Maria Sousa — [A mulher]

by manuel margarido

 

Uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

 

[A mulher]

 

A mulher

organiza as sombras para evitar o escuro

na pele sente o medo

 

é prudente na batalha com as perguntas

que pousam no dia

 

sorriso

 

quando o som do telefone invade a sombra

nenhuma palavra lhe sai da voz

deverá falar como se fossem outras coisas a

respirar em vez do grito?

 

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes

sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.

mas não hoje

 

disse que não seria capaz de mudar

perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos

como movimentos grosseiros

 

nenhuma palavra ali tem asas

 

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha

as persianas e depois as cortinas

sem explicar o sentido do grito. 

 

Maria Sousa — [A mulher], poema inédito (lido no ciclo de leituras encenadas “Da Voz Humana”).

«2» — anna, © anna, via Deviantart (D.R.)