As anedotas dos Romanos

by manuel margarido

Na escola primária diziam-me que o Homem (o género humano) era diferente dos animais por ser ‘racional’ (na catequese a coisa era metafísica, a distinção era feita porque o Homem tinha alma); no secundário a conversa era outra, o Homem distinguia-se das outras espécies da criação pela linguagem – já se deviam conhecer os estudos sobre a capacidade de racionalização dos símios, por exemplo; na faculdade, possivelmente em virtude da aquisição de conhecimentos sobre a complexa comunicação ‘vocalizada’ de algumas espécies de baleias e golfinhos, a sentença vinha, categórica: o Homem é o único ser capaz de pensamento abstracto. Lembro-me de ter concordado. Não conhecia nem poemas nem anedotas que não fossem obra  humana.

O sentido de humor é património do humano. Contudo, a descoberta de um livro de anedotas romano – escrito entre os séculos III e IV, em grego, com o título de Philogelos (‘O Amigo da Gargalhada’) – causa espanto pela enorme semelhança entre os padrões de anedotas dos romanos e as anedotas actuais. Ou seja, as personagens podem mudar (claro que não são o português, o francês, o inglês e o espanhol). Eram os habitantes de Abdera, na Trácia, considerados em Roma muito, muito estúpidos. Mas também estereótipos como o professor distraído, o barbeiro, o careca. De que se riam e como se riam os romanos? Como nós. As anedotas deles podiam perfeitamente compor sketches dos Mounty Python ou dos Gatos Fedorentos. Exemplos? Anedota um – «Um barbeiro, um careca e um professor distraído viajam juntos. Tendo de acampar à noite, decidem fazer turnos para vigiar a bagagem. Quando chega o turno do barbeiro, este vai-se aborrecendo e, para se divertir, rapa o cabelo do professor… Este, quando acorda para o turno seguinte, passa a mão pela cabeça e diz: “É tão estúpido, o barbeiro… acordou o careca em vez de me acordar a mim”.» Anedota dois – «Um homem encontra um velho conhecido e diz-lhe: “É estranho, disseram-me que tinhas morrido!”. O outro responde: “Olha, como vês estou vivo e bem vivo”. Mas o primeiro argumenta: “Desculpa lá, mas a pessoa que me contou que estavas morto é de muito mais confiança que tu!”»

Juro que a ideia de um romano a contar anedotas, de toga, num círculo de amigos é, no mínimo, hilariante. Deve ser o hábito de criança, incutido pelos livros do Astérix. É natural a gente rir-se dos romanos, agora imaginá-los às gargalhadas, na chacota…

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'

'Máscara funerária romana. Este não conseguiu provar que estava vivo'