Poesia Portuguesa (28) – Luís Miguel Nava

by manuel margarido

Nota biográfica de um poeta determinante na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e da própria concepção programática que a investia, operada a partir da década de setenta, atingindo o seu vigor criativo na década seguinte, na qual Luís Miguel Nava escreve quase toda a sua obra (a que se podem associar, como referenciais, os nomes de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge): «Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu, cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu, aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte, vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta o mestrado de Literatura Francesa (l980/82), começa a colaborar regularmente como crítico literário em jornais e revistas (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981 e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986 passa a residir em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. A partir dessa data passa a viajar cada vez mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.
Além de três livros de ensaio – O Pão a Culpa a Escrita (IN/CM, 1982), A Poesia de Francisco Rodrigues Lobo (Ed. Comunicação, 1985) e O Essencial sobre Eugénio de Andrade (IN/CM, 1987) –, Luis Miguel Nava organizou ainda uma Antologia de Poesia Portuguesa – 1960/1990, editada em 1991 em português e em francês, por ocasião da Europália (Bruxelas). Publicou os seguintes livros de poesia: Películas (Moraes, 1979, Prémio de Revelação da A.P.E.); A Inércia da Deserção (& etc., 1981); Como Alguém Disse (Contexto, 1982); Rebentação (& etc., 1984); Poemas (reedição conjunta dos livros anteriores, Limiar, 1987); O Céu Sob as Entranhas (Limiar, 1989) e Vulcão (Quetzal, 1994). Este último livro está também publicado em francês (Volcan, tradução de Marie-Claire Vromans, Paris, Ed. Eulina Carvalho, 2000).» – in, Relâmpago, Revista de Poesia.
s.d.

O CORPO ESPACEJADO

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.

Luís Miguel Nava, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987

© Ricardo Alevizos

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