As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Agosto, 2011

Herberto Helder — Poemacto II

 

 Produção de imagem por Cine Povero; música de Rodrigo Leão; poema dito por Herberto Helder.

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

– Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
– Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como direi? –
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder, Poemacto II

 

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Daniel Faria — Amo-te no Intenso Tráfego

 

 

Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

 

Faria, Daniel, Dos Líquidos, 2003: Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2003.

 

Daniel Faria (composição fotográfica)

António Lobo Antunes — Zé (crónica)

Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas.  Andaste à pancada com o inspector da Pide para defender os soldados, e pelo facto de ele ter recusado colocar os seus mercenários no rebenta minas sentaste tu ao lado do condutor. Quando a mina rebentou bateste o recorde do mundo do salto em cumprimento e do salto em altura, os dois ao mesmo tempo, que não foram homologados por terem sido feitos com a ajuda de uma explosão favorável. Andei às voltas com o teu pé em papas e sobreviveste, mas África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, a roer-te, e deu-te cabo da vida. Como oficial e como combatente eras duro mas o teu pelotão adorava-te. Tinhas um ascendente natural sobre os subordinados, que sempre defendeste com uma intransigência absoluta. Eras corajoso. Eras terno. E, meu malandro, eras bonito que te fartavas, foste sempre bonito. Usavas o quico no alto da cabeça, como se não te pertencesse, e quando ia visitar-te ao teu destacamento era uma festa de abraços debaixo daqueles eucaliptos enormes, onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeados de inimigos e cães. Nunca discutimos porque era impossível discutir contigo: tinhas uma maneira irresistível de te fazer perdoar e eras, apesar de duro, de uma infinita bondade, generoso e doce. Sempre me surpreendeu como estes sentimentos, tão contraditórios, coexistiam harmoniosamente em ti. Passaste meses isolado por independência de espírito e desejo de liberdade, onde a garra tonta do comandante não podia alcançar-te. E depois a mina. E depois o resto. E depois a serena valentia com que aguentaste tudo. Os eucaliptos do Cassa, meu Deus. A raiva. Os soldados de tronco nu com a G3 no braço. Lembrei-me tanto disto agora ao lembrar-me, entre lágrimas, de ti. Até os lençóis de metal te destruírem almoçávamos de quinze me quinze dias e chagavas sempre primeiro com o teu sorriso, o enrolar dos teus cigarros e a dignidade de um imenso sofrimento intimo de que não falavas nunca, que tentavas não mostrar a ninguém mas que nós, oficiais teus camaradas, entendíamos dolorosamente, o Nini, o Boaventura, o Zé Luís, tão duros como tu e da mesma coragem sem vaidade. Graças a Deus que tive companheiros como vocês, que tenho companheiros como vocês. E tu foste para nós um eterno motivo de preocupação porque uma parte tua havia desistido de viver

    (apesar do sorriso)

    e outra se ia destruindo lentamente. Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. Mas, juntos nos nossos almoços, somos alegres, partilhando a felicidade de estarmos juntos e separando-nos a contra gosto porque as pessoas têm de trabalhar, não é, porque não somos ricos, não é, por isto por aquilo. Marcamos o novo almoço e afastamo-nos uns dos outros como quem rasga bocados de si mesmo. Zé, eu não sei muito bem o que dizer agora. Sei que não queria que a tua morte tivesse acontecido. Que sinto a tua falta. Que continuo a ver-te chegar ao aviãozeco para me receberes, com uma forma de pegar na arma que nunca notei em mais ninguém como se a G3 nas tuas mãos fosse uma coisa maleável e doce, com não sei quê de mulher. E os eucaliptos por cima de nós falando, falando. E o rio. E o cheiro da terra. E o teu braço a acenar. O teu irmão pediu que falasse na Basílica, junto ao caixão. E eu com tudo isso dentro de mim, a gaguejar. De repente a certeza de ter voltado anos atrás e nós, quase meninos julgando-nos homens, nas Terras do Fim do Mundo, desamparados, a marcarmos cruzinhas nos calendários a cada dia que passava. Lembro-me do Ernesto Melo Antunes, quando morreu o primeiro soldado da sua companhia, me dizer com uma expressão que ficou gravada em mim a fogo

    – Tinha jurado a mim mesmo que os levava a todos de volta –

e não era possível, Ernesto, e mesmo que fosse possível metade de nós ficou lá para sempre: a nossa juventude, os nossos projectos, a nossa alma manchada de sangue e de terra. Não vou descrever horrores, não vou contar nada. Não é possível. Não consigo.

Era um fardo pavoroso.

(perdão é um fardo pavoroso)

    que continuamos a carregar juntos e falta-nos o teu ombro para nos ajudares a aguentar aquilo. É difícil prosseguir sem ti, nosso irmão, nosso amigo, nosso companheiro, nosso cúmplice: nosso camarada. Havia entre nós a intimidade única da dor partilhada. Eras um dos nossos e cada um de nós, um dos teus. Lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e o nosso camarada lá dentro. Ao telefonarem-me a dizer o que tinha acontecido gritei

    – Não

    eu que quase não grito. Custa a ideia de habituar-me a não tornar a ver-te, os teus cigarros enrolados, o teu sorriso. E no entanto é isso que melhor guardo de ti, que guardarei de ti: o teu sorriso. Esse ficará para sempre comigo, para sempre connosco. Boaventura, Nini, Zé Luis: somos só quatro já. Mas o teu sorriso há-de continuar e podemos estender as mãos para ele, a aquecer-nos quando houver muito frio. E desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso para a gente.

António Lobo Antunes, Visão, 4 de Outubro de 2007

Imagem digitalizada por Zé Teixeira. Alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.

(clique para ampliar)

Alexandre O’Neill — epitáfios

No dia 21 passaram 25 anos sobre a morte de Alexandre O’Neill. Passar é, no caso vertente, a palavra-chave, já que o escritor a ela se refere, em ligeira e divertida crónica a propósito de epitáfios. Uma vez que os textos elegíacos já estão todos (não) escritos, transcreve-se aqui o texto de O’Neill sobre epitáfios, assunto que, como se sabe, se presta a préstitos tanto quanto a humor.

   Coleccionar epitáfios pode muito bem ser uma suave tarefa estival. Além disso, avizinhando-se o Outono e, com ele, a rentrée (salvo seja), convém que se tenha à mão um sortido, tão variado quanto possível, dessas frases rotulares (rupturas…) que os vivos gostam de imaginar que vão ter na tampa depois de mortos… Incito, pois, os leitores — à falta de uma* Grande Concurso Nacional de Epitáfios, que a imprensa podia muito bem, e muito a tempo, promover — a demorarem-se na salutar meditação sobre a gravidade e a densidade dessas curtas frases definitivas que nos olham nos olhos e que, afinal, são de vivos que nos falam através dos mortos.

    Um, que não foi premeditado, antes produto do acaso objectivo, resume-se na palavra OSTRAS, aposta no vagão selado onde viajou de* Alemanha para a Rússia o cadáver de Tchecov. O supremo ironista não desdenharia uma cottage desta categoria…

    Num plano mais vulgar, temos aquele que podia muito bem ser criação nossa, mas que nos chegou do Brasil:

    Aqui jaz

    Bento Bexiga

    Que acendeu um fósforo

    Para ver se tinha gasolina

    No depósito do seu carro

    e… tinha mesmo!

E, requintando agora um pouco, aquela fustigação que a Igreja nos faz constantemente para que nos lembremos que não passamos de um barro vil:

    Nós, ossos que aqui estamos,

    Pelos vossos esperamos.

Donde Mello e Castro, o mais importante, *não dizer o único, concretista português, podia muito bem tirar um grafismo eloquente:

    v’ossos

Sem cair no artificialismo da Antologia de Spoon River, mais jogo de comadres que jogo de epitáfios, acrescento a esta primeira amostragem o célebre:

    Aqui jaz

    Mark Twain

    Que sempre disse que isto havia de acontecer

E termino (por agora…) com o ainda mais célebre epitáfio stendhaliano, que um piedoso amigo romancista acabou por estragar com a mania da literatura:

    Arrigo Beyle

    milanês

    Escreveu. Viveu. Amou.

    Viveu, amou, escreveu — era a sequência pensada e escrita por Stendhal, grenoblês que, mesmo depois de morto, queria homenagear a cidade que mais amou: Milão. Porém, o primado da literatura viria, como sempre, deitar tudo a perder…

O’Neill, Alexandre, Luta, 3, Agosto, 1976, in Coração Acordeão, Lisboa: O Independente Global e Assírio & Alvim, 2004

ilustração de André Carrilho para a capa do livro


* transcrito como no original (prováveis erros tipográficos)

   página da D-G LB sobre Alexandre O’Neill

   página de André Carrilho

Al Berto — Corpo

 

Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia de Marta Streng (D.R.)

Vasco Graça Moura — [rondó da escrita]

 

no que escrevi me traduzi

e traduzi outros também

e traduzindo me escrevi

e a escrever-me fui eu quem

 

das várias coisas que senti

fez sofrimento de ninguém.

depois risquei, depois reli

e publiquei: assim porém

 

havia sempre mais alguém

para o chamar então a si,

também vivendo o que menti

mas como seu, mas como sem

 

ter sido meu o que escrevi

fosse por mal, fosse por bem.

é sua a vez. e que mal tem?

no que escrevi sobrevivi.

 

Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001

 

fotografia da série «Architect's Brother», © Robert and Shana ParkeHarrison

 

   página sobre Vasco Graça Moura

   página de Robert and Shana ParkeHarrison

 

 

Ana Luísa Amaral — Biografia (curtíssima)

Biografia (curtíssima)

Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas

(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)

Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:

pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão

Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?

O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:

vestidos por tirar,
camadas por cumprir:

e mais:
imperfeição

 
Amaral, Ana Luísa, Inversos, Poesia 1990-2010, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

 

«Good Appetite», saabie © saabie, Deviantart (D.R.)

   Página sobre Ana Luísa Amaral

Margarida Vale de Gato — Há-de ser pelo meio da pele que se começa

 

Há-de ser pelo meio da pele que se começa

(dialogo em verso, adaptado de texto dramático em curso)

 

Queiramos florir. Tenho um botão a brotar,

Uma pétala da tua casca corroída,

Gostava de tocar-lhe e untá-la de manteiga

Comer-me? Encostar-te à face derretida.

Serias quente se te tocasse, ou meiga

Ou viscosa. Não importa, É mais fundo

trocar de pele do que tocá-la. Cercear

o cordão do desejo, o impulso da ternura.

 

Nem ventre, entranhas, seios, muito menos olhos;

há-de ser pelo meio da pele que se começa

Esfolada, curtida, envergada às avessas!

O inverso é um truque fácil, que não colhe…

Então quê? Então isto [acto à escolha]

Deixa marca? A intenção não era essa

Deixa marca? Deixa que embeba e humedeça.

Sinto que escorre nos pêlos que se molham.

 

Devemos esquecer, despovoar o mundo,

E isso inclui os pêndulos e os afectos.

Mas há uma anamnese da pele e da sutura,

E há sonhos que empurram como água. Estas

coisas, usemo-las para desmanchar os véus

que os sentidos usam para ligar objectos.

Aceitemos, um e outro, esvaziar os gestos

Até voltarmos de ventas à torneira de Deus.

 

Gato, Margarida Vale de, revista INÚTIL número 3, Novembro de 2010

 

«pain», v, © v, Deviantart (D.R.)

   Artigo de Pedro Mexia sobre «Mulher ao Mar» (primeiro livro de poesia da autora), originalmente publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público de 7 de Maio de 2010, via blogue (cerc)ARTE.

   blogue da Revista INÚTIL

Nuno Júdice — Fotografia

 

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase que lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.

 

Júdice, Nuno, revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

 

Eugène Atget, (s./t.), 1925

(clique para ampliar)

  página sobre Nuno Júdice

  página sobre a fotografia de Atget

  blogue da Revista INÚTIL

Hugo Milhanas Machado — Um Ano Sem Luz

 

 

UM ANO SEM LUZ

 

Se trazia madeira e era um barco me dirás

não lhe sabia afinal a palavra e um ano sem luz

e trinta ruas e outras poucas letras mas tristes

 

tanto faz se trinta ruas ou trinta palavras quando

é noite feita e se falavas eu era tarde eu era tal

pois nunca se disse e dizendo no peito falando

 

nenhuma outra coisa que não do peito falando

era haver luz a ver um ano sem luz e um sol tal

trinta ruas e não haver ruas e era um barco afinal.

 

Machado, Hugo Milhanas, Clave do Mundo, Lisboa: Sombra do Amor Edições, 2007

 

«Code», Giorgia N. © Giorgia N., via Deviantart (D.R.)

Gonçalo M. Tavares — Atravesso em corrida as ruas

Atravesso em corrida as ruas

E tropeço: caio no chão.

            Levanto-me, chego a casa.

A minha mulher diz-me:

— Estás sujo.

            Respondo:

                        — De Deus.

 

Tavares, Gonçalo M., 1, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p.27.

«nuca», Gérard Castello-Lopes (D.R.)

  blogue de Gonçalo M. Tavares

   Gérard Castello-Lopes no blogue da «Associação Portuguesa de Photographia»

A.M. Pires Cabral — Motes e Voltas

Festeja-se hoje o aniversário de A. M. Pires Cabral com a transcrição desta suite, que tem como referência um poema de Rilke, do qual que se apresenta alheia proposta de tradução no final do post.  Questionar o absoluto do tempo, definir uma ética sem cedências perante as contingências do tempo.

Herbsttag

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.

Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.*

Reiner Maria Rilke

1
Senhor, vão sendo horas.
Sei bem que o teu relógio
não tem de regular-se pelo meu
nem a tua vontade pela minha.

Mas é justo que seja aquele que sofre
do tempo os enxovalhos
a dizer quando vão sendo horas —

e não tu, Senhor, com quem
o tempo não colide
(decerto porque tu mesmo és o tempo
ou a ausência dele,
e não podes portanto avaliar
quando se nos torna o peso do Verão
desmedido, funesto, vexatório.)

2
Como foi longo o Estio. Como se demorou
o Sol nas coisas com cínica indiferença
própria dos deuses.
Como o Sol crestou a erva, a pele.

É tempo de vento à solta nas campinas.
Entorna, Senhor, o bálsamo das sombras
sobre o quadrante dos relógios de sol
e sobre tudo o mais que o Verão escaldou.

Que vigorem as trevas, chuva e frio
com que se tece
o branco lenço da melancolia.

3
Estão colhidas, derramadas
na sua cama de palha,
as maçãs que hão-de perfumar a casa
no Inverno avesso a cheiros.
O vinho já ganhou
doçura e perfídia quanto baste.

Estas são, Senhor, as minhas provisões
para os dias de Estio que aí vêm.

4
Eu fiz a minha casa com uma pedra
que me deste. Usei a tua madeira,
os teus metais. Posso dizer:
tenho uma casa, eu não sou daqueles
para quem o Verão não foi mais que um embuste.

Mas sei de muitos a quem o Sol cegou
e já não podem ver
o esplendor das trevas.
Isto é: já não podem construir
casa nenhuma.

5
Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.

Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.

A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.

As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.

6
Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.

Cabral, A. M. Pires, Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004

 

 

«Cadernos, Trás-os-Montes, 1993, 01_ Amarante» Duarte Belo © Duarte Belo (D.R.)

 

*Dia de outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho.

Reiner Maria Rilke

poema «Herbsttag» traduzido por Nelson Archer, transcrito no blog «Acontecimentos», de António Cícero.

   página sobre A. M. Pires Cabral

   página da editora Averno (revista Telhados de Vidro)

   página do fotógrafo Duarte Belo

Herberto Helder — Engoli

 

Engoli
água. Profundamente:  a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

 

Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«- glass -» Luthe, © Luthe, via Deviantart (D.R.)

João Miguel Fernandes Jorge — dois poemas

 

UM

Quieto nesta dor porque quieto e
não sabendo se na praia o mar sobe ou
o mar desce neste momento neste momento os olhos descem a
uma certa distância pela rua sobre o lado da igreja (azulejos
do segundo quartel de setecentos) — à mulher imóvel sob
a porta lateral. Os arcos os capitéis as colunas.
Onde queres ir? Se a minha própria casa está fechada. Onde
queres ir?
Ou sonhar por estas ruas desconhecidas?

Mas a criança sabe sempre o meio secreto de abrir a pequena porta
do quintal que os limoeiros têm agora flor e os coelhos coelhos
mais pequenos — e uma porta cede sempre a porta mais misteriosa — e
a criança segue imóvel o cheiro do limão a cabeça cinzenta do coelho —
um sentimento de força novo um sentimento sem limite
tudo começa como uma lâmpada acesa nitidamente num espelho.

Corpo corpo ou sonhar por estas ruas conhecidas?

 

«Stories from the city», BlackMamba © BlackMamba, via Deviantart (D.R.)

 

DOIS

Um dia entrou de cair a neve. Espaço relativo
que as pessoas nunca viram onde vão colocando
pensamentos nunca tidos. Mas um dia entrou de cair a neve
a neve que tanto comoveu o cavaleiro de Elvas tão cedo
da América me contou «Das cartas que tão ansiosamente esperei
durante as tuas férias e o período mais chato da minha
vida, nenhuma chegou. Foi pena, porque receber cartas origina
uma loucura tão grande como sair ao fim de semana e
ao fim da tarde». Contou. Da expiação. Porque daqueles que
expiam do corpo o simples movimento o espaço do nosso ar.

Infeliz sobre o rio?

Se o movimento é sempre relativo. E mesmo se fosse absoluto
podia mudar: o repouso. O repouso? É o caminho do finito ao
infinito. Nada mais. Assim o sei passado com aquela jovem oferecendo
perfumes a Afrodite e contigo preso a cartas que tão
ansiosamente não
escrevi.

Jorge, João Miguel Fernandes, Colóquio/Letras n.º 18, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1974

António Franco Alexandre — Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

 

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

Alexandre, António Franco, Duende, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

«e-motion study», James Franco © James Franco via Deviantart (D.R.)

Armando Silva Carvalho — Antero, areia e água

O presente poema está evidentemente na origem e anuncia mesmo o livro  Anthero Areia & Água (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010),  trabalho de grande fôlego e intenso diálogo com a obra e a figura do poeta Antero de Quental, livro justamente reconhecido pela generalidade da crítica e distinguido com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, atribuído pela Câmara Municipal de Amarante. Neste longo poema, quase imediatamente publicado antes do livro referido, podemos encontrar já o âmago da poética deste: um largo e íntimo questionamento sobre Quental, que se traduz num questionamento sobre o próprio autor, a sua condição, a sua condição de poeta.

Antero, areia e água

 

 

Como todos acabamos, acabaste.

Mas não acabaste como quase todos acabamos.

Sentaste-te num banco de jardim,

Separado pelo mar,

Separado de ti, separado de separações

Que te obrigassem a unir

Os ossos redimidos, os músculos mentais

Desse palácio de ideias, no dizer de Sérgio,

Que durante tanto tempo construíste

 

E disparaste dois tiros.

 

Na boca,

Exactamente,

Sem qualquer espécie de retórica.

 

Na longa sucessão dos anos,

Há muitos que de ti se vão aproximando

Por dever de ofício, por exigência histórica,

Ou por outra natureza qualquer que não convém

Ou vem agora a lume.

 

Por mim, pois sou eu que estou aqui

Por trás da escrita,

Queria perceber — entre a leitura dos textos

E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos

Que ainda estremecem —

A estranha sedução que me provoca

O que ficou do corpo, que dizem que foi teu,

Impresso numa revista a meu lado

Sobre a secretária.

 

 

Um rosto, sobretudo o rosto, pintado por Columbano.

 

Devo, no fundo, ao pintor

O desejo de morte que me arrasta de súbito, numa carga

Erótica,

Para essa santidade por ti tão apregoada

Em falas sucessivas, em ondas de amor absoluto

E bem supremo.

 

O meu sexo sempre reagiu

à sublime inércia em que os corpos se expõem

Em mágoa, em desconforto,

E não surge da culpa, mas da ideia perversa

Duma serenidade casta,

Diva (ó tempos tão modelados na ópera)

E rediviva.

 

Mas não quero que estes versos

Sejam

Uma vez mais o leito onde a ironia corra

Dum suposto sémen

Derramado em vozes de castrados, solitárias farsas,

Preservados delíquios.

 

Por isso peço perdão ao leitor mal

(ou bem)

Intencionado.

 

Hoje entrego-me total e mentalmente a Antero.

Direi depois se puder

E em livro

As causas desta minha decadência

Já surda à voz das grandes multidões,

Cansadas também elas

Das palavras que lhes deitam por cima como bombas

Em árias suicidas

No palco da mentira universal.

Como ele também dizia.

 

Repito:

Entre a beleza funérea

E a pouca areia e água em que vejo afundar-se

A minha vida

Corre a extinta luz dum mundo

Já sem mundos.

 

E nessa cinza, como um desafio,

Consigo decifrar as pegadas de Antero

A caminho do supremo

Nada.

 

Carvalho, Armando Silva, Colóquio/Letras n.º 173, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro/Abril 2010

 

«Antero de Quental» [1889], Columbano Bordalo Pinheiro, Museu do Chiado, Lisboa

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Sobre Armando Silva Carvalho

António Franco Alexandre — Debaixo do colchão tenho guardado

 

II

Debaixo do colchão tenho guardado

o coração mais limpo desta terra

como um peixe lavado pela água

da chuva que me alaga interiormente

Acordo cada dia com um corpo

que não aquele com que me deitei

e nunca sei ao certo se sou hoje

o projecto ou memória do que fui

Abraço os braços fortes mas exactos

que à noite me levaram onde estou

e, bebendo café, leio nas folhas

das árvores do parque o tempo que fará

Depois irei ali além das pontes

vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;

mas com cuidado, para não ferir

as minhas mãos astutas de princesa.

Alexandre, António Franco, Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999
(Prémio Luís Miguel Nava 2000)