As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Poesia

José Miguel Silva | FALA O DIRECTOR-GERAL

FALA O DIRECTOR-GERAL

Caros accionistas, a eleição dos nossos candidatos
veio demonstrar, uma vez mais, que a democracia
funciona e nada temos a temer. Agora é atacar
as derradeiras guarnições de mais-valia (como fundos
de pensões e monopólios naturais), que a janela
desta crise é preciosa, mas não dura, se até o CEO
tem limites e o petróleo nos começa a falhar.

A classe média continua a pernear no tapete rolante
da dívida, mas os média têm feito uma excelente
cobertura e ninguém desconfia de nada – é dar-lhe
toda a corda de esperança que reclama, para que
no momento certo o alçapão se abra sem alarde
e suavemente nos livremos desta roda de bocas
inúteis, que já só atrasa o andamento da economia.

Resta o problema dos relapsos e dos enraivecidos,
que vociferam pelas ruas “não pagamos” e motim.
Mas são, convenhamos, conduzidos por gatinhos
escaldados, sem crédito nem guizos nem projecto
coerente. Nada que seduza o coração dos isolados,
como o provam as sondagens e o misto de admiração
e inveja que continuamos a despertar nas cobaias.

Mas nem tudo são rosas, cavalheiros, pois se o clima
emocional da populaça é tele-regulável, o mesmo
não se pode dizer da frente ecológica, onde poderosas
forças de bloqueio se concentram como gases deletérios,
esgotamentos, externalidades que ameaçam gravemente
o nosso modo de vida. Em poucas palavras: não cabe
mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.

Sete mil milhões de bocas engodadas pelo isco
do consumo rivalizam por recursos limitados,
que pertencem por direito natural aos nossos netos.
Começou a grande dança de cadeiras, e nunca
como hoje a presciência valeu tanto no mercado
evolutivo. Felizmente, somos nós quem determina
quando a música termina e a corrida começa.

Temos na mão o queijo, a faca e o conto de fadas
da modernidade, temos por nós a confusão
do inimigo, o fantasma da desordem, a esperança
e o vazio dos desesperados, além da nova lei
de segurança interna. Assim, e embora seja cedo
para celebrar (pois a história, mesmo de trela
ao pescoço, não deixa de ser um animal imprevisível),

hão de concordar, cavalheiros, que as coisas estão
bem encarreiradas. Todavia, não podemos vacilar.
O capital unido jamais será vencido! Há que pôr
a compaixão na gaveta e no terreno uma vontade
de ferro, pois avizinha-se a batalha decisiva desta
guerra de classes. E, passada a turbulência, cá
estaremos, accionistas do futuro, para herdar a Terra.

José Miguel Silva, Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa, Janeiro 2014

Ilustração de André da Loba

Ilustração de André da Loba

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Hugo Milhanas Machado — «Uma pedra parecida» (cinco poemas e prefácio do livro)

(fotografia: «Sea's Ghost», )

(fotografia: «Sea’s Ghost», <http://triodante.deviantart.com/&gt;)

Segundo livro da chancela «do lado esquerdo», Uma pedra parecida surge, numa tiragem tão exígua como rara é a cintilação desta obra de Hugo Milhanas Machado, autor de trabalho poético já considerável e senhor de uma linguagem e voz tão próprias que se poderiam tomar por galhardias, facilidades ou divertimentos. Longe disso, como tentei enunciar no prefácio e, melhor que eu, de si mesma dá conta a obra do autor, que se contrói em refutação de aparente desembaraço. As fascinantes ocupações o livro são um desafio, desde logo no entendimento do jogo da sua sintaxe, linguagem, voz que se faz em si mesma, autor sem epigonismo. A título de divulgação e conhecimento, aqui se deixam os cinco primeiros poemas do livro, pertencentes ao corpo «viragens, entusiasmos», que inaugura a obra.

 

Atrás de imagem

Quando és tu e por trás

em fila os barcos

guardei fundo muito

tu e o mar aqui parados

Eu visto um agasalho

entrego abrigado o café

à boca e entusiasmo

contigo assim

*

Em estar aqui

Está aí um tempo que

nem deitados às dunas

corpos são grandes como foles

e ver neste ficar pesadão

O fado só pode ser isto

ver os outros a cantar

é o bater da luz

na gente lascada e doida de sal

Vestir um agasalho

chegados à frente

pôr mais um bonito

e ruço agasalho

*

A propósito de safios

Mais de manhã e apressando

tornam marítimos em pé traçado

e outras vezes são dedos e

são dois três quatro e meios dedos

nessa vez e para sempre

É de se perder dentro

como numa dessas muitas palavras

que de longe vemos montadas

abocanhado metade do corpo fora

em brutal fola de boca

E deve tudo deve ser

lancha e seda e o peixe

não tarda muito ali morto

e depois deitado à água

*

Frases

É o vento a comer mais

e uma flor que não dá a pôr

Um silêncio daqueles e à borda

onde braços e limo vêm arrimar

Vai bonito o que a gente diz

olha ali aquela terra mete pedra

Vai fundo repara o pé que

aqui ancora eu não saio daqui

E o azar era o recorte dos barcos

quando éramos mais

*

Os pavilhões

Sentar à praia em

dia nesta tarde que fresca

põe o corpo nos emblemas

toalha espelho o favo solto

Não é a mesa que escondida

é donde se te vê passar nem

o sol que em frente deve descer

alumia e fala noutras línguas

Resolvo o nó porque insisto

na dobra azul e amarela ao alto

que ali deve ser o tecto do barco

e desfraldada tanta confusão

Aparece giro meu nome dito por ti

«Uma pedra parecida» — capa

«Uma pedra parecida» — capa


(prefácio do livro, revisto para edição no blogue)

Perante a matéria-prima do trabalho poético que surge frente aos nossos olhos, não se afigura a possibilidade uma leitura limpa, completamente inocente, isenta de contaminações, salvaguardada de apropriações tendencialmente analíticas, de juízos valorativos.

Não há leituras ingénuas, nem elaborações do gosto específico por um livro, por um autor, em pleno gozo da liberdade. E, contudo, a escrita poética de Hugo Milhanas Machado convida-nos permanentemente ao abandono dos crivos analíticos, às medições, a um julgamento que envolva qualquer classificação categorizada, como aquelas que, agora, até os jornais de referência utilizam: bolas e estrelinhas vermelhas, valham-nos os céus.

Desde logo, a singularidade da voz poética do autor, já patente nas suas obras anteriores (particularmente em Entre o Malandro e o Trágico, Lisboa: «Sombra do Amor edições», 2009), conhece, neste seu novo livro, a expressão de uma identidade particularíssima, que se configura visível em duas vertentes, que devem ser identificadas e destacadas.

Por um lado, a destreza na elaboração de uma variação formal que separa os três corpos de poemas que compõem o livro, exercício que, paradoxalmente, reforça a unidade que o mesmo nos propõe; por outro, a desenvolta quebra das regras supostas de gerar aquilo a que chamaríamos o verso apurado. Estamos no domínio do espanto, da licença poética a que o autor se permite, liberdade maior da ars poetica. Versificação no limiar do surpreendente, sem falhas, desarmante, aquela que aqui encontramos. De que nos desarmam eles, os versos, as estrofes, os poemas de «Uma Pedra Parecida»? Das certezas da leitura confortável, da inclinação para o adquirido, da interrogação (por vezes perplexa) sobre a sua essencialidade.

É aqui que Hugo Milhanas Machado evidencia com maior relevo a originalidade da sua obra, rompendo exultantemente e com (aparente) agilidade as convenções da sintaxe (questão que chegou a ser inutilmente utilizada para debater os seus poemas).

Temeridade do autor? Ao lê-lo, percebe-se a deliberação tenaz, a mão e o ofício, a voz e uma lírica tão própria que requereria uma linguagem que lhe fosse inerente. É essa uma das maiores virtudes do livro e dos poemas que nele encontramos: a capacidade de criar uma formalização que serve a intencionalidade poética do autor como se a única possível fosse.

Que desígnio é este? Na primeira parte do tríptico, «VIRAGENS, ENTUSIASMOS », é toda a memória convocada que irrompe, celebrando o júbilo íntimo dos dias solares, dos elementos, da natureza e do corpo, num conjunto onde o campo da semântica se rarefaz para melhor dar lugar à enunciação de uma emocionalidade grandemente contida, ao ponto de se encobrir deliberadamente em pequenos episódios, passagens enunciadas como constatações, formulações que simulam acasos, pequenas contingências. Um jogo excepcionalmente visual ocorre e se estabelece na trama dos poemas; parada quase impressionista, permitindo, por vezes, a identificação do traço fino do real, outras largando grossas manchas de simulação. Minucioso trabalho, este; mas é outra a musicalidade que ouvimos: o poderoso apelo da memória em torno da alegria do corpo e da vida. Uma intensa digressão aos referentes de um tempo recente e não maculado ainda pela sombra do esquecimento. Poemas solares, portanto, tanto mais expressivos quanto o poeta se adianta a esconder-lhes as marcas. Poemas do eu em graça, aparentando distância, um pudor finamente urdido; mas que nos deixam todas as pontas por onde lhe pegar: a evidência da felicidade.

E é a memória nostálgica de um referente temporal feliz que se desenvolve na segunda parte, «DECORAÇÃO DE INTERIORES», não por acaso iniciada com o poema «Fim de férias». Um corpo de poemas onde o itinerário rumo à cidade, ao quotidiano, se sublima no acto da escrita como possibilidade de preservação, de redenção. A recusa de um trabalho de luto estabelece-se aqui, através de uma firme protecção do vivido, da obstinada fixação do real, essa passagem perdida, resgatada pelo modo como se vai «Desfazendo viagem»: [«Embrulhada / a mão alcança / as melhores palavras / como se em casa / passando por elas / e muito mordido / o fundo da esferográfica»]. Muito mordido o sujeito que muito morde a esferográfica. Não é sem esforço que guardamos os restos da memória exultante.

Memória recente, que convoca a memória antiga: a terceira parte, «20 E TANTAS BUCHAS COM PIRATAS» encaminha-nos para uma galeria de personagens vindas do lastro do universo das reminiscências do autor, homenagem aos homens e ao lugar com os quais e onde se conheceu o espanto da infância, agora cristalizada e brilhando na imagem dos outros, tão reais, tão ficcionados pelo tempo; figuras que adquirem, pela sua idiossincrasia, uma aura mítica, ganhando dimensão de grandeza, mesmo onde o mais raso e o mais elevado do humano se encontram, como no poema «Zé Mergulhão, Camarão»: [«Assim falando parece até / que são pedras grandalhonas / olha a separar o mar / e gastas as letras no verdete // É um nome pequenino / arrancado a navalha / e nestes dedos todos espatifados // tá claro que o amor é assim / cravado de algas»].

Aparentemente distanciado dos dois primeiros corpos de poemas, «20 E TANTAS BUCHAS COM PIRATAS » torna-se a marca de contraste, a procura mais longínqua, o teste das possibilidades de resgate, que permite ler a obra como um todo, na qual a preservação da memória é um trabalho primordial para a objectivação do seu desígnio.

A ultrapassadíssima questão da poesia como instância expressiva de um eu melancólico exposto no e ao mundo (mesmo que ao mundo interior) é totalmente estilhaçada na poesia de Hugo Milhanas Machado. Ao resgate do passado não corresponde uma epifania por algo perdido. Antes uma laboriosa e discretamente urdida tessitura de uma formulação tão pouco comum como incomum é a sua formalização: a possibilidade de um poema que guarde a felicidade. A exultante alegria de ter vivido muito; tão pouco ainda, perante o que virá.

Ao ler o autor, diziam-nos que, de um inscrito subtexto, emanava uma imensa ternura. Seja. Mas é da memória da existência feliz, e da sua celebração, que estes poemas nos falam. E batem muito forte, ondas na rocha. Que se saiba, não é proibida a felicidade na poesia; que se saiba, a poesia pode ter, como matéria, o real; que se saiba, a realidade, por vezes, acontece ser feliz. Num tempo em que as correntes, as tendências, as escolas e as capelas literárias tendem a desaparecer e os poetas ascendem, autonomizados e livres do peso dos mestres e do lastro dos epígonos; num tempo, coincidente com a viragem do século, muito fértil no que à poesia diz respeito, a marca distintiva e a potência da voz poética de Hugo Milhanas Machado é esta: o elementar, firme, despretensioso labor de desconstruir a língua para refazer uma sintaxe ao serviço de um território seu, no qual pode, ele mesmo, soltar uma gargalhada. Com um verso. Com a vida.

Hugo Milhanas Machado

Hugo Milhanas Machado

Bibliografia de Hugo Milhanas Machado:

Poema em forma de nuvem – Torres Novas, Ed. Gama, 2005

Masquerade – Lisboa, Sombra do Amor, 2006

Clave do mundo – Lisboa, Sombra do Amor, 2007

Entre o malandro e o trágico – Lisboa, Sombra do Amor, 2009

As junções – Lisboa, Ed. Artefacto, 2010

Buchas – plaquette, Lisboa, ed. autor, 2010

Folas – plaquette, Salamanca, ed. autor, 2011

Plato chico – plaquette, Valencia, ed. autor, 2012

Parrillada – plaquette, Morille, ed. autor, 2012

Orla – plaquette, Salamanca, ed. autor, 2012

Pancartas – ebook, Salamanca, 2012

Uma pedra parecida – Coimbra, Do Lado Esquerdo, 2013

(Os 100 exemplares do livro devem esgotar rapidamente. Mas vale a pena tentar encomendá-lo aqui, recomendação para a qual não fui, evidentemente, «encomendado».)

Ruy Belo — Missa de Aniversário

Há um ano que os teus gestos andam 

ausentes da nossa freguesia 

Tu que eras destes campos 

onde de novo a seara amadurece 

donde és hoje? 

Que nome novo tens? 

Haverá mais singular fim de semana 

do que um sábado assim que nunca mais tem fim? 

Que ocupação é agora a tua 

que tens todo o tempo livre à tua frente? 

Que passos te levarão atrás 

do arrulhar da pomba em nossos céus? 

Que te acontece que não mais fizeste anos 

embora a mesa posta continue à tua espera 

e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez 

                                                                  florido? 

 

Era esta a voz dele assim é que falava 

dizem agora as giestas desta sua terra 

que o viram passar nos caminhos da infância 

junto ao primeiro voo das perdizes 

 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos 

onde deixaste a marca dos teus pés 

Apenas na gravata. A tua morte 

deixou de nos vestir completamente 

No verão em que partiste bem me lembro 

pensei coisas profundas 

É de novo verão. Cada vez tens menos lugar 

neste canto de nós donde anualmente 

te havemos piedosamente de desenterrar 

Até à morte da morte 

 

Belo, Ruy, «Obra Poética de Ruy Belo — volume 1, livro “Aquele Grande Rio Eufrates”», Lisboa: Editorial Presença, 1981

Duarte Belo— «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo» © Duarte Belo (D.R.).

Duarte Belo— «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo» © Duarte Belo (D.R.).


• Uma boa nota de leitura deste poema pode ser encontrada aqui.

• Fotografia: Duarte Belo, «O Núcleo da Claridade — fotografias sobre “objectos directamente ligados à vivência de meu pai (…)”, «páginas literárias de jornais, coleccionadas por Ruy Belo»

 

 

 

 

«Do Lado Esquerdo» — nasceu hoje uma nova editora de poesia, com novo livro de Maria Sousa.

Do Lado Esquerdo

Do Lado Esquerdo


Nasceu hoje uma nova editora de poesia, em Coimbra. «Do Lado Esquerdo» é iniciativa de Maria Sousa e de Nuno Abrantes, co-editores da revista digital a sul de nenhum norteque já contabiliza sete edições. O nome da editora, certamente inspirado no poema de Carlos de Oliveira «sobre lado esquerdo», revela apropriadamente a intensidade afectiva que os seus autores empregam na actividade de editores. Apresenta, igualmente, um jogo de sentidos, tal como o poema de Carlos de Oliveira o fazia, em tempos muito duros de luta contra a censura (mas também não o serão estes, nomeadamente no que à censura económica diz respeito?).

É justamente com um título de Maria Sousa, o livro Mulher Ilustrada, que se inaugura o catálogo da editora. Que o editor assuma igualmente o papel de autor é tradição antiga, nada a obstar. Mesmo porque se aguardava, já, um novo título da autora, depois de Exercícios para endurecimento de lágrimas, («Edições Língua Morta», 2010). Maria Sousa, que se define de forma bem original, em nota biográfica elaborada para a sua apresentação no Ciclo de Leituras Encenadas «Da Voz Humana», que teve lugar no ano transacto, na companhia «Escola de Mulheres — Oficina de Teatro». Escreve a autora: «Coisas que me fazem bater depressa o coração* O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, um olhar, um rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia. *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)». Acrescenta-se que Maria Sousa participou em várias revistas literárias (Criatura, Sítio, Saudade, Umbigo) e num Seminário de tradução literária organizado pela L.A.F. (Literature Across Frontiers); e que é autora de um dos mais antigos e prestigiados blogues relacionados com a poesia: «there’s only 1 alice»

Sobre o primeiro livro, e já com alguns dos poemas que compõem o agora inaugural Mulher Ilustrada, escrevi, na ocasião, que estávamos perante uma autora que trava  uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

Mulher Ilustrada acentua claramente a voz da autora, ampliando os lugares simbólicos, refazendo e renovando a semântica que lhe é peculiar, acentuando de forma mais elaborada, num trabalho incessante de depuração, onde a ironia e a nostalgia estão presentes, numa permanente elegia de um eu idealizado, perdido no confronto com a sua realidade íntima.

O resultado merece a maior atenção para uma obra em sólida construção, já em plena maturidade, que se ergue com um saber laboriosamente tecido.
 

 

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

«Mulher Ilustrada», de Maria Sousa (capa)

Aqui se deixa o díptico que encerra Mulher Ilustrada, livro que pode ser adquirido nos lugares indicados na página da editora «Do Lado Esquerdo», na rede social «Facebook».

I

vejo-te na soleira da porta

hesitas. em cena apenas estou eu

penso em mudar-me

mas, entre erros e desculpas

falta-me espaço

 

se contares histórias serão daquelas que

ninguém quer ouvir

relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas

sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos

 

II

entras, não tens medo

rodeado de olhares com sono que ainda não sabem

que as palavras são sempre as mesmas

(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

 

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

 

dizes que nem sempre o guião é o mesmo

mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

 

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem

que balança no vazio

 

última tentativa: observo-te e tu já não me vês

conheces-me tão pouco, não, isto…

isto não é um dueto, é um duelo

 

friamente o silêncio cai sobre nós

não há vozes nem adereços

(a cena está vazia)

 

há apenas uma cortina de vento onde as palavras

nunca se moldaram

 

Sousa, Maria, Mulher Ilustrada, Coimbra: «Do Lado Esquerdo», Janeiro de 2013

 

João Miguel Fernandes Jorge — O Melro de Mazagão (poema e apontamento)

Era um corpo feito às mãos caía-lhe pó dos dedos

era dos meus amigos o mais propenso à ilusão.

E eu estava ali quieto sobre a casa, a alma

pode ser muitas vezes uma pedra

eu estava ali quieto isto é o mais importante: era

um corpo feito às mãos.

Ia por um caminho de palmeiras

aquele que procura o meio-dia e o encontra

era um homem entre uma rua da Nazareth e a rua do Celeiro

de espírito orgulhoso: esses tempos já lá vão

se quisermos aprender alguma coisa

dos pedreiros escrevendo a estrela e o

crescente

Mazagão é a miragem de portos barcos e reinos.

Para que serve? Preferia ficar a bordo onde podia trabalhar

sem interrupções e onde várias vezes me senti inspirado

como nunca tinha estado antes nem voltei a estar depois.


Eu por mim sou assim quando chego aos portos embarco.

E sonho um país onde nunca acabam as casas

porque as casas são para não ter fim: «já não

tenho pressa agora já não quero chegar a lado algum».

e que mais hei-de fazer deste terreiro de favas e papoilas?

A matéria não podia já mover-se por si própria ou

se movia ao acaso. Era uma ponte em vão.


Era um mar de dragões e solitários espíritos esse

onde navega o melro de Mazagão

as coisas que se transformam em função das suas paixões,

um melro canta sempre de determinada maneira

avisando contra toda a espécie e fortuitos acontecimentos.

Era da família dos amarílis

e se o não era ele, era o seu canto.


Pois quando volvemos o olhar enfrentando este terror

insinuando a dúvida pela fugaz economia

e dizendo ecce ancillla domini

semelhante ao desprezo de Platão,

disto estou certo: era um corpo feito às mãos.

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

dante gabriel rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Dante Gabriel Rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido

Voltamos ao Direito de Mentir (1978, 7.º livro do autor) e, talvez por acidente, ao quase caricato episódio que o autor relata, na reedição da Obra Poética, da Editorial Presença: «no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Doméstico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.». Ironia que tem, como ponto de legitimação uma verdade intrínseca, íntima, que atravessa o poema e o livro como evidência e proclamação do olhar do autor perante os acontecimentos do mundo, permitindo-lhe o Direito de Mentir, de afirmar a sua própria percepção do real contra a «verdade» das evidências (aquilo que, carecendo de demonstração, se configura como revelação: «ecce ancilla domine» Lc: 1,38). Joaquim Manuel Magalhães escreverá, a propósito do livro, ser este: «expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas (…) num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial.» (Magalhães, Joaquim Manuel — Os Dois Crepúsculos, Lisboa: «Na Regra do Jogo», 1981, p. 243).

[Nota: Este poema teve uma publicação prévia na revista «Raiz & Utopia», números 3-4, Outono/Inverno de 1977.]

Nuno Brito — «Duplo Poço». Excerto e Nota de Leitura.

Nuno Brito

Nuno Brito


(excerto)


OUTRA FORMA DE MENTIR

I. 

Sou a verdade, uso uma mini-saia vermelha,

Vejo os homens masturbarem-se nas sua varandas enquanto me olham,

passo nas ruas de Alexandria, Berlim, Tóquio, Budapeste,

Bernini esculpiu-me, Whitman descreveu-me

mas nunca nenhum homem me possuiu

Por mim correrão futuros antiquários ainda por nascer

Afundo-os de desejos, mutilo-lhes os sonhos

Sou múltipla e tudo acendo sobre a forma de calor,

Quem tem medo está mais próximo de mim, estou na boca dos amantes,

Nos seus ternos abraços

II. 

A minha visão é fragmentada de tanto olhar para o sol,

um fabricante de sinos do futuro, também ele cego,

mergulha dentro de mim e badala como do fundo de um lago suíço,

não tenho sono, nunca dormi até hoje,

ouço o badalar link link link link,

subaquático e triste:

Todos os comboios correm até mim,

velo o sono de um faroleiro com medo do escuro,

teço-lhe os sonhos de fios dourados,

puxo as extremidades para o centro da alma e sento-me a chorar,

também eu tenho medo do escuro e me deito à sombra

as cidades possuem o céu,

o céu possui a música

e a música possui-me a mim,

sou todas as viagens, a meus pés construíram Tróia,

os semi-deuses esculpiram Cápri dos meus joelhos —

A amnésia beijou-me a boca;

O futuro líquido na forma de dois joga pólo aquático consigo mesmo,

tudo é um, tudo está condenado a ser um,

criei a poesia, teço todas as narrativas,

mergulho em todas as prosas,

todas as ficções me atravessam a nuca,

de um ao outro lado um comboio apita, um rio passa,

acorda um gato em queda,

os homens têm caminho à sua frente

e bebem o caminho, porque têm sede e o futuro é de beber,

as memórias também são de beber, o amor é líquido,

apesar de não existir também eu bebo o caminho:

Nado dentro de todos os homens;

Não penso, sinto, não corro, minto.

(Duplo Poço, pp. — 25/26)

«Duplo Poço» — Nuno Brito

«Duplo Poço» — Nuno Brito


(nota de leitura)

Ao ler o terceiro livro do Nuno Brito, encontra-se, desde logo, um conjunto bastante complexo de meios profusos no processo de formalização da sua obra. Entre eles é particularmente nítida, porque se destaca como constante e deliberada, a utilização das repetições, das consecutividades, aquilo que o Vasco Graça Moura chamou «automatismos conducentes à fragmentação» e associou ao surrealismo, a propósito da obra de Nuno Brito, noção essa que não se afigura excepcionalmente feliz.

Cremos que, preferencialmente a automatismos, poderíamos falar de consecutividades e repetições. Sabêmo-lo desde o corpo teórico da Psicanálise (e recusa-se uma leitura de Duplo Poço à luz de semelhante grelha), que aquelas não são meras reproduções invariáveis de actos, palavras, ideias… Produzem serializações, serializações estas com um referente sempre em movimento, a partir do lugar e do contexto da sua enunciação no corpo do texto, produzindo significados novos, no caso vertente causadores de estranheza, recontextualização, associações inesperadas e poderosas, causadoras imediatas do espanto. Como se de uma hiper-consciência se tratasse, capaz de se traduzir em matéria poética.

Encontra-se, neste livro uma escrita em transe, em trânsito entre o não consciente e o consciente, que opera um fabuloso movimento de  revelação e preenchimento, o contrário da ideia de fragmentação, já aventada a propósito da escrita de Nuno Brito. Quando o autor escreve:

«A Via Láctea brinca, como se fosse um menino… A história foge para dentro dos búzios. A erosão rói devagar os pulsos da solidão — Ela joga Tetris sozinha — com a boca cheia de calmantes (…) A erosão rói devagar os pulsos da solidão.»

Não são fragmentos ou associações livres que encontramos, mas inesperadas ligações imagéticas que explodem no texto. Duas formalizações sintéticas (entre muitas outras que se poderiam isolar) posicionam a obra perante o leitor, abrindo-se em múltiplas leituras:

«Como se fosse um rato. A poesia persegue os balões de hélio, a gravidade puxa-a para a terra, mas há extremidades finas, onde não há segurança, a cerâmica sigilata esconde-se no chão» (…) «Por baixo a água quente, que vem quase do centro da terra.»

É como se o autor partisse do Universo (que é um descomunal vazio preenchido), e chegasse ao âmago, ao centro da terra, ao centro do corpo (com transitividade de ida e volta). E, nesse movimento, persegue o preenchimento feérico de um vazio primordial. Detenhamo-nos neste conceito de vazio:

Percebendo o universo como a totalidade (e toda obra de arte é uma totalidade), o que poderemos ver fora dele? Se deixar entrar e sair o vazio é a função de do vazamento e preenchimento, então o universo pode comparar-se a um completude que é um todo contextual de si mesmo.

Nuno Brito refere, explicitamente, as «paredes do Universo», ou seja, espelha uma integralidade cujo exterior é seu próprio vazio interno; na escrita do Nuno Brito, os limites do vazio, ao contrário de dividirem o que é exterior do que é interno, conduzem o que é externo para dentro do que se acha dentro.

E é esta deslocação que se materializa em Duplo Poço. O preenchimento, a incrível aventura de materializar o vazio.

Uma procura explosiva de corporalização, por meios que só o autor conhece e pertencem à sua violenta liberdade poética:

Este movimento é trabalhado, em estado de pura fruição, apagando o autor a sua própria identidade enquanto um Eu (que aqui surge multiplicado, de resto, em vozes). Torna-se, o autor, numa espécie de mediador entre o mistério do cósmico e o mistério do ovo, movimento que vai do primordialmente mundo ao primordialmente humano.

Em Duplo Poço, Nuno Brito fá-lo de forma quase oracular — e não é por acaso que Cassandra é, talvez, a persona que mais se faz sentir significantemente na obra.

O autor, voluntariamente afastado do centro do texto, é o agente que detecta, reformula e difunde brilhantemente (no sentido da irradiação) uma nebulosa teia de matéria que vai encher o vazio de sentidos.

Não é concedida ao livro uma programática explícita; antes a possibilidade para que os múltiplos significados, imagens e ideias que poeticamente congrega se espalhem, disseminem, num poderoso derrame misterioso, por vezes obscuro, insondável. E, em consequência, marcado pela possibilidade da luz.

Não, não é de forma cómica que assim labora Nuno Brito, e de novo se contrariam algumas ideias formuladas a propósito da escrita do autor. Não se sentem marcas de amargura, ironia ou tristeza em Duplo Poço. Pelo contrário.

Significa isto que é patente o quanto Nuno Brito se diverte. Sente-se, em cada texto, em cada frase, em cada imagem, o prazer de brincar. Jogar aos dados com o universo e o leite materno, é coisa séria demais para que nela não se encontre, desde a primeira página, o enorme gozo de um criador que tem a rara faculdade de ouvir as vozes, os sinais, as cores, os sons que depois multiplica e reorganiza de forma intensamente poética.

Embora de forma redutora, poderíamos segmentar: há quem reduza voluntariamente o léxico, os significados, as imagens, procurando a depuração, na qual a forma se submete aos significados; há quem, pelo contrário, amplie, expanda a pluralidade semântica através de recursos lexicais e de estilo.

Em Duplo Poço, pelo contrário, o autor parte de um léxico e linguagem opulentos, joga com recursos estilísticos de grande diversidade e explode os campos semânticos, criando uma imagética riquíssima, muito além da produção de meros efeitos de surpresa: é de revelação e preenchimento que aqui se trata. E há toda uma linha que atravessa esta obra: sente-se que, (e inevitavelmente só poderia ser) é escrita em estado de júbilo.

«Qualquer gesto humano me excita violentamente, amo tudo quanto flui», escreve o Nuno, que acrescenta, para não deixar dúvidas:

«a literatura (a primeira morte) só serve para unir — os fios que usa são dourados»

A profunda riqueza de ouvir, ver, sentir e, seguidamente, reformular em abundância a riqueza associativa da escrita atinge, por vezes, em Nuno Brito, os limites de um entendimento racional do que está escrito, por parte de quem o lê (inferência a partir da experiência pessoal, das leituras feitas, refeitas).

Mas o que está inscrito coloca a questão da incorporação e investimento (preenchimento) do autor e da apropriação do leitor. Porque, muitas vezes, não apreendemos o que quer exactamente o autor dizer, mas experimentamos, de forma intensa, o que ele nos está a dizer; ou seja, atinge o (nosso) próprio inconsciente. Como quando escreve:

«O homem não legitima, a luz legitima»

Isto sente-se, mais do que se entende no plano racional ou mesmo emocional.

Desta forma o autor despe-se deliberadamente do papel de produtor e caucionador da sua obra, surgindo a mesma como um reflexo brutalmente multiplicado da luz (palavra nuclear para a compreensão da obra) que aquele ele recebe, capta e dissemina.

(Evidentemente não se trata de uma espécie de augure que descobre nas entranhas das galinhas os mistérios da natureza humana e responde pelo Universo.)

Utilizando formalizações várias, que se entrecruzam, como a narrativa,  textos de pendor quase ensaístico (um deliberadíssimo logro, ardilosamente forjado), escrevendo muitas vezes num registo aparentemente onírico, Nuno Brito domina os processos que conduzem à sua ars poetica.

Não parecem subsistir dúvidas quanto a este domínio integral da obra por parte do autor. O que se afigura notável é a agilidade com que o emprega e o modo como o faz surgir, de forma aparentemente compulsiva, sendo a destreza de recursos uma quase evidência. Quase.

Estabelecendo, por intermédio de pares semânticos que são antinomias arquetípicas, dualidades primitivas, nelas e na sua relação dinâmica começa a revelar-se o programa implícito da obra, uma unificação dos opostos, poços invertidos que a si mesmos se enchendo, se vazam:

a memória / o esquecimento

o passado / o futuro

o sexo / a morte

o feminino / o masculino

De todos estas antinomias muito haveria a dizer, mas centremo-nos nesta última:

Que o autor estabelece uma ordem hierárquica na qual se encontra uma clara predominância do feminino como o referente matricial revela-se claro e axial na obra. O feminino é diacrónico, é Deus, é o universo, o corpo, o lugar da apaziguamento. O vazio, o duplo poço a ser preenchido. O leite é um símbolo recorrente ao longo deste livro (muitas vezes surgindo como leite condensado, o que nos propõe alguns indícios: a infância, a doçura, a espessura, o sémen).

«A realidade amamenta-se da ficção (a primeira mãe)

bebe do seu leite gordo e quente

um leite que sabe a calma»

O masculino surge-nos, por outro lado, como a presença de uma possibilidade efémera de luz ofuscante, e o seu símbolo maior, em comparação com o leite, é o muito fálico farol, ocorrência sincrónica e fenómeno que permite o vislumbre da luz que guia no sentido do encontro, da fusão.

«A literatura só pode ser União»

Regressemos à questão que nos é recordada pela frase «O homem não legitima, a luz legitima». Que legitimidade é esta? A procura de uma união; a demanda de uma ordem que a poética ambiciona encontrar e estabelecer.

Esta união tem uma origem claramente pulsional, erótica. No livro multiplicam-se um conjunto de repetições e variações em torno do tema orgástico, do vir-se. Citemos duas:

«Os louva-a-deus fêmeas arrancam a cabeça do macho durante o sexo, no exacto momento em que este se está a vir. As ceifeiras colhem o trigo e riem-se. O futuro vem-se dentro da memória.»

«Está-se a vir: A amnésia está por cima, possuída de um prazer extremo — espeta-lhe a faca nas costas. O tempo pára…

o seu sexo incha de prazer»

Analiticamente, o prazer sexual é um momento enunciador do desencontro, encontro com o fantasma da morte: a minha fantasia, aquela que me faz gozar, não é a do outro. Há um desencontro incontornável, gerador do medo, causador de uma procura incessante, repetida, consecutiva, nunca terminada, uma luta contra o esquecimento do outro:

«A amnésia mete uma estrela-do-mar entre as pernas

O seu sexo sabe a mar,

A amnésia mete a noite entre as pernas

O seu sexo sabe a chuva de verão»

O orgasmo, o vir-se, e a ele volto dada a importância e frequência da sua ocorrência na essencialidade dos textos, é, neste trabalho que procura uma ordem, uma unificação que conferirá a calma, uma peculiar forma de paz, espelhado como cristalização do tempo. Instaura-se, desta forma o jogo entre medo/morte e salvação/vida.

O que encontramos, em Duplo Poço, como  uma possibilidade de programática última, vem da esfera do desejo. A gloriosa, cósmica tarefa de preenchimento do Vazio.

E é o poeta quem nos dá as pistas, as linhas possíveis do seu acto tremendo:

«A literatura só pode ser União»

«O amor é como carne»

«Só o amor permite ver de cima»

«O Riso é o Gerador Único do Universo»

«Só o Riso é Deus»

O desejo de unificação através do riso, da alegria, do júbilo. O entendimento da origem do ínfimo e do infinito como um sopro de amor. A escrita, o trabalho poético como a voz possível para enunciar a explosão!

Explosão seminal: esperma, sangue, palavras, luz, transpostos para uma explosividade escrita.

«A poesia prova deus,

Ele sabe a gente»

Em última análise, é a Explosão o leitmotiv onde se constrói e perfaz a obra. Um Big-Bang cósmico e íntimo, a partir do qual a matéria se expande até ocupar o vazio.

É silencioso o vazio do Universo. São silenciosas as células. Nuno Brito, perante este silêncio, toca, interpreta a sua música tão pessoal. Dá-nos a ouvir o som do silencioso poço do corpo; a música do silencioso poço do mundo. Duplo Poço é expressão brilhante desta explosão da musicalidade do Universal. É obra.

Refira-se, finalmente, ser esta a primeira edição de um autor da nova chancela, a Hariemuj Editora, sob a batuta de Maria Quintans (que já dinamiza a revista de poesia Inútil). Quando editar poesia (ou prosa poética) se destina a um universo cada vez mais restrito de leitores, saúda-se a escolha desta obra, prenúncio de uma vontade e persistência que, devidamente acauteladas pela exigência e por uma acertada linha editorial, poderão conferir a esta nova editora um lugar sólido no rarefeito e volátil mundo da edição de poesia no nosso país.

(esta nota de leitura, editada, foi elaborada a partir do texto de base para a apresentação do livro Duplo Poço, no dia 22 de Dezembro de 2012, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul)

Nuno Brito, Duplo Poço, Lisboa: Hariemuj Editora, Novembro de 2012

Rui Pires Cabral – Começo

Vejo-te um pouco como se já não houvesse

uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí

por todo o lado, onde quer que se respire, dentro

dos próprios frutos. É o começo da noite

e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:

porque escolhemos tão pouco

aquilo que nos pertence?

Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas

a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,

quase uma razão.  As minhas canções preferidas

pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia

que te vestias com elas. E no entanto

como se apressaram as grandes florestas a invadir

as gavetas, como misturaram as raízes

no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Cabral, Rui Pires, A Super-Realidade, Lisboa: “Língua Morta”, 2011

[nota do autor: “Este livro é uma reedição. Emendei alguns versos, rasurei outros tantos e excluí nove dos trinta e cinco poemas que compunham a versão original, publicada em Vila Real no outono de 1995”]

"sunsets and beer", Brittany Marter, via Deviantart (D.R.)

Marta Chaves — [Podias obedecer a um registo de perder]

 

 

Podias obedecer a um registo de perder

o respeito, levantar a saia se a tivesses,

alçar a perna se cão fosses, mandar à merda

quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

 

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,

o combate quase parece sereno. De vez em quando,

fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me

e não queres saber muito mais do que isto.

 

Estás na vida como na montra alguns relógios,

parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo

menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos

viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

 

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para

esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo

e aprendas a ficar.

Marta Chaves. Telhados de Vidro n.º 16 . Lisboa: Averno, 2012, p. 81.

 

«elevation», Vaughan © Vaughan, via Deviantart (D.R.)

Luís Filipe Parrado — Comer uma laranja

 

Comer uma laranja
é como ingerir o próprio sol,

com a boca cheia de luz
não há portanto
espaço
para palavras
sobre mim.

 

Parrado, Luís Filipe, Entre a Carne e o Osso, Lisboa: Edições Língua Morta, 2012

 

Mark Rothko, «Orange and Yellow», (1956) óleo sobre tela, 231 x 180 cm

Maria Sousa — [A mulher]

 

Uma duríssima luta contra a ausência, revelada no silêncio, na impossibilidade de dizer; a tremenda prova dessa ausência nos lugares habitáveis, no quotidiano — a casa, a cama, o corpo, a voz — lides íntimas que se travam apelando à memória, inevitavelmente sem resposta, que esta se esconde num esquecimento tornado apaziguador, resgatado pela possibilidade de uma sílaba, da palavra escrita; trabalho de equilíbrio do sentimento de si travado no fio de um arame. Na poesia de Maria Sousa o eu é um outro (uma outra), à procura do retorno ao eu outro. Poemas onde se experimenta um incessante labor de resgate, ainda que, para tal, se organize, sem concessões, no largo tempo espectral da noite, um movimento incessante de contenção. É como engolir um grito.

 

[A mulher]

 

A mulher

organiza as sombras para evitar o escuro

na pele sente o medo

 

é prudente na batalha com as perguntas

que pousam no dia

 

sorriso

 

quando o som do telefone invade a sombra

nenhuma palavra lhe sai da voz

deverá falar como se fossem outras coisas a

respirar em vez do grito?

 

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes

sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.

mas não hoje

 

disse que não seria capaz de mudar

perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos

como movimentos grosseiros

 

nenhuma palavra ali tem asas

 

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha

as persianas e depois as cortinas

sem explicar o sentido do grito. 

 

Maria Sousa — [A mulher], poema inédito (lido no ciclo de leituras encenadas “Da Voz Humana”).

«2» — anna, © anna, via Deviantart (D.R.)

Helder Moura Pereira — Escrevias pela Noite Fora

 

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava

o que ia ficando nas pausas entre cada

sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,

faz de conta que não sei as coisas que não queres

que saiba, acabei por te pensar com crianças

à volta. Agora há prédios onde havia

laranjeiras e romãs no chão e as palavras

nem o sabem dizer, apenas apontam a rua

que foi comum, o quarto estreito. Um livro

é suficiente neste passeio. Quando não escreves

estás a ler e ao lado das árvores o silêncio

é maior. Decerto te digo o que penso

baixando a cabeça e tu respondes sempre

com a cabeça inclinada e o fumo suspenso

no ar. As verdades nunca se disseram. Queria

prender-te, tornar a perder-te, achar-te

assim por acaso no meu dia livre a meio

da semana. Mantêm-se as causas iguais

das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina

dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono

custa. Porque estou contigo e me deixas

a tua imagem passa pelas noites sem sono,

está aqui a cadeira em que te sentaste

a escrever lendo. Pudesse eu propor-te

vida menos igual, outras iguais obrigações.

Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Helder Moura Pereira, De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto, 1990

 

«reading», korlyuk © korlyuk, via Deviantart (D.R.)

Luís Miguel Nava — [As ondas que se encontram]

 

As ondas que se encontram

ainda agora em formação no espírito

dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve

com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,

saber que se ele

fosse uma cama estaria por fazer nada me traz

agora além de desconforto.

Luís Miguel Nava. Poemas, Porto: Limiar, 1987, p.59.

Aimee Ketsdever, «empty bed in an empty room II», via Deviantart (D.R.)


 

 

Al Berto — [os dias sem ninguém]

 

os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

         foi bela a madressilva
         subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar

 

Al Berto. O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

 

fotografia: Paulo Nozolino

Fiama Hasse Pais Brandão — Lisboa sob névoa

 

(ao N.)

 

Na névoa, a cidade, ébria

oscila, tomba.

Informes, as casas

perdem o lugar e o dia.

Cravadas no nada,

as paredes são menires,

pedras antigas vagas

sem princípio, sem fim.

 

Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002.

 

fotografia: kramsay © kramsay (D.R.)

 

 

 

Maria Sousa — quatro poemas

 

 

só o verde fala neste tempo de silêncio 

somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores 

 

espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca 

 

*

 

a casa é uma memória onde 

devagar desenho percursos 

(mapas para inventar o tempo) 

 

para a habitar reparto as sombras 

 

e enquanto as estações se confundem 

acordo para uma insónia agitada 

onde uma casa existe 

mas não tem paredes 

 

*

 

da noite dizes que a respiração é hábito 

uma ruga a imitar a sombra nasce da cor  

que se define em ausências 

 

apago o tempo na cama por fazer 

soletro‐te a riscar manhãs da noite 

há que respirar com as janelas abertas de par em par 

(cheiram ao verde escuro das árvores)

 

*

 

Em dias de sílabas que 

talvez consigam dar sentido ao ontem 

(é aí que te arrumo) 

 

há sempre os primeiros sons quando do outro lado 

da voz as palavras estão vagas 

 

com o frio a roçar a garganta 

tudo está destinado à fala 

 

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração

 

 

Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

 

 

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)

Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010).

José Ricardo Nunes — seis poemas

Poetas há que passam discretamente ao lado do núcleo do reconhecimento imediato; as instâncias, modos e agentes de validação dos que alcançam nome maior são por vezes aleatórios… e assim deverá ser sempre. Na poesia de José Ricardo Nunes não encontraremos a formalização pretensiosa, a procura da frase de efeito, da figura de estilo, da imagem de grande aparato. Contudo, os poemas que aqui se transcrevem, deixam perceber a importância de um autor perfeitamente alinhado com os seus contemporâneos, que estabelece um inequívoco jogo íntimo entre os lugares, os acontecimentos dos lugares, e os acontecimentos íntimos pelos lugares suscitados. Uma poética feita de pequenas subtilezas, numa voz que aparenta simplicidade, mas que se deixa penetrar muito além do retrato que sobressalta. José Ricardo Nunes continua a publicar, com a regularidade e a constância de quem apenas aparenta  comprazer-se com o labor poético, fora dos circuitos de validação.

[acompanham estes poemas três fotografias de Rui Fonseca, que os sucedem na edição do número da revista Quolóquio/Letras de onde se transcreveram os poemas]

«Esmoriz», (1995), Rui Fonseca (D.R)


CASA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO

Na Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão
como empadas, bebo café,
olho pelas vidraças
em vez de ler.

E a medo escrevo
uma coisa tão diferente

20-IV-97

CABO CARVOEIRO

Quando amanheceu fomos ao Cabo Carvoeiro
ver se o que sobrara chegaria
para suster o mar. E no café da ribeira
não consegui contar as folhas do chá.
Mas terá sido mesmo assim?
Ou pus apenas as pedras de lado,
as maiores, deixando que a areia se escapasse
por entre os dedos? Tão brilhantes
olhos que se puxam
naquela noite de Óbidos,
não houve outra igual.

9-V-97

ESMOLA

Versos,
em brasa,
como tostões à porta de uma igreja
iluminando as mãos
de um pobre.

4-XI-99

«Praia da Vieira», (2000), Rui Fonseca (D.R.)

RAÍZES, OSSOS

Parei o carro à beira da estrada
e fui até junto das raízes
e dos troncos há muito apodrecidos.
O rosto do meu pai e essas oliveiras
São imagens que agora se misturam.
Quase que são a minha nova pele.
Espetadas no vazio, as raízes
aguardam por um pouco de terra
que o tempo foi tornando imaginária.
Sinto o gesto alheio no interior dos ossos
e dou-lhe todos os meus ossos.

25-III-00

REFÉNS

Repetimos os passos,
os mesmos passos do fim
para o princípio. Delapidamos
riqueza: imagem sob imagem
no espelho do quarto, as metamorfoses.
Corpos, uma voz à deriva
por entre amarras e segredos.
Somos reféns.

15-IV-00

UM NOME

O vento trouxe a cinza
para junto da porta da entrada,
um pequeno lençol suficiente
em tamanho e consistência
para que nele com o indicador
possa escrever um nome. Um nome,
não interessa qual.

18-IV-00

José Ricardo Nunes. “Casa de pão-de-ló de Alfeizerão; Cabo Carvoeiro; Esmola; Raízes, ossos; Reféns; Um nome”. In: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 249-254.

«Tocha», (1993), Rui Vieira (D.R.)

 

Em 2006, no blogue Poesia & Limitada, o sempre atento João Luís Barreto Guimarães escreve Biografia sumária de José Ricardo Nunes, já inevitavelmente desactualizada, onde se poderão encontrar ainda alguns poemas do autor:
«JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e “Novas Razões” (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha.»

José Ricardo Nunes no portal da D-GLB.

 

Luís Miguel Nava — A Fome

 

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

 

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

 

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

 

 

Luís Miguel Nava. Vulcão, Lisboa: Quetzal, 1994, p.17.

 

Francis Bacon (c.1970)

Inês Lourenço — três poemas

No número 28 da Relâmpago, revista literária da «Fundação Luís Miguel Nava», dirigida por Fernando Pinto do Amaral, tendo Vitorino Nemésio como tema nuclear,  anuncia-se a atribuição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira, pelo seu livro Se as coisas não fossem o que são. Publicam-se, igualmente, um conjunto de poemas inéditos de alguns autores (Inês Lourenço – Sete poemas; Manuel Gusmão – A pintura corpo a corpo; Miguel Cardoso – de O Mundo e as suas tarefas; Sheryl St. Germain – Seis poemas). Do site online da revista recolhem-se três poemas de Inês Lourenço, que aqui se reproduzem, com expectável anuência da autora e sem possibilidade de contactar a Fundação Luís Miguel Nava. Espera-se indulgência.

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

 

CIFRÃO

Dizias: não se importe de perder
dinheiro com a sua revista de poesia. Pelo mesmo,
alguns empenharam jóias de família.

Naquele café com nome monetário
eras bem o poeta de Os Amantes Sem Dinheiro
mas sem anjo de pedra por irmão. Só
nas mesas vizinhas, grupos
buliçosos de estudantes de Belas-Artes, desconheciam ainda
a arte de caçar patrocínios.

Depois mudaste para o Duque, que
copiou o brasão à tua rua, para mais tarde passares
ao mar do Passeio Alegre e às palmeiras da Foz
que chegaram tarde à tua vida.
Mas acabaste por voltar às cercanias das Belas-Artes,
para descansar num Prado, pouco distante
do jardim de São Lázaro, onde segundo outro poeta,
costumavas medir o tesão das flores.

 

CAFÉ ESTRELA D’OURO

Na Rua da Fábrica, perto
de livrarias e simpáticos alfarrabistas,
redigíamos panfes pela libertação
da mulher, devidamente pastoreadas
por um pequeno partido de esquerda, onde
só nos podíamos libertar
ao lado dos homens.

Inês Lourenço. in Relâmpago, n.º 28, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2012.

“Jardim de São Lázaro – vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo.” Crédito Fotográfico: JotaCartas, via Wikimedia Commons (D.R.)

 

 

Página da Fundação Luís Miguel Nava (Relâmpago)

Logros Consentidos, blogue de Inês Lourenço

Página na Wikipedia, com a bibliografia mais actualizada da autora

Ruy Belo — Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu

 

(em modo de paixão por um livro)

 

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

 

Que o medo não te tolha a tua mão

Nenhuma ocasião vale o temor

Ergue a cabeça dignamente irmão

falo-te em nome seja de quem for

 

No princípio de tudo o coração

como o fogo alastrava em redor

Uma nuvem qualquer toldou então

céus de canção promessa e amor

 

Mas tudo é apenas o que é

levanta-te do chão põe-te de pé

lembro-te apenas o que te esqueceu

 

Não temas porque tudo recomeça

Nada se perde por mais que aconteça

uma vez que já tudo se perdeu

 

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164

 

«lost», Kristyan @ Kristyan, via Deviantart, (D.R.)

 

 

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões