As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Dezembro, 2008

Pérolas (10) – Os ‘novos’ Leonardos

“Três novos desenhos de Leonardo no Louvre”

– Ípsilon online –

'a criar desde 1452'

'a criar desde 1452'

Novos Poetas (XXXI) – Aldina Duarte

Qual a fronteira entre uma letra para uma música e um poema? Sempre tive dúvidas na catalogação, porque encontrei em muitos ‘letristas’ altos níveis de arte poética. E o contrário também é verdade: grandes poemas (grandes poetas) altamente cantáveis. Misteriosamente (talvez não, talvez não) o fado chamou a si excepcionais poetas – ouça-se e leia-se o melhor disco de Amália Rodrigues, Com Que Voz (1970). Aqui, publica-se um poema (letra? who cares?) da ‘raríssima’ fadista Aldina Duarte. Quem escreve assim, como cantará mal, se voz tiver e tem?


PRINCESA PROMETIDA

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços duma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida


(Aldina Duarte, in “Mulheres ao Espelho”/ disco)- Via Quintas da Leitura.

'rasgo o melancólico interior dos espelhos' © Mariah, Olhares, fotografia online

'rasgo o melancólico interior dos espelhos' © Mariah, Olhares, fotografia online

Escola: há lugar para novos criadores?

capa-e-apresentacao-imagem

Desde há muito, senão desde sempre, a Escola resiste às novas expressões artísticas, venerando e valorizando um cânone, enquanto que, paradoxalmente, remete os clássicos para o ostracismo. Da modernidade, a escola filtra apenas o que lhe interessa criando unicamente o homo-automatus capaz, com dificuldade, de escrever um contrato, um requerimento ou um verbete. Os media cumprem o seu papel normalizador e reduzem a Escola a um mapa de fait-divers. A poesia, as expressões plásticas, a música, o teatro tornaram-se corpos estranhos à Escola. Coisas meramente decorativas e ao serviço de actividades de circunstância. Falta-lhe, à escola, fôlego e coerência, irreverência e criatividade. Contra o carácter redutor dos programas, propõe-se, agora mais que nunca, uma acção que vise a criação e uma deriva de liberdade que tenha em conta as capacidades e interesses humanos na Escola. Cidadãos autómatos ou autónomos? A literatura deve ou não fazer-se na escola? E o seu panóptico é a urgência de um hospital de loucos? As bibliotecas escolares são um depósito de livros, professores e outros computadores? Os media como instância de socialização a par da Escola ou contra a Escola? Quem nos salva quanto tudo arde? Há lugar para os novos criadores?

Texto de apresentação/interpelação, enunciando as questões que estão na base do Ciclo sobre o tema ‘Escola: há lugar para novos criadores?‘ (com o qual intitulei o post). Organizado pela Deriva Editores, este Ciclo tem um programa pleno de intervenções que colocam questões nucleares no ensino do Português e no lugar da criatividade e da literatura nas escolas portuguesas. Num tempo em que se assiste a um braço-de ferro entre posições corporativas no domínio do Ensino, as quais parecem não ter solução dado o encapsulamento de posições entre as partes, é bom ver e saber que há quem se preocupe com assuntos de carácter fundador no que respeita à qualidade do ensino. Ou seja: há quem se centre mais em avaliar a essência do que faz do que em ser (ou não ser) bem (ou mal) avaliado. A maior avaliação que um professor pode fazer é interrogar-se.

Informação enviada por Paula Cruz (com comunicação programada no Ciclo), professora do ensino público secundário no bairro do Cerco (Porto), pessoa verdadeiramente apaixonada pela docência (e pela poesia), autora de um ‘não-blogue’ notável pela ruptura que produz, apenas pela sua existência enquanto instrumento operativo, com o ensino funcionalizado,  procurando um envolvimento afectivo entre os alunos, a leitura, a literatura, fazendo da escola, igualmente, um lugar de afectos, num meio particularmente difícil. O referido não-blogue, CercARTE, nas palavras da autora, ‘é o sítio onde vou  tentando deixar alguns tópicos das aulas e partilhar alguns poetas.’ Como se poderá ver, é muito mais que isso.

Aqui se deixam os contactos para inscrição (deriva@derivaeditores.pt ou 225365145) e o Programa.

programa(clique para ampliar)

Colóquio/Letras – O novo director, o mail e a ‘farpa’

Recebo ontem, às 16h15m, um e-mail enviado por Sara Pais (não tenho o prazer de conhecer), do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian, na caixa de correio electrónico deste blogue. Agradeço. Acontece que, por nunca ter dado este endereço à FCG (recebi um e-mail, não um comentário), e estando ele apenas público no blogue, uma de três hipóteses se colocam:

– A FCG dispõe de uma base de dados excepcional, e decidiu fazer um mass-mail à população portuguesa;

– A FCG está muito atenta à blogosfera e deu-se ao trabalho de informar mesmo um blogue de escassa expressão;

– A FCG teve acesso à lista dos subscritores do texto ‘Sentimento de Admiração‘, colocado online por um grupo de admiradores do trabalho de Joana Morais Varela à frente da Colóquio/Letras (texto que subscrevi). Joana Varela contra quem, como recorda Eduardo Pitta, continua a decorrer processo disciplinar (visando despedimento).

Não sei porquê, aposto no último cenário.

E fico com mixed feelings. Por um lado, fosse eu alma burocrata e picuinha, e deveria considerar este mail como spam (correio electrónico não solicitado nem desejado) e a base de dados onde ele consta ilegal (por, como obriga a Lei, não declarar como foi obtido o meu endereço electrónico e não ter um disclaimer para a eventualidade de eu não desejar receber informação do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian)

Por outro lado, ele dá conta de notícias sensatas. Afigura-se acertada a escolha de Nuno Júdice, que nem precisaria da caução de um Conselho Editorial presidido por Eduardo Lourenço. Em não precisando, bom é tê-lo.

Mas o que me chateia, e apenas isso, no mail da Fundação Calouste Gulbenkian é a desnecessária ‘farpa’ constante no penúltimo parágrafo. Porque induz a ideia de que a irregularidade temporal na edição da Colóquio/Letras colocava em causa a sua continuidade. É feia e um pouco canhestra esta forma de apoucar o passado. O passado que tem inscrito o nome de Joana Morais Varela.

[Transcrevo o texto integral do e-mail recebido. O sublinhado a azul é meu. Os sublinhados a Bold vinham no e-mail. Curiosamente apenas destacam nomes. Pois. Tudo parece uma questão de nomes. Nomes com peso e estatuto sempre ajudam a apagar outro nome, não é?]

Nuno Júdice é o novo director da Revista Colóquio-Letras, na sequência da decisão do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian de nomear uma nova direcção e um conselho editorial para a revista, de modo a garantir a sua publicação regular e os compromissos assumidos perante o público e os assinantes.

O conselho editorial da Colóquio-Letras será presidido por Eduardo Lourenço.

A Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pretende que a revista continue a ser uma referência no campo literário, o que sucede desde 1971, seguindo os princípios e valores que a nortearam desde a sua criação e orientação por Hernâni Cidade, Jacinto Prado Coelho, David Mourão-Ferreira e Joana Varela.

Tendo em conta que o último número da revista, referente a 2004, foi apresentado em meados de 2007, pretende-se, a partir do início de 2009, retomar a publicação regular da revista, garantindo a sua continuidade.

Nuno Júdice é ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário, tendo desempenhado, em Paris, os cargos de conselheiro cultural da embaixada portuguesa e delegado do Instituto Camões.

(NOTA: por uma questão de ética, enviarei este post, em resposta, a Sara Pais, ‘Departamento de Comunicação’, Fundação Calouste Gulbenkian).

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169

Pérolas (9) – Benfica vs Metalist

«Para os 8-0 só ficaram a faltar… 7»

-‘ Zé’, in Jornal Record online (comentário), 18.12.08

'Eles eram metaleiros, pô. Nós somos gente de fé'

'Eles eram metaleiros, pô. Nós somos gente de fé'

Sock and Awe – Sapatos e Terror

Era uma questão de tempo, como diz o The Guardian. O incidente ocorrido no Iraque, com um jornalista a atirar dois sapatos a George W. (falhando miseravelmente), inspirou um jogo que se está a espalhar na internet de forma viral. O nome? Sock and Awe – trocadilho mais que justificado com a designação da estratégia conduzida na fase inicial (a invasão) da segunda guerra iraquiana (Shock and Awe – Choque e Terror). Pode aceder-se aqui ao jogo. Tem estatísticas por país, e actualiza em tempo real as sapatadas certeiras. Solidário com o cretino jornalista iraquiano, o meu melhor resultado foi zero.

'Da Casa Branca à Feira Popular'

'Da Casa Branca à Feira Popular'

Pietá

Por estes dias tropeço em Pietás – seria a Páscoa a altura certa. Envia-me o Alexandre Honrado, escritor, homem de e da rádio, autor do blogue República das Badanas e, como se poderá ver no seu blogue, vocacionado fotógrafo, este detalhe de um cruzeiro manuelino, situado em frente do portal da igreja do Convento de Nossa Senhora da Estrela, já fora das muralhas de Marvão. O cruzeiro tem a particularidade de ter uma dupla representação de cada lado da cruz: num dos lados a Senhora da Piedade e, do outro, Jesus crucificado. É um detalhe do primeiro que aqui se deixa, na sua rudeza invocando a dor, da Senhora da Piedade se trata, de uma Pietá tão talhada como talhadas são as mães que abraçam os filhos mortos.

Cruzeiro em Marvão. Nª. Srª. da Piedade (detalhe). © Alexandre Honrado

Cruzeiro em Marvão. Nª. Srª. da Piedade (detalhe). © Alexandre Honrado

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Novos Poetas (XXX) – Catarina Nunes de Almeida

(à Paula Cruz. Obrigado)

De novo Catarina Nunes de Almeida. Este poema, portador de uma escrita inteiramente madura, convoca uma ampla imagética e projecta-se até ao território do erotizado, transporte, em intensa gradação crescente, para um desfecho metafísico.

Lindo, digo.

Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas,

mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.

Catarina Nunes de Almeidain ‘A Metamorfose das Plantas dos Pés‘, Porto, Deriva, 2008

Olhares, fotografia online)

'Laurisilva' © DDiarte, Colecção Berardo (em: Olhares, fotografia online)

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Pérolas (8) – Mário Soares no PCP ?

(Assim mesmo, escrito com os pés, sem concordância de género e número na frase, tal a rubra indignação)

“Mas o povo pergunta: e as roubalheiras, ficam impunes? E o sistema que as permitiu – os paraísos fiscais -, os chorudos vencimentos (multimilionários) de gestores incompetentes e pouco sérios, ficam na mesma?”

– Mário Soares, in Diário de Notícias, 16 de Dezembro de 2008

'Contigo Isto Muda, Soares'

'Contigo Isto Muda, Soares!'

Obama – os primeiros 100 dias

Na Salon de ontem, um notável exercício prospectivo de Thomas Schaller, a propósito dos primeiros cem dias do mandato de Barack Obama. Muito adequado àqueles que estão sentados à espera para ver, em vez de tentarem ver o que aí vem.

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

President Candidacy Announcement, Springfield, IL, 2/10/07

Poesia Portuguesa (XIV) – Herberto Helder

(à Beatriz. Perceberá)

Este blogue chega a Herberto Helder. Deveria, se seguisse critérios de ‘actualidade’ escrever sobre (melhor, revelar, dar a conhecer um pouco de) A Faca Não Corta o Fogo. Lá iremos. Se formos. Herberto Helder em texto/carta publicada no primeiro número da revista Abril (1977), dirigida por Eduardo Prado Coelho (revista da qual saíram nove números, que a minha mãe mandou encadernar em pele, abençoada seja) escrevia: «(…) Gostei da sua pergunta sobre o que seria citável. Sim, o que é citável de um livro, de um autor? Decerto, a sua morte pode ser citável. E sobretudo, o seu silêncio.» Esta declaração não deve estranhar-se num poeta cuja obra nunca é definitiva, ou seja, vai conhecendo um contínuo percurso de reformulação. Na obra de Herberto Helder não podemos falar de reedições, mas de versões em estado de latência, em “suspensão“, nas palavras do poeta; nunca será possível uma edição ne varietur, daquelas que os autores consideram lapidadas para a posteridade. Como ele mesmo diz, «talvez só essa suspensão seja citável» Estamos, portanto, no domínio da impossibilidade, do segredo mais fundo do autor. Ainda assim, corra-se o risco de cristalizar no tempo um poema. Escolhido para integrar Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro, a mais bela colectânea de poesia jamais feita em Portugal, este poema (II de VI) foi, de certa forma, fixado para sempre. Apesar dele.

Nota: para uma leitura da obra de Herberto Helder, Um Pouco da Morte (Editorial Presença, pp. 125-136, Lisboa, 1989), o livro de análise literária que rompe os cânones da crítica do seu tempo, de Joaquim Manuel Magalhães (obra axial no seu trabalho ensaístico) foi o melhor que li até hoje e ampliou a possibilidade de o ler mais fundo. Recomendo muito.


FONTE

(II)

No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem

os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras. E as mães

aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões

e órgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se

nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,

vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens,

enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas.

Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras.

Elas respiram ao alto e em baixo. São

silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares

da chuva,

em volta das candeias. No contínuo

escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam

na combustão dos filhos, porque

os filhos estão como invasores dentes-de-leão

no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,

e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior

de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos

e na agudeza de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,

e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa

que nenhuma morte é possível e as águas

estão ligadas entre si

por meio da mão dele que toca a cara louca

da mãe que toca a mão pressentida do filho.

E por dentro do amor, até somente ser possível

amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder, in ‘Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro‘, pp.1698-1700, Assírio & Alvim, Lisboa, Agosto de 2001

Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery

Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery

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Fotografia do Dia (XXIII) – Atenas

A Grécia está a ferro e fogo desde há uma semana, com tumultos nas ruas, os quais, a partir de Atenas, se estenderam a outras cidades gregas. O rastilho foi a morte, perpretrada por um agente da polícia, de um rapaz de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos. Mas a causa profunda radica na generalizada insatisfação popular com as actuais circunstâncias de vida e com o pacote económico que o governo de centro-direita aprovou para aproximar a Grécia dos ‘parâmetros europeus’. Ainda antes da crise. Depois, esta atingiu o país como um vento quente do deserto. A CNN, que tem um link especial para noticiar o que por lá se passa, publicou um artigo daqueles que só o jornalismo anglo-saxónico é capaz: tentar explicar tudo numa síntese Q&A. A fotografia é terrível, pela placidez como se olha para o rasto da violência. Eu quase aposto que 2009 trará outros incêndios sociais em países da UE. Em Portugal, em ano de eleições, é bom que Sócrates se cuide. Ele talvez não conheça o potencial de violência que se está a acumular na classe média urbana. Os professores são a ponta do iceberg.

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008 - A burned-out car outside Athens Polytechnic following four days of anti-government riots

(clique para ampliar)

Novos poetas (XXIX) – José Miguel Silva

Terceiro e último poema de José Miguel Silva, publicado na Telhados de Vidro (número 10), sob o título Volta ao Mundo (o primeiro pode ser encontrado no arquivo do blogue, em 27 de Outubro, o segundo a 14 de Novembro).

3.

Não sei que horas são no teu relógio.

No meu é cedo/tarde – está parado

há bem mais de vinte anos.


Não importa, pois as coisas vão e vêm,

e de novo se levanta o mês de Março

nesta era da ironia, com seus truques

estafados e promessas desfolhantes.


Juntamente, tudo passa e tudo volta,

mas diverso – só por isso, justamente,

tem piada estar aqui, abrir os olhos,

conferir ainda e sempre, na vitrina

da manhã, a produção da Primavera.


José Miguel Silva, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 25, Averno, Lisboa, Julho de 2008

'luminus' © Carlos Tavares, olhares, fotografia online

'luminus' © Carlos Tavares, olhares, fotografia online

Pérolas (7)

(A Ípsilon é tão boa que até tem pérolas)

“José Rodrigues dos Santos vendido para a Hungria”

– Ípsilon online –

'como é que se diz best-seller em magiar?'

'como é que se diz best-seller em magiar?'

Diamantes – A Ípsilon online

A Ípsilon online! O meu suplemento cultural português favorito – eu não digo o melhor, digo ser aquele de que mais gosto –  tem edição online, e é tão bonito que até doi. Uma data de bons artigos (ai, mas Experimentar Rothko, de Alexandra Lucas Coelho tem omissões e imprecisões a mais, o que é estranho). E o artigo de João Bonifácio sobre o Nuno Bragança, ainda que a propósito de um documentário, dá vontade de fazer uma Directa a ler. Ele há acontecimentos assim: um gajo poder dizer que ganhou o dia.

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'estou na lynha!'

Pérolas (6) – Salvem os ricos, ajudem os milionários

Uma rábula extraordinária de “Os Contemporâneos“, parodiando o Live Aid. Paródia por paródia, sempre se podem acrescentar os “créditos”.

PRODUÇÃO:

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CATERING:

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Disclaimer: este post edita um (excelente) gag musical, que terá certamente direitos de autor. Foi recolhido no YouTube. As entidades e pessoas referidas aqui são-no a título de ‘amusement‘.

Terror na Índia, terrível em Lisboa

É possível escrever uma notícia assim? É, foi publicada hoje. É compreensível entender alguma coisa lendo o texto que se transcreve? É, se se tiver uma grande imaginação, ou consultando outros jornais – em papel, online, tanto faz. É provável que, num texto tão curto, existam tantas faltas de concordância de número, erros de sintaxe tão grosseiros, escrita tão atabalhoada? É. No Diário de Notícias é.

Todo o texto constitui, em si mesmo, uma ‘pérola’ (trata-se de uma notícia que dá continuidade à matéria principal, com o título surrealista: “Cérebro do Terror preso no Paquistão“). Pérola esta que adornará os botões de punho de algum gestor bem sucedido, que deve colocar a massa salarial (baixa) de escribas de qualificação rasa acima do interesse, ou da paciência dos leitores. Acontece que, ao contrário do ditado, estes não são porcos.

“Erro de polícia desmascara espião entre terroristas

Índia. Autoridades não acreditaram na história do agente detido

A polícia de Calcutá, Índia, está sob um coro de críticas depois de ter detido e denunciado a identidade de um espião indiano que integrava, sob disfarce, a rede terrorista que conduziu os ataques a Bombaim.

As autoridades prenderam Mukhtar Ahmed por acreditar que ele fornecia os cartões de telemóveis para a Lashkar-e-Taïba. O homem explicou que era um espião ao serviço da polícia indiana de Caxemira que tinha como missão deixar os telefones da organização sob escuta. Mas os polícias não acreditaram e denunciaram-no.

Uma fonte da secreta indiana admitiu à BBC que foi “desperdiçado um grande trunfo” e que se colocou em risco a família do agente.

“Porque é que a polícia haveria de revelar o nome aos media se tinham ordens categóricas para não falarem sobre as investigações do ataque Bombaim? Eles deviam pensar que tinham capturado alguém muito importante e eles queriam publicidade,” disse.

A polícia de Calcutá já admitiu que Mukhtar contou todos os detalhes sobre o seu trabalho mas que só poderá ser libertado após um pedido formal da polícia de Caxemira.

Segundo as autoridades indianas, um dos cartões fornecidos por Mukhtar foi utilizado por um dos terroristas armados no ataque de há duas semanas. O seu nome era Ismail e terá utilizado o telemóvel uma vez antes de ter sido morto pela polícia indiana.”

'O Horror foi aqui. Horrivel é o texto do DN'

'O Horror foi aqui. Horrível é o texto do DN'

O Alçada

Já passei dos setenta anos e tive uma vida cheia de coisas. Quando estou bem de saúde, tenho um grande enternecimento pela vida que vivi e, como o meu querido Jorge Amado, apetece-me dizer que «a vida me deu mais do que pedi, esperei e mereci». Direi até que esta é uma condição óptima para receber a morte.

António Alçada Baptista, in ‘’A Pesca à Linha – Algumas Memórias’, Editorial Presença, Lisboa, Janeiro de 1998.

Aos 81 anos, morreu o Senhor António Alçada Baptista. O Alçada, como lhe chamavam os da sua geração e aqueles que, sob a sua visão e protecção, medraram. Nunca ouvi alguém dizer mal dele. Parece pouco. É imenso, habitando Alçada Baptista em Portugal, imerso no meio intelectual lisboeta, ele, um burguês beirão civilizadíssimo. E católico. Deu (literalmente) a Moraes e o Tempo e o Modo à cultura portuguesa da segunda metade do século XX (e ainda a sua obra literária, ensaística, memorialista). Só por isso merecia nome de avenida. Seria bonito: Avenida Alçada.

António Alçada Baptista (1927 - 2008

António Alçada Baptista (1927 - 2008

W. Bush e o fim do ‘Bushismo’

Duas guerras irremediáveis (Iraque e Afeganistão), um desastre natural escandalosamente ignorado (o furacão Katrina) e uma implosão económica global depois, George W. Bush (Dubya, para os amigos) iniciou uma campanha de despedida da Casa Branca com o objectivo de deixar atrás de si a imagem de um presidente guiado por um ‘conservadorismo com compaixão’. O mesmo é dizer que, desdobrando-se em entrevistas na televisão, na imprensa, em encontros e eventos, W. está a procura de formar uma imagem final da sua pessoa que o retire do vil lugar em que se encontra nos índices de popularidade de um Presidente em fim de mandato: é o primeiro dos últimos. Sim, Bush começou a falar de si, acto que, confessa, lhe é penoso (para a generalidade dos analistas também). Nas recentes entrevistas e encontros mantidos, W., em perfeito estado de negação, admite ter cometido erros. Para, logo em seguida os desvalorizar. Em artigo no Washington Post contam-se as facécias da campanha para fazer do homem alguém que possa ficar na História com uma imagem minimamente potável. Como se pode ler, é um esforço em vão.

Dois excertos extraordinários e um ‘Bushismo’ final, para aguçar o apetite:

He has admitted to a few previously unacknowledged errors, telling one interviewer that he was “unprepared for war” when he entered office and that his “biggest regret” was the failure of intelligence leading up to the Iraq invasion.

He portrayed Iraq as “a powerful example of a moderate, prosperous, free nation.

I mean, people literally lining the roads in Tanzania, all waving and anxious to express their love and appreciation to the American president who represents the American people,” Bush said. “It was good to see them all waving with all five fingers, I might add.

Palavra de honra, o homem existe.

'O Iraque? É assim uma espécie de Suiça...'

'O Iraque? É assim uma espécie de Suíça...'

The Queen and I

Esta assombrosa fotografia da Isabel II, cenograficamente composta por Annie Leibovitz, lembra-me que o sentimento que tenho pela monarca britânica sempre foi ambivalente. Por um lado admiro-lhe a coragem, a determinação, o férreo sentido do dever. Quando morreu a pobre pateta da Lady Di e o Blair e a plebe, e o próprio tíbio Carlos (Prince of Wales) lhe exigiram exéquias de Estado, Isabel II cedeu. Mas apenas porque percebeu que era fundamental para manter a ligação entre a “Família” e o Reino. Lá por dentro deve ter engolido sapos a espernear. E ela tinha razão, sob o ponto de vista institucional e sob o ponto de vista da virtus. Mas é esta mesmíssima razão e frieza no modo como encara o seu papel que a torna, de certa forma, inumana.

Esta fotografia revela. Isabel II não permanece apenas altiva e senhora de si, dominando tudo o que a circunda, numa perspectiva extraordinária, tendo como fundo uma idealização de paisagem. Não. Ela está apaziguada num contexto crepuscular, sombrio, soturno. O que a fotógrafa captou explica a dificuldade em “sentir” esta mulher. Ela é uma espécie de guardiã, não nos bons momentos – acho que nunca a vi rir  espontaneamente – mas nos maus. Como se as dificuldades a agigantassem. E o sofrimento lhe aumentasse a dignidade. A espessura. A dimensão icónica.

Voltando à morte da estouvada Diana, Isabel II encerra, em três palavras, o seu abismo. Num espantoso diálogo (soberbamente interpretado pela Helen Mirren (Dame) no filme The Queen) Carlos, o putativo herdeiro, e a Rainha trocam estas palavras:

CHARLES — That was always the extraordinary thing about her. Her weakness and transgressions only seemed to make the public love her more. Yet ours only make them hate us. Why is that? Why do they hate us so much?

The queen mutters under her breath.

ELIZABETH — Not ”us,” dear.

Queen Elisabeth II © Annie Leibovitz

Queen Elizabeth II © Annie Leibovitz