As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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João Miguel Fernandes Jorge — O Melro de Mazagão (poema e apontamento)

Era um corpo feito às mãos caía-lhe pó dos dedos

era dos meus amigos o mais propenso à ilusão.

E eu estava ali quieto sobre a casa, a alma

pode ser muitas vezes uma pedra

eu estava ali quieto isto é o mais importante: era

um corpo feito às mãos.

Ia por um caminho de palmeiras

aquele que procura o meio-dia e o encontra

era um homem entre uma rua da Nazareth e a rua do Celeiro

de espírito orgulhoso: esses tempos já lá vão

se quisermos aprender alguma coisa

dos pedreiros escrevendo a estrela e o

crescente

Mazagão é a miragem de portos barcos e reinos.

Para que serve? Preferia ficar a bordo onde podia trabalhar

sem interrupções e onde várias vezes me senti inspirado

como nunca tinha estado antes nem voltei a estar depois.


Eu por mim sou assim quando chego aos portos embarco.

E sonho um país onde nunca acabam as casas

porque as casas são para não ter fim: «já não

tenho pressa agora já não quero chegar a lado algum».

e que mais hei-de fazer deste terreiro de favas e papoilas?

A matéria não podia já mover-se por si própria ou

se movia ao acaso. Era uma ponte em vão.


Era um mar de dragões e solitários espíritos esse

onde navega o melro de Mazagão

as coisas que se transformam em função das suas paixões,

um melro canta sempre de determinada maneira

avisando contra toda a espécie e fortuitos acontecimentos.

Era da família dos amarílis

e se o não era ele, era o seu canto.


Pois quando volvemos o olhar enfrentando este terror

insinuando a dúvida pela fugaz economia

e dizendo ecce ancillla domini

semelhante ao desprezo de Platão,

disto estou certo: era um corpo feito às mãos.

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

dante gabriel rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Dante Gabriel Rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Voltamos ao Direito de Mentir (1978, 7.º livro do autor) e, talvez por acidente, ao quase caricato episódio que o autor relata, na reedição da Obra Poética, da Editorial Presença: «no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Doméstico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.». Ironia que tem, como ponto de legitimação uma verdade intrínseca, íntima, que atravessa o poema e o livro como evidência e proclamação do olhar do autor perante os acontecimentos do mundo, permitindo-lhe o Direito de Mentir, de afirmar a sua própria percepção do real contra a «verdade» das evidências (aquilo que, carecendo de demonstração, se configura como revelação: «ecce ancilla domine» Lc: 1,38). Joaquim Manuel Magalhães escreverá, a propósito do livro, ser este: «expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas (…) num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial.» (Magalhães, Joaquim Manuel — Os Dois Crepúsculos, Lisboa: «Na Regra do Jogo», 1981, p. 243).

[Nota: Este poema teve uma publicação prévia na revista «Raiz & Utopia», números 3-4, Outono/Inverno de 1977.]

João Miguel Fernandes Jorge e a importância de uma nota de posfácio, seguido de dois poemas (um de Joaquim Manuel Magalhães)

 

 

Um posfácio (neste caso, uma «Nota») pode ser um apêndice de circunstância (pode aliás ser muitas coisas). Raras vezes a nota final de um livro contribui de forma tão estimulante para a compreensão da petite histoire, ou da gesta que se encontra na origem de uma obra, como este texto de João Miguel Fernandes Jorge que fecha a edição de Obra Poética – Volume 3,  do referido autor. A transcrição desta nota revela-nos impressões e considerações do autor perante uma decisiva parte da sua obra e, o que é igualmente de grande pertinência, as histórias que cada um dos livros referidos lhe evocam. Nela, na «Nota», é como se um período de uma intensa importância na reformulação dos cânones da escrita poética em língua portuguesa nos surgisse, por um lado de forma evocativa, por outro quase como uma crónica. À transcrição da referida «Nota», seguem-se as transcrições de um poema de Cartucho e, compreensivelmente, do poema «28 de Setembro», de Joaquim Manuel Magalhães, na sua versão publicada em Os dias, pequenos charcos (a outra, a de Um Toldo Vermelho, não se justifica evidentemente transcrever aqui).

 

«Cartucho»

 

 

NOTA

 

A primeira edição de Meridional surgiu em 1976 na Plátano. Uma segunda versão foi publicada no Roubador De Água (1981). Com pequenas alterações é esta segunda a versão que sigo.

Vinte e Nove Poemas (1978) foi o primeiro livro da colecção Inverso (Regra do Jogo) e trazia, numa das páginas iniciais, uma polaróide de João Botelho. Pertencem a este livro poemas de 1977 e 78 e ainda poemas que foram contemporâneos de Sobre Sob Voz (1971). Alguns deles tiveram publicação anterior em Fevereiro, revista de poesia (1972).

Direito de Mentir (Arcádia, 1978) é um livro de que particularmente gosto. Inclui dois títulos anteriores: Cartucho (edição dos autores, 1976) e Man Ray, Oito Tiros à Sua Morte (O Oiro do Dia, 1977). Cartucho (a que correspondem os cinco primeiros poemas de «Poemas que estavam no Cartucho e outros que podiam lá ter estado»), foi um cartucho mesmo e onde me acompanharam o Joaquim Manuel Magalhães — a quem se deve a ideia —,  o António Franco Alexandre e o Hélder Moura Pereira.

O meu pai deu-nos os cartuchos, o cordel e os chumbos que os fechavam. Lá dentro ficaram poemas bem amarrotados. Mandámos imprimir um rótulo com os nossos nomes na tipografia «Proletariado Vermelho», que ficava no meu bairro. Não esquecer que corriam os gloriosos dias de 76! De resto, quando eu e o Joaquim vínhamos da Consolação com a mala do carro cheia de cartuchos acabados de fazer, fomos interceptados por uma operação stop das vigilâncias populares, à entrada da Calçada de Carriche. Ao mandarem abrir a mala do carro e ao verem os cartuchos perguntaram: — «O que é isto?» O Joaquim respondeu-lhes: — «São livros!» Como se de rosas se tratasse! Acharam coisa acertada para a revolução em curso. (Seria este o motivo para o seu poema «28 de Setembro» de Os dias, pequenos charcos).

Quanto a Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte trazia consigo um desenho de António Palolo.

Mas o Direito de Mentir no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Domestico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.

Depois é a poesia pequeno jogo entre acaso e destino, entre matéria e memória. Quase posso chamar para este momento a presença do meu poema final de O Regresso dos Remadores (1982): «Poemas»: «Aspectos perdidos / pequenas sombras ao redor de poderosa imagem // Aquilo que / distingue a palavra ave da palavra pássaro.»

Há neste acaso e destino e nesta matéria e memória o carácter da experiência e da duração que encontra o seu fundamento na constituição íntima não só do seu criador, como na fantasia desse mesmo criador. Um passo para o surgir de um outro jogo: o que vai da presença de uma memória pura ao existir de uma memória (in)voluntária. Ontem, um parasita cultural escrevia acerca de um livro meu: «Este notável poeta é muito inteligente, e muito arguto nos objectos que escolhe, mas deixa-nos sempre a estranha impressão de raramente acertar. É uma espécie de Mr. Magoo feito caçador de borboletas.»

Agradeço-lhe a notabilidade e a inteligência. Tenho de ambos que me baste. E fico contente com a imagem de «Mr. Magoo». Em Mr. Magoo pode muito bem ter a poesia e a feitura da arte um seu sinal. Quase cego, pitosga, tudo trocando pelo objecto próximo, de quando em quando acerta ou julga acertar; e traz ao conquistado espaço do vivido a sua aparente borboleta.

Pequena criação; Mr. Magoo é bem o poeta ou o feitor da arte: uma vida inteira ou um breve instante para dar lugar a um verso e, quantas vezes somente um verso vai restar como sustentáculo de toda uma obra, que sempre permanece escondida em tudo o que o criador vê.

 

Consolação, 1 de Janeiro de 1988

 

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988

 

«Mr Magoo»

 

 

POEMAS QUE ESTAVAM NO CARTUCHO

E OUTROS QUE PODIAM LÁ TER ESTADO

 

1

 

Como podemos esperar.

Aguardar o que as nossas mãos possam reter.

Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas

têm já o estado do vento

o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

 

Aguardar mais aguardar nada

Quanto mais se repete uma palavra

«estou sentado virado para a parede desta casa»

baixo, mais baixo ainda,

«estou sentado virado para a parede desta casa»

 

Fazer que não haja sucedido o sucedido.

O prazer de sentir chegar as coisas

O riso sob a chuva

O frio que faz. Aqui

 

Como podemos esperar uma noite de lua e vento?

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988, p.91

 

 
28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.

Isto é, como devia ser. O curro

predispunha à intervenção.

Essa urgência de voltar à mesma

havia de turbar o meu regresso

a Lisboa. Barreiras CDE de resistência

coscuvilhavam bagagens à procura

de calibres, uma fila maçada

de automóveis burgueses era vista

como homens de mão do Spínola.

No meu vinham cartuchos,

perto de duzentos com poemas,

rótulo nominal e fio com chumbinho.

O polícia popular não entendeu,

«São livros, meu senhor!»

Outros dois não queriam crer.

Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

Magalhães, Joaquim Manuel, 5º poema de Escritos militares, 8ª parte de Os dias, pequenos charcos (1981)

 

«28 de Setembro 1974 barricadas à entrada de Lisboa contra a "Maioria Silenciosa"» (arquivo: C.M.Odivelas)

Poesia Portuguesa (32) – Ruy Belo

Era o Verão de 1980, a memória pode trair, lembro-me de, tão puto, acabar a vender polvos aos restaurantes de Peniche para comprar o bilhete de regresso a Lisboa; mas não era o volume 2 da ‘Obra Poética de Ruy Belo‘, da Presença – organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães –  que teria comigo (o primeiro tinha, de certeza), nessas férias de revelações. ‘Transporte no Tempo’ estava lá, comigo, mas na edição da Moraes, que terei guardado num de três lugares, sendo um outro possível, um empréstimo perpétuo. Na introdução ao livro, Ruy Belo escreve um texto, ‘Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto‘, onde a indizível condição da mortalidade (do ‘não pertencer a este mundo’) se inscreve com um carácter quase premonitório, quase programático. Termina assim, o texto: “(…) O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou a todo o custo evitar a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou aprender com as palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.” Leia-se este terceiro poema da sequência ‘Monte Abraão’ à luz do ‘programa’ enunciado.

SÚPLICA


O outono demorou-se no mundo

A juventude há muito despediu

a primavera da primeira ave

Respiro as lágrimas das raparigas

recordo-me do seu odor nocturno

Escuto o movimento lento da ramada

esqueci a escada habitual do dia-a-dia

a cortina da chuva corre-se de novo

Nesta manhã de outono aluviões   da vida

murmuram-nos mulheres minuciosas

O ombro da colina ergue o nevoeiro

na madrugada não cantam melros

A areia bebe cheia a chuva enquanto

nós infinitamente nos distanciamos

de quanto – diz a santa – desejamos

Aonde está a mãe da minha infância?

Talvez com ela tudo começasse

É nos fins do verão alguém morreu

foi-se a ferocidade das cigarras

no caminho das tílias percorridas

Deixo cair as mãos pois nem me restam essas

aves do mar que a tempestade impele

em tempo de equinócio para a costa

É o cabo do mundo é o fim do ano

a era da perfeita culpabilidade

Respiro já os meus últimos dias

Sobre este céu nenhuma ave adeja

Que a terra humedecida me proteja

Ruy Belo, in Transporte no Tempo, p. 14-15, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo

© Duarte Belo

Poesia Portuguesa (28) – Luís Miguel Nava

Nota biográfica de um poeta determinante na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e da própria concepção programática que a investia, operada a partir da década de setenta, atingindo o seu vigor criativo na década seguinte, na qual Luís Miguel Nava escreve quase toda a sua obra (a que se podem associar, como referenciais, os nomes de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge): «Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu, cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu, aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte, vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta o mestrado de Literatura Francesa (l980/82), começa a colaborar regularmente como crítico literário em jornais e revistas (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981 e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986 passa a residir em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. A partir dessa data passa a viajar cada vez mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.
Além de três livros de ensaio – O Pão a Culpa a Escrita (IN/CM, 1982), A Poesia de Francisco Rodrigues Lobo (Ed. Comunicação, 1985) e O Essencial sobre Eugénio de Andrade (IN/CM, 1987) –, Luis Miguel Nava organizou ainda uma Antologia de Poesia Portuguesa – 1960/1990, editada em 1991 em português e em francês, por ocasião da Europália (Bruxelas). Publicou os seguintes livros de poesia: Películas (Moraes, 1979, Prémio de Revelação da A.P.E.); A Inércia da Deserção (& etc., 1981); Como Alguém Disse (Contexto, 1982); Rebentação (& etc., 1984); Poemas (reedição conjunta dos livros anteriores, Limiar, 1987); O Céu Sob as Entranhas (Limiar, 1989) e Vulcão (Quetzal, 1994). Este último livro está também publicado em francês (Volcan, tradução de Marie-Claire Vromans, Paris, Ed. Eulina Carvalho, 2000).» – in, Relâmpago, Revista de Poesia.
s.d.

O CORPO ESPACEJADO

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.

Luís Miguel Nava, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987

© Ricardo Alevizos

© Ricardo Alevizos

W. B. Yeats, um poema

[post reeditado]

Tradução, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães, de um poema de W. B. Yeats, um amigo meu. Enviada por Amélia Pais, cara leitora atenta.


He Wishes for the Cloths of Heaven


Had I the heavens’ embroidered cloths

Enwrought with golden and silver light

The blue and the dim and the dark cloths

Of night and light and the half-light


I would spread the cloths under your feet:

But I, being poor, have only my dreams

I have spread my dreams under your feet

Tread softly because you tread on my dreams.


W. B. Yeats


Ele Deseja os Tecidos do Céu


Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,

Lavrados com a prata e o ouro da luz,

Os tecidos azuis e foscos e de breu

Que têm a noite, a luz e a meia luz



Estenderia esses tecidos a teus pés:

Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;

São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;

Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Wind Flowers, John Waterhouse

Wind Flowers, John Waterhouse

Poesia Portuguesa (18) – Joaquim Manuel Magalhães

Publica-se aqui um dos poemas que melhor separam as águas entre a identidade homossexual e a sua apropriação/incorporação pela sociedade, poema esse que, lido em confronto e diálogo com o propositivo, programático e cénico poema Homossexualidade, publicado bem mais tarde, na revista Telhados de Vidro nº. 4, de Maio de 2005, nos deixa(m) perante a voz cortante, de espessa ironia e consciente desencanto de Joaquim Manuel Magalhães. No final do poema, transcreve-se um texto de Paula Cruz, professora já referida aqui, autora do não/blogue escolar CercARTE, intitulado Gavetas e Armários. Parece-me acertado que se leiam os dois textos de tal forma que seja tão distinta como cruzada a sua leitura.

Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente

Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam

Aos poucos também, a troco da paga decorativa

De vários livros de verso e alguns de ensaio,

Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.


Com o tempo vieram as fotografias nos circuitos

De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam

Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.


Nas pistas múltiplas das artes e das noites,

Até antigos desconhecidos, até estáveis malquerentes

Diziam: “os dois poetas”. Antes queriam


Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo

Da profissão que padeciam por a reconhecer

O melhor lenitivo para a obsessiva

E neurotizante dedicação em exclusivo

À chamada profissionalização dos escritores:


«os dois poetas», contudo, semi-servia

para neutralizar outras sevícias.


Mas quando os carros exigiam marcações

na empresa dum mecânico vizinho

às vezes no telefone pousado chamavam

com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»

Embora sempre afável atendesse às avarias.


A voz voava do recanto de contabilidade

forrado a calendários com poses pneumáticas

por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.

baterias, broquins, desperdícios, alavancas;

e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.


Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.

E ambas as designações os faziam sorrir.

Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma

Ou até doutra mecânica qualquer? Ou de pequena cidade?

Ou de grupo de jardim com reformados?


Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, pg 124 – 125, Contexto, Lisboa, 1987

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

(clique para ampliar)

Gavetas e armários
Paula Cruz


Quando alguém lê um romance onde um homem e uma mulher se envolvem em práticas amorosas, não o rotula ou categoriza no subgénero literário “ficção heterossexual”, nem faz juízos de valor sobre a orientação sexual do produtor da obra. No entanto, se numa dada obra temos uma alusão ou descrição de uma relação homossexual, essa obra, passa, quase de forma automática a ser inserida na literatura gay, ou mais modernamente, na literatura querer, uma estratégia terminológica politizada que nos permite ir um pouco mais além dos géneros sexuais tradicionalmente estabelecidos.
Certo é que a pseudo-heteronormalidade, a «elasticidade mortífera da presunção heterossexual» (Sedgwick, 2003:7), vai regendo a subcategorização dos géneros  literários, assim  obras produzidas ou por autores que assumam publicamente a sua orientação sexual  ou  cuja temática aluda a sensibilidades ditas minoritárias são categorizadas sob o amplo guarda-chuva terminológico de literatura gay , LGBT ou  queer.   O mais curioso é que qualquer forma de afirmação – seja de orientação sexual, política, ou outra – é, simultaneamente, um mecanismo de ocultação, pois para que se destaquem os caracteres que se desejam afirmar , os outros são silenciados. O facto de uma obra ser lida enquanto “lgbt”, faz com que todas as outras  questões abordadas, sejam menorizadas.
Ser posto na prateleira da literatura gay ou homossexual (distintas, segundo Eduardo Pitta)  ou feminina é uma forma de dar visibilidade, mas ao mesmo tempo, de criar um certo folclore à volta desses mesmos rótulos, assim como em tempos se fez com a literatura sul-americana ou como, presentemente, se está a fazer com o romance histórico (sempre embrulhado numa doirada capa com um qualquer pormenor de um quadro renascentista ou com uma imagem sépia a revivificar uma qualquer falsa memória colonial).
Claro que a questão da visibilidade social LGBT é importante, bem como é importante desfazer mitos em redor das homossexualidades, no entanto receio que os, por vezes,  escusos caminhos da edição promovam as obras  apenas como uma forma inocente de voyerismo e não pela sua qualidade intrínseca.  A meu ver, faz todo sentido falar-se em estudos queer e considero  urgente  reservar um  espaço nas estantes para este emergente campo de estudo. Já em questões literárias, parece-me lesivo (e abusivo)  fechar os autores em espartilhos que não os dos géneros dramático, narrativo e lírico.  A opção por rotular uma obra na literatura gay faz parte de um processo evolutivo: num primeiro momento há a consciencialização e a afirmação da diferença e, posteriormente, teremos o desejo de uma diferença não diferenciada. Nessa diferença a  dicotomia homossexual / heterossexual perderá o sentido. É o caminho da diferença não diferenciada que queremos que seja trilhado.
A obra ficcional de Frederico  Lourenço não pode ser  equiparada à de um Guilherme de Melo, por exemplo. O ser homossexual não autoriza a que sejam colocados numa mesma prateleira e num mesmo nível de qualidade. A questão heterossexual, homossexual, lésbica, transexual ou bissexual é  identitária, podendo ou  não transparecer para  a escrita, embora lhe esteja subjacente.  Frederico Lourenço é, no meu entender, um excelente escritor, que por acaso é homossexual. A trilogia iniciada por Pode um desejo imenso tem inquestionavelmente uma temática gay, mas é muito mais do que isso . Além dos aspectos literários, trata-se de uma ardilosa forma de defender uma tese, que encontraria resistências vigorosas no meio académico. Quando digo que Frederico Lourenço “por acaso é homossexual”, refiro-o como, a propósito de Mia Couto , digo que por acaso tem um pigmentação de pele mais nórdica, do que a tipicamente moçambicana. É óbvio que  todos os factores que  condicionam o autor textual são importantes, mas daí a tornar essas evidências em factos determinantes no seu emprateleiramento literário, parece-me francamente exagerado.  Para um  autor,  ser lido apenas por ter (ou melhor, assumir)  uma orientação sexual divergente da heteronormalidade asfixiante não é nem prestigiante, nem interessante. Se continuarmos a insistir em  rotular obras apenas por factos além da própria obra, como a orientação sexual  dos escritores, podemos chegar  a  extremos tão caricatos quanto etiquetar Miguel Torga e Jorge Sousa Braga  enquanto nos poetas que são médicos, sendo Sousa Braga inserido na subcategoria dos poetas ginecologistas. Vergílio Ferreira e David Mourão-Ferreira cabem na secção nos escritores que foram professores, sendo que Vergílio Ferreira pertence à sub-secção dos romancistas professores de Português, Latim e Grego do ensino Secundário. Vasco Graça Moura nos escritores que casaram mais de três vezes,  Manuel António Pina,  Ana Luísa Amaral e Adília Lopes nos escritores que gostam de gatos.  Esta especificação  seria, obviamente, ridícula, como o outro extremo também o é: em nenhum manual escolar a homossexualidade de Eugénio de Andrade é focada. Há aqui um “assobiar para o lado”, perdoe-se a expressão, apenas perceptível se enquadrarmos o poeta numa sociedade que apenas em 2004  tornou inconstitucional a discriminação com base na orientação sexual.  O “tu” dos poemas de Eugénio é lido nas selectas escolares sempre como um sujeito lírico feminino, não se abordando em parte alguma a questão do “outro” poder ser alguém do mesmo género sexual. O mais que acontece é esse “tu” ser lido como um referente neutro. Claro, que neste caso é o preconceito ancestral que domina as leituras oficiais. Sem nos alongarmos nas leituras mais ou menos  oficiais feitas pelos manuais escolares, não é só na questão da sexualidade que estes manifestam um carácter bafiento. A forma prática como os autores são seccionados em temáticas resulta numa forma dramática de circunscrever os autores a determinados topoi.
Uma das  vantagens efectivas  de os livros seguirem para as livrarias previamente etiquetados  é que, desta forma,  o trabalho dos livreiros é simplificado, assim,  nem sequer precisam conhecer o que vendem.  Se calhar  é por ausência de etiquetas que Breves Notas sobre Medo (2007)  de Gonçalo M. Tavares é muitas vezes  arrumado na secção de psicologia e Introdução à Filosofia  e Fenomenologia de Fernando Echevarria são serenamente acomodados entre tratados filosóficos.
É  caricato falar-se de literatura homoerótica quando falamos de escrita onde se tocam questões homossexuais, de pudicamente se falar em literatura feminina, quando muitas vezes a temática é de cariz lésbico e de se falar de literatura erótica quando se fala de literatura heterossexual, com pinceladas de sensualidade e/ou sexualidade entre homens e mulheres. Por que será que não se fala em literatura heteroerótica? Mais uma vez o peso da heteronormalidade, marketing ou simples distracção? E, ainda nesta linha, o que define a literatura dita gay: a orientação sexual do autor ou a temática da obra?
Falar em literatura feminina, em literatura regional, em literatura gay, literatura colonial ou pós-colonial, em literatura negra  é sempre uma forma  de categorizar e, de certa forma, engavetar. A necessidade de categorizar e de nomear é intrínseca ao ser humano e isso, por si só, não é necessariamente mau. Muitas vezes,  os rótulos são uma forma lícita  de dar visibilidade a determinadas questões sociais, no entanto,  esse mesmo rótulo pode tornar-se num duro espartilho que não deixa  que as obras respirem e sejam lidas no seu todo.  Assim como não considero que exista uma escrita feminina, também não  creio que seja relevante falar em literatura queer, gay, homossexual ou lgbt. Não é a escrita que está em causa: é o modo de ler. A etnia, a orientação sexual, o local de produção não definem, à partida, ou não deveriam definir, a qualidade da obra. A opção por, voluntariamente, enquadrar uma obra  sob determinada legenda – gay, homossexual, queer (aqui os termos são usados indistintamente) – reproduz exactamente a mesma ordem social inflexível e reguladora contra a qual se opõe. O sublinhado terminológico que embrulha obras de cariz tão diverso configura o mundo a partir   do binómio homossexual vs heterossexual.
O texto literário é sempre coberto de véus que criam verdades artificiais, ainda que de verdades se tratem, de facto. Estes véus constroem uma realidade simbólica que se afasta da realidade do autor empírico. Ainda assim, o texto revela marcas do seu tempo, do contexto de produção, do contexto sócio-cultural, de género e até da orientação sexual.  A interrogação sobre a importância destas marcas é importante, mas não pode ser condicionante,  transformando  o exercício da leitura numa obsidiante compilação de marcas do tempo, da biografia, da intimidade, da orientação sexual de quem o escreveu.
A literatura faz parte da vida, não lhe é marginal, logo a sexualidade está sempre presente, seja de forma mais ou menos explícita. O grau de conhecimento do leitor, os seus horizontes e a sua biblioteca cultural convivem com os textos. Em última instância, seria (ou deveria ser) o leitor a guardar cada obra na estante pessoalíssima das suas próprias leituras.
Se etiquetar algumas obras sob a sigla LGBT pode até, num primeiro momento ser  vantajoso, como forma de adquirir um lugar numa estante de uma livraria, no entanto a longo prazo  isso faz com que na obra apenas se perscrutem  traços biográficos e que os aspectos literários sejam relegados para planos muito secundários. A prateleira da “literatura gay” é apenas uma forma de fechar o armário ou, então, de transferir o armário para uma gaveta.  Neste ponto, é necessário radicalizar a questão:  a obra vale pelo que é ou pela orientação sexual do autor ?
Categorizar uma obra pela orientação sexual do autor empírico é ler a obra pelos óculos redutores da crítica biografista.  A vida  privada do autor só é (deve ser)  relevante para a sua esfera privada. Não tenho grandes dúvidas que se determinados autores publicassem as suas obras sob outras etiquetas, o sucesso editorial seria diverso. Arrisco dizer que Paulo Kellerman, autor de Gastar as Palavras (2006) e os Mundos Separados que Partilhamos (2007)  seria, se assinasse como Paula Kellerman,  etiquetado, com alguma facilidade , numa escrita dita feminina.
Os bons livros seguramente deixarão os espartilhos das prateleiras  e afirmar-se-ão  pela sua qualidade, sendo, quando muito integrados nos géneros maiores: lírico, narrativo e dramático. Os outros prestam-se ao folclore.

Bibliografia:
Pitta, Eduardo (2003) Fractura, a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, Angelus Novus, Coimbra
Sedgwick, Eve Kosofsky, trad. Ana Luís e Fernando Oliveira,  (2003) Epistemologia do Armário, Angelus Novus, Coimbra
Carneiro, Nuno Santos e Isabel Menezes, (2006) “Do anel à aliança”: Sentido dos iguais e emancipação pessoal na psicologia das sexualidades” (pp.73-79) in Revista Crítica de Ciências Sociais, 76

¹Note-se que é desajustado falar em literatura gay (ou homossexual, ou queer, ou outra coisas qualquer) uma vez que  a literatura, em si mesma, não é um género literário. Os géneros literários maiores são o dramático, lírico e narrativo, logo, seria preferível falar em “narrativa gay”, “poesia gay” e “teatro gay”.

²O caso de Mia Couto serve ainda de exemplo para uma ambiguidade criada pelo seu próprio nome. Mia é um diminutivo de Emílio, mas muitas vezes, os leitores estão em crer que Mia é nome de mulher e que o autor do texto é, portanto, uma mulher. Conta-se aliás o equívoco  a que foi sujeito numa visita diplomática a Cuba, em que  os assessores de Fidel Castro o presentearam com artigos femininos, dado que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Aliás, o próprio Mia Couto refere que normalmente aguardam uma mulher negra. O condicionamento da leitura começa aí.

³Neste ponto, é curioso observar que Ary dos Santos, poeta, comunista rejeitado pelo partido pela sua orientação sexual, é mais depressa lido de um ponto de vista hermenêutico sob uma perspectiva politica, do que sexual.

publicado no Primeiro de Janeiro, suplemento Das Artes e das Letras.

Poesia Portuguesa (XV) – Joaquim Manuel Magalhães

Sem qualquer espécie de pudor, antes humildade ante a síntese consistente e mais que suficiente para apresentar o autor a quem dele menos conheça, transcrevo a nota biográfica de Joaquim Manuel Magalhães, inserta no excelente blogue Insónia, em 6 de Setembro de 2005, da autoria de Henrique Fialho, (a quem dou conhecimento desta transcrição e a quem devo muitas leituras, em qualidade e quantidade no seu outro blogue, Volumen) “Joaquim Manuel Magalhães nasceu em 1945 no Peso da Régua. Poeta, ensaísta, crítico de poesia e tradutor, doutorou-se em Literatura Inglesa, pela Universidade de Lisboa, com a tese «Consequência da Literatura e do Real na Poesia de Dylan Thomas» (1980). Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, rege seminários de Poesia Contemporânea. Os primeiros poemas apareceram em 1974, num Envelope concebido pelo pintor António Palolo. Também participou na elaboração do Cartucho (1976). Mais tarde, Alguns Livros Reunidos (1987) colige grande parte da obra publicada até então. Essa recolha inclui os poemas inaugurais, bem como os de Consequência do Lugar, Dos Enigmas, Vestígios, Pelos Caminhos da Manhã, António Palolo, Uma Exposição (este com João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Molder) e Alguns Antecedentes Mitológicos, colectâneas que desaparecem como obras autónomas depois da ampla operação de rasura a que foram submetidas. De fora ficam dois títulos emblemáticos: Os Dias, Pequenos Charcos (1981) e a 2ª edição de Segredos, Sebes, Aluviões (1985), muito diferente da versão de 1981. Considerado o mais influente crítico da sua geração, a sua actividade ensaística faz a síntese do ethos puritano e da pulsão libertária. É autor de uma extensa antologia de poesia espanhola (Poesia Espanhola de Agora, que, em dois volumes, reune sessenta e oito autores nascidos entre 1942 e 1976). Também traduziu Kavafis, Seferis e Ana Akhmatova, bem como inúmeros poetas de língua inglesa. De 1968 a 1970 e de 1975 a 1976, apresentou na RTP um programa semanal de sua autoria, sobre poesia, intitulado «Os Homens, Os Livros e As Coisas».

O poema que escolho pertence a “uma luz com um toldo vermelho” (1990) – integrando o corpo da sua segunda parte, Os Poços – livro duplamente significativo para mim, já que foi por ele que “entrei” na obra de Joaquim Manuel Magalhães, imediatamente após a leitura de “Um Pouco da Morte“, obra de crítica literária que transformou, de modo irremediável, a forma como passei a ler poesia.


“Deita-te comigo nesta cama de pedra.”

Canta de novo esse convite, tantos anos passados,

de novo nas ruínas da rua do emprego

onde fiquei de te esperar.


Está deitado aqui o corpo que recorda, está deitado.

Os ornamentos de metal, a música portátil,

o tambor de uma criança na rua,

o risco amarelo da coberta.


O braço que descai debaixo do pescoço

o coração cujo ritmo decresce

os olhos em que dói a luz do candeeiro

os pés à procura da lã do cobertor

o esperma que seca sobre o peito

o sono entrecortado da respiração.


Trocas de luz errante, ervas sem nome

que me dizias serem feno grego, junça, melodia.

Joaquim Manuel Magalhães, in ‘uma luz com um toldo vermelho’, p. 35, colecção forma nº 24, Editorial Presença, Lisboa, 1990.

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online


Poesia Portuguesa (XIV) – Herberto Helder

(à Beatriz. Perceberá)

Este blogue chega a Herberto Helder. Deveria, se seguisse critérios de ‘actualidade’ escrever sobre (melhor, revelar, dar a conhecer um pouco de) A Faca Não Corta o Fogo. Lá iremos. Se formos. Herberto Helder em texto/carta publicada no primeiro número da revista Abril (1977), dirigida por Eduardo Prado Coelho (revista da qual saíram nove números, que a minha mãe mandou encadernar em pele, abençoada seja) escrevia: «(…) Gostei da sua pergunta sobre o que seria citável. Sim, o que é citável de um livro, de um autor? Decerto, a sua morte pode ser citável. E sobretudo, o seu silêncio.» Esta declaração não deve estranhar-se num poeta cuja obra nunca é definitiva, ou seja, vai conhecendo um contínuo percurso de reformulação. Na obra de Herberto Helder não podemos falar de reedições, mas de versões em estado de latência, em “suspensão“, nas palavras do poeta; nunca será possível uma edição ne varietur, daquelas que os autores consideram lapidadas para a posteridade. Como ele mesmo diz, «talvez só essa suspensão seja citável» Estamos, portanto, no domínio da impossibilidade, do segredo mais fundo do autor. Ainda assim, corra-se o risco de cristalizar no tempo um poema. Escolhido para integrar Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro, a mais bela colectânea de poesia jamais feita em Portugal, este poema (II de VI) foi, de certa forma, fixado para sempre. Apesar dele.

Nota: para uma leitura da obra de Herberto Helder, Um Pouco da Morte (Editorial Presença, pp. 125-136, Lisboa, 1989), o livro de análise literária que rompe os cânones da crítica do seu tempo, de Joaquim Manuel Magalhães (obra axial no seu trabalho ensaístico) foi o melhor que li até hoje e ampliou a possibilidade de o ler mais fundo. Recomendo muito.


FONTE

(II)

No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem

os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras. E as mães

aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões

e órgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se

nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,

vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens,

enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas.

Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras.

Elas respiram ao alto e em baixo. São

silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares

da chuva,

em volta das candeias. No contínuo

escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam

na combustão dos filhos, porque

os filhos estão como invasores dentes-de-leão

no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,

e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior

de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos

e na agudeza de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,

e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa

que nenhuma morte é possível e as águas

estão ligadas entre si

por meio da mão dele que toca a cara louca

da mãe que toca a mão pressentida do filho.

E por dentro do amor, até somente ser possível

amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder, in ‘Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro‘, pp.1698-1700, Assírio & Alvim, Lisboa, Agosto de 2001

Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery

Pietá - William Blake, circa 1795 © Tate Gallery

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