamentos definitivos sobre questões muitas vezes excessivamente passageiras. Ou será. Não entendo assim, defeito meu. Tal como não compreendo bem a lógica de copy/paste, o exercício de partilha do diário que deveria estar fechadinho com um cadeado, a trincheira para guerrilhas pessoais com um vastíssimo número de interessados que se esgota nos próprios, o anonimato que tantas vezes esconde o faccioso. Na magnífica plataforma de expressões plurais que a blogosfera permite, muitas são as modalidades possíveis para os autores darem forma ao desígnio a que se propõem: fazer ouvir, num meio que tem recursos comunicacionais cada vez mais vastos, a sua singular (plural) voz,  para ser visto. Escutado. Lido. É essa a vontade que está na origem de um blogue. Mas a ideia de ter um auditório e correspondente público implica que se tenha uma ideia discursiva. Ou melhor, anterior a ela, uma identidade (mesmo que fragmentada, questão identitária que nos levaria longe).

Entendo o blogue que escrevo como um lugar de partilha das coisas que me espantam, dão prazer, gozo, ou suscitam por vezes a ironia. Mas sobretudo um lugar de encontros, onde se podem cruzar, casualmente (a norma é tantas vezes essa casualidade ter um sentido) a cintilação de um poema com o relâmpago de uma imagem; o fulgor de um texto com a doçura de uma alfinetada no traseiro da idiotice. Aqui é um lugar de conjugações, portanto. De acasos que não são por acaso. Lugar de partilha do prazer. Da uma ética da beleza (não escrevi ‘do bonito’, está bem?).

Ontem editei um poema de Nuno Júdice. Apetece-me pensar que não foi por acaso que me chegou às mãos. Tal como não foi por acaso, que, mal o publiquei e dei uma última olhadela a alguns blogues, tenha ‘tropeçado’ neste post de um blogue que muito estimo, o irmaolucia (assim mesmo), um dos mais amados na blogosfera, aposto. O autor, Pedro Vieira, é um ‘blogger’ (como raio se escreve autor de blogue?) por definição. Ou seja, ele próprio se encarregou de alargar conceptualmente a ideia de blogue, com a mão notável para os títulos, para o post curto e tantas vezes letal, outras tantas paródico, intercalando o registo pessoalíssimo com um olhar ácido, irónico, terno sobre o quotidiano; concebendo as suas próprias ilustrações – que resultam, as dele, neste meio como em nenhum outro. Aliás, não imagino o irmãolúcia de Pedro Vieira fora da blogosfera, ao contrário de muitos que escrevem o blogue nosso de todos os dias a pensar na primeira edição em papel.

Ontem, dizia, editei o poema Lusofonias, de Nuno Júdice. Nem dez minutos haviam passado quando deparei com este post. Ora venham lá dizer-me se o acaso não produz o encontro. E se o resultado da simultaneidade não é poético!

*

bica a metro

Há um tipo de local que me repugna/fascina pela cidade fora, mais concretamente os quiosques/cafés da Sical, em tons de vermelho e ocres, mergulhados no metro/politano, cheios de gente mas tão vazios, corpos carentes de cafeína mas também de um ombro consolador que ali não se encontra. Incrível a quantidade de gente de cara fechada que ali ruma em busca do abatanado, da italiana, do galão claro e morno, há vidas assim, da bica cheia, do garoto, do diabo a sete e mais um queque de cujas moléculas suspeito imenso, as merendas que podem ser de maçapão ou folhadas na voz de uma especialista que ouvi aqui há dias, todas reluzentes debaixo da luz fluorescente do balcão, a natureza não produz coisas assim, que luzem e que se trinquem na companhia de cegos, migrantes, passeantes, aleijados e trabalhadores de outros comércios, executivos de casta baixa, mochileiros, e esfomeados de ocasião mortinhos por uma vida mista, o queijo e fiambre a desafiar pelo menos a penumbra dos dias. Nos quiosques/cafés da Sical há gelados da Maxibon, bolos instantâneos, empregados que enfiaram a palavra sorriso num paradeiro desconhecido, e sente-se um frio que as paredes decoradas em motivos quentes, africanos, não disfarçam, a preta ilustrada de lenço na cabeça e moldura de fancaria tem mais vida do que aqueles microscosmos em que até as migalhas brilham, ali, aos pés dos incautos. E as migalhas não é suposto brilharem, foda-se.


Leia-se o post na sua origem, com os comentários que suscitou. Para o caso de alguém não conhecer o irmaolucia, o que duvido.

'num café perto de si © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

'num café perto de si' © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

(não é Sical, mas não fica mal)

Poesia Portuguesa (21) – Nuno Júdice

Devo ao conhecimento e amor pela poesia de pessoa amiga (que nunca vi, mas assino de cruz o adjectivo) a surpresa deste poema. Nuno Júdice comprova, com um belíssimo golpe de asa cheio de ironia, que o acto poético, mesmo na sua expressão contemporânea (por vezes tão marcada pelo signo da ‘gravidade’) a fina ironia se pode conjugar com um domínio superior da escrita, para produzir resultados de fruição e, por que não dizê-lo, da diversão. É uma bela alegoria esta, que se estabelece a partir da semântica das palavras ainda não uniformizadas, graças às idiossincrasias das diferentes normas do português e os anónimos cafés sem mesas do nosso quotidiano.

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto

alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este

poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra

rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,

terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,

a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga

que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não

fique estragada para sempre quando este poema atravessar

o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo

sem pensar em áfrica, porque aí lá terei

de escrever sobre a moça do café, para

evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é

uma palavra que já me está a pôr com dores

de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria

era escrever um poema sobre a rapariga

do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a

escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se

pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.

Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008

Nighthawks © Edward Hooper

Nighthawks © Edward Hooper

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (3) – África deles

Das 120 fotografias que a edição online do Boston Globe (boston.com) publicou como reflexos (e reflexões instantâneas) para uma visão do ano de 2008, selecciona-se ainda esta. O que impressiona, por muito socialmente incorrecto que seja dizê-lo, é o carácter primitivo extremo desta ‘arte da guerra’, o ataque em horda, como se milhares de anos de civilização (sim, a civilização exprime-se, também, na guerra) não tivessem passado por ali no Quénia Ocidental.

Maasai warriors cover a battle field as they clash with bows and arrows with members of the Kalenjin tribe in the Kapune hill overlooking the Olmelil valley located in the Transmara District in Western Kenya on March 01, 2008. The Massai, the Kalenjin and the Kisii tribes have recently clashed over ongoing land disputes that erupted after botched local elections during the general elections held in Kenya in December of 2007. Over twenty warriors from the tribes have been killed in bow and arrow battles near the borders of these tribes in the last couple of months. (Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images)

Maasai warriors cover a battle field as they clash with bows and arrows with members of the Kalenjin tribe in the Kapune hill overlooking the Olmelil valley located in the Transmara District in Western Kenya on March 01, 2008. The Massai, the Kalenjin and the Kisii tribes have recently clashed over ongoing land disputes that erupted after botched local elections during the general elections held in Kenya in December of 2007. Over twenty warriors from the tribes have been killed in bow and arrow battles near the borders of these tribes in the last couple of months. (Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images)

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