As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2009

O meu post favorito de 2008

Não, não será o melhor post escrito na blogosfera em 2008; nem o mais pertinente; nem o mais incisivo; nem o mais luminoso; nem o mais… mas também quem definirá estas coisas? Li alguns blogues no ano que passou (digamos que gastei o dobro do tempo que devia com o assunto, facto de que não me arrependo nadinha) Quando li este post, da Ana Cristina Leonardo, no seu blogue Meditação na Pastelaria, a palavra mais exacta que me ocorreu foi júbilo. Numa penada absolutamente fulgurante, onde se passa de J. M. Cotzee a Kant, a Lewis Black, a Buñuel, a Machado de Assis, a Richard Dawkins (não necessariamente todos, nem por esta ordem) começando logo, à cabeça, por acertar o alvo bem no meio da testa – José Sócrates, who else?Ana Cristina Leonardo produz uma das mais inteligentes e hilariantes peças de retórica que li em muito tempo. Todo o post é tóxico para o alvo, o resultado absolutamente assassino (até pelo tom aparentemente negligé). Quando eu for grande gostava de escrever com este desfastio letal. Autorizado pela autora, aqui deixo o texto do post e o respectivo link. Já que é obrigatório ler duas vezes, ao menos que se leia a segunda no seu contexto primitivo. Obrigado, Ana Cristina Leonardo. Abriu todo um Freeport para nós. Absolutamente :-)

*

«Ao vencedor, as batatas»

“Vou ser absolutamente pueril. E, sim, gosto de advérbios de modo. Ao invés, aborrece-me Sócrates, o primeiro-ministro. Tudo nele me aborrece. O curso, o inglês, as casas (ah, como me aborrecem as casas!), os livros que finge ter lido, os esgares, o perfil e os lugares-comuns, até os fatos me entediam de tão óbvios. E por falar em fatos abrevio: repugna-me a enfatuada ignorância.
Citando de novo esse génio do humor que dá pelo nome de Lewis Black, José Sócrates é a prova de que o americano estava universalmente certo quando disse: In my lifetime, we’ve gone from Eisenhower to George W. Bush. We’ve gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we’ll be voting for plants.
Da política tive eu, em pequenina, sem naturalmente o saber que não venho para aqui armar-me em génio, uma visão pré-maquiavélica. Resume-a muito bem J.M.Coetzee em Diário de um Mau Ano: A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infracção à lei moral se justifica quando necessária.
De Maquiavel, que era esperto, fomos andando até chegarmos às plantas que, como é fácil entender mesmo sem ter lido Kant, escapam à lei moral.
Um pragmatismo alucinado invadiu a política. A presente crise internacional, nascida disso mesmo, não teve como resultado nenhuma discussão séria. Comemos mais do mesmo. Não que eu me encontre ainda na fase anal pré-maquiavélica ou tenha qualquer ilusão sobre o «homem novo» (neste capítulo estou com o Viridiana do Buñuel). Apesar disso, as Luzes continuam a pestanejar a espaços no trapézio do meu cérebro, como diria Machado (e, já agora, diga-se que o título deste post também é do brasileiro).
Tudo isto me foi gerundicamente ocorrendo (eu avisei que gosto de advérbios de modo), após ler estas declarações de José Sócrates a respeito do próximo ano, chamado pelo próprio (ou pelos assesores de agit-prop) o «cabo das tormentas»: É preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas (…) É preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas.

Ou seja, e sem lembrar agora a frase de Richard Dawkins: There’s this thing called being so open-minded your brains drop out. Ou lembrando-a. Pronto. Esqueçamo-nos por uns segundos que o iluminado engenheiro se refere à actual crise. Façamos de conta que fala durante os heróicos tempos do boom financeiro que acabou como se sabe. Sublinhem-se as diferenças. Zero! Ideias novas? Zero. O mesmo ódio ao pensamento (entendido pejorativamente como “respostas clássicas”), a mesma crença no fim das ideologias (depois ― ou antes? ― foi ― ou fora? ― o fim da História), o mesmo credo pragmático. O paleio é decalcadinho… como decalcadinho de outras matrizes se mostra o paleio de Alegre. É o cabo das tormentas: estamos entregues às plantas.” – Ana Cristina Leonardo, in Meditação na Pastelaria, 21-12-2008
'realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

'pois, realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (2) – O salvamento

A rescue helicopter prepares to hoist aboard surviving Japanese climber Hideaki Nara near the summit of Aoraki Mount Cook in New Zealand on December 5, 2008. A Japanese climber stranded for six days just below the summit had died just hours before rescuers reached him and a compatriot, local media reported. The two Japanese climbers were forced to huddle in a tent 50 meters below the 3,754-meter (12,349 feet) peak, as poor weather and high winds foiled attempts to rescue the men by helicopter. (REUTERS/The Christchurch Press/John Kirk-Anderson)

A rescue helicopter prepares to hoist aboard surviving Japanese climber Hideaki Nara near the summit of Aoraki Mount Cook in New Zealand on December 5, 2008. A Japanese climber stranded for six days just below the summit had died just hours before rescuers reached him and a compatriot, local media reported. The two Japanese climbers were forced to huddle in a tent 50 meters below the 3,754-meter (12,349 feet) peak, as poor weather and high winds foiled attempts to rescue the men by helicopter. (REUTERS/The Christchurch Press/John Kirk-Anderson)

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Fotojornalismo. O Ano de 2008 (1)

(obrigado, Pedro Catita)

A edição online do Boston Globe (boston.com) publicou, em três dias sucessivos, 120 imagens que procuram evidenciar aspectos, necessariamente parcelares, da realidade do mundo no ano que passou. Imagens de fotojornalismo, é certo – com a sua demanda impossível de objectividade e a busca de um efeito de verismo e emocionalização. Mas a realidade é, em algumas ocasiões, uma fortíssima fonte geradora de emoções. E a fotografia tem o poder de comunicar essa transferência entre o acontecimento (o instantâneo),  e a sua recepção e apropriação diferidas, sendo o tempo um factor paradoxal de amplificação e distanciamento. Aqui publicarei algumas dessas fotografias, nos próximos tempos.

Nota: as legendas ficam como estão no original, em língua inglesa. A preguiça da tradução é o único argumento válido que me ocorre.

Wounded Palestinians lay near Reuters news agency reporter Fadel Shaana's car after it was hit by an Israeli missile on April 16, 2008 in the central Gaza Strip. The Israeli air strike killed a Palestinian cameraman working for the Reuters news service and two other civilians, Palestinian medics and witnesses said. (MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

Wounded Palestinians lay near Reuters news agency reporter Fadel Shaana's car after it was hit by an Israeli missile on April 16, 2008 in the central Gaza Strip. The Israeli air strike killed a Palestinian cameraman working for the Reuters news service and two other civilians, Palestinian medics and witnesses said. (MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

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Óscares de 2009 – A lista de nomeados

Estas coisas valem o que valem e apenas ocasionalmente as grandes expressões da arte cinematográfica foram reconhecidas pela Academia (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) com o mais célebre prémio mundial (não deixa de ser curioso que uma indústria nascida no século passado dispute com os Prémios Nobel – cujas categorias são, na generalidade, referentes a domínios perfeitamente referenciais no plano científico e das humanidades – a primazia dos media, com clara vantagem para os prémios que consagram o cinema, arte das massas por excelência). Valem o que valem, os Óscares, dizia. Mas não lhes escapamos nunca, ao seu sortilégio, ao jogo de adivinhação, à marca das nossas preferências.

*

Este ano algumas tendências são desenhadas como jogo e manifestação de vontade, no blogue Sound + Vision, de Nuno Galopim e João Lopes. Por mim registo alguns desejos e verifico singularidades: a estrondosa irrupção de Bollywood em Hollywood, com as 10 nomeações de Slumdog Millionaire; a presença de WALL-E em categorias pouco transcendem as tradicionalmente destinadas aos filmes de animação (por mim deveria estar, seguramente, na lista do Melhor Filme; e ganhar, mesmo não tendo eu ainda visto nenhum dos outros!); a 15ª. nomeação de Meryl Streep (fará 60 anos em Outubro, é como se fosse nomeada de quatro em quatro anos desde que nasceu); o regresso, em grande, de David Fincher com The Curious Case of Benjamin Button; Sean Penn, com nova janela de oportunidade para ver a sua notável carreira reconhecida (Milk), depois de Mystic River; o regresso – que regresso – de um canastrão profundamente estimável, vindo do mundo dos desaparecidos: Mickey Rourke (The Wrestler). Sim, esse valente, que andou nove semanas e meia a levar com a Kim Basinger e sobreviveu. E, claro, para gáudio da imprensa cor-de-rosa, o par Pitt&Jolie Inc. pode levar um par de jarras (estatuetas, perdão), para casa. Seria mais um caso de adopção feliz.

Nota: Alguém reparará na presença do grande Werner Herzog na categoria Documentários. Seria uma ‘justiça’ travessa, esta, ganhasse ele. Mas talvez pouco se importe.

(aqui está a lista, copiada no The Independent)

Best picture
The Curious Case of Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk
The Reader
Slumdog Millionaire

Best Director
David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button
Ron Howard, Frost/Nixon
Gus van Sant, Milk
Stephen Daldry, The Reader
Danny Boyle, Slumdog Millionaire

Best supporting actress
Amy Adams, Doubt
Penélope Cruz, Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis, Doubt
Taraji P Henson, The Curious Case of Benjamin Button
Marisa Tomei, The Wrestler

Best actress
Anne Hathaway, Rachel Getting Married
Melissa Leo, Frozen River
Kate Winslet, The Reader
Angelina Jolie, Changeling
Meryl Streep, Doubt

Best supporting actor
Josh Brolin, Milk
Robert Downey Jr, Tropic Thunder
Heath Ledger, The Dark Knight
Michael Shannon, Revolutionary Road
Philip Seymour Hoffman, Doubt

Best actor
Richard Jenkins, The Visitor
Frank Langella, Frost/Nixon
Sean Penn, Milk
Brad Pitt, The Curious Case of Benjamin Button
Mickey Rourke, The Wrestler

Best original screenplay
Frozen River
Happy-Go-Lucky
In Bruges
Milk
WALL-E

Best adapted screenplay
The Curious Case of Benjamin Button
Doubt
Frost/Nixon
The Reader
Slumdog Millionaire

Best cinematography
Tom Stern, Changeling
Claudio Miranda, The Curious Case of Benjamin Button
Wally Pfister, The Dark Knight
Chris Menges, Roger Deakins, The Reader
Anthony Dod Mantle, Slumdog Millionaire

Achievement in art design
James J Murakami, Gary Fettis, Changeling
Donald Graham Burt, Victor J Zolfo, The Curious Case of Benjamin Button
Nathan Crowley, Peter Lando, The Dark Knight
Michael Carlin, Rebecca Alleway, The Duchess
Kristi Zea, Debra Schutt, Revolutionary Road

Achievement in visual effects
Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton, Craig Barron, The Curious Case of Benjamin Button
Nick Davis, Chris Corbould, Tim Webber, Paul Franklin, The Dark Knight
John Nelson, Ben Snow, Dan Sudick, Shane Mahan, Iron Man

Achievement in editing
Kirk Baxter, Angus Wall, The Curious Case of Benjamin Button
Lee Smith, The Dark Knight
Mike Hill, Dan Hanley, Frost/Nixon
Elliot Graham, Milk
Chris Dickens, Slumdog Millionaire

Achievement in costume design
Catherine Martin, Australia
Jacqueline West, The Curious Case of Benjamin Button
Michael O’Connor, The Duchess
Danny Glicker, Milk
Albert Wolsky, Revolutionary Road

Achievement in makeup
Greg Cannom, The Curious Case of Benjamin Button
John Caglione, Jr, Conor O’Sullivan, The Dark Knight
Mike Elizalde, Thom Floutz, Hellboy II: The Golden Army

Best foreign-language film
The Baader Meinhof Complex (Germany)
The Class (France)
Departures (Japan)
Revanche (Austria)
Waltz With Bashir (Israel)

Best documentary feature
Ellen Kuras, Thavisouk Phrasavath, The Betrayal (Nerakhoon)
Werner Herzog, Henry Kaiser, Encounters at the End of the World
Scott Hamilton Kennedy, The Garden
James Marsh, Simon Chinn, Man On Wire
Tia Lessin, Carl Deal, Trouble the Water

Best animation
Bolt
Kung Fu Panda
WALL-E

Best original song
Down to Earth, WALL-E
Jai Ho, Slumdog Millionaire
O Saya, Slumdog Millionaire

slumdog-millionaire, de

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle

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Poesia Portuguesa (19) – Herberto Helder – A Faca Não Corta o Fogo

Depois do acontecimento literário do ano, do incondicional estatuto reconhecido ao livro como obra-prima, das técnicas de marketing, do bruá que gerou – e tudo isto, diga-se, com justa causa; depois de passada a onda, o buzz; transcrevo um poema (necessariamente um fragmento, apesar de delimitado no corpo da obra) de A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, de Herberto Helder. Apenas sugiro, a quem não tem o livro, que cometa um crime de furto (ou gamanço, conforme o étimo que melhor casar com a sua consciência).

A belíssima capa, de Ilda David, é sobejamente conhecida. Escolhi não a repetir (basta procurar em qualquer motor de busca).

Nota: os símbolos que ‘autonomizam’ este texto são, na edição impressa, pequenas estrelas de cinco pontas, preenchidas a negro. Por não ter este editor de texto tal símbolo, foi escolhido o pequeno losango.

a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?

eu sim queria,

jogando linho com dedos, conjugando

onde os verbos não conjugam,

no mundo há poucos fenómenos do fogo,

água há pouca,

mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,

mais brotada, inerente, incalculável,

e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,

e a abre e fecha,

é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,

porque no mundo há pouco fogo a cortar

e a água cortada é pouca,

¡que língua,

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,

e que pouca, incrível, muita,

e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,

que despropósito, que língua língua,

é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!

queria-a toda

Herberto Helder, in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, pp. 66-67, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2008.

'rasto de fogo branco' © Ricardo Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

'rasto de fogo branco' © Ricardo Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (34) – Ana Salomé

Descoberto por indicação de pessoa amiga, o blogue O Cicio de Salomé reúne, entre um heterogéneo núcleo de escolhas e gostos pessoais, poemas da sua autora, Ana Salomé. Escolhe-se este, publicado hoje e edita-se a título de divulgação do seu trabalho poético.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Ana Salomé → via O Cicio de Salomé, 21 de Janeiro de 2009

'Smoking' © José M. S. A., Olhares, Fotografia Online

'Smoking' © José M. S. A., Olhares, Fotografia Online

Obama Presidente. Style it takes

“Let it be told to the future world … that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive… that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet [it].”

Excerto (citação de George Washington) do Discurso Inaugural de Barack Obama como 44º. Presidente dos Estados Unidos da América. ‘Style it takes‘ (Reed & Cale e parece que estamos a falar de outra era e estamos). Estilo tem o homem (até no discurso, cujo esboço foi escrito num Starbucks por Jon Favreau, um puto de 27 anos, que é o Ted Sorensen do novo presidente). Na era da imagem, esta não decide nada. Mas pode fazer toda a diferença. Adeus, George.

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio

Barack e Michelle Obama ontem, antes de chegarem ao Capitólio.

João Aguardela (1969 – 2009)

Morreu o João Aguardela, ainda antes de fazer 40 anos. Eu nem apreciava particularmente o seu primeiro grupo, Os Sitiados (era a Naifa que agora me interessava). Mas apreciava-lhe o bom-gosto, a constante inquietação inovadora, a energia. E era um tipo bonito, em sentido estricto e lato. A notícia pode ser lida aqui.

Porra, não é justo.

João Aguardela © Blitz

João Aguardela © Blitz

Novos Poetas (33) – Miguel-Manso

Miguel-Manso (1979) é, para alguns autorizados e credíveis críticos literários, uma das mais interessantes vozes poéticas deste início de século. Afirmou-o António Guerreiro, na escolha de livros editados em 2008 (Actual, Expresso, 27 de Dezembro de 2008), escrevendo: Miguel-Manso, por sua vez, com dois livros publicados este ano (escolhemos o mais recente) é a mais segura revelação no campo da poesia. De igual forma, Henrique Fialho, no incontornável Volumen, havia já feito a leitura de Contra a Manhã Burra (Guerreiro refere Quando Escreve Descalça-se, Trama, 2008). É justamente no blogue da Trama, um local que respira amor pela profissão de livreiro em cada linha, que se recolheu este poema.

verão de canterbury


não há em nenhuma cidade

resposta para tudo


procurei no Verão de

Canterbury

pressionei a campainha de uma porta

com os dedos sujos de morangos


cá fora nada que pudesse dizer

que lá dentro

quem ouvia

ouvia desde Bangalore

que é como quem diz


os poetas sempre afirmaram

que o universo recomeça sempre a

cada dealbar da voz mais

funda uma


onda um desenho de Hokusai

Miguel-Manso, in Contra a Manhã Burra, edição de autor, Maio de 2008

'A Grande Onda' - Hokusai

'A Grande Onda' - Hokusai

Pérolas (13) – Raios partam

(Raios partam se isto não foi publicado ontem no Diário Digital. Raios partam tanta indigência)

‘«Frida Kahlo» adiado no Casino Lisboa por gravidez’

A peça de teatro «Vida La Vida – Frida Kahlo», com temporada agendada para o auditório dos Oceanos do Casino Lisboa entre 18 de Fevereiro e 15 de Março, foi adiada devido à gravidez da protagonista, Fernanda Serrano. A data de apresentação ainda está por confirmar.

A protagonista da peça encenada por António Feio encontra-se em pleno período de gestação e necessita de repouso absoluto por indicação médica.

As pessoas que já compraram bilhete deverão reivindicar o reembolso no mesmo local em que realizaram a compra, informou em comunicado a Uau (sic) produtora do espectáculo.

Algumas observações absolutamente inúteis:

1. O título, no seu conjunto, constitui uma das mais brilhantes peças de escrita surrealista que já li. É uma notável primeira frase para um cadavre exquis que poderia revolucionar (anacronicamente, é certo) o valor literário do movimento em Portugal.

2. ‘adiado’ não pode concordar em género com Frida Kahlo, visto tratar-se este de um nome feminino.

3. Lendo o lead, percebe-se que também não pode concordar com ‘peça’, nem remotamente, com ‘apresentação’; e descobre-se que ‘Frida Kahlo’ afinal se designa por «Vida La Vida – Frida Kahlo».

4. O que quer dizer “em pleno período de gestação?” Quanto tempo dura? “Por indicação médica”?. Onde está a fonte?

5. O verdadeiro cerne da notícia não está no adiamento da peça. Está na implícita ‘fofoca’, na indignidade de, pela tortuosa via da associação de ideias, haver uma intromissão clara e uma implícita ligação de terrível mau gosto entre a gravidez da actriz principal da peça e a sua conhecida (pública) luta contra uma patologia de natureza cancerígena.

6. Talvez haja, naquele título, uma verdade escondida e, portanto, uma tábua de salvação. Escrito como está, canhestro título de chispe gerado, até permite, por momentos, divagarmos com a ideia da gravidez do Casino de Lisboa.

Raios partam.

'Vou ser adiado no Casino por gravidez. Raios partam'

'Vou ser adiado no Casino por gravidez. Raios partam'



Minguante – micronarrativas online (0)

(em estado de krímsjúka)

A ideia pode não ser original, mas adquire, com a revista online Minguante, uma expressão, formalização e persistência notáveis. Na própria definição da revista, esta consiste num Espaço online dedicado à micronarrativa. Está aberto à participação e organiza-se em torno de uma revista trimestral e temática. E define, de forma bem concreta, o que entende por micronarrativa: As micronarrativas, em nosso entender, para além de serem breves (não excedendo as 200 palavras), devem ser narrativas, ou seja, contar uma história, quer seja em prosa ou em verso. O Corpo Editorial é constituído por Fernando Gomes (webdesign); Luís Ene (concepção e supervisão) e Margarida Delgado (grafismo). Duas ou três notas apenas, uma vez que a revista pode (e deve) ser lida no seu site. 1) A Minguante nasce em Faro, facto que nos dá uma (pálida) ideia da actual vitalidade de diversos núcleos de produção cultural fora dos grandes centros urbanos; o meio online tem sido uma poderosa ferramenta de afirmação destes núcleos produtores 2) A revista já conta com 13 números, sempre com número crescente de participações, de qualidade desigual, claro, mas na generalidade bem dentro do aceitável; 3) Desde o número zero, a publicação online conta com significativa participação de autores não portugueses (nomeadamente do Brasil e de Espanha), num saudável entendimento cosmopolita da literatura (agora seria moda designar-se por multiculturalismo, étimo que mantenho em pousio enquanto andar a servir para vender muita patranha e muito projecto gerador de empregos por medida).

Uma nota final, esta com alguma tonalidade de tristeza: contactei duas vezes por mail os responsáveis da Minguante, no sentido de me permitirem a divulgação da mesma e de alguns – poucos – textos de cada número. Não obtive, até hoje, qualquer resposta, positiva ou negativa. Não serei digno do estorvo, nem de grandes insistências. Ponderei. Assim, indignamente, mas sabendo que estou, em primeira e última análise, a divulgar um projecto editorial que me suscita admiração, e textos de que gosto, atrevo e publico três textos do número zero, datado de Junho de 2006 – o único sem tema – (aos autores peço indulgência, uma vez que me pareceu correcto contactactar a Minguante). Com o tempo, divulgarei os números seguintes, nos mesmos termos. Talvez os autores da Minguante, que só podem ser pessoas decentes e de gosto, arranjem um pouco de tempo para validar ou negar-me a iniciativa. Acatarei qualquer decisão. desde que a conheça. (continuarei a contactar…)

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

José Carlos Barros


O caderno do Mestre Ferrador

Vinte e seis anos
cabem num caderno de capa negra
de cartão grosso: registo do deve e haver
e do estado dos campos. A vacina
do tétano no mês de Junho
de mil novecentos e sessenta e dois,
as ferraduras novas, a infusão de marcela
ou a tintura de genciana
para o gado vacum remoer,
receitas com alúmen, o canfocitrol,
a essência de terebentina,
a injecção para as inflamações
nas tetas das ovelhas. Chamavam-lhe
o Mestre. E o Mestre gostava
dessa deferência para com a sua Arte: vê-se
pela caligrafia apurada, pelo esmero
no alinhamento das parcelas numéricas,
pelo modo como, diz quem o conheceu,
olhava uma mula doente, demoradamente,
e se recusava a emitir opinião
enquanto não passasse ao rigoroso,
minucioso exame científico da besta.

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

Henrique Manuel Bento Fialho
Nocturnos

I
Um manjerico com a orelha toda furada, bêbedo que parecia um cacho, berrava que nem vaca tresmalhada. O dono do bar indicou-lhe a saída. O manjerico deu com o vaso. E com os cornos de um boi qualquer.

II
O segurança da discoteca discutia com a namorada enquanto me segurava a goela com os dois punhos. Pedi-lhe um cigarro e dancei do filme armado em herói.

III
Um pastor alemão entrou no bar. O DJ exibia-se à mesa do bilhar. Os fregueses pararam de dançar. Rosa pediu a conta e pôs-se a andar. O cão farejou o motard. Faltou-lhe o ar.

IV
O motard meteu-se com a mulher-desespero. Serviço feito, o motard confessou: «na tênh’ d’ nhêro». O motard, em fuga, espalhou-se na estrada.

V
A menina-ingénua abocanhou o Zé Tó, isto no entrementes de um banhista se lhe trocar de olhares. O Zé topou. Depois, vingou-se dos mares banhando o banhista com meio cibo de pó.

VI
O chibo, para provar que não amava a pedido, esbofeteou a namorada na presença da mãe. Ela não suportou a humilhação. Sacou-lhe as chaves e pô-lo a andar.

VII
O peixe esparóide mirou-o à desconfiança. Virou-lhe as costas e seguiu na direcção do sol nascente. De mastodonte ao léu, pendura de fia-te 600, gritou línguas do leste na direcção dum velho goraz. O anzol morreu de tédio.

VIII
O país sardinha assada afogou-se em água-pé, honrou o jet set com honoris causa e foi de carrinho para Espanha vender figos.

IX
A classe engravatenhada, de telemóvel abrincalhado, optou por sinalizar chamadas com um ring ring aflito. As mulheres andam numa aflição, os filhos andam numa aflição. À hora de jantar, famílias inteiras comparecem aflitas nos sítios do costume.

X
Dois ucranianos, de cajado em riste, caceteavam um colchão moloflex. Enxotavam percevejos e vingavam insónias.

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

Nuno Moura
As Desfoque Stories

1

Três anéis de prata em forma de cone no lideiro
amargurando os pequenos cabelos desse dedo
e aproveitando o resto de água quente da caldeira
uma esponja cheia de borbulhas num peito floreiro
muita espuma
é a sua mulher
ela tem quarenta e cinco anos

um convite para jantar
de resto os dois
a mesma mesa
uma duas toalhas em rolamento

na noite passada de 22 para 23
aguardaram comunicação definitiva
reabasteceram de combustível em São Paulo
cobriram a generalidade dos interesses
e de manhã estavam em casa
fruta

pequenos obstáculos
grainhas
dentes.

© António Soares

© António Soares, Olhares, Fotografia Online


Fotografia do Dia (23) – O Templo

(em estado de krímsjúka)

Deveria, claro, por questões de oportunidade e excitação das gentes, encontrar uma fotografia espectacular do avião que caiu em pleno rio Hudson, Nova Iorque. Sempre é mais cosmopolita e a queda de um avião é como as águas de um rio, quando as olhamos: torna-se difícil afastar a vista. Mas esta fotografia, esta sala subterrânea, no extraordinário minimalismo e organização formal que mostra (e que mostra muito mais porque, na verdade, se destina a esconder), na sua ambivalente austeridade, matizada pelo suave dourado, encerra uma poderosa carga simbólica de uma era que parece ter acabado. Aqui residiam as entranhas do capitalismo, antes de serem desmaterializadas em complexas redes informáticas que geraram esquemas reprodutivos de capital no limite da decência. No limite da loucura. Comparado com o escritório de uma empresa de brokers em Wall Street, a austeridade imponente desta casa-forte de um banco suíço (repare-se no delicioso pormenor de um cofre aberto) convoca mesmo uma certa nostalgia. Assemelha-se a um templo.

An employee sits among safeboxes in the safe room of the Zuercher Kantonalbank in Zurich

An employee sits among safeboxes in the safe room of the Zuercher Kantonalbank in Zurich

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Poesia Portuguesa (18) – Joaquim Manuel Magalhães

Publica-se aqui um dos poemas que melhor separam as águas entre a identidade homossexual e a sua apropriação/incorporação pela sociedade, poema esse que, lido em confronto e diálogo com o propositivo, programático e cénico poema Homossexualidade, publicado bem mais tarde, na revista Telhados de Vidro nº. 4, de Maio de 2005, nos deixa(m) perante a voz cortante, de espessa ironia e consciente desencanto de Joaquim Manuel Magalhães. No final do poema, transcreve-se um texto de Paula Cruz, professora já referida aqui, autora do não/blogue escolar CercARTE, intitulado Gavetas e Armários. Parece-me acertado que se leiam os dois textos de tal forma que seja tão distinta como cruzada a sua leitura.

Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente

Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam

Aos poucos também, a troco da paga decorativa

De vários livros de verso e alguns de ensaio,

Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.


Com o tempo vieram as fotografias nos circuitos

De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam

Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.


Nas pistas múltiplas das artes e das noites,

Até antigos desconhecidos, até estáveis malquerentes

Diziam: “os dois poetas”. Antes queriam


Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo

Da profissão que padeciam por a reconhecer

O melhor lenitivo para a obsessiva

E neurotizante dedicação em exclusivo

À chamada profissionalização dos escritores:


«os dois poetas», contudo, semi-servia

para neutralizar outras sevícias.


Mas quando os carros exigiam marcações

na empresa dum mecânico vizinho

às vezes no telefone pousado chamavam

com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»

Embora sempre afável atendesse às avarias.


A voz voava do recanto de contabilidade

forrado a calendários com poses pneumáticas

por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.

baterias, broquins, desperdícios, alavancas;

e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.


Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.

E ambas as designações os faziam sorrir.

Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma

Ou até doutra mecânica qualquer? Ou de pequena cidade?

Ou de grupo de jardim com reformados?


Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, pg 124 – 125, Contexto, Lisboa, 1987

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

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Gavetas e armários
Paula Cruz


Quando alguém lê um romance onde um homem e uma mulher se envolvem em práticas amorosas, não o rotula ou categoriza no subgénero literário “ficção heterossexual”, nem faz juízos de valor sobre a orientação sexual do produtor da obra. No entanto, se numa dada obra temos uma alusão ou descrição de uma relação homossexual, essa obra, passa, quase de forma automática a ser inserida na literatura gay, ou mais modernamente, na literatura querer, uma estratégia terminológica politizada que nos permite ir um pouco mais além dos géneros sexuais tradicionalmente estabelecidos.
Certo é que a pseudo-heteronormalidade, a «elasticidade mortífera da presunção heterossexual» (Sedgwick, 2003:7), vai regendo a subcategorização dos géneros  literários, assim  obras produzidas ou por autores que assumam publicamente a sua orientação sexual  ou  cuja temática aluda a sensibilidades ditas minoritárias são categorizadas sob o amplo guarda-chuva terminológico de literatura gay , LGBT ou  queer.   O mais curioso é que qualquer forma de afirmação – seja de orientação sexual, política, ou outra – é, simultaneamente, um mecanismo de ocultação, pois para que se destaquem os caracteres que se desejam afirmar , os outros são silenciados. O facto de uma obra ser lida enquanto “lgbt”, faz com que todas as outras  questões abordadas, sejam menorizadas.
Ser posto na prateleira da literatura gay ou homossexual (distintas, segundo Eduardo Pitta)  ou feminina é uma forma de dar visibilidade, mas ao mesmo tempo, de criar um certo folclore à volta desses mesmos rótulos, assim como em tempos se fez com a literatura sul-americana ou como, presentemente, se está a fazer com o romance histórico (sempre embrulhado numa doirada capa com um qualquer pormenor de um quadro renascentista ou com uma imagem sépia a revivificar uma qualquer falsa memória colonial).
Claro que a questão da visibilidade social LGBT é importante, bem como é importante desfazer mitos em redor das homossexualidades, no entanto receio que os, por vezes,  escusos caminhos da edição promovam as obras  apenas como uma forma inocente de voyerismo e não pela sua qualidade intrínseca.  A meu ver, faz todo sentido falar-se em estudos queer e considero  urgente  reservar um  espaço nas estantes para este emergente campo de estudo. Já em questões literárias, parece-me lesivo (e abusivo)  fechar os autores em espartilhos que não os dos géneros dramático, narrativo e lírico.  A opção por rotular uma obra na literatura gay faz parte de um processo evolutivo: num primeiro momento há a consciencialização e a afirmação da diferença e, posteriormente, teremos o desejo de uma diferença não diferenciada. Nessa diferença a  dicotomia homossexual / heterossexual perderá o sentido. É o caminho da diferença não diferenciada que queremos que seja trilhado.
A obra ficcional de Frederico  Lourenço não pode ser  equiparada à de um Guilherme de Melo, por exemplo. O ser homossexual não autoriza a que sejam colocados numa mesma prateleira e num mesmo nível de qualidade. A questão heterossexual, homossexual, lésbica, transexual ou bissexual é  identitária, podendo ou  não transparecer para  a escrita, embora lhe esteja subjacente.  Frederico Lourenço é, no meu entender, um excelente escritor, que por acaso é homossexual. A trilogia iniciada por Pode um desejo imenso tem inquestionavelmente uma temática gay, mas é muito mais do que isso . Além dos aspectos literários, trata-se de uma ardilosa forma de defender uma tese, que encontraria resistências vigorosas no meio académico. Quando digo que Frederico Lourenço “por acaso é homossexual”, refiro-o como, a propósito de Mia Couto , digo que por acaso tem um pigmentação de pele mais nórdica, do que a tipicamente moçambicana. É óbvio que  todos os factores que  condicionam o autor textual são importantes, mas daí a tornar essas evidências em factos determinantes no seu emprateleiramento literário, parece-me francamente exagerado.  Para um  autor,  ser lido apenas por ter (ou melhor, assumir)  uma orientação sexual divergente da heteronormalidade asfixiante não é nem prestigiante, nem interessante. Se continuarmos a insistir em  rotular obras apenas por factos além da própria obra, como a orientação sexual  dos escritores, podemos chegar  a  extremos tão caricatos quanto etiquetar Miguel Torga e Jorge Sousa Braga  enquanto nos poetas que são médicos, sendo Sousa Braga inserido na subcategoria dos poetas ginecologistas. Vergílio Ferreira e David Mourão-Ferreira cabem na secção nos escritores que foram professores, sendo que Vergílio Ferreira pertence à sub-secção dos romancistas professores de Português, Latim e Grego do ensino Secundário. Vasco Graça Moura nos escritores que casaram mais de três vezes,  Manuel António Pina,  Ana Luísa Amaral e Adília Lopes nos escritores que gostam de gatos.  Esta especificação  seria, obviamente, ridícula, como o outro extremo também o é: em nenhum manual escolar a homossexualidade de Eugénio de Andrade é focada. Há aqui um “assobiar para o lado”, perdoe-se a expressão, apenas perceptível se enquadrarmos o poeta numa sociedade que apenas em 2004  tornou inconstitucional a discriminação com base na orientação sexual.  O “tu” dos poemas de Eugénio é lido nas selectas escolares sempre como um sujeito lírico feminino, não se abordando em parte alguma a questão do “outro” poder ser alguém do mesmo género sexual. O mais que acontece é esse “tu” ser lido como um referente neutro. Claro, que neste caso é o preconceito ancestral que domina as leituras oficiais. Sem nos alongarmos nas leituras mais ou menos  oficiais feitas pelos manuais escolares, não é só na questão da sexualidade que estes manifestam um carácter bafiento. A forma prática como os autores são seccionados em temáticas resulta numa forma dramática de circunscrever os autores a determinados topoi.
Uma das  vantagens efectivas  de os livros seguirem para as livrarias previamente etiquetados  é que, desta forma,  o trabalho dos livreiros é simplificado, assim,  nem sequer precisam conhecer o que vendem.  Se calhar  é por ausência de etiquetas que Breves Notas sobre Medo (2007)  de Gonçalo M. Tavares é muitas vezes  arrumado na secção de psicologia e Introdução à Filosofia  e Fenomenologia de Fernando Echevarria são serenamente acomodados entre tratados filosóficos.
É  caricato falar-se de literatura homoerótica quando falamos de escrita onde se tocam questões homossexuais, de pudicamente se falar em literatura feminina, quando muitas vezes a temática é de cariz lésbico e de se falar de literatura erótica quando se fala de literatura heterossexual, com pinceladas de sensualidade e/ou sexualidade entre homens e mulheres. Por que será que não se fala em literatura heteroerótica? Mais uma vez o peso da heteronormalidade, marketing ou simples distracção? E, ainda nesta linha, o que define a literatura dita gay: a orientação sexual do autor ou a temática da obra?
Falar em literatura feminina, em literatura regional, em literatura gay, literatura colonial ou pós-colonial, em literatura negra  é sempre uma forma  de categorizar e, de certa forma, engavetar. A necessidade de categorizar e de nomear é intrínseca ao ser humano e isso, por si só, não é necessariamente mau. Muitas vezes,  os rótulos são uma forma lícita  de dar visibilidade a determinadas questões sociais, no entanto,  esse mesmo rótulo pode tornar-se num duro espartilho que não deixa  que as obras respirem e sejam lidas no seu todo.  Assim como não considero que exista uma escrita feminina, também não  creio que seja relevante falar em literatura queer, gay, homossexual ou lgbt. Não é a escrita que está em causa: é o modo de ler. A etnia, a orientação sexual, o local de produção não definem, à partida, ou não deveriam definir, a qualidade da obra. A opção por, voluntariamente, enquadrar uma obra  sob determinada legenda – gay, homossexual, queer (aqui os termos são usados indistintamente) – reproduz exactamente a mesma ordem social inflexível e reguladora contra a qual se opõe. O sublinhado terminológico que embrulha obras de cariz tão diverso configura o mundo a partir   do binómio homossexual vs heterossexual.
O texto literário é sempre coberto de véus que criam verdades artificiais, ainda que de verdades se tratem, de facto. Estes véus constroem uma realidade simbólica que se afasta da realidade do autor empírico. Ainda assim, o texto revela marcas do seu tempo, do contexto de produção, do contexto sócio-cultural, de género e até da orientação sexual.  A interrogação sobre a importância destas marcas é importante, mas não pode ser condicionante,  transformando  o exercício da leitura numa obsidiante compilação de marcas do tempo, da biografia, da intimidade, da orientação sexual de quem o escreveu.
A literatura faz parte da vida, não lhe é marginal, logo a sexualidade está sempre presente, seja de forma mais ou menos explícita. O grau de conhecimento do leitor, os seus horizontes e a sua biblioteca cultural convivem com os textos. Em última instância, seria (ou deveria ser) o leitor a guardar cada obra na estante pessoalíssima das suas próprias leituras.
Se etiquetar algumas obras sob a sigla LGBT pode até, num primeiro momento ser  vantajoso, como forma de adquirir um lugar numa estante de uma livraria, no entanto a longo prazo  isso faz com que na obra apenas se perscrutem  traços biográficos e que os aspectos literários sejam relegados para planos muito secundários. A prateleira da “literatura gay” é apenas uma forma de fechar o armário ou, então, de transferir o armário para uma gaveta.  Neste ponto, é necessário radicalizar a questão:  a obra vale pelo que é ou pela orientação sexual do autor ?
Categorizar uma obra pela orientação sexual do autor empírico é ler a obra pelos óculos redutores da crítica biografista.  A vida  privada do autor só é (deve ser)  relevante para a sua esfera privada. Não tenho grandes dúvidas que se determinados autores publicassem as suas obras sob outras etiquetas, o sucesso editorial seria diverso. Arrisco dizer que Paulo Kellerman, autor de Gastar as Palavras (2006) e os Mundos Separados que Partilhamos (2007)  seria, se assinasse como Paula Kellerman,  etiquetado, com alguma facilidade , numa escrita dita feminina.
Os bons livros seguramente deixarão os espartilhos das prateleiras  e afirmar-se-ão  pela sua qualidade, sendo, quando muito integrados nos géneros maiores: lírico, narrativo e dramático. Os outros prestam-se ao folclore.

Bibliografia:
Pitta, Eduardo (2003) Fractura, a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, Angelus Novus, Coimbra
Sedgwick, Eve Kosofsky, trad. Ana Luís e Fernando Oliveira,  (2003) Epistemologia do Armário, Angelus Novus, Coimbra
Carneiro, Nuno Santos e Isabel Menezes, (2006) “Do anel à aliança”: Sentido dos iguais e emancipação pessoal na psicologia das sexualidades” (pp.73-79) in Revista Crítica de Ciências Sociais, 76

¹Note-se que é desajustado falar em literatura gay (ou homossexual, ou queer, ou outra coisas qualquer) uma vez que  a literatura, em si mesma, não é um género literário. Os géneros literários maiores são o dramático, lírico e narrativo, logo, seria preferível falar em “narrativa gay”, “poesia gay” e “teatro gay”.

²O caso de Mia Couto serve ainda de exemplo para uma ambiguidade criada pelo seu próprio nome. Mia é um diminutivo de Emílio, mas muitas vezes, os leitores estão em crer que Mia é nome de mulher e que o autor do texto é, portanto, uma mulher. Conta-se aliás o equívoco  a que foi sujeito numa visita diplomática a Cuba, em que  os assessores de Fidel Castro o presentearam com artigos femininos, dado que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Aliás, o próprio Mia Couto refere que normalmente aguardam uma mulher negra. O condicionamento da leitura começa aí.

³Neste ponto, é curioso observar que Ary dos Santos, poeta, comunista rejeitado pelo partido pela sua orientação sexual, é mais depressa lido de um ponto de vista hermenêutico sob uma perspectiva politica, do que sexual.

publicado no Primeiro de Janeiro, suplemento Das Artes e das Letras.

krímsjúka

Africans – Griep; Albanês – influencë; Búlgaro – грип; Checo – chřipka ; Dinamarquês – influenza; Esperanto – gripo ; Ilhas Faroé – krímsjúka; Galês – anwydwst; Zulu – imfluwenza. Sim, fui ao Webster’s num momento de desesperado masoquismo, comprazer-me com a universalidade e diversidade de nomes para a maleita que me atirou desde há uma semana ao tapete – leia-se, cama – com todas as misérias inerentes (fossem inerentes e não misérias e aposto que jamais me lembraria de encontrar os nomes das coisas): febrões de mudar a roupa a meio da noite, dores em ossos de que desconhecia e existência – e que provavelmente me desconheciam a mim – excreções, e outras condições que não deve o pudor para aqui chamar. Uma coisa é certa: sendo eu um daqueles tipos que não ganharam barriga quando fizeram 35 anos, tendo níveis de colesterol abaixo da média, suportando cargas de esforço continuado sem que o meu coraçãozinho desate a palpitar, todos os anos é isto: apanho uma gripe (pode ser reles) e tenho para dez dias. Fico aviado, inutilizado,  a quarenta graus, palavra de honra. Este ano, acrescidamente, enraivecido: pela primeira vez tomei voluntariamente a vacina. Foi o mesmo que nada “a vacina não apanha todas as estirpes e mutações virais”, avisara-me a farmacêutica, enquanto eu saía, impante do seu amável comércio. Pois. “Mesmo fumador (e se deixar de fumar), você tem tudo para chegar aos noventa e tal anos”, disse-me, o ano passado, o meu médico. Esqueceu-se do meu sistema imunitário. Não vivi , no início da década de oitenta, na cidade de São Francisco (apenas por acaso, diga-se); não sou gay (apenas por acaso, diga-se também). Mas lá que agora eu era um tipo célebre como tendo sido o primeiro seropositivo, disso não me restam dúvidas. Sou tipo mata-moscas. Apanho todas!

O título quer dizer ‘gripe’ na lindíssima língua que se fala nas Ilhas Faroé, a qual, por inépcia e desleixo, não domino. Dar um nome de bolo (ou de guloseima) a esta infernalidade invernil só mesmo para poetas. Ou tipos habituados ao frio.

'bora lá que o tipo é fraquinho'

'bora lá que o tipo é fraquinho'

Pérolas (12) – Sócrates avaliado

(Ontem, dia 7, o Público escrutina as ‘afirmações factuais’ da entrevista de José Sócrates à SIC. E conclui com esta exigente fasquia:)

‘O primeiro-ministro passa no teste: dos 17 factos analisados, nove são verdadeiros’

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,3. Depois já posso ser primeiro-ministro e avaliar toda a gente'

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,6. Depois já posso ser primeiro-ministro de Portugal e mandar avaliar toda a gente. Os professores, por exemplo'

Poesia Portuguesa (17) – Al Berto

é tarde, meu amor


é tarde meu amor

estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido

agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono

habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis


tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo

enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura

mas não


águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco

em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público

aceito o desafio do teu desdém


na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição

apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990) , Livro Quarto – Trabalhos do olhar, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

Miguel Esteves Cardoso no Público – a primeira crónica

Seria quase uma trivialidade, seria um acontecimento quase normal, nascido da vontade de um diário, o Público, enriquecer o seu quadro de cronistas com um nome de vulto, gerador de opinião, bruá,  mais pontos de audiência. Mas este é um acontecimento no verdadeiro sentido da palavra, não é um quase. Miguel Esteves Cardoso começou ontem, dia 5 de Janeiro, a publicar uma série de crónicas. Uma série de crónicas diárias, consecutivas, com a duração de, pelo menos um ano, 365 serão. Uma façanha (lembro-me de Eduardo Prado Coelho, também no Público) a que poucos se atrevem, pelo menos de plena consciência. Escrever por escrever há muito quem escreva: a metro. Ora Miguel Esteves Cardoso nunca escreveu a metro. Ou melhor, mesmo quando escrevia a ‘aviar’, como recentemente afirmou em entrevista à LER, toda a gente achava que era genial (fenómeno que seria assustador para o próprio). E era mesmo genial, ou andava lá perto, no seu menos melhor, ou nas redondezas, no seu mais assim-assim. Porque este homem marcou as muitas gerações que há dentro de uma geração. Algures entre as décadas de oitenta e noventa ele ajudou-nos a sermos um bocadinho menos parvónia. Merece respeito por isso. Merece respeito pela coragem com que se entrega a este trabalho diário, que ontem começou.

E começou tão leve, o MEC. Num texto de uma suavidade elegante, quase intangível, traça um grácil arco de humor, humanidade e sentido a partir de uma trivialidade. Longe da truculência de outrora, é uma voz muito mais serena que vamos começar a ler, pressinto. Um outro completamente o mesmo. Reproduzo aqui, integralmente, esta e apenas esta primeira crónica, ainda que não tenha pedido licença ao Público, nem ao próprio autor, que não conheço. Se não sentir vestígios do meu agradecimento neste post, que pelo menos o Público o tome à conta de promoção. Tu não nos morras, intitula-se a crónica. Obrigado por não nos ter morrido, Sr. Miguel Esteves Cardoso.


Tu não nos morras

«Quando eu era ainda mais novo do que sou hoje, julgava que os velhos de Beckett eram personagens abstractos. Se tinham cabelo branco até à cintura, cabeças caídas e passos vagarosos era porque Beckett imaginara-os assim.

Agora vejo que não era por isso que são universais. Era por serem mesmo velhos: os velhos que, se tivermos sorte, muitos de nós ainda haveremos de ser.

A morte da senhora de 115 anos, Maria de Jesus, não deve ter sido boa notícia para Augusto Moreira. Este era uns bons três anos mais novo. Mas agora,  com os mesmo 112 que tinha, passou a ser o mais velho de Portugal.

Em contrapartida, nós os mais novitos – toda a população – adoramos estas histórias.

Fazem-nos sentir jovens. Dão-nos esperanças de chegar, vá lá, aos 90. Então se o “segredo” é um vício, deliramos. O do Sr. Moreira é um cálice de Porto por dia. Que nós logo convertemos, em termos etários, para nosso próprio consumo, para uma garrafa de tinto.

O Sr. Moreira não é perfeito: não fuma. Mas come “sopas fortes”. De resto, como contou Ana Cristina Pereira no PÚBLICO de ontem, “quase não anda, quase não ouve, quase não vê, quase não fala”. No entanto, na noite de sexta para sábado, chamou muitas vezes pela filha. Que queria ele? “Quero uma saia”, respondeu ele uma vez. E doutra: “Quero debulhar milho.”

Tenho de reler Beckett. Se calhar não era tão bom como eu pensava.»

Miguel Esteves Cardoso [Ainda ontem, série de crónicas diárias], Público, 5 de Janeiro de 2009.

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)

Novos Poetas (32) – José Carlos Barros

Um amusement do autor que, a brincar, acerta em todas (o inesquecível canastrão Zefirelli!). →Via o magnífico Quintas de Leitura.

(Nota: aborreci-me com a numeração romana, sobretudo pela extensão que ocupa. E pela mancha. Funciona bem em papel. No blogue não. Lá terei de voltar atrás e renumerar tudo. Melhor. Um destes dias será.)

O AMOR MAIOR


por ti eu fazia tudo meu amor

eu candidatava-me às autárquicas

eu via um filme do zefirelli

eu até corria a

filha da puta da meia

maratona da nazaré

a pé coxinho

José Carlos Barros

'cheguei, amor, todo roto por ti'

'por ti, amor, cheguei... todo rotinho'

Poesia Portuguesa (XVI) – Gonçalo M. Tavares

1, editado em 2004, único livro de poesia do escritor (pelo menos que eu conheça) é, nas palavras inscritas no blogue do próprio autor, um “Livro de poesia que é uma espécie de antologia de oito pequenos livros bem distintos entre si.”

Aqui se deixa um poema e um excerto em prosa.

PALAVRAS, ACTOS


A ironia ensina a sabotar uma frase

Como se faz a um motor de automóvel:

Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres

No verbo ou numa letra do substantivo

A frase trágica torna-se divertida,

E a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,

Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar

A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo

Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita

Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida

Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero

Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.


*


«No mundo onde existem peixes e animais sólidos e altos como os grandes mamíferos, onde existem animais, como a borboleta, que parecem papel e não organismo, no mundo onde existem asas de cores diversas e cauda que se eleva ligeiramente para deixar espaço para os excrementos, no mundo onde o inesperado chega mais aos ricos que aos pobres, no mundo em que metade das coisas visíveis são cruéis e a outra metade é delicada por estratégia, no mundo tão vaidoso das suas cidades como da montanha que exibe na fotografia, no mundo soberbo e caridoso na forma como não mija demasiado sobre os que perderam, neste mundo, neste alegre mundo, como ocupará um poeta a sua manhã?»

Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

1

Fotografias do Ano de 2008, no The Guardian

Lisa Foreman and Ranjit Dhaliwal, editores de fotografia do The Guardian, seleccionaram aquelas que consideram ser as melhores ou mais pertinentes fotografias – estamos a falar de fotojornalismo – do ano que passou. Interessante é a forma como se apresenta a selecção: um clip de seis minutos, em slide-show, comentado pelos referidos editores. Tem a vantagem de destacar aspectos que o seu olhar experiente permite revelar. A escolha pode ser apreciada aqui.

Manágua. Um homem procura bens recicláveis numa lixeira municipal © Esteban Felix/AP

Manágua. Um homem procura bens recicláveis numa lixeira municipal © Esteban Felix/AP