As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: António Franco Alexandre

António Franco Alexandre — Acrilírico

as suas ágeis mãos sonharam tempo

quase entre os meus recados, os secretos

canais onde altos barcos, a

brancura,

sabia o som das vozes imortais.

juntou-me ao seu cabelo, à sua audaz

mudança de memória.

agora encosto os cantos nas esquinas

na prata enevoada dos seus dedos.

já me esqueci? não sei se me persiste

um duro chão, a escada

redonda onde nasci,

a breve idade.

estou no vento que escorre as suas águas

na barreira de incesto que nos move.

em suas mãos dissimulado

avança, entre clareiras, o roteiro

de nossas mansas aves.

aceito a sua água, o seu retrato

junto à ponte, no meio

de inúteis castiçais.

ouço-a, de noite, sussurrar as penas

que a língua não consente.

 

é o seu bafo que me aquece

as brilhantes retortas

o doce candelabro.

eis a sua pálida figura, o seu retrato

a giz nos vastos

armazéns do império.

és este cuspo de óleo, este ligeiro

verso da lembrança.

ou ficará de mim esse outro rastro?

no resto dos seus olhos

pousarei o lençol, lembrando

o ângulo das chuvas, e os brandos

meteoros.

passeio-me

de tranças, com um fio

azul por entre as franjas

flexíveis da memória.

encontro esse motivo nos teus dedos,

na sua carne de curtume branco.

deixa que viva nos seus olhos, rosto.

entornou-se no vento foi delgada

como as ruínas de uma

breve espera.

Alexandre, António Franco, Colóquio/Letras n.º 53, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1980

photographer: Jerrica Raglin — Via Deviantart (D.R.)

António Franco Alexandre — Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

 

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

Alexandre, António Franco, Duende, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

«e-motion study», James Franco © James Franco via Deviantart (D.R.)

António Franco Alexandre — Debaixo do colchão tenho guardado

 

II

Debaixo do colchão tenho guardado

o coração mais limpo desta terra

como um peixe lavado pela água

da chuva que me alaga interiormente

Acordo cada dia com um corpo

que não aquele com que me deitei

e nunca sei ao certo se sou hoje

o projecto ou memória do que fui

Abraço os braços fortes mas exactos

que à noite me levaram onde estou

e, bebendo café, leio nas folhas

das árvores do parque o tempo que fará

Depois irei ali além das pontes

vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;

mas com cuidado, para não ferir

as minhas mãos astutas de princesa.

Alexandre, António Franco, Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999
(Prémio Luís Miguel Nava 2000)


António Franco Alexandre — Sem palavras nem coisas (um poema)

 

 

2.

 

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar

as árvores: mas aquilo que amaste perdura.

Junto da água morna os animais aguardam o ruído

vegetal da noite, e as luzes bocejam

a mansidão das pernas esticadas: o amor

não tem tempo, e dura no que amaste.

Dura de repente nos olhos abertos e

a água que respira no flanco dos animais

bocejando devagar a chegada da noite e das

redes e os passos mornos dos caçadores,

e as luzes escancaradas do silêncio. Dura

esticado nas árvores, dura mansamente sem

palavras nem coisas, sem tempo para

aguardar as mãos do caçador e as redes

mornas respirando sobre a água: aquilo

que amaste perdura.

 

Franco Alexandre, António, Sem palavras nem coisas, Lisboa: iniciativas editoriais, 1974

 

«we just want to live», karina © karina, via Deviantart (D.R.)

António Franco Alexandre — o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

 

 

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,

o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;

ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,

surpreende o vigor, a plenitude

das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,

separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,

e o circuito das chamas recomeça.

 

é um país subtil, o olho franco das mulheres,

há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,

os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,

morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,

viajar de navio de buenos aires a montevideu.

esta é a viagem que não faremos nunca, soltos

na minuciosa tarde dos lábios,

ágil pobreza.

 

permanentemente floresce o horizonte em colinas,

os animais olham por dentro, cheios de vazio,

como um ladrão de pouca perícia a luz

desfaz devagarmente os corpos.

ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,

para que seja

alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,

no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

 

Alexandre, António Franco, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001. p.1812/3

 

«Sleep Tight», Walkabout Wolf © Walkabout Wolf, via Deviantart (D.R.)

 

 

António Franco Alexandre — Formoso amigo meu, podes cantar à lua

 

 
Formoso amigo meu, podes cantar à lua

e amar outros mais lestos do que eu.

roer um osso, admirar as estrelas,

seres sábio e humano, além de belo.

Já vi que escreves um diário, com

as patas firmes, o pêlo luzidio,

onde porém há sempre

uma sílaba a mais, presa por fios.

Pouco te importas se eu existo ou não,

e ignoras, das aranhas, o tormento

quando a teia se rasga e é urgente

tomar medidas, e tecer, à espreita

de alguma inócua presa imprevidente.

Voas tão solto, lá no firmamento,

que te tomam por pássaro ou cometa;

e meditas em vastos pensamentos… só não sabes

que ao rasgares o meu leito aqui deixaste

uma gota de sangue, a que estás preso.

Alexandre, António Franco, Aracne, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

via Deviantart (D. R.)

Poesia Portuguesa (28) – Luís Miguel Nava

Nota biográfica de um poeta determinante na mudança de paradigma da escrita da poesia em Portugal, e da própria concepção programática que a investia, operada a partir da década de setenta, atingindo o seu vigor criativo na década seguinte, na qual Luís Miguel Nava escreve quase toda a sua obra (a que se podem associar, como referenciais, os nomes de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge): «Luís Miguel de Oliveira Perry Nava nasceu a 29 de Setembro de 1957 em Viseu, cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu, aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte, vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta o mestrado de Literatura Francesa (l980/82), começa a colaborar regularmente como crítico literário em jornais e revistas (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981 e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986 passa a residir em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. A partir dessa data passa a viajar cada vez mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.
Além de três livros de ensaio – O Pão a Culpa a Escrita (IN/CM, 1982), A Poesia de Francisco Rodrigues Lobo (Ed. Comunicação, 1985) e O Essencial sobre Eugénio de Andrade (IN/CM, 1987) –, Luis Miguel Nava organizou ainda uma Antologia de Poesia Portuguesa – 1960/1990, editada em 1991 em português e em francês, por ocasião da Europália (Bruxelas). Publicou os seguintes livros de poesia: Películas (Moraes, 1979, Prémio de Revelação da A.P.E.); A Inércia da Deserção (& etc., 1981); Como Alguém Disse (Contexto, 1982); Rebentação (& etc., 1984); Poemas (reedição conjunta dos livros anteriores, Limiar, 1987); O Céu Sob as Entranhas (Limiar, 1989) e Vulcão (Quetzal, 1994). Este último livro está também publicado em francês (Volcan, tradução de Marie-Claire Vromans, Paris, Ed. Eulina Carvalho, 2000).» – in, Relâmpago, Revista de Poesia.
s.d.

O CORPO ESPACEJADO

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.

Luís Miguel Nava, revista Colóquio Letras, n.º 100, p. 116, Novembro de 1987

© Ricardo Alevizos

© Ricardo Alevizos

Poesia Portuguesa (26) – António Franco Alexandre

O nome deste blogue nasceu de um fragmento de Oásis (1992) de António Franco Alexandre (n. 1944). Poeta muito cá de mim, particularmente o livro referido e Aracne (2002). Os dados biográficos, bibliográficos, os prémios, estão no link, não carecem de referência aqui. Poeta ‘classificado’ como difícil, estabelece, muitas vezes a partir de elementos temáticos relacionados com a natureza, uma ligação íntima entre o corpo, o amor, a escrita, numa textualidade geradora de uma intensa osmose, produtora de significações múltiplas, de grande riqueza imagética e poderosa carga emocional.

A UM PÁSSARO

Cristal de azul, chamado

pela canção das asas,

um novo dia pousa sobre as casas; tu,


coração, de pássaro fulgindo,

corpo do bem-amado

amor que abre na noite o arvoredo. em fogo,


oculto em luz, agora

quem dera ouvir a fábula, o enredo

a rede que nas horas se desprende.


em minha mão humana

não pousam, que passavam, os cantantes

nomes vivos das aves. erguer-me:


em claridade voas. terra

a nenhuma memória subjugada, chama

sulcando o ar, que fontes


de bruma incendiadas levantaram

a simples melodia do teu canto?

neve


alada,

ouvir sem voz o vivo vento, corpo

de melro ou cotovia ou nome absolto


no espaço de ar, a vibração da cor;

ou santo colibri, volátil signo;

ou palavra de cego acorrentado;


que luz, em tuas folhas, te deu sombra

e harmoniosa, passageira concha?

que livre amor te inventa, derradeiro


sinal da noite ardendo em meiodia? ou tu,

eternamente repetindo o instante

em teu cinzel de azul nos desejaste?


nenhum secreto nome, nenhum mito

te habita rouxinol ou sapo aflito

mas o sopro da aurora nas colina;


és, na ramagem, folha que contempla;

trapo de céu, ou rio que cegos vemos,

a transparência que o pudor vestiu.


António Franco Alexandre, in Revista Colóquio/Letras, número 76, p. 52, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Novembro de 1983.

Amber Marie Stifflemire, Blue Bird

© Amber Marie Stifflemire, "Birds of a Feather"

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