As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Agosto, 2008

A XXX Olimpíada e as ruas de Londres

Começou hoje a XXX Olimpíada da “Era Moderna”. Daqui a quarto anos teremos incomensuravelmente mais perturbação nas ruas de Londres que a que eventualmente ocorreu em Pequim (eventualmente, sublinho, porque muita coisa deve ter sido silenciada à nascença ou simplesmente escondida). Protestos, statments públicos, marchas, concentrações, lutas de rua contra a polícia, riots de oportunidade, mesmo que folclóricos, ainda que etilizados. Muito mais causas que o Tibete e os Direitos Humanos terão a rua como palco e os media como objectivo. Visto a esta distância, é mais que provável que, em 2012, existam inúmeras causas globais à procura de um palco global. Resta saber quais. Em Londres, a ‘Rua’ como local de combate político escapa inexoravelmente à agenda da House of Commons. Marcello Caetano provou o seu amargo sabor, por exemplo. Mesmo que, em 1973, a questão colonial portuguesa estivesse longe de comover o mundo até à histeria.

A latere – não se resiste a um documento como este: a descrição da referida manifestação contra a Guerra Colonial e o regime anti-democrático português, que se organizou em Londres em 1973, justamente por ocasião da visita de Marcello Caetano (Primeiro-Ministro à época), publicada no Avante nº. 1368, de 17 de Fevereiro de 2000. A Aninhas da história carregaria hoje, bem vestida e encharcada, o retrato do Dalai Lama.

Londres, 2012. Uma visão olimpicamente futurista.

Londres, 2012. Uma visão olimpicamente futurista.

Mudar custa

Tinha eu treze anos, foi a seguir ao 25 de Abril. Em visita ‘à terra’, cheio de certezas adolescentes e igualitárias, bebidas no espírito do tempo, vejo-me em acalorada discussão com um tio, homem lá ‘da terra’, sobre a injustiça de ganharem as mulheres metade do salário dos homens. Ouviu-me. Depois, apontando para uma pilha de sacas de batatas, resmungou: «No dia em que as mulheres acartarem o mesmo que os homens, tu tens razão». Calou-me. Aos treze anos pode-se pouco contra a geométrica lógica da mentalidade rural.

No espaço de uma geração o país urbanizou-se. Modernizou-se. Ganhou uma pátine de mundo. Tem um jornal como o Público, por exemplo, onde surge hoje, na capa, em título, «Homens continuam a ter salários muito mais elevados que as mulheres». E, em sub-título, «Portugal e Eslováquia são os países com a maior discriminação salarial da UE». Passaram trinta anos sobre a discussão com o tio da ‘terra’.

Três décadas não libertaram o lastro fundo daquilo que continuamos a ser: uma sociedade conservadora, avessa à mudança e agarrada a ideias ‘seguras’ (isto é uma generalização, evidentemente). Se já não podemos controlar as mulheres no matrimónio, ainda as temos na mão nos salários. Se já não lhes podemos dominar o corpo, os comportamentos, as palavras, ainda lhes apertamos o freio na carteira. Não vão elas gastar tudo nas Zaras, nos Shoppings, nos jantares de amigas. Em discos do Tony Carreira. Em férias para lugares quentes.

O pior é que já gastam.

Na Ásia. Mas lembra-me tanto a minha "terra"...

Na Ásia. (Lembra-me a minha "terra").

As Certezas Difíceis

Leia-se, de baixo para cima, o ranking da FIFA: Papua-Nova Guiné; Ilha de Monserrate; Timor-Leste; Anguilla; Ilhas Cook; Território de Guam; Samoa Americana; República de São Marinho (todos na 200ª. posição, com 0 pontos); República Centro Africana (199ª. posição, 6 pontos); Somália (198ª., 8 pontos); Macau (197ª., 11 pontos).

Com tantos adversários acessíveis, o regresso do Professor Queiroz ao trabalho de seleccionador nacional da equipa portuguesa de futebol de 11 tinha mesmo de ser contra as dificílimas Ilhas Faroe (196ª. com 12 pontos)? Enfrentando um ‘potentado’ constituído por 21 ilhas, que totalizam 1.399 km2, as quais albergam uma horda de 48.500 habitantes? Um ‘colosso’ que, apesar de ser Território Autónomo do Reino da Dinamarca, dispõe de Governo, partido independentista (republicano, claro), língua própria e seis referências bibliográficas no Dicionário Websters online? Dados os constrangimentos da Selecção Nacional (9ª. posição, com 1.122 pontos), era preciso complicar?

Presumo a conveniência de garantir o retorno do Professor como uma certeza. Ter igualmente a certeza de que o Sr. Scolari será rapidamente esquecido. Materializar a certeza de que Ricardo não fazia parte do elenco. Porém, o tangencial triunfo por 5-0 frente às temíveis Faroe, leva a crer que há quem procure as certezas difíceis.

Escondido na beleza da paisagem, o inimigo espreita!

Escondido na beleza da paisagem, o inimigo espreita!

Agradecimento

Alberto João Jardim zurze a monotonia, o «rame-rame» (étimo a ser devidamente analisado pela ciência política) a falta de imaginação, etc. dos partidos políticos – está a dirigir-se ao seu, claro – e ameaça criar um novo partido, lá para 2009 (depois das eleições, que presume perdidas para o PSD). De fora apenas deixa… o Partido Comunista, de facto, exemplar pela constante imaginação ideológica e de todo imune ao ‘rame-rame’. De caminho, Alberto João compreende a falta de reacções à sua refulgente ideia: «Eu compreendo que não reagem (sic) porque estão em reflexão». A lógica do raciocínio é notável. Se eu fosse dirigente do PSD estaria neste preciso momento, a reflectir sobre a melhor forma de incentivar Jardim e, de passagem, agradecer-lhe a iniciativa. Não é todos os dias – e já lá vão décadas – que nos livramos de um problema de pele que julgávamos grave e crónico. Mas que, visto com a distância necessária, nunca passou da epiderme.

Um perfil nacional.

As banalidades extraordinárias

É evidente (no sentido de comum, inevitável, óbvio) que um Estado da União Europeia, vivendo em regime democrático, com fronteiras generosamente (entre)abertas, tenha de possuir pelo menos um corpo policial de intervenção especializado em situações de crise (sequestros, incidentes de carácter terrorista, ocorrências de risco para a segurança das pessoas? É.

A cobertura mediática que a actuação dos GOE (criados no governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, convém lembrar) mereceu, no assalto com sequestro a um balcão do BES, em Lisboa, apenas cumpre o papel inevitável da comunicação social: amplificar até ao ponto da emotividade a notícia do acontecimento. Até aqui suporta-se. Há que manter o fluxo das conversas matinais, no pequeno-almoço das famílias, no cofee-break das empresas. O que já não é evidente, e muito menos normal, é que surja – e inevitavelmente surgiu – um “não dito”, mas implícito tom de censura à actuação daquele corpo policial. Que ganhou contornos de opinião crítica nos lugares onde se forma opinião. Na blogosfera, houve quem se perguntasse se, para as 17 mulheres que já morreram este ano às mãos dos companheiros/maridos/namorados, haveria um sniper pronto a actuar. Subentendido: brasileiros assaltantes matam-se “por dá cá aquela palha”. Agora as ‘vítimas mudas’ da normalidade quotidiana não têm defesa. Admito a bondade da comparação. Mas só por bondade aceito a sua honestidade. No caso do assalto ao BES, imaginemos que, por azar, os GOE tinham falhado a sua missão. O que não se diria sobre a fraqueza do estado de direito, sobre a precariedade das polícias, sobre a insegurança a que isto chegou. Seriam outras vozes a clamar? Provavelmente não. Provavelmente seriam as mesmas. Aquelas que gostam de tornar extraordinário o que é banal. E assim banalizam o extraordinário.

Nota: este não é um elemento do G.O.E.

Nota. não sei se brutos, se limpos, cada elemento dos G.O.E. leva para casa 1.300€ por mês, excepto se estão em missão no estrangeiro. Quanto ganha – honesta e merecidamente – um cidadão brasileiro, português, moldavo, etc… que trabalha na construção civil?

O primado da imagem

As múltiplas reacções de desaprovação chovem nos media globais, portugueses inclusos. Então não é que os organizadores dos Jogos Olímpicos de 2008 (chineses, logo duvidosos) trocaram a menina que cantou na cerimónia de abertura – com voz maravilhosa, diga-se – por outra criança que, essa sim, por ser linda, interpretou em play-back o tema! Repete-se: apenas por ser mais bonita. E daí? Num mundo ocidental onde a imagem é o primado matricial da comunicação, quando se discute, por exemplo, e amenamente o ‘branqueamento’ da cor da pele da cantora Beyoncé para uma campanha da L’Oreal, onde é que está o escândalo? Muitos motivos de crítica existem perante questões tão pertinentes como os direitos humanos e a despolitização dos Jogos Olímpicos. Mas ver na troca das meninas um gesto de má-fé e de logro parece-me, nos dias que correm, uma hipocrisia. Não concordo (coisa rara) com Rui Bebiano – entre muitos outros- e com o que escreve sobre o assunto. Às vezes o politicamente correcto não nos permite colocar as questões em perspectiva. E esse é o lugar de onde elas devem ser observadas.

O patinho feio canta, o bonito é para o mundo ver

O patinho feio canta, o bonito é para o mundo ver