As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Março, 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen — Elsinore

 

 

ELSINORE

 

No palácio dos Átridas como em Elsinore

Tudo era cavernoso — as paredes

Eram grossas o espaço excessivo e sonoro

Roucas as vozes da maldição antiga

 

Porém em Micenas o sangue era exposto

E corria vermelho como num grande talho

Sujando apenas as mãos dos assassinos

E a água da banheira —

Lá fora o rio a luz

Continuavam limpos e transparentes

O crime era um corpo estranho — circunscrito —

Não pertencia à natureza das coisas

 

Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno

Subtil

Invadia o ar e a luz — penetrava

Os ouvidos as narinas o próprio pensamento —

O amor era impossível e ninguém podia

Libertar-se:

O inferno vomitava a sua pestilência invadia

As veias e os rios —

No entanto o mal não se via: era apenas

Um leve sabor a podre que fazia parte

Da natureza das coisas

 

Nov. 1988.

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner, Colóquio/Letras n.º 107, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1989.

 

Ângelo de Sousa, serigrafia s/d — (D.R.)

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12 Março 2011 — as «folhas» do Porto

 

 

Muitas coisas funcionaram bem na organização da manifestação de 12 de Março /2011. A começar pela poderosa adesão à mesma; a forma pacífica como tudo correu; pela pluralidade, diversidade e também o ânimo ordeiro e mesmo festivo, quando se clamavam assuntos tão sérios. Movimento inorgânico? Necessariamente, nesta fase. A continuidade que está a ser dada a um movimento que começou informalmente indicia que, possivelmente, da fase de pura manifestação se poderá esperar uma passagem à organização. Mais tarde virá a representação (dentro ou fora do espectro partidário existente, as dinâmicas possíveis são muitas).

Uma verdade é incontornável: aquela que parecia uma geração perdida ou esquecida da coisa pública demonstrou cristalinamente que o país ganhou muito: um novo património de participação cívica e política — de que os portugueses se tinham afastando gradualmente.

A organização informal do Porto não se limitou a entregar à Assembleia da República todas as folhas — mais ou menos reivindicativas, imaginativas, imensamente díspares mas por isso mesmo muito interessantes, — que os participantes levaram individualmente. No seu blogue faz uma análise sumária das principais causas que levaram as pessoas à rua; e criou um link onde podemos ver, uma a uma, digitalizadas, todas as folhas entregues no Porto. Uma viagem esclarecedora — e também deliciosa de criatividade — ao desconforto dos portugueses.

 

 

folha A4 entregue na manifestação 12/3, no Porto

 

 

 

Natália Correia — O encontro

 

 

O Encontro

 

Como se um raio mordesse

meu corpo pêro rosado

e o namorado viesse

ou em vez do namorado

 

um novilho atravessasse

meus flancos de seda branca

e o trajecto me deixasse

uma açucena na anca

 

como se eu apenas fosse

o efeito de um feitiço

um astro me desse um couce

e eu não sofresse com isso

 

como se eu já existisse

antes do sol e da lua

e se a morte me despisse

eu não me sentisse nua

 

como se deus cá em baixo

fosse um cigano moreno

como se deus fosse macho

e as minhas coxas de feno

 

como se alguém dos espaços

me desse o nome de flor

ou me deixasse nos braços

este cordeiro de amor

 

Natália Correia, poema trancrito via → TriploV

 

Busto do Minotauro, Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

Natália Correia — O Cavalo

 

Ao Botequim da Graça, pelo discreto e constante trabalho, que reúne amigos, memórias, coisas presentes, projectos culturais.

E porque «fazem falta Natálias»

 

O cavalo


Teus poros exalam o fumo

Do lar dos deuses de onde vieste.

Rompante de espuma e de lume

És sol quadrúpede ou mar equestre?


 

Desfilando derramas o ouro

Do teu rio inacabável,

Desmedido relâmpago louro

De um deus equídeo possante e frágil.


 

Tudo existiu para que fosses

No contraluz desta madrugada

Mitológica proporção perfeita

Em purpúrea bruma recortada.


 

Pois que te é divino mister

Humanos olhos extasiar

A dúvida é só perceber

Se vieste do sol ou do mar.


 

Correia, Natália, 
Poesia Completa
Inéditos 1985/90 : Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999

 

da série «Equus», Tim Flach, © Tim Flach, (D.R.)

 

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Frederico Lourenço — Rua do Século, 79

 

 

Rua do Século 79


Os gradeamentos das janelas

negam a quem os contempla da rua

qualquer sugestão de vida

a ser vivida por trás das grades.

Os caixilhos de ferro forjado

sugerem locutórios de um convento

da mais ascética austeridade,

como se o espaço (cujo acesso

as grades peremptoriamente vedam)

fosse votado por inteiro a extremos

exacerbados de misticismo e de penitência.

Mas também se pressentem salões escuros,

onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,

ou a perfume de rosas e noz-moscada;

paredes revestidas de damasco,

cobertas de grandes telas,

paisagens campestres e naturezas mortas.

Medalhões de talha dourada, segurados

por fitas de seda listrada a duas cores;

silhuetas de damas coroadas de peruca,

fantasmas da corte da Rainha Louca,

móveis nas suas molduras de tartaruga e charão.

 


Lourenço, Frederico, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.53

[originalmente publicado em Santa Asinha e Outros Poemas, Lisboa: Editorial Caminho, 2010]

 

 

Rua do Século

Golgona Anghel — Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

 

 

Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

Mas confesso que gostava de chocolates Toblerone

que a minha tia me trazia no Natal.

 

Não acredito nos detidos políticos,

nem me impressionam os miúdos descalços

que mostram os dentes para as máquinas Minolta

dos turistas italianos.

 

Não vou pedir asilo.

Desconheço os avanços ou retrocessos económicos do meu país.

Já falei de Drácula que chegue.

Já apanhei morangos na Andaluzia.

Já fui cigana, já fui puta. Escusam de mo perguntar outra vez.

 

O que me preocupa — e isso, sim, pode ser relevante

para o fim da história — é saber quando é que me transformei,

eu que era uma loba solitária,

neste caniche de apartamento que vos fala agora?

 

Anghel, Golgona, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

[originalmente publicado na revista criatura n.º 5]

 

«paperlungs and paperacid», bonny chen © bonny chen, via Deviantart (D.R.)

Links Relacionados:

 

Página de Golgona Anghel

revista criatura

 

 

 

Maria Sousa — escrevo o que ainda não conheço

 

 

Escrevo o que ainda não conheço

nomes de ruas pássaros árvores

monólogos de quem ainda te fala alto

é a minha voz ou a tua?

 

lá fora a chuva confunde-se com gestos

falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada

 

ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me

 

Sousa, Maria, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

 

«let me fly», glinda © glinda, via Deviantar (D.R.)

[originalmente publicado em Exercícios para Endurecimento de Lágrimas, Lisboa: Língua Morta, 2010]

Alberto de Lacerda — Murmuro o teu nome ao rés da relva

 

 

Murmuro o teu nome ao rés da relva

 

Murmuro-o

Em diagonal da terra ao céu azul

Radiante

 

Felicíssimo

Não entendo nada.

 

Lacerda, Alberto, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

[originalmente publicado em O Pajem Formidável dos Indícios, Lisboa: Assírio & Alvim e Fundação Mário Soares, 2010]

 

«the sweet escape», Julie de Waroquier © Julie de Waroquier, via Deviantart (D.R.)

Oficina de Poesia para Conserto de Automóvel

 

 

Um evento inesperado, possivelmente tanto como as circunstâncias que o provocaram. Ter Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato, Miguel Cardoso e Miguel-Manso, duas solidárias Margaridas e dois amigos Migueis lendo-se «multiplamente com críticas dos participantes» seria em si um bom acontecimento; neste caso, o pequeno drama quotidiano de uma valente mulher e amante editora de poesia transforma-se no pretexto para que o acontecimento seja virado poeticamente de patas para o ar. E do pequeno drama automobilizado, surge uma noite onde se espera que surja o inesperado. Um acto poético, pede-se, a cada um dos nossos dias. Pois aqui o têm, servido de bandeja. E o privilégio de poder dar uma mãozinha à Helena Vieira, que já nos deu tantas coisas.

 

 

embora lá ajudar a pôr o farolim no sítio

(clique para ampliar)

 

Link Relacionado:

Espaço SOU

David Ignatow — Para a minha filha em resposta a uma pergunta

 

 

 

No dia do Pai. Sara. Clara, João.

 

Para a minha filha em resposta a uma pergunta

Não vamos morrer,

havemos de encontrar uma solução.

Respiraremos fundo

e teremos cuidado com a comida.

A nossa mente estará concentrada em vivermos.

Nenhum dos dois desaparecerá.

Seremos os primeiros,

nunca nos riremos de nós mesmos

e os teu filhos serão os meus netos.

Nunca nada mudará

a não ser por adição.

Não haverá nunca ninguém como tu

e ninguém nunca como eu.

Nunca ninguém te confundirá

ou me confundirá com outro.

Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados

e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.

 

 

(Versão de L.P. publicada no blogue Do Trapézio sem Rede. Agradeço ao autor deste muito valioso blogue, também ele notável presença na poesia portuguesa actual, a transposição do poema, sabendo de antemão que a sua elegância me autoriza a fazê-lo.)
«Fathers and Sons», Cahilus © Cahilus, via Deviantart (D.R.)
Links relacionados:

Daniel Faria — Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

 

 

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

De o transformar. Este é o dia transformado

Pelo modo como apoio este dia no chão.

Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra

Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo

Na atenção.


E fico atento, fico deitado porque não sei crescer

Num terreno que se levante.

Cresço na clareira de um homem que é uma palavra

Na sua túnica inteira

Porque este é o sítio do dia sem horário


Sem divisões


E ponho-me de frente no seu lado,

Nos seus braços abertos para me unir

E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias

Em chamas subindo para o céu.


Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003

 

 

Torrie © Torrie, via Deviantart (D.R.)

Manuel Gusmão — morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

 

 

morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

A rosa declina a sua autobiografia, obliquamente caindo

sobre quilómetros e quilómetros de florestas insistentes,

sobre a sombria arquitectura desta terra longamente apaixonada,

sobre a rosa que sobe até à aérea metalurgia das nuvens.

Gusmão, Manuel, Dois sóis, A Rosa / a arquitectura do mundo, Lisboa: Editorial Caminho, 1990

 

Hind alNuaimi © Hind alNuaimi, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Recensão crítica ao livro, por Maria Aliete Galhoz, na Revista Colóquio/Letras 129/130 (2003)

Ana Marques Gastão — «Sê lenha»

 

 

«Sê lenha»

 


Enquanto a faca corta o alimento,

a boca atrasa o corte, o paladar,

a sorte, a criança devora o que tens

e a vontade pede-te: «sê lenha».

Anda, suporta teu corpo de ferida

cicatriz ou nome, és esqueleto bravio

carne e voragem, sino que ressoa,

te ensurdece e desmorona.

Do mar, a terra, da terra a água,

do fogo, o ar, só é exterior o interior

que se evapora em solução iodada

e te abafa no fumo metálico e molda

uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,

vê, escuta o som impaciente da lenha

afundada no sal, conta a história,

repete a única história que te faz viver.

 


Gastão, Ana Marques, Adornos, 2010 (em publicação) → encontrado no site «Poems from the Portuguese»

 

 

Marina Ćorić © Marina Ćorić, via Deviantart (D.R)

 

Links Relacionados:

Uma boa página (datada) sobre Ana Marques Gastão.

Página do Instituto Camões sobre a autora.

Herberto Helder — «Por isso ele era rei, e alguém (…)»

 

 

Por isso ele era rei, e alguém

se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra

súbdita: dá-me um nome, uma

baforada

desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver

uma constelação maior que onze varas,

enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto

na escuridão com toda a potência

dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens

do fogo,

bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze

varas de luz para os braços torcidos,

uma camisa aos rasgões brilhantes por força

da entrada e saída

do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca

petróleo a arder como no circo dos prodígios

fazem os reis terríveis,

por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício

desta magia: a realeza de uma combustão,

acto, verbo,

e em estado natural os elementos:

madeira, cristal e ouro, e o ar movendo

o poema número a número.


Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«Nebula», Cristina Romero Ríos © Cristina Romero Ríos, via Deviantart (D.R.)

Filipa Leal — Douro

 

 

Douro

 

Não sei se prefiro o rio

ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

 

De um lado

os barcos ancorados, do outro lado:

barcos — na imediata memória das âncoras.

Deste lado, o porto, ou o cais,

contracenando com a sua própria inexistência

daquele lado.

 

Existirá aquele rio nos espelhos?

Poderá este subsistir sem as janelas?

 

Sou dourada como os peixes que te

desabitaram. E, do outro lado, sou

desabitada.

 

Leal, Filipa, Talvez os Lírios Compreendam, Porto: Cadernos do Campo Alegre / 8, 2004

 

«Como a querer esconder-se», Rui Vaz Ribeiro © Rui Vaz Ribeiro, (D.R.)

 

Links Relacionados:

Nota biográfica de Filipa Leal (no site da Deriva)

Rui Vaz Ribeiro

David Teles Pereira — Biografia (A Terra)

 

BIOGRAFIA

(A TERRA)

 

Everything about you,

my life, is both

make-believe and real

Charles Simic

Há dias em que não penso uma só palavra

que queira dizer-te, dias em que as fronteiras entre os homens

se encontram permanentemente abertas ao estreitar de mãos,

como laços de gravata a fecharem-se sobre o colarinho da camisa.

Não penso sequer na tua nuvem a morrer todos os dias à minha porta,

mas diz-me, diz-me afinal de contas tudo o que quiseres.

É que eu, eu passei demasiado tempo na tua pele,

a sonhar os gregos com intenções de cerâmica e laser,

e agora é Outono a caminho do teu rosto,

resta-me passar a rua pelos olhos, pedir café e uma amostra de cinema

datado,

tal como a originalidade da nossa história,

entregue a amanuenses talentosos na hora de nos ortografar bem.

 

Não pareço feliz, mas pareço belo.

Terá de ser suficiente para agarrar pelos cabelos a onda

e fugir para tão longe da praia,

sempre a fingir esta versão super-heróica de mim próprio

de lábios, olhos e estômago pintados

ao jeito de uma obsessão ostensivamente recente:

tendências nunca reconhecidas nos séculos precedentes.

 

Admitir maternidade nestas putas de livros, à falta de linguagem feminil

que justifique a brandura da nossa crónica,

nunca como um truque, mas como uma tragédia,

enquanto dormes, a fazer de conta que estou aqui,

noite após noite, a tentar perceber porque é que a leitura conjugada

deste e daquele sentido é quase uma colagem

ao lastro de justiça daqueles que nos correm na família.

Escrever na terra prova uma série de coisas,

mas provas bem melhores surgem ao apagá-la,

porque a terra não se encontra com a terra, nem com o sangue.

Não somos pessoas agradáveis de conhecer.

 

David Teles Pereira, in criatura n.º 5, Outubro 2010.

 

(D.R.)

 

Al Berto — A paisagem prolonga-se

 

a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas

ela entra nas ruínas

junto ao ângulo penumbroso da casa destruída

está vestida de branco quando ele lhe fala

ambos têm o olhar vago

ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas

ele está de pé encostado a um muro de pedra

ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
so

somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem

os lábios dela tremem ou sorriem

ele encolhe-se mais contra a parede

o silêncio ainda não os abandonou

ela espreita-o

ele desenha-se exacto no centro do écran

(de novo uma voz off)

um vento vertical adere à casa

onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces

e quando ela se vira para o interior das ruínas

prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente

ele já ali não está

apenas a objectiva da câmara continua a segui-la

Al Berto, Trabalhos do Olhar, Lisboa: Contexto, 1982

 

 

«Window Ruin», Marcin © Marcin, via Deviantart (D.R.)

Fiama Hasse Pais Brandão — quatro poemas

«Between the trees», Petitescargot, © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

 

A SÉPIA


Chegava no seu carro solar

ao meio-dia

o amolador rústico.

Com uma roda fruste que brilhava

e ressoava surda

no bater do pedal?

Com o assobio que modula

um ser perdido

na estrada da velha vila

esboçada na paisagem

por trás da vila de hoje?

 
SÃO JULIÃO DA BARRA

1

Sempre vão passando barcos

na Barra ao longe, na linha

de memórias ocas

e é oco o som cavo de apitos.


2

Há manchas de mar por vezes sobrepostas

à rusticidade doce da casa.

Mas um sentido rural que se demora

traz imagens tangíveis tão próximas

daquilo que para mim as coisas eram.

 


METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam

o espírito. Debaixo do pinheiro bravo

a sombra torna metafísica

a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixoeira temporã

vespas ensinam aos meus ouvidos

louvores. As oliveiras não se movem

mas as formas da essência desenham-se

cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos

acalentam o pensamento

até ao não pensar. Depois

até sentir a vacuidade

no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,

que não se movem contorcendo-se,

concebe o não conceber.


ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga

sobe a colina, passa diante

de musgosos muros e desce

para nenhum sopé;


encurva, na abstracta encruzilhada;

apaga-se, na realidade. Morre

como o rastilho de fogo,

que de campo em campo aberto


seguia, e ao bater na mágica cancela

dobrava a chama, para uma respiração,

e deixava o caminho do portal

incólume e iniciado.


1986

 

Brandão, Fiama Hasse Pais, Colóquio/Letras n.º 108, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1989.

Between the trees chapter II, Petitescargot © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

Rui Nunes — Vésperas Portuguesas

 

VÉSPERAS PORTUGUESAS


o dia corre de poente para nascente, a chuva

é um lençol tenso sobre os velhos que separam

as lembranças, com palavras que não chegam

a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo

e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras

entregues ao despovoamento alucinante


no interior dos carros, os crimes

são ligeiras confidências


Nunes, Rui, Ofício de Vésperas, Lisboa: Relógio d’Água, 2007.

«the fall of the gentlemen», dark oak © dark oak, via Deviantart (D.R.)

(post editado):

Graças à amabilidade do Pedro S. Martins (poeta, autor do blogue «Escara Voltaica»), aqui se junta a listagem das obras de Rui Nunes, tal como surge no seu último livro, Os Olhos de Himmler:

As Margens, 1968, Edição de autor

Sauromaquia, 1ª edição: 1976, Parceira A. M. Pereira, 2ª edição: 1986, Relógio D’Água Editores

Os Deuses da Antevéspera, 1ª edição: 1977, Parceria A. M. Pereira, 2ª edição: 1990, Vega

O Mensageiro Diferido, 1981, Regra do Jogo, 2ª edição: 2004, Relógio D’Água Editores

Quem da Pátria Sai a Si Mesmo Escapa?, 1983, Relógio D’Água Editores

O Canto no Ocaso, 1985, Rolim

Enredos, 1987, Rolim

O Incêndio in “As Escadas Não Têm Degraus 5”, 1991, Cotovia

Oscultariz, 1992, Relógio D’Água Editores, Prémio Literário P.E.N. Clube Português, 1992, 1º lugar ex aequo

Álbum de Retratos, 1993, Relógio D’Água Editores

Que Sinos Dobram Por Aqueles que Morrem Como Gado?, 1995, Relógio D’Água Editores

Grito, 1997, Relógio D’Água Editores, Grande Prémio de Romance e Novela APE – 1997

Cães, 1999, Relógio D’Água Editores

Rostos, 2001, Relógio D’Água Editores, Prémio da Crítica 2001 atribuído pelo Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários

A Boca na Cinza, 2003, Relógio D’Água Editores

O Choro É Um Lugar Incerto, 2005, Relógio D’Água Editores

Ouve-se Sempre a Distância numa Voz, 2006, Relógio D’Água Editores

Ofício de Vésperas, 2007, Relógio D’Água Editores

Os Olhos de Himmler, 2009, Relógio D’Água Editores

Luís Filipe Parrado — Com Unhas e Dentes

 

COM UNHAS E DENTES

Estar vivo

é abrir uma gaveta

na cozinha,

tirar uma faca de cabo preto,

descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:

deixas a gaveta fechada

e arrancas tudo

com unhas e dentes,

o sabor amargo da casca

de tão doce,

não o esqueces.


Luís Filipe Parrado, in criatura n.º 5, Outubro 2010.

 

«Bite my lips and close my eyes, Megan D. © Megan D., via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

revista criatura