As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Julho, 2011

Pedro Tamen — Ensoneto

 

Entretanto, meu filho, é vinho tinto,

erosão persistida, abraço baço.

Lumes novos, quem é que os inventa

melhor do que o calor que nós nos damos?

 

 

 

Às uvas pois. O mais é uma cadeira

e o olhar do céu com chuva ou não,

enquanto as aves fogem e nós as imitamos

quase sem dor nem arte — só sentidos.

 

 

Assim sossega, assim verdeja e está,

eructa e vê, olhando à transparência,

um céu assim mais lento.

 

 

Só depois te levantas e contigo

vai certeza nenhuma, só viver

outra vez, amanhã, a vida mesma.

1971

Tamen, Pedro, Colóquio/Letras n.º 12, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1973

«Raisin and grape - 2», Mordecai @ Mordecai, via Deviantart (D.R.)


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Alberto de Lacerda — Maio

 

Maio
Quer dizer sem faixa
Nu
Maio
Quer dizer formoso
Do princípio ao nu

Maio
Quer dizer a gaia
Sensação espraiada
Da flor em cometa
Sem fim

Maio
Quer dizer o lume
Do perfume lúbrico
Upando-se
Insensato

Maio
Quer dizer o monte
E quer dizer o tronco

Maio
É um ai enorme
Em que o a se exalta
Em que o i não chora

Ai
Maio
Ai
Ditongo muito aberto
No campo possuído lenta-
Mente por um M fecundo
Rindo enquanto tudo
Dilata e esplende

Londres, 1971.

Lacerda, Alberto de, Colóquio/Letras n.º 11, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1973

Breakable, Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (D.R.)

 

Link relacionado:

Sobre Alberto de Lacerda

António Franco Alexandre — Sem palavras nem coisas (um poema)

 

 

2.

 

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar

as árvores: mas aquilo que amaste perdura.

Junto da água morna os animais aguardam o ruído

vegetal da noite, e as luzes bocejam

a mansidão das pernas esticadas: o amor

não tem tempo, e dura no que amaste.

Dura de repente nos olhos abertos e

a água que respira no flanco dos animais

bocejando devagar a chegada da noite e das

redes e os passos mornos dos caçadores,

e as luzes escancaradas do silêncio. Dura

esticado nas árvores, dura mansamente sem

palavras nem coisas, sem tempo para

aguardar as mãos do caçador e as redes

mornas respirando sobre a água: aquilo

que amaste perdura.

 

Franco Alexandre, António, Sem palavras nem coisas, Lisboa: iniciativas editoriais, 1974

 

«we just want to live», karina © karina, via Deviantart (D.R.)

Golgona Anghel — Vim Porque Me Pagavam (dois poemas e apresentação)

Depois do tão aguardado como surpreendente e bem recebido livro de Margarida Vale de Gato (Mulher Ao Mar), de novo a Mariposa Azual edita uma autora cujo trabalho poético se aguardava há muito em livro, depois de Crematório Sentimental («Quasi», reeditado na «Livrododia»). Os poemas de Golgona Anghel,  alguns deles dispersos em publicações e blogues, prometiam nova corporização num conjunto publicado (organizado num tríptico temático), francamente estimulante até pela singularidade da voz poética da autora. Vim Porque Me Pagavam é o título da obra. Por gentileza da editora, Helena Vieira, da Mariposa, aqui se deixam dois poemas e notícia do seu lançamento, na Sexta-feira, 22 de Julho às 22:30 – 23/7 às 1:30, no Bar Bartleby, Rua Imprensa Nacional, 116, Lisboa.

Refira-se que o livro estará em venda, a partir de segunda-feira 18 de Julho (ainda antes do seu lançamento), nas livrarias «Poesia Incompleta», «Livraria Sá da Costa», «Livrarias Leitura books & living — (Livraria Leitura Campo Alegre (Porto)», «FNAC’s». Como foi feita uma edição de 300 exemplares, acorrei aqueles que gostam de poesia, os bibliófilos, os investidores em bens mais sólidos que certificados de aforro.

«od to triumphal desolation 2», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

 

«O mundo é estranho, Sandy!»

 

 

 O nosso é parecido com a palavra agora.

Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula

que na versão alemã traduziram por dipsomania.

 

 

Quando temos sede abrimos um rio

de esperas na noite dentro

e arregaçamos as calças até aos joelhos.

Não se dê que a madrugada

nos surpreenda com as cheias.

 

 

Estou com esta doença agora, but it’s ok.

I close my eyes and drift away;

I softly say a silent pray.

Não ligues nem comentes,

just press play:

 «O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»

 

 

*****

Esta é a melhor altura do ano

para cortar o cabelo – profere Sandy,

remexendo com a ponta dos dedos

alguns fiozinhos na testa.

A porra da lua atrai as marés,

cria tsunamis, invade o Japão,

provoca uma crise nuclear,

porque é que não haveria de fazer

crescer o cabelo?

 

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin – 

acrescento então,

preocupada com a importância literária do assunto.

Mas, para ter a certeza,

quis perguntar a um especialista,

isto é, a qualquer uma das mulheres

que estavam agora a fazer fila

à entrada do Ginásio Clube Português

como os grandes bandos de antílopes Impala

à beira de um pântano,

num documentário na Animal Planet.

 

 

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,

que amanhã é outro dia,

mas depois lembrei-me dos terramotos,

da crise nuclear, do IVA,

e fiquei calada.

 

 

Anghel, Golgona, Vim Porque Me Pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2011.

«od to triumphal desolation 1», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Página de Golgona Anghel

Possidónio Cachapa — «O rio»

As águas subiram escuras. O homem estendeu o braço, o músculo amaciado sobre a carne sã e agarrou o pulso da mulher. Ela tinha nas mãos gordas um anel de noivado de onde a pérola desertara e uma aliança coberta de lama do rio.

— Agarra-me com mais força que tenho medo que escorregue.

Ele assentiu e estendeu mais a mão de modo a cobrir o braço da mulher de forma inabalável.

Do outro lado estava um homem magro a quem chamavam “Desconfiado”.

— Não se consegue…

Um murmúrio reprovador levantou-se entre os outros. Mas nessa severidade havia também a crença de que ele não falharia. Que não poderia falhar. A chuva começou a cair com mais força e as águas cresceram ainda um pouco mais.

Na margem, os filhos tremiam, abraçados uns aos outros. Tinham os cabelos espalhados pela cara, empurrados pelo vento e colados pela chuva e pelo medo. Havia, entre eles, um rapaz e uma rapariga muito altos. Não teriam mais de treze ou catorze anos mas a sua estatura elevava-se dos outros como um cacto se destaca das pedras. Olhavam-se de vez em quando. Desde o princípio que se olhavam. Sabiam mais do que os outros sobre o que poderia vir a acontecer. Eram demasiado novos para terem medo por mais alguém que por si próprios. Os sapatos enterrados na lama e tinham medo. Calçavam ainda os mesmos ténis com que tinham passeado entre as árvores, alguns dias antes, apenas. Não tinham tido medo ao dar as mãos, o céu a brilhar por cima deles entre árvores que davam frutos que ainda não se poderiam comer. Sorriam quando não imaginavam que o mundo se poderia transformar numa coisa realmente hostil e perigosa. Ouvia-se, nessa tarde, vozes de raparigas que passeavam, também elas, entre as dunas, descalças na areia quente, o chão uma lagoa imensa e dourada que não existia. Tinham agora na frente uma laguna concreta, movimentando-se incontrolável. E já não havia sol nem frutos nas árvores, nem vozes de moças ou andamentos de pássaros… Apenas os rios unidos a inundarem a terra inesperada, a desfazerem as dunas, a levarem as casas. E toda a alegria partira à medida que as vozes dos adultos se tornavam mais tensas e inquietas; que os braços dos adultos se fechavam uns sobre os outros; que os ombros começavam a configurar-se como uma ponte.

— Elias – disse o pai. E tudo nessa voz se partia ao pronunciar o nome do filho. Tudo nela se amaldiçoava por ter de chamar por ele, à medida que já não havia mais braços nem corpos de adultos para chamar. — Elias – repetiu o pai, do outro lado do círculo.

Ele olhou para ela durante um segundo, antes de entrar na água até à cintura. Abraçou-se aos que ainda havia pouco o passavam de colo em colo.

Melia hesitou um pouco. A mãe antecipou-lhe o gesto e gritou:

— Ainda não!

Mas já ela entrara nas águas, as saias curtas flutuando em redor. Os braços finos a sumirem-se entre os dos homens e mulheres. O rosto que procura sorrir para descansar a mãe. “Ainda não”, tinha dito esta.

As crianças pequenas começaram a subir pelo corpo dos mais velhos, agarrando-se-lhes aos cabelos e às orelhas, deixando marcas de unhas nas faces barbeadas, demorando-se tempo demais quando passavam pelos seus próprios pais e choravam. A tempestade aumentara a um ponto em que já quase não se respirava entre a chuva. E os meninos tentavam passar a um e um para a margem do rio que nunca tinha existido.

Mas o rio era longo e os adultos poucos. Foi o primeiro homem a perceber.

— Não nos salvaremos todos.

E toda a gente começou a gemer e a dizer os nomes das pessoas queridas. Ramos frágeis desprendiam-se das árvores e voavam em direcção às caras e às mãos que saiam das águas, ferindo. O rapaz e a rapariga tremiam, mas nem por um momento tentavam soltar as mãos. Nos ombros o peso das crianças pequenas que eram também elas embora não o parecessem.

— Façamos um círculo – disse o homem. —Uma pirâmide. As crianças mais pequenas que subam para as costas das que forem um pouco maiores e assim sucessivamente.

Por cima, Deus mandava as nuvens e a chuva e o vento e o frio e as trevas que cobriam o dia, enquanto por baixo tudo eram águas castanhas e revoltas, a terra desaparecida.

Os que estavam mais para a frente recuaram e, virando o corpo, deram as mãos aos primeiros. E sobre as suas cabeças, as crianças um pouco mais velhas puxavam para as costas as mais pequenas, as que mais choravam.

E as águas subiram e tocaram nas primeiras bocas que eram as das mulheres mais velhas. E a da rapariga que um dia tinha passeado com um rapaz por entre árvores de frutos verdes. E os últimos queixumes calaram-se, para ficar apenas o silvo da respiração que saía pelas narinas em pânico. Fecharam os olhos os filhos e esperaram que a água de baixo se unisse à que caía do céu.

E então, a chuva começou a decrescer. O vento diminui de intensidade. As nuvens mais escuras afastaram-se e a luz iluminou de novo o mundo que se esperava submerso. Deus recuou para a sua caverna do alto. Um pássaro apareceu a rasar as águas e desviou-se a tempo de chocar contra uma pirâmide de homens e mulheres que levantavam os filhos acima de si. E ao passar muito perto de uma menina que havia muito pouco começara a falar viu no reflexo dos seus olhos a história da sua própria vida. E só então se afastou, na direcção de um monte onde as águas começavam lentamente a baixar.

Cachapa, Possidónio, in «Contos que Contam», Lisboa: Centro Colombo, 2005

 

(colectânea de contos, “um projecto do Centro Colombo a reverter para o Instituto de Apoio à Criança”)

 

«monitoring the flood», christian © christian, via Deviantart (D.R)

Maria Velho da Costa — Maria Agustina, a trânsfuga

 

Não tem fito, não tem medo.

Vem em direcção ao olhar que a revê.

Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.

Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.

O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.

Tem três anos de idade e fugiu de casa.

Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.

Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.

Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.

Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.

Vibra e caminha, humaníssima.

Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

 

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

 

Agustina Bessa-Luís © Correio do Porto (D.R.)

(clique para ampliar)

(links relacionados)

Maria Velho da Costa — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Talento

A minha amiga L… (não se cansem a imaginar quem será; não é Lúcia, nem Laura, nem Leonarda) tinha dois contras na vida dela: a falta de dinheiro e a infidelidade do marido. Queixava-se amargamente de ambos, mas, por fim, já tomava as coisas com uma grandeza à grega. Um poeta que a estimava muito perguntou-lhe porque não enganava o marido.

— Com quem? Só se fosse com Alexandre da Macedónia.

Era uma resposta que requer talento, e ela tinha-o. Era uma snobe da Grécia e o que não sabia é que Alexandre também era um snobe. O seu tutor, Aristóteles, tinha-lhe incutido a admiração pela alta condição intelectual dos gregos, e acho que tudo aquilo que ele fez e as glórias que atingiu tinham muito que ver com essa inferioridade ou limitação face à civilização grega.

Alexandre era um génio, ou apenas um rapaz de talento?

São coisas diferentes. Não sei se a educação dum jovem deve ser entregue a um homem tão superior como Aristóteles. Forçosamente o génio causará um complexo avassalador sobre o aluno que, como Alexandre, estava mimado por um augúrio da sua divindade.

A própria mãe, a indomável Olímpia, achou por bem atribuir a paternidade de Alexandre a um deus, Zeus, e não a Filipe, seu marido. Além disso, era inclinada a superstições e coisas de magia. Quanto a Aristóteles, um filósofo e um génio da filosofia, foi o primeiro homem de pensamento a conceber um mundo global. Vivia em Estagira, cidade grega próxima da fronteira com a Macedónia; e o seu pai tinha sido o médico pessoal do rei Amintas. O gosto de Alexandre pela medicina vinha daí. Aristóteles foi perceptor de Alexandre durante três anos, o que bastaria apenas para lhe dar o verniz grego e a reputação de ter sido seu aluno. Mas não é de crer que lhe transmitisse o fulgor do seu génio nem sequer a síntese da sua sabedoria. Os talentos de Alexandre, a começar por uma forma física impressionante, são inegáveis. Mas foi ele um estratega consumado ou só um rapaz fogoso e apaixonado por uma ideia: a de superar o mestre e tudo o que se lhe deparasse como valor reconhecido; superar o mito grego, sobretudo?

Os gregos mereciam bem a sua celebridade. Tinham descoberto a natureza heliocêntrica do universo e a estrutura atómica da matéria. Ao átomo, o Oriente opunha Deus. E assim continua a grande oposição dos dois espíritos. Alexandre nasceu quando esta tensão estava formada. Não estava em vista a confrontação entre as duas civilizações mas a fusão das duas, complementares como os homens são uns dos outros. Esta ideia, vinda¹ dos segredos só contemplados  pelo génio, teria que ser posta em prática pelo talento. Alexandre foi um motor desse talento necessário à execução das grandes ideias. 

Digamos que venceu e fracassou ao mesmo tempo. Tinha trinta e dois anos e era senhor do Universo. Mas a sua capacidade de curiosidade e inovação esgotara-se. Já não comunicava espontaneamente com o seu exército; os antigos amigos estavam sombrios, preparavam-se as sedições.

Os soldados estavam cansados das imparáveis marchas, da fome e das exaustivas campanhas. À borda do Ganges amotinaram-se e Alexandre teve de ceder. Um ano depois estava morto. Morto como um negociante no seu quarto de cama, devorado² pela malária ou talvez envenenado, que e a primeira suspeita que derruba a alma antes da vida. Estava desiludido ou apenas enfraquecido para fazer frente à doença, de resto agravada pelas contínuas bebedeiras e excessos de ambição. Ele sabia que a maior parte da terra lhe era desconhecida e que não a podia atingir nem juntar à sua glória. Perguntei à minha amiga L…:

— O talento foi o maior vício de Alexandre. Até hoje ninguém o superou. Mas, como dizia Platão, “as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pelas honras”. Isto põe Alexandre fora da lista dos homens de bem?

— Quem diz que eu o amava por ser um homem de bem?

— Era por ser visionário?

— Era porque havia nele bondade; provou-o muitas vezes. É o talento maior que alguém pode ter.

— Isso é — disse eu. Não me ocorreu dizer mais nada.

Bessa-Luís, Agustina, in, Autêntica n.º 7, Leça do Balio-Matosinhos: Unicer, 2007

¹ — «vindo», no texto impresso, provável erro tipográfico.

² — «devotado», no texto impresso, provável erro tipográfico.

Nota: a paginação do texto torna quase indiscernível a separação dos parágrafos. Seguiu-se um critério o mais próximo possível da estrutura do texto para a definição dos mesmos.

"Era porque havia nele bondade"

Filipa Leal — «o minuto certo»

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.

Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.

Leal, Filipa in, «Egoísta n.º 32», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Setembro 2007

«blind date», Luigi Scuderi © Luigi Scuderi, via Deviantart (D.R.)

Nota: tal como em relação ao texto de Possidónio Cachapa publicado na «Egoísta», e transcrito aqui neste blogue, contamos com a gentileza da editora Patrícia Reis para permissão da transcrição deste texto de Filipa Leal. O que então se escreveu sobre a relevância e o significado da revista está essencialmente dito naquele post.

— Luigi Scuderi Photography — http://www.luigiscuderi.it/

José Tolentino Mendonça — «O Mistério está todo na infância»

A história já é conhecida e pode ser lida aqui. Mas sauda-se a escolha de Tolentino Mendonça para o núcleo de criadores convidados por ocasião da celebração do 60.º aniversário da ordenação sacerdotal de Bento XVI, uma das personagens mais rotuladas e pior conhecidas na sua obra de reflexão filosófica e teológica, em pleno estado da arte do pensamento contemporâneo (fora isso, ainda é Papa).

O poema, esse, leva por título a enunciação de um dos fundamentos da psicanálise. Chega para lê-lo? Não. Seria como dizer que Ratzinger é alemão, feio e conservador.

O Mistério está todo na infância

 

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

 

 

A tradução para italiano que Bento XVI vai ler foi feita por Manuele Masini.

 

Tutto il mistero risiede nell’infanzia

E, finalmente, Dio ritorna
carico di intimità e d’imprevisto
i secoli ormai lo osservano dall’alto
umile misura di un orale silenzio
che credevamo destinato alla sconfitta

Ecco che Dio sale la scala ripida
che abbiamo ripetuto mille volte
e si trattiene in attesa senza nessuna impazienza
con la dolcezza di un agnello malato

Di noi due, chi sarà l’ombra dell’altro?
Anche se nessuna pietà conserverà le mappe
scenderemo quasi subito
smisurati e vuoti
come il tronco di un albero

Tutto il mistero risiede nell’infanzia:
è necessario che l’uomo segua
ciò che di più luminoso esiste
come fosse il fanciullo futuro

 

José Tolentino Mendonça
© SNPC | 30.06.11

Fonte: — Agência Ecclesia

«Long Lost Childhood», toy camera © toy camera, via Deviantart (D.R.)