As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Outubro, 2012

Hélia Correia — [o medo]

 

«Dificilmente se acredita que os seus textos ainda existam, que estes livros não se apaguem. Pois, ao contrário do lugar comum onde se encontra a vã consolação, ao contrário da crença de que a escrita, trazendo glória, traz eternidade, há este sentimento, que é meu, de que para certa rara gente tudo foi uma única coisa. Não ocorreu uma separação e penso sempre que as ervas que devoram um mortal devorarão também a sua obra. Porque este é um dos casos em que a obra era o orgão vital, o que gerava visão, entendimento, medo e esperma.

Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigénio. Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se educou para a alucinação. O que descreve o brilho intenso que há na noite e é, no entanto, a fonte do fulgor, dessa fosforescência com que os mortos que o tocam, de visita, o contaminam.

Dificilmente se acredita que os seus textos não tivessem ardido inteiramente, não se extinguissem com aquelas mãos que pegavam na insónia para os escrever.»

Hélia Correia, in Revista de artes e Ideias n.º 8, «O Medo», Coimbra: Alma Azul, 2006. p.51

[Nota: este texto, presente no oitavo número da Revista de artes e Ideias, dirigida por Elsa Ligeiro na chancela Alma Azul, alude muito provavelmente ao poeta Al Berto, que escrevera, em 17 de julho de 1984, a célebre entrada: «às vezes, o dia resume-se a uma palavra, mas hoje, se não conseguir escrever, saio para a rua e mato alguém». O texto não tem título, pelo que se optou, para referenciação, pelo tema comum à generalidade dos textos incluídos na revista que, de resto, é dedicada à temática: «Medo»]

«reach»

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Alma Azul online

Rui Pires Cabral – Começo

Vejo-te um pouco como se já não houvesse

uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí

por todo o lado, onde quer que se respire, dentro

dos próprios frutos. É o começo da noite

e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:

porque escolhemos tão pouco

aquilo que nos pertence?

Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas

a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,

quase uma razão.  As minhas canções preferidas

pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia

que te vestias com elas. E no entanto

como se apressaram as grandes florestas a invadir

as gavetas, como misturaram as raízes

no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Cabral, Rui Pires, A Super-Realidade, Lisboa: “Língua Morta”, 2011

[nota do autor: “Este livro é uma reedição. Emendei alguns versos, rasurei outros tantos e excluí nove dos trinta e cinco poemas que compunham a versão original, publicada em Vila Real no outono de 1995”]

"sunsets and beer", Brittany Marter, via Deviantart (D.R.)