Boris Vian – assinalando o nascimento

by manuel margarido

Boris Vian (10 de Março de 1920 — 23 de Junho de 1959)

Boris Vian (10 de Março de 1920 — 23 de Junho de 1959)

Em rapazes, líamos o Boris Vian (10 de Março de 1920 – Junho de 1959) que existia traduzido (A Espuma dos Dias, que é magnífico, o Arranca Corações, na deliciosa colecção de capas pretas e folhas azuis da Estampa, a Livro B). E, assim como não quer a coisa, o Boris Vian que escrevia, com o pseudónimo de Vernon Sullivan, policiais com tórridas e surrealistas cenas de sexo (só a história desta pseudónimo, criado para enganar a censura francesa, fazendo-se Vian passar por tradutor ‘de um famoso escritor americano’ daria uma grande história) editados pela nunca demais chorada A Regra do Jogo, com grafismo do nunca demais chorado João Botelho, esse, o cineasta que nos deslumbrou com Conversa Acabada. Mas não me venham com histórias: por muito boa que seja a sua obra ‘séria’ (ele, que nunca se levou a sério, o que é mortalmente sério para a seriedade dos outros), Boris Vian, o romancista, dramaturgo, contista, letrista, músico (trompetista de jazz) marcou o seu tempo e as gerações que lhe sucederam com uma canção: Le Déserteur, imortalizada por Yves Montand, esse que, não sendo cantor, cantava tão bem. É esta canção, escrita no início da guerra na Indochina, mais tarde proibida de passar nas rádios francesas durante a guerra da Argélia, que se tornou um hino da objecção de consciência em particular e dos pacifistas de bom-gosto em geral (aqueles que não gostassem – hipotéticas criaturas – do Imagine de John Lennon). Mais uma ironia na breve vida deste iconoclasta que, nos seus 39 anos de vida, deixou um rasto de luz na cidade delas.

Le Déserteur

Monsieur le Président,
je vous fais une lettre,
que vous lirez peut-être,
si vous avez le temps.

Je viens de recevoir
mes papiers militaires
pour partir à la guerre
avant mercredi soir.

Monsieur le Président
je ne veux pas le faire,
je ne suis pas sur terre
pour tuer de pauvres gens.

C’est pas pour vous fâcher,
il faut que je vous dise,
ma décision est prise,
je m’en vais déserter.

Depuis que je suis né,
j’ai vu mourir mon père,
j’ai vu partir mes frères,
et pleurer mes enfants.

Ma mère a tant souffert,
qu’elle est dedans sa tombe,
et se moque des bombes,
et se moque des vers.

Quand j’étais prisonnier
on m’a volé ma femme,
on m’a volé mon âme,
et tout mon cher passé.

Demain de bon matin,
je fermerai ma porte
au nez des années mortes
j’irai sur les chemins.

Je mendierai ma vie,
sur les routes de France,
de Bretagne en Provence,
et je crierai aux gens:

refusez d’obéir,
refusez de la faire,
n’allez pas à la guerre,
refusez de partir.

S’il faut donner son sang,
allez donner le vôtre,
vous êtes bon apôtre,
monsieur le Président.

Si vous me poursuivez
prévenez vos gendarmes
que je n’aurai pas d’armes
et qu’ils pourront tirer.

Boris Vian