As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2011

os fantasmas inquilinos: Maria Callas – «Una voce poco fa»

«Maria Callas», Henry Koerner, 1956 © National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; doação da Time magazine

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«When one wants to find a gesture, when you want to find how to act onstage, all you have to do is listen to the music. The composer has already seen to that. If you take the trouble to really listen with your Soul and with your Ears – and I say ‘Soul’ and ‘Ears’ because the Mind must work, but not too much also – you will find every gesture there.» — Maria Callas

 

Em Hamburgo, 1959, interpretando a bem conhecida ária de «O Barbeiro de Sevilha» de Rossini, que não sendo obra característica do seu repertório, deixa perceber bastante bem o que a cantora lírica queria dizer na citação.


*o título do post faz evidente alusão ao livro de poesia de Daniel Jonas Os Fantasmas Inquilinos.

António Franco Alexandre — Formoso amigo meu, podes cantar à lua

 

 
Formoso amigo meu, podes cantar à lua

e amar outros mais lestos do que eu.

roer um osso, admirar as estrelas,

seres sábio e humano, além de belo.

Já vi que escreves um diário, com

as patas firmes, o pêlo luzidio,

onde porém há sempre

uma sílaba a mais, presa por fios.

Pouco te importas se eu existo ou não,

e ignoras, das aranhas, o tormento

quando a teia se rasga e é urgente

tomar medidas, e tecer, à espreita

de alguma inócua presa imprevidente.

Voas tão solto, lá no firmamento,

que te tomam por pássaro ou cometa;

e meditas em vastos pensamentos… só não sabes

que ao rasgares o meu leito aqui deixaste

uma gota de sangue, a que estás preso.

Alexandre, António Franco, Aracne, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

via Deviantart (D. R.)

Daniel Jonas — São tristes os meus dias com pedras

 

 

 

São tristes os meus dias com pedras

em lugar de mãos

ou a cabeça funda na brancura

de través do travesseiro

e o corpo depresso em moles guindastes.

São dias de chorar por menos

ou teimar queixoso com um crânio polido,

batuque convexo

no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,

o som tubular do sangue. Ao vale seco

da clavícula atrair a água, o sangue

e sorver a sopa intestina

ou se o líquido escapa à boca

tantálica, calar com argila

o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos

da ausência, as ligas

da ausência, as ribanceiras

a que caem os pensamentos, a cor

dióspiro que banha a enfermidade

e em seguida tomar o pulso

evadido, travar o touro, o soco da dor,

o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma

migra no fôlego de modorrento

pregão de dor, o condor

passa e anda andino e é uma

traça asfixiante: faço um céu rarefeito,

a dispneia é um felino

que arranha céus

e a boca rebuliço espúmeo

expele o sabor da morte

e o que mais consiga cuspir

por entre ovéns e enxárcias

e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,

uma desilusão funda com as coisas,

com o vazio meio-cheio das coisas.

Meu fôlego um fólio cheio

de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava

e no trovão treva.

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

«desolation», Eray Eren © Eray Eren, via Deviantart, (D.R.)

 

Vasco Graça Moura — pintura de ilda david

 

 

Para o Rui Almeida (obrigado)

1.

O homem e o bicho estão

na luz azul e rosa das

suas origens ancestrais, as de uma

aurora harmónica. ainda vêm

 


da pura oralidade

do gesto divino, da intenção

de as imagens e o tempo

se contraírem a partir da cor

 


das hortênsias. esse é

o angelismo das figuras,

na passagem das liberdades

do mundo para os números.

 


2.

o homem e o bicho, os dois

animais do espírito, sopros

demasiado humanos

na ondulação das formas,

 


lá de onde vêm,

o mental e o sensível

ainda não desuniram a sua

presença insuflada na matéria.

 


canção, retém-lhes a fugaz

semelhança terrestre,

mas imagina-os de um outro

movimento dos sons, imperceptível.

 


Moura, Vasco Graça, a sombra das figuras, Lisboa: edição de autor, 1985, pp. 46—47


[não se sabendo que obra da artista terá inspirado o autor, nem se encontrado em formato digital trabalhos de pintura de Ilda David anteriores à edição do livro (datando, portanto, do período mais inicial da sua obra), optou-se, ainda assim, por acompanhar o poema de uma ilustração da artista plástica, incluída no vasto  conjunto que a mesma produziu para a edição da Bíblia Ilustrada, na edição da Assírio & Alvim, a qual, de alguma forma dialoga por confronto / encontro com o poema]

 

ilustração de Ilda David c./ 2007

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Maria Gabriela Llansol — Herbais, 16 de Agosto de 1981

 

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.

Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.

O que é a descendência?

A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.

 

Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras      Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.


Llansol, Maria Gabriela, um falcão no punho — diário I, Lisboa: Edições Rolim, 1985. p.48

«A minute, a life», d-minutiv © d-minutiv, via Deviantart (D.R.)

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Links Relacionados:

Bibliografia

Espaço Llansol — Associação de Estudos Llansolianos

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem»: Vote na sua obra preferida.

© Câmara Municipal da Póvoa do Varzim (D.R.)

O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.

Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»

*

Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.

Algumas indicações e notas:

1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;

2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);

3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;

4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;

5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas,  dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;

6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.

 

Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!

Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa

«Sondagem As Folhas Ardem»

Links relacionados:

Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Helder Moura Pereira — Apagaram-se as luzes azuis da ambulância

 

Apagaram-se as luzes azuis da ambulância

e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.

No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,

na cama, no trabalho, o que vi deixou-me

descansado: humano, demasiado humano.

Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode

dizer qualquer um, e mesmo que quase não

haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira

do precipício, levanta a garganta e berra

para aí até já não haver quem te oiça.

Da missa metade não soube em tua história

e também não é preciso, todos nós já corremos

para um hospital e viemos de lá a cheirar

a doença e a morte. Por nós ou por outros,

nessa grande casa da tristeza e do alívio,

democracia total o acaso que dispara

e acerta ou não acerta em quem vai a passar.

Alguém te segura à beira da derrocada

e te pergunta saberás se lá no fundo há

algo que valha a pena? Pode ser que sim,

pode ser que não, ninguém sabe.

Pereira, Helder Moura, Se as coisas fossem o que são, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010. via → Blogue da Editora Assírio & Alvim

«hospital», Mademoiselle Wunderlich © Mademoiselle Wunderlich, via Deviantart (D.R.)

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Diz-me o «Seringador» — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.

 

 

«2010 Brightest Moon», Joseph Choi © Joseph Choi, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

 

 

«Lua cheia às 21h e 21 m a 1 grau em Leão. Bom tempo. Procede-se à limpeza e adubação dos pomares. Adubam-se, podam-se e limpam-se as árvores, devendo tratar-se as fruteiras de modo a dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos contra as doenças e parasitas animais. Procede-se à transfega do vinho, ou seja, à passagem do vinho novo de uma vasilha para outra com o fim de o separar do seu depósito (borras) localizado no fundo da vasilha. — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.»

Este mimoso naco de sabedoria é aposto ao dia de hoje, no «Seringador» que por desfastio substituí este ano ao habitual «Borda d’Água». Diz-me muito de um mundo que já me diz pouco: a infância e o campo. No campo, os velhos garantiam ser a lua de Janeiro a mais bonita do ano (e apetece pensar que, no campo, «os velhos» também tinham um sentido estético lá deles). Na linguagem urbana do almanaque a retórica maneirinha é suave; mas em Janeiro tudo era duro: «dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos» era trabalho árduo, cortante; a trasfega não era um ritual, mas pedia força e experiência, coisa de homens. E o adágio, que deve ser muito antigo, decerto nortenho, é tão belo como esta noite em que podemos ver as raposas no outeiro.

*

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere acontecimentos como a fundação do Sporting Clube de Braga (1921), meu sexto clube preferido e aquele que tem o estádio mais bonito do mundo, sem esquecer que ganhou uma Taça de Portugal (e a única Taça da Federação Portuguesa de Futebol; estou aliás convencido que a conquistou para a exterminar, num gesto que só revela a grandeza da agremiação).

Sporting Clube de Braga 2009 - 2010 (Sp. Braga 1 - F.C.Porto 0) © maisfutebol.iol.pt

O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere o aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923) e a passagem de quatro anos sobre a morte de Fiama.

A um poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.

Brandão, Fiama Hasse Pais, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

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Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Dulce Maria Cardoso – Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

Chamou-me, repetiu o filho.

O pai ficou calado uns segundos.

Amanhã, disse lentamente.

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.

Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.

O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:

Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

Cardoso, Dulce Maria, Contos (colectânea), Leya, 2010

[Originalmente publicado em Até Nós, Edições Asa II, 2008]

"Is it strange to dance so soon?", futurowoman © futurowoman, via Deviantart, (D.R.)

Links relacionados:

Sobre Dulce Maria Cardoso aqui, aqui e aqui.

Mário Cláudio — Improviso para duas estrelas de papel

[conto integrado no livro Do Conserto do Mundo [contos], com textos da autoria de Ana Paula Tavares, Arnaldo Santos, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Isabel Zambujal, João de Melo, Lídia Jorge, Mários de Carvalho, Mário Cláudio, Miguel Real, Patrícia Ferraz, Pedro Sena-Lino, Ricardo Cabaça, Ricardo Miguel Gomes, Richard Zimler, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues. Coordenação de Ana Maria Martinho. Uma edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, de Outubro de 2010, iniciativa editorial integrada no âmbito do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social.]

Improviso para duas estrelas de papel


São estrelas construídas sem paciência nem esperança, tão dadas às espirais da tormenta como ao toque silícico das longas línguas de saibro.

 

No chão articulam o catre-de-campanha, estremecem no abraço pelo trepidar do autocarro, erguem-se na madrugada para o duche repentino. Despertam o filho de bruços no beliche inferior, retiram-lhe o pijama, vestem-no para a escola. Saem para a rua onde rompe acarvoada a manhã, e os jornais pendem lívidos dos escaparates, e longas fileiras se cerram compactas nas paragens hirtas. Na chuva escalam o casario azul, com uma catedral sombria dominando vidas, varandas deitadas para vielas escorregadias, paredes de seminários e palácios transidas de invernia e musgo esfarelado. Exercitam a ternura contra uma e outra perspectiva de clarabóias e miradouros, telhados e escadórios, fachadas de azulejo e mercados marginais. Ficam sem escuna que os receba, Simões Botelho por sentenciar, os dentes cerrando todos os desafios, resignados às mãos entre mãos. A si mesma se cerca a cidade, exterminando o espaço em seu redor, concentrada lei que nenhuma infracção humaniza.

 

Começam insofridas por ensaiar o voo muito junto à terra, entre a extensão das searas e a cúpula aberta e translúcida.

 

Deixam um automóvel arfante, invadem o jardim dos organismos públicos, cortam a compósita flor que para sempre enquadra o dia. «É preciso morrer», dizem, encostando à boca o espelho dos moribundos; «é preciso beber», dizem, descobrindo países. Pernoitam em hospedarias clandestinas, com telefones desligados de medo, ramas de pinheiro, marcas de cerâmica, lâminas. Para eles se aparta o reposteiro escarlate, se lhes deparam os retratos régios, estáticos de veludos e carbúnculos, a história se entorpece de minúsculos canteiros interiores e de buxo.

 

No rasto das estrelas, pelos sulcos da fome, se abandonam guiados, tranquilos e loucos, Joana perseguindo o cadáver do homem pelas estradas de Espanha adustíssima, entre chufas de canalha e excrementos de mula.

 

O filho relata a estranha genética, reclama o direito de resultar, como todos os filhos que se sabem, do ventre virgem do pai. Divide a giz brinquedos e cobertores, fábulas e passeios de domingo.

 

Como diferem das estrelas as estrelas, rochas de fogo que nunca se cruzam, seguem além de além, trajectória que não se interrompe nem altera!

 

Realizam assim seu contrabando de violetas bravas, à revelia de mulheres legítimas e amigos estatutários. Dormem pelas valetas, acordam sacudidos de riso, a bombazine das calças tingida do amarelo poeirento das mimosas. Alimentam-se de pão e de queijo e de vinho clarete. Descansam a sesta contra a nave dos conventos galegos, com seus retábulos de oiro e seus palmares, trazidos ambos de uma América que os olhos de um nos olhos de outro já não precisam de alcançar. Adormecem de novo entre textos rascunhados, rápidas passagens do Requiem. Decifram quase o mistério dos alfabetos ibéricos, no vestíbulo do sono onde vogam hipocampos atónitos, perpassam esteiras súbitas de submersos meteoritos.

 

O movimento das estrelas acontece ainda em quartos de tecto baixíssimo, onde os cinzeiros se entornam, as bofetadas estalam, o choro rebenta.

 

Na destrambelhada noite do equinócio escolhem a forca dentro de casa, dobram-se de angústia sobre a estopa da otomana, evadem-se vomitando entrechos avulsos pelo veloz labirinto dos faróis. Assim se lhes tocam os dedos nos mamilos das raparigas de mármore, ou de cerosas folhas de camélia se lhes cobrem, descerrando os cadernos nas margens do lago. Os cães ladram no faro da senda que levam, e um noitibó lhes indica o atalho da saída.

 

Atrás das estrelas correm, por elas arrastados, a vontade no sentido delas transpondo abismos, peregrinando por capelas de seu culto, a que outras pombas se abrigam sempre que chove. No sol se confundem, nas esferas de refulgência, fazendo crepitar as pontas nas trevas de uma íris igual.

 

As crónicas antigas jazem arquivadas nas gavetas dos contadores de marfim, nas prateleiras dos imensos copeiros espanhóis, nas vitrines iluminadas de faces que o bafo embacia. Ora se lhes repousa a cabeça no ombro um do outro, ora se cortam os laços, ajoelhados e acenando na aresta mais fria da cama.

 

Fatigadas as estrelas se esfarrapam, tombam em pedaços de enfolipado papel-de-seda, e a armadura das asas é uma caveira de arames e madeira e cola ressequida. Mas os longes duram sempre, sempre duram, para quem quer que retenha os fios enredados.

 

Este título elegemos: Improviso para Duas Estrelas de Papel.


Cláudio, Mário, Do Concerto do Mundo [Contos], Lisboa: Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, Outubro de 2010

Hopeless Homeless, Lia Sáile © Lia Sáile, via Deviantart

(clique para ampliar)

Luís Filipe Castro Mendes – Os Altos Nomes

 

 

Começa-se de cada vez a escrever, não há mediação entre o amor e a larga esperança. Quanto te disse, toma-o pelo mais claro silêncio que nos coube. Já foi tempo de adivinhar o teu corpo entre as pedras e a amargura. Agora foi o dia e o sabor de ti que me abandonaram, entregue às árduas palavras e a uma mais acesa alegria. Os altos nomes.


Mendes, Luís Filipe Castro, Recados, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983

(primeiro poema do primeiro livro de poesia do autor)


«Left», Part of the series Crushed-Stitched-Left, Florian © Florian, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Luís Filipe Castro Mendes

 

diz-me o «Seringador»…

…que hoje é dia de São Pedro Tomás, Bispo e Mártir, precursor do ecumenismo, um tipo porreiro. Como hoje só se falou do sr. Cavaco, do sr. Alegre e do sr. Castro (RIP), é justo que alguém se lembre deste santinho carmelita descalço; e da bela pintura que o retrata, na Igreja do Carmo, em São Vicente, Braga, que aqui pode ser descomunalmente ampliada.

São Pedro Tomás

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Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

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Pedro Tamen – O livro do sapateiro

 

 

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos «O livro do sapateiro», 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.

[Aqui se transcrevem os cinco primeiros poemas e o último (49). Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos]

La eternidad está en las cosas

del tiempo, que son formas presurosas

JORGE LUIS BORGES

1.

Iremos procurar a razão da giesta

a razão do amarelo

iremos procurar a razão

iremos procurar

e os olhos tomarão todas as cores

as cores de tudo

2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.

Na mão direita que segura o ferro

e assim julgava dominar o tempo,

devagar, mas depressa, como não existindo,

entrou incendiado um sopro do destino

sobre o qual aqui me tenho acocorado.

3.

Sentado no curto escabelo que me deram

espreito aqui da cave pela janela alta

as pessoas que passam.

Passam passam deixo de vê-las

enquanto ergo e baixo a ferramenta.

Continuo sentado no escabelo que me deram

e no escuro desta cave estou acompanhado.

Sim, acompanhado

não por quem passa

mas por quem não passa.

4.

Há um rio e o outro lado do rio.

Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho

e sem saber ao certo

se o que entra é a cor de um certo tempo antigo

ou o licor de um outro tempo novo.

E verifico então de olhos molhados

que não há que saber

nem distinções na paisagem

— que é uma só no largo coração.

5.

Estar aqui é como não estar aqui.

No escuro onde as minhas lentas mãos modelam

a pele deste ser vivo,

o universo,

é da fina camada que cobriu

o seu vasto percurso

no largo da pastagem,

é no táctil roçar da sua vida

que uma luz, é esta!, me transporta.

(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,

ó espelho das minhas mãos,

fugaz vitória destes dias

últimos.

Tamen, Pedro, O livro do sapateiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

«Shoemaker Faysal II», Ozgur Cakir, © Ozgur Cakir, via Deviantart (D.R.)

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Link relacionado:

Página  sobre Pedro Tamen (actualizada e excelente)

Alexandre O’Neill – Um poema que circulou na clandestinidade

 

Aqui há um par de dias referi a colecção Horas Extraordinárias – Série de Inéditos da Imprensa, a propósito livro Urzes, de Manuel Hermínio Monteiro, nela dado à estampa. Nesta iniciativa do semanário O Independente (em alguns títulos contando com a colaboração da Assírio & Alvim, que partilha, de resto, o copywright, assinando Vasco Rosa o prefácio) foi editado um título com inéditos e dispersos de Alexandre O’Neill posteriores à edição das Poesias Completas do autor naquela casa editora, em 2001. Coração Acordeão reúne, assim, textos que haviam «escapado» àquele volume, como conta Vasco Rosa, no prefácio. Pela sua variedade, diversidade e desigual interesse (desigualdade essa muito mais promissora que o termo especifica), aqui se deixa um deles, de carácter biográfico/literário. Foi quase escolhido abrindo o livro onde calhasse, porque este se lê de uma ponta à outra, em pulinhos de estilo, em saltinhos de gozo. Não foi assim tão «ao acaso»: é sempre fascinante ler um autor escrever sobre a génese de uma obra (um poema) ainda que eventualmente «menor», e confrontar o que nos conta com o resultado final.

Antecede o texto e o poema o prefácio, de Vasco Rosa, que ajuda a perceber a aventura deste livro.

«A segunda edição Assírio & Alvim das Poesias Completas tornou assaz evidente, já em Novembro de 2001, que chegara a hora de empreender uma demanda exaustiva aos Dispersos de Alexandre O’Neill (1924-86), a larguíssima parte das quais em papel de jornal, de modo a identificar e permitir publicar todos os seus escritos, reimprimindo, na passada, dois livros de crónicas há muito esgotados: As Andorinhas não Têm Restaurante, Dom Quixote, 1970, e Uma Coisa em forma de Assim, Presença 1985 (antes 1980).

À generosidade do editor Manuel Rosa devo a oportunidade de unir nessa campanha os meus esforços aos de Perfecto C. Cuadrado, Maria Antónia Oliveira e Luís Manuel Gaspar, tornando o livro que o leitor tem agora nas mãos — com a quantidade de textos «desconhecidos» que transporta — uma peça do puzzle o’neilliano, produzida , ademais, no contexto de uma colecção de autores da segunda metade do século XX em que, só por absurdo, ele poderia faltar.

Dentro de semanas, senão dias, sairá — autêntico verso ou reverso deste Coração Acordeão — uma reedição de Uma Coisa em forma de Assim.

A Afonso e Teresa Gouveia dirijo um aceno d’amigo. A Luís Manuel Gaspar agradeço todas as informações genuinamente partilhadas. Aos funcionários da Hemeroteca de Lisboa, a paciência de meses.»

VASCO ROSA

Três publicações recentes dedicadas aos escritor: o n.º 13 de Relâmpago. Revista de Poesia da Fundação Luis Miguel Nava; o Caderno 2 do Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda; Alexandre O’Neill: Passo tudo pela Refinadora, de Laurinda Bom.

«Morte de Catarina Eufémia», José Dias Coelho (D.R.)

Um poema que circulou na clandestinidade

Não sei se foi o Carlos Brito ou o Fernando Correia da Silva quem teve, primeiro, a ideia de «vingar» poeticamente a morte de Catarina Eufémia, que, por deficiência de informação, nós julgávamos, ao princípio, chamar-se Maria da Graça Sapinho. O nome de quem a metralhou, esse, parece não deixar lugar a dúvidas: Carrajola.

Não era o apelido (como ainda hoje não é) que queríamos vituperar, mas aquele seu infame portador. Fechei-me em casa. Meditei o trágico acontecimento e logo senti que, de certo modo, ele era «abstracto» para mim. Eu desconhecia o Alentejo e, embora identificado com a luta dos camponeses alentejanos, a realidade do caso não me «entranhava» por forma a que eu arrancasse bem de dentro o meu protesto.

Senti, ao mesmo tempo, que não me podia ficar por palavras, que era preciso experimentar amor ou ódio. Entrei pelo desprezo. Foi então que me surgiu, antes de qualquer verso, este: És como um percevejo num lençol! A partir daí, a linha de força do poema estava encontrada. A segunda estrofe, endereçada a Catarina, é algo convencional. O que a salva é o verso, que reutilizei noutro poema: Quando o Alentejo se puser a rir.

Esses meus versos, que transcrevo de cor, juntaram-se a outros de gente amiga, e assim surgiu, tirado do copiador, um pequeno cancioneiro clandestino em memória de Catarina Eufémia. Alguém o terá guardado? Será ocasião de abrir os arquivos ou puxar pela retentiva para que este e outros documentos possam finalmente ver a luz (livre) do dia.


À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

Podes mudar de nome, carrajola

pôr umas asas brancas, arvorar

um ar contrito,

dizer que não, que não foi contigo,

disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,

podes mudar de nome, carrajola,

de aldeia, de vila ou de cidade

— és como um percevejo num lençol!


Quando tivermos Portugal nos braços

e pudermos amá-lo sem sofrer,

quando o Alentejo se puser a rir,

Catarina Eufémia, minha irmã,

então o teu filho há-de nascer!


O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)


Nota: escolheu-se o justamente conhecido desenho de José Dias Coelho, artista plástico e militante do Partido Comunista Português, também ele assassinado pela polícia do regime do Estado Novo.

 

Links Relacionados:

Sobre Alexandre O’Neill

Uma (muito boa) página sobre José Dias Coelho

Inês Lourenço – (dois poemas)

 

 

De novo se volta a Inês Lourenço, que já foi referida e transcrita aqui, desta vez com dois poemas publicados na Colóquio Letras n.º 147/148, de Janeiro de 1998 (datados de 1997, muito anteriores, portanto ao seu último livro, Coisas que Nunca, de 2010, publicado na & etc.).

RUA DO BONJARDIM
I

Vindo do marquês, o autocarro

chiava na curva estreita, soltando

os seus vapores de gasóleo, e

num portal surgia um gato pardo

para o qual me inclinei, sabendo

que fugiria ao contacto

da minha mão, ou apenas ao

esboço de carícia, como fazem

os gatos, tão fugidios na presença

de estranhos. Mas o animal, no

instante do recuo, aceitou o

deslizar dos meus dedos,

em troca de amáveis energias. E

uma longa saudade subiu-me pelo

braço, no arquear festivo

daquele pequeno tigre.

RUA DO BONJARDIM
II

Ao entrar no quiosque,

nesta tarde de névoa, para

comprar um jornal qualquer, uma criança

pediu algo que não entendi. Seria

uma moeda para um chiclete? Perguntei

ao homem sentado atrás das

revistas do coração e dos diários

da bola de quem seria a criança, como

se pudesse ser de alguém um ser

tão súbito, nascido da genealogia

indecifrável da tarde.

Porto, 97

Lourenço, Inês, in Colóquio/Letras n.º 147/148, Janeiro de 1998, Fundação Calouste Gulbenkian

«Spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantar (D.R.)

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

(desactualizado, mas com referências bio-bibliográficas e alguns poemas da escritora:)

Inês Lourenço

Manuel Hermínio Monteiro – Escritores que se suicidaram

Para a minha geração, o Manuel Hermínio Monteiro foi o herói dos editores. O seu amor pela literatura, particularmente pela poesia, levou-o a pegar numa casa descaracterizada, a Assírio & Alvim, fazendo dela a grande referência das editoras que investiam naquilo em que acreditavam (em que o Manuel Hermínio acreditava), construindo um fabuloso catálogo, em grande parte constituído por autores que ele mesmo descobria, “empolgado”, ou recuperava para o olhar mais desatento dos outros. Dois exemplos: nos antigos Pascoaes, nos modernos Cesariny. Nele habitava uma atenção e um afecto profundos a tudo o que fazia. E uma extrema humildade perante a grandeza da escrita e o talento dos seus autores, de que tanto gostava (quem, hoje, tem este amor pelos autores e pela sua obra?). Ser publicado na «Assírio» passou a ser uma espécie de porto de chegada para esses mesmos muitos autores. De editora nas margens do mercado, a «Assírio» ganhou o seu público a pulso; em poucos anos era uma editora de prestígio; poucos passariam até se tornar uma sólida editora independente; que dava lucro. Tudo isto ocorreu durante as décadas de oitenta e noventa do século passado. Com a prematura morte de Manuel Hermínio Monteiro (1952 — 2001) a Assírio & Alvim manteve, é certo, a aura de prestígio que adquirira. Porém, perdeu aos poucos, o golpe de asa. Vive actualmente, em grande medida, da exploração  do seu brilhante catálogo. Arrisca pouco. No ano da sua anunciada morte Manuel Hermínio Monteiro preparou, conjuntamente com uma grande equipa que reuniu, a edição de A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, monumental colectânea de poesia de todos os tempos e lugares, que viria a constituir legado e testemunho do que era, verdadeiramente, editar. Na humildade que lhe era tão própria, não reconheceria grande valor à sua escrita. Era, contudo, senhor de uma prosa cristalina e serena; escrevia num português suave, culto e discreto, onde as muitas leituras, o convívio assíduo com o processo de escrita dos outros, as raízes transmontanas, se sentem, mas nunca se impõem aos textos que, aqui e ali, publicava. Em 2004, o “Independente”, na colecção Horas Extraordinárias, edita «Urzes», colectânea de textos do editor. Tudo tem um fim: a vida de um homem grande, um projecto editorial que conheceu uma vitalidade de que agora apenas podemos sentir nostalgia. Deste livro referido (que se pode talvez ainda encontrar em venda nalgumas estações do metropolitano de Lisboa), transcreve-se um admirável texto de Manuel Hermínio Monteiro, que muito gostava das artes-plásticas, escrito a propósito de uma exposição de Fernanda Fragateiro, pano de fundo para uma bela alegoria da floresta como o lugar simbólico que guarda a «entrega» e e «espiral da queda» dos escritores.

[Nota: na impossibilidade de conseguir obter  imagens digitais da exposição de Fernanda Fragateiro a que alude o autor, e não querendo ‘contaminar’ o espírito do texto e das obras nele referidas com outros trabalhos da artista, optei por utilizar fotografias que, entendo, se quadram em diálogo com o texto]


«Faded Intensity, Forgotten Life», Pagit, © Pagit, via Deviantar (D.R.)

Escritores que se suicidaram

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e de tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. Fernanda Fragateiro, ao escolher a floresta como contraponto representativo dos livros e de escritores que se suicidaram sabe que esta é a casa imensa primordial de todas as bibliotecas, em cujos labirintos podemos perder-nos para sempre. E acontece que os mistérios das florestas dispõem de imperceptíveis tropismos, de uma sensibilidade selvagem e por vezes cruel, pelos quais sorvem os melhores espíritos, precipitando-os no vórtice de onde jamais sairão, a não ser pela glória da escrita. Eles são os mártires de um sacrifício tão empolgante como ignorado. Com um considerável susto, passamos ao lado do profundo escuro dos medos condensados. Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical indicativo. O que Fernanda Fragateiro mostrou na Livraria da Assírio & Alvim foi um diálogo silencioso, como acontece na melhor literatura. De um lado, inúmeras árvores em miniatura representavam uma floresta de aparentes repetições, organizando um espaço que valorizava os intervalos vazios entre as muitas árvores (são esses os nichos dos mistérios e dos sinais). Do outro lado, e na sequência da floresta de livros da livraria, uma prateleira com a indicação «Livros de autores que se Suicidaram». Poderiam constituir apenas uma especialização ou um assinalado segmento da livraria. A sinalética era exactamente igual à das outras secções. A artista, pelo contrário, diz que não. Os livros estão justamente no seu lugar próprio. Mas apesar das lombadas, das palavras impressas, eles agem num conjunto provocando uma energia que os destaca e os relaciona com os espíritos soltos da floresta. Os nomes de cada autor dão-se-nos pelos livros, mas, na verdade, pertencem a outra constelação nada doméstica e muito menos transaccionável. Vozes sopram do espírito da floresta e são tanto do óxido dos dias quanto os livros os livros que amarelecem têm em si o mais perdurável do corpo da floresta. E a floresta significa aqui o corpo da sociabilização, com as suas respectivas cedências e fracturas. À humanidade, estes escritores entregaram as palavras da criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» (1) e as encruzilhadas várias, , de se afundarem na cinza escutarem provado as bagas e experimentado  o espinho. Depois de arrecadarem a aura das musas, a lenda dos gnomos e dos duendes e aspirando a Flor Azul, depois de terem entregue todas as palavras aos seus leitores, partem. Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformam  com o desleixo de um lugar  que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e de árvores e do qual todos aceitámos, conformada e estuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.»

(1) Aparente referência ao livro com o mesmo nome, de Maria Zambrano, autora de que M.H.M. muito gostava e editou. Excerto aqui.

Monteiro, Manuel Hermínio, Urzes, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado em A Phala, n.º 54, Março 1997.)

«Bench», Ilco Trajkovsky © Ilco Trajkovsky, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Manuel Hermínio Monteiro aqui, aqui e aqui

Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus

página web da editora “Apenas Livros”

(clique para ampliar)

 

Uma daquelas designadas «pequenas editoras», a “Apenas Livros”, tem dado à estampa, em «edições de cordel» (palavra de hora que são mesmo) uma notável colecção de títulos que englobam uma enorme diversidade de temas (património imaterial, literatura tradicional, tradição oral, história de Portugal, ciência, antropologia, lendas e contos tradicionais, descobrimentos, festas tradicionais… enfim, é consultar o link no final deste post.

Por 3,80 € (garanto, e o preço médio dos livros da editora não excede este valor), comprei o livro com o título Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus, de Ana Maria Paiva Morão, investigadora no “Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro” (CTTP), unidade de investigação integrada na Fundação da Universidade de Lisboa. Uma viagem lindíssima aos cantares dos romeiros, muito bem introduzida, apresentada e contextualizada, partindo de um acervo de fontes que revela aturado trabalho. Aqui se deixa um excerto, que talvez estimule quem ler à compra de um dos 250 exemplares.

«(…)

Os temas das cantigas de romaria

Se, numa primeira leitura mais apressada, estes cantos de romaria parecem meros cânticos de devoção a um qualquer santo, numa leitura mais atenta desenhar-se-á a grande diversidade de temas e motivos destas cantigas (…), a propósito dos vestígios dos antigos cultos ou das marcas do sagrado nelas encontradas.

Agrupá-las por temas dentro das invocações seria tarefa espinhosa, pois sob a mesma invocação se encontram sentimentos tanto religiosos (A) como profanos (B):

(A)

«Ó Senhora dos Remédios,

Minha mãe, minha madrinha!

Levar as almas ao Céu,

A primêra seja a minha» — (Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco).

(B)

«Ó Senhora dos Remédios,

Defronte do arvoredo

Eu já tenho um amor

Mas é muito em segredo» — (Baião).

As cantigas de romaria, de facto, assumem o valor das preces, e vai-se ao santuário para pedir graças, à medida das necessidades de cada um, sendo frequente estarem os pedidos ligados à própria invocação ou atributo do santo.

Roga-se a saúde para os que amam:

«Nossa Senhora da Saúde,

Dai saúde ao meu amor,

Que está doente de cama

E querem dar-lhe o Senhor» — (Póvoa de Rio de Moinhos).

Pede-se a protecção dos perigos do mar:

«Ó Senhora da Saúde

Sois pequenina e bem feita;

Livrai os homens do mar

Dai-lhe a vossa mão direita» — (Oliveira do Hospital).

Livrar da vida militar é coisa ao alcance da Senhora:

«Senhora do Livramento

Livrai o meu namorado,

Que me vai deixar sozinha

Pela vida de soldado» — (Turquel, c. de Alcobaça).

Há, até, apelos de ajuda para a educação dos filhos indisciplinados:

«Mê Senhor São Marcos

Que amansais toiros brabos,

Amansai-me este filho

Que é pior que todos os diabos» — (São Marcos da Serra, c. de Silves).

O casamento é um dos dons mais apetecidos, ainda que com algumas condições:

«Ó meu rico São Gonçalo

Tende de mim piedade,

Deparai-me um maridinho

Consoante a minha idade» — (Amarante).

Um excesso de devoção desencadeia estrnhos desejos e o pedido de um noivo muito especial:

«Nossa Senhora da Lapa

Eu hei-de ser vossa nora,

Se me derdes o Menino

Que está no altar de fora» — (Sernancelhe).

E, já que se pede, aproveita-se, mesmo, para na mesma cantiga se fazerem dois pedidos:

«Senhora Santa Luzia,

Da capela de Moreira,

Dai-me vista aos meus olhos,

Casai-me que estou solteira» — (Arcos de Valdevez).

Um duplo pedido, feito à mesma santa, em Barcelos, pode assumir contornos mais drásticos:

«Lindos olhos tem António

Santa Luzia guardai-lhos!

Se eles não são para mim,

Santa Luzia tirai-lhos»

festejos em honra a Nossa Senhora da Saúde, em Canelas – Estarreja © blogue “Notícias d’Aldeia”

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

editora Apenas Livros

Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro